{"id":10397,"date":"2026-07-01T07:30:15","date_gmt":"2026-07-01T07:30:15","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=10397"},"modified":"2026-07-01T13:07:30","modified_gmt":"2026-07-01T13:07:30","slug":"a-cientista-que-ensinou-os-medicamentos-a-encontrar-seus-alvos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=10397","title":{"rendered":"A cientista que ensinou os medicamentos a encontrar seus alvos"},"content":{"rendered":"<p>Durante grande parte da hist\u00f3ria da medicina, descobrir um medicamento era um exerc\u00edcio de tentativa e erro. Compostos eram testados quase \u00e0s cegas, na esperan\u00e7a de que algum deles produzisse resultados positivos. Foi nesse cen\u00e1rio que a bioqu\u00edmica americana Gertrude B. Elion ajudou a promover uma revolu\u00e7\u00e3o silenciosa: em vez de procurar rem\u00e9dios por acaso, ela mostrou que era poss\u00edvel projet\u00e1-los com base no funcionamento \u00edntimo das doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Ao lado do farmacologista George Hitchings, Elion desenvolveu uma abordagem que mudaria para sempre a pesquisa biom\u00e9dica. O erro e a tentativa deram lugar a uma nova estrat\u00e9gia: compreender a doen\u00e7a para projetar o rem\u00e9dio. Essa forma de trabalho ficou conhecida como planejamento racional de f\u00e1rmacos e se tornou um dos pilares da farmacologia moderna.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"compreender-antes-de-tratar\">Compreender antes de tratar<\/h4>\n<p>Na d\u00e9cada de 1940, a maioria dos medicamentos era descoberta de maneira emp\u00edrica. A penicilina, por exemplo, havia sido encontrada acidentalmente por Alexander Fleming. Embora esse m\u00e9todo produzisse resultados importantes, era lento, imprevis\u00edvel e muitas vezes ineficiente.<\/p>\n<p>Hitchings e Elion propuseram um caminho diferente. Eles passaram a estudar detalhadamente as diferen\u00e7as bioqu\u00edmicas entre c\u00e9lulas humanas saud\u00e1veis e c\u00e9lulas cancer\u00edgenas, bact\u00e9rias, v\u00edrus e outros agentes causadores de doen\u00e7as. A ideia era identificar caracter\u00edsticas exclusivas dos pat\u00f3genos e explor\u00e1-las como pontos vulner\u00e1veis. A estrat\u00e9gia parecia simples, mas era revolucion\u00e1ria. Se fosse poss\u00edvel encontrar mol\u00e9culas essenciais para a sobreviv\u00eancia de um microrganismo ou para a multiplica\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas doentes, seria poss\u00edvel criar subst\u00e2ncias capazes de bloquear esses processos sem causar danos significativos ao organismo humano.<\/p>\n<h6 id=\"figura-1-gertrude-elion-and-dr-george-hitchings-no-laboratorio-em-burroughs-wellcome-em-1948-foto-wellcome-foundation-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-10400\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/HC-A-cientista-que-ensinou-os-medicamentos-a-encontrar-seus-alvos-fig1-300x232.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"387\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/HC-A-cientista-que-ensinou-os-medicamentos-a-encontrar-seus-alvos-fig1-300x232.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/HC-A-cientista-que-ensinou-os-medicamentos-a-encontrar-seus-alvos-fig1-1024x792.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/HC-A-cientista-que-ensinou-os-medicamentos-a-encontrar-seus-alvos-fig1-768x594.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/HC-A-cientista-que-ensinou-os-medicamentos-a-encontrar-seus-alvos-fig1-16x12.jpg 16w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/HC-A-cientista-que-ensinou-os-medicamentos-a-encontrar-seus-alvos-fig1-800x619.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/HC-A-cientista-que-ensinou-os-medicamentos-a-encontrar-seus-alvos-fig1-1160x897.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/HC-A-cientista-que-ensinou-os-medicamentos-a-encontrar-seus-alvos-fig1.jpg 1520w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 1. Gertrude Elion and Dr. George Hitchings no laborat\u00f3rio em Burroughs-Wellcome em 1948.<br \/>\n<\/strong>(Foto: Wellcome Foundation. