{"id":10330,"date":"2026-06-15T08:00:50","date_gmt":"2026-06-15T08:00:50","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=10330"},"modified":"2026-06-15T13:14:18","modified_gmt":"2026-06-15T13:14:18","slug":"no-meio-do-caminho-tinha-um-aprendizado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=10330","title":{"rendered":"No meio do caminho tinha um aprendizado"},"content":{"rendered":"<p>No Jardim \u00c2ngela, bairro que fica na zona sudoeste de S\u00e3o Paulo, crian\u00e7as do s\u00e9timo ano do ensino fundamental da EMEI Parque Bologne colocam coletes laranjas e se preparam para uma excurs\u00e3o. O destino \u00e9 o pr\u00f3prio bairro. O com\u00e9rcio local, o ponto de \u00f4nibus, o parque ali do lado. Chamado \u201cConhecendo minha quebrada\u201d, o projeto educacional que idealiza esses passeios, concebido pelas professoras Renata Moura e Naiany Costa, mal sabe, mas utiliza uma linha de estudos acad\u00eamicos para explorar conceitos de mem\u00f3ria e pertencimento. (<strong>Figura 1<\/strong>)<\/p>\n<h6 id=\"figura-1-criancas-do-ensino-fundamental-da-emei-parque-bologne-exploram-o-proprio-bairro-em-projeto-educacional-foto-emei-parque-bologne-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-10332\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/CC-2E26-reportagem-No-meio-do-caminho-tinha-um-aprendizado-figura1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"280\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/CC-2E26-reportagem-No-meio-do-caminho-tinha-um-aprendizado-figura1.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/CC-2E26-reportagem-No-meio-do-caminho-tinha-um-aprendizado-figura1-18x10.jpg 18w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 1. Crian\u00e7as do ensino fundamental da EMEI Parque Bologne exploram o pr\u00f3prio bairro em projeto educacional.<br \/>\n<\/strong>(Foto. EMEI Parque Bologne. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A ideia em quest\u00e3o \u00e9 tirar o ensino da sala de aula e explorar os chamados espa\u00e7os n\u00e3o formais da educa\u00e7\u00e3o. Esses espa\u00e7os podem ser locais constru\u00eddos para a aprendizagem, como museus, mas tamb\u00e9m instala\u00e7\u00f5es pensadas para outras fun\u00e7\u00f5es. Ser\u00e1 que o aprendizado tem a ver com o local onde ele \u00e9 dado?<\/p>\n<p>Para Ivanise Maria Rizzatti, sim. Professora da<span style=\"color: #800000;\"> <a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/uerr.edu.br\/\"><strong>Universidade Estadual de Roraima (UERR)<\/strong><\/a><\/span> e da <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/ufrr.br\/\"><strong>Universidade Federal de Roraima (UFRR)<\/strong><\/a><\/span>, a pesquisadora atua especificamente em pesquisas e em programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o que foquem no ensino de ci\u00eancias e matem\u00e1tica. A forma\u00e7\u00e3o de professores \u00e9 uma das suas principais frentes, envolvendo tamb\u00e9m parcerias com institui\u00e7\u00f5es como a <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.ufac.br\/\"><strong>Universidade Federal do Acre (Ufac)<\/strong><\/a><\/span> e a <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.unifap.br\/\"><strong>Universidade Federal do Amap\u00e1 (UNIFAP)<\/strong><\/a><\/span> e se dedicando a doutores que ir\u00e3o atuar especificamente na regi\u00e3o da Amaz\u00f4nia Legal.<\/p>\n<p>Como veio da \u00e1rea de conhecimento da Qu\u00edmica, Ivanise Rizzatti j\u00e1 tinha uma familiaridade com os espa\u00e7os n\u00e3o formais de educa\u00e7\u00e3o, at\u00e9 porque realizou muitas atividades de campo. Mas ao mudar de Santa Catarina para Roraima, e ao atuar na nova regi\u00e3o, foi que se debru\u00e7ou em literaturas e estudos sobre espa\u00e7os n\u00e3o formais, passando n\u00e3o s\u00f3 a refletir acerca das pr\u00e1ticas educacionais na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. \u201cA gente tem desenvolvido pesquisas em pra\u00e7as p\u00fablicas, j\u00e1 fizemos estudos em \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o permanente, como um rio e um igarap\u00e9, que s\u00e3o realidades muito locais aqui de Roraima. Tamb\u00e9m atuamos em um museu integrado, em zool\u00f3gico, centros comunit\u00e1rios e em \u00e1reas dentro de comunidades ind\u00edgenas e ribeirinhas. Al\u00e9m disso, olhamos para \u00e1reas verdes de escolas. Sempre pensando em espa\u00e7os fora do sistema tradicional de educa\u00e7\u00e3o\u201d, revela.