{"id":10246,"date":"2026-06-17T07:30:40","date_gmt":"2026-06-17T07:30:40","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=10246"},"modified":"2026-06-08T19:24:33","modified_gmt":"2026-06-08T19:24:33","slug":"quando-a-terra-perde-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=10246","title":{"rendered":"Quando a terra perde a vida"},"content":{"rendered":"<p>O ch\u00e3o racha lentamente. Primeiro desaparecem algumas plantas. Depois, a \u00e1gua se torna escassa, os rios perdem for\u00e7a, os animais migram e as colheitas deixam de crescer. Em muitos lugares do mundo, a desertifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o chega como uma cat\u00e1strofe repentina, mas como um processo silencioso que transforma paisagens f\u00e9rteis em territ\u00f3rios degradados e vulner\u00e1veis. \u00c9 justamente para alertar sobre essa crise que a <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/brasil.un.org\/pt-br\">Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas<\/a><\/strong><\/span> celebra, em 17 de junho, o Dia Mundial de Combate \u00e0 Desertifica\u00e7\u00e3o e \u00e0 Seca.<\/p>\n<p>Criada oficialmente pela Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas em 1994, a data chama aten\u00e7\u00e3o para um problema ambiental que j\u00e1 afeta diretamente cerca de 250 milh\u00f5es de pessoas em diferentes regi\u00f5es do planeta. Mais do que uma quest\u00e3o ecol\u00f3gica, a desertifica\u00e7\u00e3o representa uma amea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a alimentar, ao abastecimento de \u00e1gua, \u00e0 estabilidade social e \u00e0 sobreviv\u00eancia de milh\u00f5es de comunidades rurais.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"uma-crise-que-vai-alem-dos-desertos\">Uma crise que vai al\u00e9m dos desertos<\/h4>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que muitos imaginam, desertifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa simplesmente a expans\u00e3o natural dos desertos j\u00e1 existentes. O fen\u00f4meno corresponde \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o do solo em regi\u00f5es \u00e1ridas, semi\u00e1ridas e sub\u00famidas secas, causada principalmente pelas atividades humanas e pelas varia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas extremas, como secas prolongadas e enchentes.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-10249\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/DC-Dia-Mundial-de-Combate-a-Desertificacao-e-a-Seca-fig1-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/DC-Dia-Mundial-de-Combate-a-Desertificacao-e-a-Seca-fig1-300x200.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/DC-Dia-Mundial-de-Combate-a-Desertificacao-e-a-Seca-fig1-768x512.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/DC-Dia-Mundial-de-Combate-a-Desertificacao-e-a-Seca-fig1-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/DC-Dia-Mundial-de-Combate-a-Desertificacao-e-a-Seca-fig1.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-1-gabriel-lindoso-greenpeace-reproducao\" style=\"text-align: center;\">Figura 1. \u00a9 Gabriel Lindoso \/ Greenpeace. Reprodu\u00e7\u00e3o<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Entre os principais fatores respons\u00e1veis est\u00e3o o desmatamento, o sobrepastoreio, o cultivo excessivo da terra, pr\u00e1ticas inadequadas de irriga\u00e7\u00e3o e o uso intensivo dos recursos naturais. Quando o solo perde sua cobertura vegetal, ele se torna mais vulner\u00e1vel \u00e0 eros\u00e3o causada pelo vento e pela \u00e1gua. O problema \u00e9 agravado pelo fato de que a camada f\u00e9rtil do solo, destru\u00edda em poucos anos, leva s\u00e9culos para se formar novamente.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias ultrapassam a perda da produtividade agr\u00edcola. A desertifica\u00e7\u00e3o reduz a qualidade da \u00e1gua, favorece a saliniza\u00e7\u00e3o do solo, aumenta o assoreamento de rios e reservat\u00f3rios e contribui para enchentes e eventos clim\u00e1ticos extremos. Al\u00e9m disso, \u00e1reas degradadas tornam-se menos capazes de armazenar carbono, intensificando os impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"ecossistemas-esquecidos-mas-essenciais\" style=\"text-align: left;\">Ecossistemas esquecidos, mas essenciais<\/h4>\n<p>Em 2026, o Dia Mundial de Combate \u00e0 Desertifica\u00e7\u00e3o e \u00e0 Seca coloca no centro das discuss\u00f5es globais um ecossistema frequentemente negligenciado: as pastagens naturais, conhecidas internacionalmente como <em>rangelands<\/em>. O tema da campanha deste ano \u00e9 <em>\u201cRangelands: Recognize. Respect. Restore.