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Muitos dos medicamentos modernos nasceram da ideia simples de que diferentes doen\u00e7as possuem vulnerabilidades bioqu\u00edmicas espec\u00edficas. Em vez de atacar indiscriminadamente o corpo inteiro, os f\u00e1rmacos poderiam agir de forma seletiva.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"os-primeiros-sucessos\">Os primeiros sucessos<\/h4>\n<p>Um dos primeiros frutos dessa abordagem foi a 6-mercaptopurina, desenvolvida no in\u00edcio dos anos 1950. O medicamento tornou-se um dos primeiros tratamentos eficazes contra a leucemia infantil, ajudando a transformar uma doen\u00e7a quase sempre fatal em uma condi\u00e7\u00e3o cada vez mais trat\u00e1vel. A subst\u00e2ncia interfere na s\u00edntese de DNA das c\u00e9lulas cancer\u00edgenas, dificultando sua multiplica\u00e7\u00e3o. Seu impacto foi t\u00e3o grande que ela permanece, at\u00e9 hoje, como parte importante dos protocolos terap\u00eauticos para leucemia linfoide aguda em crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Outros medicamentos vieram em seguida. Entre eles estavam a pirimetamina, utilizada contra mal\u00e1ria e toxoplasmose, o trimetoprim, empregado no tratamento de infec\u00e7\u00f5es bacterianas, e o alopurinol, que revolucionou o controle da gota ao reduzir a produ\u00e7\u00e3o de \u00e1cido \u00farico no organismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-erro-e-a-tentativa-deram-lugar-a-uma-nova-estrategia-compreender-a-doenca-para-projetar-o-remedio\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cO erro e a tentativa deram lugar a uma nova estrat\u00e9gia: compreender a doen\u00e7a para projetar o rem\u00e9dio.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esses sucessos demonstraram que a nova metodologia funcionava. Pela primeira vez, cientistas conseguiam desenvolver medicamentos guiados por conhecimento bioqu\u00edmico detalhado, reduzindo a depend\u00eancia do acaso.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"o-desafio-dos-transplantes\">O desafio dos transplantes<\/h4>\n<p>Uma das contribui\u00e7\u00f5es mais transformadoras de Elion foi a cria\u00e7\u00e3o da azatioprina, considerada o primeiro imunossupressor eficaz para transplantes de \u00f3rg\u00e3os.<\/p>\n<p>Na metade do s\u00e9culo XX, os transplantes enfrentavam um obst\u00e1culo aparentemente intranspon\u00edvel: o sistema imunol\u00f3gico do paciente reconhecia o novo \u00f3rg\u00e3o como um invasor e o atacava. Mesmo quando a cirurgia era bem-sucedida, a rejei\u00e7\u00e3o frequentemente levava ao fracasso do procedimento.<\/p>\n<p>A azatioprina mudou esse cen\u00e1rio. O medicamento reduz a atividade das c\u00e9lulas imunol\u00f3gicas respons\u00e1veis pela rejei\u00e7\u00e3o, permitindo que o organismo aceite o \u00f3rg\u00e3o transplantado. Sua introdu\u00e7\u00e3o ajudou a transformar os transplantes de rim, f\u00edgado e cora\u00e7\u00e3o em procedimentos vi\u00e1veis e cada vez mais seguros. Embora novas gera\u00e7\u00f5es de imunossupressores tenham surgido desde ent\u00e3o, a azatioprina abriu caminho para toda a medicina de transplantes moderna e permanece utilizada em diferentes contextos cl\u00ednicos at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"a-conquista-dos-virus\">A conquista dos v\u00edrus<\/h4>\n<p>Se combater bact\u00e9rias j\u00e1 era dif\u00edcil, combater v\u00edrus parecia imposs\u00edvel. Como os v\u00edrus dependem das pr\u00f3prias c\u00e9lulas humanas para se reproduzir, muitos pesquisadores acreditavam que qualquer tentativa de destru\u00ed-los acabaria tamb\u00e9m danificando os tecidos do paciente. Foi justamente esse desafio que levou Gertrude B. Elion a uma de suas descobertas mais importantes: o aciclovir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"muitos-dos-medicamentos-modernos-nasceram-da-ideia-simples-de-que-diferentes-doencas-possuem-vulnerabilidades-bioquimicas-especificas\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cMuitos dos medicamentos modernos nasceram da ideia simples de que diferentes doen\u00e7as possuem vulnerabilidades bioqu\u00edmicas espec\u00edficas.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Durante anos, ela e sua equipe estudaram mol\u00e9culas capazes de interferir especificamente na replica\u00e7\u00e3o viral. O resultado foi um composto capaz de bloquear a reprodu\u00e7\u00e3o dos v\u00edrus do herpes com um n\u00edvel de seletividade sem precedentes.