<\/p>\n<p>O objetivo dos trabalhos de Ivanise Rizzatti e os demais pesquisadores \u00e9 pensar o desenvolvimento de atividades planejadas, estruturadas e educativas, e que ter\u00e3o, ao mesmo tempo, um car\u00e1ter pr\u00e1tico e social. A pesquisadora detalha que o ensino em espa\u00e7os n\u00e3o formais busca o desenvolvimento de cidadania e inclus\u00e3o, principalmente de grupos marginalizados, al\u00e9m de trazer uma aprendizagem mais contextualizada com a realidade dos estudantes. \u201cQuando a gente pensa nesses espa\u00e7os educativos, a gente tem sempre que pensar como esse espa\u00e7o vai contribuir com o processo de aprendizagem. Ent\u00e3o, nessa dire\u00e7\u00e3o, um papel muito importante \u00e9 o do professor. O professor precisa compreender e conhecer aquele espa\u00e7o e entender como ele pode utilizar o espa\u00e7o para relacionar com o conhecimento ou com o componente curricular que ele est\u00e1 ministrando em sala de aula.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"quando-a-gente-pensa-nesses-espacos-educativos-a-gente-tem-sempre-que-pensar-como-esse-espaco-vai-contribuir-com-o-processo-de-aprendizagem\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cQuando a gente pensa nesses espa\u00e7os educativos, a gente tem sempre que pensar como esse espa\u00e7o vai contribuir com o processo de aprendizagem.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma das pesquisas mais recentes defendida por uma orientanda de Ivanise Rizzatti foi exatamente sobre a explora\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os n\u00e3o formais para a educa\u00e7\u00e3o. \u201cEla \u00e9 uma professora que atua em uma escola ind\u00edgena e pr\u00f3ximo dessa escola h\u00e1 um s\u00edtio, que ainda n\u00e3o foi classificado como s\u00edtio arqueol\u00f3gico, mas que tem inscri\u00e7\u00f5es rupestres. A gente mapeou esse espa\u00e7o, verificou o potencial dele e avaliou que conte\u00fados de qu\u00edmica poder\u00edamos abordar a partir das inscri\u00e7\u00f5es rupestres. Depois fizemos toda uma sequ\u00eancia de atividades, levamos os estudantes para conhecerem esse espa\u00e7o, e a partir dali fomos abordando os conte\u00fados educacionais\u201d, detalha.<\/p>\n<p>A professora e pesquisadora explica que muitos espa\u00e7os cotidianos das cidades conseguem se tornar cen\u00e1rios da Educa\u00e7\u00e3o, como esta\u00e7\u00f5es de tratamento de \u00e1gua e esgoto e tamb\u00e9m feiras de produtores rurais, o que pode gerar debates sobre desperd\u00edcio de alimentos, conscientiza\u00e7\u00e3o ambiental, mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, uso de agrot\u00f3xicos, entre outros temas. (<strong>Figura 2<\/strong>)<\/p>\n<h6 id=\"figura-2-visita-a-parques-museus-bibliotecas-e-mesmo-cenarios-cotidianos-podem-gerar-ricos-debates-na-sala-de-aula-foto-prefeitura-municipal-de-sorocaba-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-10333\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/CC-2E26-reportagem-No-meio-do-caminho-tinha-um-aprendizado-figura2-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/CC-2E26-reportagem-No-meio-do-caminho-tinha-um-aprendizado-figura2-300x225.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/CC-2E26-reportagem-No-meio-do-caminho-tinha-um-aprendizado-figura2-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/CC-2E26-reportagem-No-meio-do-caminho-tinha-um-aprendizado-figura2-768x576.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/CC-2E26-reportagem-No-meio-do-caminho-tinha-um-aprendizado-figura2-16x12.jpg 16w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/CC-2E26-reportagem-No-meio-do-caminho-tinha-um-aprendizado-figura2-800x600.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/CC-2E26-reportagem-No-meio-do-caminho-tinha-um-aprendizado-figura2-1160x870.