\u201d<\/em> \u2014 \u201cPastagens: reconhecer, respeitar e restaurar\u201d.<\/p>\n<p>Essas \u00e1reas cobrem mais da metade da superf\u00edcie terrestre e desempenham um papel fundamental na seguran\u00e7a alimentar, na conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade, na regula\u00e7\u00e3o dos ciclos da \u00e1gua e na resili\u00eancia clim\u00e1tica. Aproximadamente dois bilh\u00f5es de pessoas dependem diretamente desses ecossistemas, incluindo povos ind\u00edgenas e comunidades pastoris que preservam conhecimentos tradicionais acumulados ao longo de gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-desertificacao-nao-chega-como-uma-catastrofe-repentina-mas-como-um-processo-silencioso-que-transforma-paisagens-ferteis-em-territorios-degradados-e-vulneraveis\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cA desertifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o chega como uma cat\u00e1strofe repentina, mas como um processo silencioso que transforma paisagens f\u00e9rteis em territ\u00f3rios degradados e vulner\u00e1veis.\u201d <\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Apesar de sua import\u00e2ncia ecol\u00f3gica e econ\u00f4mica, at\u00e9 metade das pastagens do planeta j\u00e1 est\u00e1 degradada ou em risco. A perda desses ambientes amea\u00e7a n\u00e3o apenas a produ\u00e7\u00e3o de alimentos e a disponibilidade de \u00e1gua, mas tamb\u00e9m modos de vida tradicionais profundamente conectados ao territ\u00f3rio.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"pobreza-migracao-e-conflitos\">Pobreza, migra\u00e7\u00e3o e conflitos<\/h4>\n<p>A desertifica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m possui profundas consequ\u00eancias sociais. Em regi\u00f5es vulner\u00e1veis, a degrada\u00e7\u00e3o do solo reduz as oportunidades de subsist\u00eancia e aprofunda ciclos hist\u00f3ricos de pobreza. Muitas fam\u00edlias passam a explorar excessivamente os recursos naturais em busca de alimento, energia e renda, acelerando ainda mais o processo de degrada\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>Esse ciclo cria um fen\u00f4meno perverso: a desertifica\u00e7\u00e3o \u00e9, ao mesmo tempo, causa e consequ\u00eancia da pobreza. Quando a terra deixa de produzir, popula\u00e7\u00f5es inteiras s\u00e3o for\u00e7adas a migrar para cidades ou outras regi\u00f5es mais f\u00e9rteis. Segundo estimativas da ONU, cerca de 135 milh\u00f5es de pessoas podem ser deslocadas devido \u00e0 desertifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na \u00c1frica Subsaariana, por exemplo, milh\u00f5es de pessoas j\u00e1 enfrentam inseguran\u00e7a alimentar relacionada \u00e0s secas extremas e \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o do solo. Nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, parte dessas popula\u00e7\u00f5es poder\u00e1 migrar em dire\u00e7\u00e3o ao norte da \u00c1frica e \u00e0 Europa. O problema, entretanto, n\u00e3o se limita ao continente africano.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"um-problema-global\">Um problema global<\/h4>\n<p>Embora a \u00c1frica seja uma das regi\u00f5es mais afetadas, a desertifica\u00e7\u00e3o ocorre em praticamente todos os continentes. Mais de 30% das terras dos Estados Unidos apresentam algum grau de degrada\u00e7\u00e3o relacionado ao fen\u00f4meno. Na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, cerca de um quarto do territ\u00f3rio corresponde a \u00e1reas \u00e1ridas ou secas vulner\u00e1veis \u00e0 desertifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na Espanha, aproximadamente um quinto do territ\u00f3rio est\u00e1 sob risco de transforma\u00e7\u00e3o em \u00e1reas des\u00e9rticas. J\u00e1 na China, desde a d\u00e9cada de 1950, o avan\u00e7o das dunas e a expans\u00e3o de \u00e1reas degradadas comprometeram centenas de milhares de hectares de terras agr\u00edcolas e pastagens.<\/p>\n<h6 id=\"figura-2-cfbio-reproducao\" style=\"text-align: center;\" data-wp-editing=\"1\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-10248\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/DC-Dia-Mundial-de-Combate-a-Desertificacao-e-a-Seca-fig2-300x169.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"282\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/DC-Dia-Mundial-de-Combate-a-Desertificacao-e-a-Seca-fig2-300x169.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/DC-Dia-Mundial-de-Combate-a-Desertificacao-e-a-Seca-fig2-768x433.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/DC-Dia-Mundial-de-Combate-a-Desertificacao-e-a-Seca-fig2-18x10.