<\/p>\n<p>O aciclovir demonstrou que era poss\u00edvel atacar um v\u00edrus sem destruir as c\u00e9lulas humanas. Ao impedir a replica\u00e7\u00e3o do DNA viral, o medicamento reduzia drasticamente a progress\u00e3o da infec\u00e7\u00e3o e apresentava baixa toxicidade para o paciente. Lan\u00e7ado no final da d\u00e9cada de 1970, ele \u00e9 considerado um marco na hist\u00f3ria dos antivirais.<\/p>\n<p>O sucesso do aciclovir teve repercuss\u00f5es muito al\u00e9m do herpes. A descoberta serviu como prova de conceito para toda uma nova gera\u00e7\u00e3o de antivirais usados atualmente contra doen\u00e7as como HIV, hepatites virais, Ebola e outras infec\u00e7\u00f5es emergentes.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"um-legado-que-continua\">Um legado que continua<\/h4>\n<p>Mesmo ap\u00f3s sua aposentadoria oficial, Gertrude B. Elion continuou participando de projetos cient\u00edficos e ajudou a orientar pesquisas que contribu\u00edram para o desenvolvimento do AZT, o primeiro medicamento aprovado para o tratamento da AIDS. Embora limitado quando comparado \u00e0s terapias atuais, o f\u00e1rmaco abriu caminho para a moderna terapia antirretroviral que salvou milh\u00f5es de vidas em todo o mundo.<\/p>\n<h6 id=\"figura-2-gertrude-b-elion-recebendo-o-premio-nobel-de-medicina-em-1988foto-divulgacao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-10399\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/HC-A-cientista-que-ensinou-os-medicamentos-a-encontrar-seus-alvos-fig2-300x217.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"362\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/HC-A-cientista-que-ensinou-os-medicamentos-a-encontrar-seus-alvos-fig2-300x217.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/HC-A-cientista-que-ensinou-os-medicamentos-a-encontrar-seus-alvos-fig2-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/HC-A-cientista-que-ensinou-os-medicamentos-a-encontrar-seus-alvos-fig2.jpg 380w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 2. Gertrude B. Elion recebendo o Pr\u00eamio Nobel de Medicina em 1988<br \/>\n<\/strong>(Foto: Divulga\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 1988, Gertrude B. Elion recebeu o Pr\u00eamio Nobel de Medicina ao lado de George Hitchings e James Black. O reconhecimento, por\u00e9m, foi apenas uma parte de seu legado. Mais importante foi a transforma\u00e7\u00e3o profunda que ela ajudou a promover na ci\u00eancia dos medicamentos. Ao mostrar que compreender os mecanismos biol\u00f3gicos das doen\u00e7as era a chave para combat\u00ea-las, Elion ajudou a inaugurar uma nova era da medicina \u2014 uma era em que os rem\u00e9dios passaram a ser desenhados para encontrar seus alvos com precis\u00e3o cada vez maior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-wellcome-foundation\">Capa: Wellcome Foundation.<\/h6>\n<h6 id=\"ciencia-cultura-2022-by-sbpc-is-licensed-under-cc-by-sa-4-0\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a>\u00a0\u00a9 2022 by\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.sbpcnet.org.br\/\">SBPC<\/a>\u00a0is licensed under\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/4.0\/\">CC BY-SA 4.0 \u00a0 <\/a><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/cc.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/by.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/sa.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Durante grande parte da hist\u00f3ria da medicina, descobrir um medicamento era um&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":10398,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10397"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10397"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10397\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10481,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10397\/revisions\/10481"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/10398"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10397"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10397"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10397"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}