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/CC-2E26-reportagem-No-meio-do-caminho-tinha-um-aprendizado-figura2.jpg 1280w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 2. Visita a parques, museus, bibliotecas e mesmo cen\u00e1rios cotidianos podem gerar ricos debates na sala de aula.<br \/>\n<\/strong>(Foto: Prefeitura Municipal de Sorocaba. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A utiliza\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rios caracter\u00edsticos de territ\u00f3rios nas salas de aulas tamb\u00e9m tem outra vertente positiva: gera pertencimento, porque o estudante passa a entender a realidade em que vive e tamb\u00e9m passa a defend\u00ea-la. \u201cAqui em Roraima n\u00f3s temos um bioma chamado Lavrado. Ele \u00e9 muito parecido com o Cerrado, s\u00f3 que ele tem algumas caracter\u00edsticas fito-fisiologicamente diferentes. \u00c9 uma regi\u00e3o que, quando voc\u00ea olha no mapa, parece que ela est\u00e1 desmatada, mas n\u00e3o, \u00e9 uma caracter\u00edstica dela. E a\u00ed uma das minhas alunas desenvolveu uma disserta\u00e7\u00e3o focada em estruturar um material auxiliar aos professores dos anos iniciais do ensino fundamental, do primeiro ao quinto ano, para poderem usar em sala de aula e que falasse sobre o Lavrado, porque os livros did\u00e1ticos n\u00e3o trazem nada sobre\u201d, conta Ivanise Rizzatti.<\/p>\n<p>Durante a pesquisa, as autoras pediram para que as crian\u00e7as e jovens marcassem o que eles achavam que era nativo do Lavrado, como \u00e1rvores e animais. O resultado gerou uma surpresa porque at\u00e9 esp\u00e9cies que nunca pisaram na regi\u00e3o, como elefantes e zebras, apareceram. \u00a0\u201cPor que esse resultado? Porque isso \u00e9 o que tem nos livros did\u00e1ticos. O livro did\u00e1tico n\u00e3o vai trazer o tamandu\u00e1, n\u00e3o vai trazer o buriti, n\u00e3o vai trazer alguns elementos que est\u00e3o dentro do local onde a escola est\u00e1 e onde esses estudantes moram. A gente os levou para um igarap\u00e9, um espa\u00e7o de Lavrado, e discutimos com eles a fauna e a flora para eles entenderem o que est\u00e1 dentro daquele espa\u00e7o. E a\u00ed foi muito interessante que, ao final da pesquisa, esses estudantes mudaram o olhar para o espa\u00e7o onde eles estavam inseridos, eles n\u00e3o viam mais como lugar que tinha sido desmatado, mas sim como a caracter\u00edstica desse local. E come\u00e7aram a discutir quest\u00f5es como: \u2018ah, a gente j\u00e1 n\u00e3o pode mais jogar res\u00edduos pl\u00e1sticos l\u00e1 no igarap\u00e9, porque isso vai impactar o ambiente\u2019, e assim por diante.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"pertencer-e-profissionalizar\">Pertencer e profissionalizar<\/h4>\n<p>Para al\u00e9m do pertencimento, \u00e9 a profissionaliza\u00e7\u00e3o que mobiliza os trabalhos fora da sala de aula de Keila Lima Sanches, professora do <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.ifb.edu.br\/\"><strong>Instituto Federal de Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Tecnologia de Bras\u00edlia (IFB &#8211; Bras\u00edlia)<\/strong><\/a><\/span>. Na institui\u00e7\u00e3o, ela \u00e9 respons\u00e1vel por desde jovens do ensino m\u00e9dio profissionalizante at\u00e9 estudantes da gradua\u00e7\u00e3o e da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. \u201cTemos muitas atividades pr\u00e1ticas, como visitas t\u00e9cnicas. A gente fala sobre coisas do cotidiano em que determinada ci\u00eancia b\u00e1sica \u00e9 aplicada, e os espa\u00e7os n\u00e3o formais acabam sendo um complemento muito importante na vida dos estudantes porque trazem aplica\u00e7\u00f5es de conhecimentos de base\u201d, explica a professora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-gente-fala-sobre-coisas-do-cotidiano-em-que-determinada-ciencia-basica-e-aplicada-e-os-espacos-nao-formais-acabam-sendo-um-complemento-muito-importante-na-vida-dos-estudantes-porque-trazem\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cA gente fala sobre coisas do cotidiano em que determinada ci\u00eancia b\u00e1sica \u00e9 aplicada, e os espa\u00e7os n\u00e3o formais acabam sendo um complemento muito importante na vida dos estudantes porque trazem aplica\u00e7\u00f5es de conhecimentos de base.