{"id":10097,"date":"2026-05-14T07:30:39","date_gmt":"2026-05-14T07:30:39","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=10097"},"modified":"2026-05-11T17:57:57","modified_gmt":"2026-05-11T17:57:57","slug":"a-cidade-democratica-que-queremos-depende-tambem-de-uma-ciencia-democratica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=10097","title":{"rendered":"\u201cA cidade democr\u00e1tica que queremos depende tamb\u00e9m de uma ci\u00eancia democr\u00e1tica.\u201d"},"content":{"rendered":"<p><em>As cidades parecem feitas de concreto, asfalto e linhas de \u00f4nibus. Mas, para a soci\u00f3loga e professora da <\/em><span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.ufmg.br\/\"><strong><em>Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)<\/em><\/strong><\/a><\/span><em> Ana Marcela Ardila, elas s\u00e3o feitas tamb\u00e9m de conflitos, escolhas pol\u00edticas e disputas silenciosas sobre quem pode circular, descansar, morar e existir. Com trajet\u00f3ria acad\u00eamica entre Col\u00f4mbia e Brasil, transitando entre Sociologia e Geografia, Ana Marcela Ardila construiu uma carreira dedicada a compreender como o espa\u00e7o urbano produz desigualdades \u2014 e como ele tamb\u00e9m pode ser transformado. \u201cQuando voc\u00ea v\u00ea uma cal\u00e7ada, voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 vendo simplesmente uma superf\u00edcie com um tamanho, com uma forma, voc\u00ea est\u00e1 vendo uma briga\u201d, afirma.\u00a0 Pesquisadora de temas como mobilidade urbana, espa\u00e7o p\u00fablico e planejamento das cidades, ela re\u00fane experi\u00eancia rara: passou pela universidade, pela pesquisa de campo e pela gest\u00e3o p\u00fablica em Bogot\u00e1, onde participou de programas inovadores de cultura cidad\u00e3 e planejamento urbano. Hoje, a partir da UFMG, segue investigando como g\u00eanero, classe, ra\u00e7a, idade e defici\u00eancia moldam a experi\u00eancia urbana. \u201cA ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 a ci\u00eancia, a ci\u00eancia \u00e9 as ci\u00eancias\u201d, defende.\u00a0 Nesta entrevista \u00e0 <\/em><span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\"><strong><em>Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/em><\/strong><\/a><\/span><em>, Ana Marcela Ardila fala sobre o valor da interdisciplinaridade, o papel da ci\u00eancia nas pol\u00edticas p\u00fablicas, os limites do urbanismo excludente e as barreiras enfrentadas por mulheres em ambientes t\u00e9cnicos ainda marcados por desigualdades. Confira!<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ci\u00eancia &amp; Cultura \u2013 Sua trajet\u00f3ria acad\u00eamica transita entre Sociologia e Geografia, tendo a cidade como eixo central. O que essa travessia disciplinar permite enxergar sobre os espa\u00e7os urbanos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ana Marcela Ardila \u2013<\/strong> Eu estudei Sociologia na Col\u00f4mbia, na <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/unal.edu.co\/\"><strong><em>Universidad Nacional de Colombia<\/em><\/strong><\/a><\/span>, e fiz mestrado tamb\u00e9m em Sociologia. Depois realizei o doutorado em Geografia na UFRJ. Essa forma\u00e7\u00e3o em universidades p\u00fablicas foi fundamental e mostra como a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica pode oferecer alt\u00edssima qualidade. Sempre me interessei por entender por que as pessoas tomam decis\u00f5es, como tomam e quais elementos consideram nesse processo. Ao mesmo tempo, eu tinha grande interesse pelo espa\u00e7o. Na Sociologia, tive professores que me ensinaram a pensar a espacialidade de forma cr\u00edtica, menos determin\u00edstica, compreendendo como as pessoas leem, usam e interpretam os lugares. Esse olhar me ensinou algo decisivo: nada no espa\u00e7o \u00e9 natural. Quando olhamos uma cidade, estamos vendo uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, pol\u00edtica e social. Essa travessia entre Sociologia e Geografia me permitiu compreender justamente isso: que o espa\u00e7o urbano n\u00e3o \u00e9 cen\u00e1rio neutro, mas parte ativa das rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"nada-no-espaco-e-natural\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cNada no espa\u00e7o \u00e9 natural.