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/DC-Dia-Mundial-de-Combate-a-Desertificacao-e-a-Seca-fig2-800x451.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/DC-Dia-Mundial-de-Combate-a-Desertificacao-e-a-Seca-fig2.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\nFigura 2. CFBio. Reprodu\u00e7\u00e3o.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Globalmente, estima-se que cerca de 70% das \u00e1reas secas utilizadas para agricultura j\u00e1 estejam degradadas, segundo dados da ONU. O avan\u00e7o desse processo evidencia como as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, o uso intensivo da terra e modelos insustent\u00e1veis de produ\u00e7\u00e3o est\u00e3o alterando profundamente os ecossistemas terrestres.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"restaurar-a-terra-e-restaurar-o-futuro\">Restaurar a terra \u00e9 restaurar o futuro<\/h4>\n<p>Apesar da gravidade do cen\u00e1rio, especialistas afirmam que ainda existem caminhos vi\u00e1veis para reverter parte dos danos. Entre as principais estrat\u00e9gias est\u00e3o a recupera\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o nativa, o manejo sustent\u00e1vel de pastagens, o reflorestamento, a prote\u00e7\u00e3o de recursos h\u00eddricos e o desenvolvimento de sistemas agr\u00edcolas mais resilientes ao clima.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-desertificacao-e-ao-mesmo-tempo-causa-e-consequencia-da-pobreza\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cA desertifica\u00e7\u00e3o \u00e9, ao mesmo tempo, causa e consequ\u00eancia da pobreza.\u201d <\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>T\u00e9cnicas como agroflorestas, cintur\u00f5es verdes contra eros\u00e3o, reflorestamento e uso de esp\u00e9cies adaptadas \u00e0 aridez ajudam a restaurar \u00e1reas degradadas e reduzir os impactos das secas. Sistemas de alerta precoce e pol\u00edticas de gest\u00e3o sustent\u00e1vel da \u00e1gua tamb\u00e9m s\u00e3o considerados fundamentais diante do aumento dos eventos clim\u00e1ticos extremos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das solu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e ambientais, organismos internacionais destacam a import\u00e2ncia de incluir comunidades locais e povos ind\u00edgenas nos processos de conserva\u00e7\u00e3o e recupera\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios. Em muitos casos, esses grupos preservam conhecimentos tradicionais capazes de garantir o uso sustent\u00e1vel da terra ao longo do tempo.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"uma-escolha-cotidiana\">Uma escolha cotidiana<\/h4>\n<p>A ONU e a <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.unesco.org\/\">UNESCO<\/a><\/strong><\/span> alertam que combater a desertifica\u00e7\u00e3o exige mudan\u00e7as estruturais, mas tamb\u00e9m decis\u00f5es cotidianas. O que consumimos, como produzimos alimentos, quais recursos utilizamos e at\u00e9 a forma como nos deslocamos influenciam diretamente a press\u00e3o exercida sobre os solos e os recursos naturais.<\/p>\n<p>Restaurar terras degradadas significa proteger a biodiversidade, garantir \u00e1gua para as futuras gera\u00e7\u00f5es, reduzir emiss\u00f5es de carbono e fortalecer a seguran\u00e7a alimentar global. Mais do que preservar paisagens, trata-se de preservar condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas para a vida humana.<\/p>\n<p>Em um planeta cada vez mais marcado por eventos clim\u00e1ticos extremos, secas severas e inseguran\u00e7a h\u00eddrica, o Dia Mundial de Combate \u00e0 Desertifica\u00e7\u00e3o e \u00e0 Seca funciona como um alerta urgente: recuperar o equil\u00edbrio da terra talvez seja uma das tarefas mais decisivas deste s\u00e9culo.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h6 id=\"capa-senado-federal-reproducao\">Capa. Senado Federal. Reprodu\u00e7\u00e3o.<\/h6>\n<h6 id=\"ciencia-cultura-2022-by-sbpc-is-licensed-under-cc-by-sa-4-0\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a>\u00a0\u00a9 2022 by\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.sbpcnet.org.br\/\">SBPC<\/a>\u00a0is licensed under\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/4.0\/\">CC BY-SA 4.0 \u00a0 <\/a><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/cc.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/by.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/sa.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O ch\u00e3o racha lentamente. 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