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Engenheira florestal e atuante na cadeia de tecnologia de materiais, Keila Sanches costuma levar seus alunos para visitas em empresas metal\u00fargicas, madeireiras e tamb\u00e9m a CasaCor, uma feira de arquitetura e design de interiores e paisagismo. \u201cO curso que a gente tem que integrar com o ensino m\u00e9dio \u00e9 de design de m\u00f3veis. Ent\u00e3o, quando tem um evento CasaCor, ele \u00e9 voltado para os designs e muito relacionado ao mobili\u00e1rio. O aluno v\u00ea aquilo que a gente fala em sala de aula, o resultado na ponta para o consumidor, al\u00e9m de entrar em contato com o empresariado.\u201d<\/p>\n<p>Keila Sanches, inclusive, elogia o m\u00e9todo de ensino dos Institutos Federais e da <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.gov.br\/mec\/pt-br\/assuntos\/ept\/rede-federal\"><strong>Rede Federal de Educa\u00e7\u00e3o Profissional, Cient\u00edfica e Tecnol\u00f3gica<\/strong><\/a><\/span>, que integra essas institui\u00e7\u00f5es. Criada em 2008, a tamb\u00e9m conhecida como Rede Federal nasceu com o prop\u00f3sito de integrar ensino profissionalizante com voca\u00e7\u00f5es locais. \u201cEu acho que os Institutos trazem para o aluno uma abertura hol\u00edstica. Por qu\u00ea? Porque eles saem daquele conhecimento tradicional, convencional, com m\u00e9todos muitas vezes antigos\u201d, explica.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, a Rede Federal inicia seu sistema educacional com estudantes do ensino m\u00e9dio, que est\u00e3o pr\u00f3ximos a decidir qual caminho profissional desejam seguir. A pesquisadora detalha que, mesmo atuando nesse contexto de mercado, os alunos n\u00e3o s\u00e3o formados para atender demandas mercadol\u00f3gicas, ao contr\u00e1rio, eles s\u00e3o questionados a entender seus pap\u00e9is na sociedade \u2013 nesse sentido, os espa\u00e7os n\u00e3o formais ajudam na forma\u00e7\u00e3o de pensamentos e conhecimentos. \u201cSe voc\u00ea traz para o aluno uma leitura de mundo, aquilo que ele vivencia no cotidiano, ou seja, exemplos que est\u00e3o pr\u00f3ximos dele e o contato com coisas que est\u00e3o ao redor dele, ele vai entender muito mais facilmente um conhecimento de base. Ele vai saber para que que ele precisa daquilo. Por mais que ele n\u00e3o v\u00e1 usar especificamente aquele conhecimento, mas ele vai saber para qu\u00ea est\u00e1 aprendendo.\u201d<\/p>\n<p>Por mais que seja uma pol\u00edtica que estimula o ensino em espa\u00e7os n\u00e3o formais, a Rede Federal sofreu, nos \u00faltimos governos, com descontinuidade de recursos e infraestrutura, o que afetou diretamente a sua qualidade de ensino. \u201cQuando a gente tem interrup\u00e7\u00e3o desse programa e, depois, sua retomada, voc\u00ea tem que retomar tudo do zero, porque houve sucateamento. Ent\u00e3o, voc\u00ea tem que reinvestir para que possa atingir aquilo que j\u00e1 teve em um determinado momento, antes de expandir para novas coisas, com investimentos novos. E a\u00ed qual \u00e9 a dificuldade? Existe muito fomento federal, mas as parcerias estaduais e municipais dificultam muito\u201d, pondera Keila Sanches.<\/p>\n<p>Segundo a professora e pesquisadora, as pol\u00edticas educacionais acabam sendo alvo de disputa de governantes, que muitas vezes n\u00e3o atuam em conjunto. Essa desuni\u00e3o afeta, essencialmente, a pr\u00f3pria pol\u00edtica. \u201cExiste uma competi\u00e7\u00e3o muito grande por conta de aspectos partid\u00e1rios. Por exemplo, o fato do governo federal estar com um partido pol\u00edtico e o estado estar com outro partido gera sabotagem. E a\u00ed a pol\u00edtica p\u00fablica n\u00e3o chega a quem deveria chegar, que \u00e9 o aluno.