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C \u2013 Seu trabalho mostra que a cidade \u00e9 vivida de forma profundamente desigual. Como g\u00eanero atravessa essas experi\u00eancias urbanas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AMA \u2013<\/strong> Quando ensino sobre esse tema, costumo dizer: quando voc\u00ea v\u00ea uma cal\u00e7ada, n\u00e3o est\u00e1 vendo apenas uma superf\u00edcie. Est\u00e1 vendo uma briga entre quem tem direito de usar a cidade. O tamanho da cal\u00e7ada, a ilumina\u00e7\u00e3o, a exist\u00eancia ou n\u00e3o de um ponto de \u00f4nibus, a presen\u00e7a de parques ou \u00e1reas verdes: tudo isso expressa decis\u00f5es pol\u00edticas. Historicamente, \u00e1reas centrais e valorizadas receberam melhores espa\u00e7os p\u00fablicos, enquanto periferias foram tratadas apenas como lugares para morar.<\/p>\n<p>O g\u00eanero atravessa fortemente essas experi\u00eancias. As pesquisas mostram que mulheres enfrentam amea\u00e7as e viol\u00eancias que muitos homens n\u00e3o enfrentam. Al\u00e9m disso, realizam muitas viagens ligadas ao cuidado: levar crian\u00e7as \u00e0 escola, acompanhar familiares, resolver tarefas dom\u00e9sticas. S\u00e3o deslocamentos encadeados, m\u00faltiplos, que os sistemas de transporte raramente consideram. Tamb\u00e9m precisamos falar de mulheres trans e outras identidades de g\u00eanero, que enfrentam formas espec\u00edficas de viol\u00eancia e exclus\u00e3o no espa\u00e7o urbano.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>C&amp;C \u2013 Bogot\u00e1 aparece como refer\u00eancia importante em sua trajet\u00f3ria. Que aprendizados essa experi\u00eancia oferece \u00e0s cidades brasileiras?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AMA \u2013<\/strong> Trabalhei em Bogot\u00e1 em programas muito marcantes, como Cultura Cidad\u00e3, uma experi\u00eancia reconhecida internacionalmente. Havia ali uma ideia importante: educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 para crian\u00e7as. Adultos tamb\u00e9m precisam aprender a conviver e a compartilhar a cidade. Participei de equipes que mediam pr\u00e1ticas urbanas cotidianas: como as pessoas atravessavam ruas, utilizavam parques, consumiam \u00e1gua em momentos de crise, se relacionavam com equipamentos p\u00fablicos. Depois trabalhei no planejamento urbano e na formula\u00e7\u00e3o de planos diretores para equipamentos e infraestruturas da cidade. Bogot\u00e1 teve experi\u00eancias muito relevantes ao tratar espa\u00e7o p\u00fablico e mobilidade como eixos estruturantes da pol\u00edtica urbana. Esse \u00e9 um aprendizado importante para o Brasil: pensar cidade n\u00e3o apenas como moradia, mas como acesso, conviv\u00eancia, deslocamento e direito ao comum.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"os-pobres-nao-tem-direito-a-ter-espacos-publicos-de-qualidade\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cOs pobres n\u00e3o t\u00eam direito a ter espa\u00e7os p\u00fablicos de qualidade.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C \u2013 Quais s\u00e3o os principais desafios para que a pesquisa social influencie decis\u00f5es sobre mobilidade e pol\u00edtica urbana?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AMA \u2013<\/strong> A primeira coisa \u00e9 entender que n\u00e3o existe \u201ca ci\u00eancia\u201d como algo \u00fanico. Existem ci\u00eancias, com m\u00e9todos e prioridades distintas. A engenharia pode buscar velocidade e efici\u00eancia; as ci\u00eancias sociais perguntam quem ganha e quem perde com isso; a sa\u00fade p\u00fablica observa outros impactos. O desafio \u00e9 construir di\u00e1logo entre esses campos e tamb\u00e9m entre universidade, gest\u00e3o p\u00fablica e sociedade. Sem isso, muitas decis\u00f5es s\u00e3o tomadas sem informa\u00e7\u00e3o adequada.