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"praticas-de-educacao-e-ludicidade\">Pr\u00e1ticas de educa\u00e7\u00e3o e ludicidade<\/h4>\n<p>Saindo da realidade dos Institutos Federais, as pr\u00e1ticas de educa\u00e7\u00e3o em espa\u00e7os n\u00e3o formais encontram outros obst\u00e1culos. A utiliza\u00e7\u00e3o da realidade externa e a aproxima\u00e7\u00e3o dela com as bases curriculares \u00e9 algo enraizado nas diretrizes educacionais do Brasil. Publicada e homologada pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC) em 2017, a <a href=\"https:\/\/cdn.mec.gov.br\/basenacionalcomum.mec.gov.br\/images\/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf\"><strong><span style=\"color: #800000;\">Base Nacional Comum Curricular (BNCC)<\/span><\/strong><\/a> coloca a valoriza\u00e7\u00e3o e o uso dos conhecimentos constru\u00eddos sobre a vis\u00e3o do mundo f\u00edsico, social, cultural e digital para o entendimento e a explica\u00e7\u00e3o da realidade como a primeira das 10 compet\u00eancias gerais da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, entretanto, o mesmo documento n\u00e3o cita nominalmente nada que gerencie, estimule ou reconhe\u00e7a o uso dos espa\u00e7os n\u00e3o formais.<\/p>\n<p>O mesmo acontece no atual Plano Nacional da Educa\u00e7\u00e3o (PNE), institucionalizado na <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/in.gov.br\/web\/dou\/-\/lei-n-15.388-de-14-de-abril-de-2026-699917783\"><strong>lei n\u00ba 15.388\/2026<\/strong><\/a><\/span> e que direciona as pol\u00edticas educacionais em tr\u00eas \u00e2mbitos \u2013 federal, estadual e municipal \u2013 do per\u00edodo de 2026 a 2036.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"se-voce-traz-para-o-aluno-uma-leitura-de-mundo-aquilo-que-ele-vivencia-no-cotidiano-ele-vai-entender-muito-mais-facilmente-um-conhecimento-de-base\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cSe voc\u00ea traz para o aluno uma leitura de mundo, aquilo que ele vivencia no cotidiano, ele vai entender muito mais facilmente um conhecimento de base.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dividido em metas e estrat\u00e9gias, o PNE tem, em diversos momentos, orienta\u00e7\u00f5es que se enquadram \u00e0 educa\u00e7\u00e3o em espa\u00e7os n\u00e3o formais, como \u201cgarantir o acesso a uma variedade de recursos que possibilitem a ampla participa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, como brinquedos, livros, materiais pedag\u00f3gicos, \u00e1reas de contato com a natureza e \u00e1reas externas e internas devidamente organizadas\u201d (Estrat\u00e9gia 2.5), \u201cadaptar, no \u00e2mbito dos sistemas de ensino, o curr\u00edculo e o calend\u00e1rio escolar, de acordo com a realidade, a identidade cultural, as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas da regi\u00e3o e as necessidades dos estudantes\u201d (Estrat\u00e9gia 4.7) ou \u201cotimizar e promover o efetivo aproveitamento do tempo de perman\u00eancia na escola durante jornada expandida, com o objetivo de alcan\u00e7ar o desenvolvimento integral dos estudantes, por meio da mobiliza\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o entre diferentes espa\u00e7os, institui\u00e7\u00f5es sociais e tempos educativos e da diversifica\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias e intera\u00e7\u00f5es sociais\u201d (Estrat\u00e9gia 6.3). Mas, al\u00e9m de n\u00e3o haver metas espec\u00edficas para o ensino fora das salas de aula, a pr\u00f3pria express\u00e3o \u2018espa\u00e7os n\u00e3o formais\u2019 sequer aparece no documento.<\/p>\n<p>Os espa\u00e7os n\u00e3o formais tamb\u00e9m costumam oferecer uma dimens\u00e3o l\u00fadica que nem sempre encontra lugar nas pr\u00e1ticas tradicionais de ensino. Em museus, parques, centros de ci\u00eancias e outros ambientes educativos, o conhecimento frequentemente \u00e9 constru\u00eddo por meio da explora\u00e7\u00e3o, da intera\u00e7\u00e3o e da experimenta\u00e7\u00e3o. Ao participar de jogos, desafios ou atividades pr\u00e1ticas, os estudantes s\u00e3o convidados a investigar fen\u00f4menos, formular perguntas e buscar respostas de maneira ativa, transformando a aprendizagem em uma experi\u00eancia mais envolvente e significativa.<\/p>\n<p>Para a professora Ivanise Rizzatti, o est\u00edmulo \u00e0 educa\u00e7\u00e3o fora das salas de aula ainda n\u00e3o existe. \u201c\u00c9 muito dif\u00edcil. Primeiramente porque voc\u00ea precisa de recurso financeiro, n\u00e9? Quando a gente olha a BNCC, mesmo com cr\u00edticas que h\u00e1 a ela, ela fala da necessidade de diferentes espa\u00e7os educativos. Mas quando voc\u00ea vai para a realidade das escolas, muitas vezes isso n\u00e3o se concretiza. Se o professor quer levar o estudante para uma pra\u00e7a, para um parque ou para um museu, e esse local fica longe da escola, ele precisa articular com o gestor da institui\u00e7\u00e3o um transporte p\u00fablico que muitas vezes n\u00e3o vem, fora que tem todo um processo de responsabilidade ao tirar os estudantes da escola. Mas eu tamb\u00e9m n\u00e3o sou uma pessoa negativa, a gente j\u00e1 tem visto v\u00e1rias escolas que, por iniciativas pr\u00f3prias, tornaram os espa\u00e7os n\u00e3o formais como parte de suas atividades.\u201d<\/p>\n<p>Ivanise Rizzatti tamb\u00e9m cita como positivo o programa Mais Ci\u00eancia na Escola, do Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o (MCTI). Criado em 2024, o programa constr\u00f3i laborat\u00f3rios <em>maker<\/em>, que estimulam a cultura do \u2018fa\u00e7a voc\u00ea mesmo\u2019, dentro de escolas p\u00fablicas. Al\u00e9m disso, ele fornece bolsas para estudantes e professores operarem esses espa\u00e7os. \u201cA gente observa que o Mais Ci\u00eancia na Escola e outros projetos do Governo Federal s\u00e3o super importantes, e est\u00e3o discutindo e trazendo uma autonomia para as escolas, mas quando pensamos ainda nos espa\u00e7os n\u00e3o formais, ainda h\u00e1 uma dificuldade, principalmente financeira\u201d, complementa.<\/p>\n<p>Hoje, estima-se que os investimentos em Educa\u00e7\u00e3o no Brasil equivalem a cerca de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) do Pa\u00eds. Para o PNE, esse investimento \u00e9 insuficiente. O Plano estimula metas gradativas de aumento or\u00e7ament\u00e1rio no setor: em sete anos, os investimentos em Educa\u00e7\u00e3o precisam chegar a 7,5% do PIB e, ap\u00f3s uma d\u00e9cada, eles devem ser de 10%.<\/p>\n<p>Nessa crescente dos debates das pol\u00edticas educacionais, Ivanise Rizzatti espera que surjam pol\u00edticas espec\u00edficas que reconhe\u00e7am os espa\u00e7os n\u00e3o formais. \u201c\u00c9 super importante a gente ter essas pol\u00edticas, porque \u00e9 uma forma da gente integrar a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o formal ao curr\u00edculo escolar de um jeito mais estruturado.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-a-aprendizagem-em-espacos-alem-da-escola-pode-oferecer-experiencias-educativas-mais-significativas-para-criancas-e-jovens-alem-de-fortalecer-seu-vinculo-com-a-cidade-foto-unsplash-reproduca\"><strong>Capa. A aprendizagem em espa\u00e7os al\u00e9m da escola pode oferecer experi\u00eancias educativas mais significativas para crian\u00e7as e jovens, al\u00e9m de fortalecer seu v\u00ednculo com a cidade.<br \/>\n<\/strong>(Foto: Unsplash. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<h6 id=\"ciencia-cultura-2022-by-sbpc-is-licensed-under-cc-by-sa-4-0\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a>\u00a0\u00a9 2022 by\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.sbpcnet.org.br\/\">SBPC<\/a>\u00a0is licensed under\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/4.0\/\">CC BY-SA 4.0 \u00a0 <\/a><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/cc.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/by.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/sa.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"No Jardim \u00c2ngela, bairro que fica na zona sudoeste de S\u00e3o Paulo,&hellip;\n","protected":false},"author":12,"featured_media":10331,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10330"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/12"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10330"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10330\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10334,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10330\/revisions\/10334"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/10331"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10330"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10330"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10330"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}