<\/p>\n<p>H\u00e1 cidades que sequer realizam pesquisas b\u00e1sicas, como a origem-destino, fundamental para saber para onde as pessoas querem ir, quais trajetos fazem, quem est\u00e1 exclu\u00eddo do sistema. Sem dados, fica muito dif\u00edcil alocar recursos, definir rotas ou corrigir desigualdades. A ci\u00eancia tem papel essencial na produ\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o, no monitoramento e na transpar\u00eancia p\u00fablica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C \u2013 Voc\u00ea costuma dizer que cidades mal desenhadas produzem problemas em cadeia. Pode explicar melhor?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AMA \u2013<\/strong> Muitas vezes se culpa a popula\u00e7\u00e3o por comportamentos que, na verdade, s\u00e3o respostas a infraestruturas mal planejadas. Se uma esta\u00e7\u00e3o gera gargalos constantes, se as pessoas pulam barreiras ou improvisam caminhos, talvez o problema n\u00e3o seja moral, mas de desenho urbano e gest\u00e3o. Lugares mal projetados criam conflitos permanentes.<\/p>\n<p>Quando o planejamento falha, a solu\u00e7\u00e3o frequentemente \u00e9 colocar pol\u00edcia ou controle. Eu brinco que, em muitas cidades, a pol\u00edcia virou elemento de desenho urbano. Mas isso mostra justamente que o problema n\u00e3o foi resolvido na origem. Planejar bem exige observar pr\u00e1ticas reais das pessoas e reconhecer como elas usam a cidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C \u2013 Como mulher pesquisadora em ambientes t\u00e9cnicos e institucionais, que resist\u00eancias enfrentou ao longo da carreira?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AMA \u2013<\/strong> Esse foi um tema que aprendi muito com minhas alunas. Durante muito tempo, eu me percebia \u043f\u0440\u0435\u0436\u0434\u0435 de tudo como soci\u00f3loga, pesquisadora, algu\u00e9m interessada em dados e trabalho de campo. Mas, olhando para tr\u00e1s, percebo que constru\u00ed uma postura forte tamb\u00e9m para garantir credibilidade em ambientes bastante masculinos, especialmente ligados \u00e0 engenharia e ao planejamento t\u00e9cnico.<\/p>\n<p>Para participar desses espa\u00e7os, muitas vezes senti que precisava chegar mais preparada, dominar normas t\u00e9cnicas, indicadores, linguagem especializada. Era como se eu precisasse provar mais. Em reuni\u00f5es, frequentemente me chamam de engenheira. Eu sempre esclare\u00e7o que n\u00e3o sou. Isso revela algo importante: para falar de certos temas t\u00e9cnicos, parece que uma mulher precisa ocupar outro lugar de legitimidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"sem-informacao-fica-muito-dificil-tomar-decisoes\" style=\"text-align: center;\"><em><span style=\"color: #800000;\">\u201cSem informa\u00e7\u00e3o, fica muito dif\u00edcil tomar decis\u00f5es.<\/span>\u201d<\/em><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C \u2013 Que mensagem deixaria para jovens mulheres interessadas em ci\u00eancia, cidade e pol\u00edticas urbanas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AMA \u2013<\/strong> Eu vejo muitas mulheres talentosas, criativas e inovadoras, mas frequentemente marcadas por inseguran\u00e7a. \u00c9 muito comum que sintam que nunca s\u00e3o suficientes. Por isso, eu diria: estudem, se qualifiquem, dominem ferramentas t\u00e9cnicas, aprendam a falar em p\u00fablico, a defender seus dados e a ocupar espa\u00e7os. Isso tamb\u00e9m se aprende. Mas n\u00e3o \u00e9 uma luta individual apenas. Precisamos construir ambientes coletivos mais justos, onde homens e mulheres aprendam juntos a escutar, colaborar e compartilhar poder. A cidade democr\u00e1tica que queremos depende tamb\u00e9m de uma ci\u00eancia democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"ciencia-cultura-2022-by-sbpc-is-licensed-under-cc-by-sa-4-0\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a>\u00a0\u00a9 2022 by\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.sbpcnet.org.br\/\">SBPC<\/a>\u00a0is licensed under\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/4.0\/\">CC BY-SA 4.0 \u00a0 <\/a><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/cc.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/by.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/sa.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"As cidades parecem feitas de concreto, asfalto e linhas de \u00f4nibus. 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