{"id":10435,"date":"2026-07-09T07:30:15","date_gmt":"2026-07-09T07:30:15","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=10435"},"modified":"2026-07-01T13:06:12","modified_gmt":"2026-07-01T13:06:12","slug":"a-memoria-dos-sons","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=10435","title":{"rendered":"A mem\u00f3ria dos sons"},"content":{"rendered":"<p>Feche os olhos por alguns segundos e imagine sua cidade. Talvez surjam buzinas, motores e sirenes. Mas e os sons que j\u00e1 n\u00e3o existem? O preg\u00e3o do vendedor ambulante, o repicar dos sinos da igreja do bairro, o martelo do ferreiro, os cantos de trabalho entoados coletivamente. Muitos desses sons est\u00e3o desaparecendo silenciosamente das paisagens urbanas. E, com eles, desaparecem tamb\u00e9m fragmentos da hist\u00f3ria, da cultura e da identidade das comunidades.<\/p>\n<p>Embora o patrim\u00f4nio cultural seja frequentemente associado a monumentos, edif\u00edcios e objetos hist\u00f3ricos, existe uma dimens\u00e3o menos vis\u00edvel \u2014 ou melhor, menos aud\u00edvel \u2014 que tamb\u00e9m merece ser preservada. Trata-se do patrim\u00f4nio imaterial sonoro, formado por express\u00f5es, pr\u00e1ticas, mem\u00f3rias e tradi\u00e7\u00f5es transmitidas por meio dos sons que caracterizam um lugar e uma \u00e9poca.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"a-cidade-que-se-ouve\">A cidade que se ouve<\/h4>\n<p>O conceito de paisagem sonora, ou <em>soundscape<\/em>, ganhou destaque a partir dos estudos do pesquisador canadense R. Murray Schafer, considerado um dos pioneiros da ecologia ac\u00fastica. Segundo essa abordagem, cada ambiente possui uma identidade sonora pr\u00f3pria, composta por sons naturais, humanos e tecnol\u00f3gicos que interagem continuamente.<\/p>\n<p>A cidade n\u00e3o \u00e9 feita apenas de pr\u00e9dios e ruas: ela tamb\u00e9m \u00e9 constru\u00edda por sons. O ritmo das conversas nas pra\u00e7as, o toque dos sinos, o apito de f\u00e1bricas, os m\u00fasicos de rua e os preg\u00f5es dos vendedores fazem parte de uma complexa rede de significados que ajuda os moradores a reconhecerem e interpretarem seu espa\u00e7o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"quando-um-som-desaparece-nao-perdemos-apenas-uma-vibracao-no-ar-mas-uma-parte-da-memoria-coletiva\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>&#8220;Quando um som desaparece, n\u00e3o perdemos apenas uma vibra\u00e7\u00e3o no ar, mas uma parte da mem\u00f3ria coletiva.&#8221;<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pesquisas em ecologia ac\u00fastica mostram que as paisagens sonoras desempenham papel importante na constru\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria individual e coletiva. Estudos publicados nas \u00faltimas d\u00e9cadas indicam que determinados sons funcionam como marcadores emocionais, capazes de evocar lembran\u00e7as, fortalecer sentimentos de pertencimento e refor\u00e7ar v\u00ednculos culturais entre as pessoas e seus territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>Quando um som desaparece, n\u00e3o perdemos apenas uma vibra\u00e7\u00e3o no ar, mas uma parte da mem\u00f3ria coletiva. \u00c9 por isso que pesquisadores de diferentes \u00e1reas t\u00eam se dedicado a documentar e compreender as chamadas &#8220;assinaturas sonoras&#8221; das cidades.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"sons-que-estao-desaparecendo\">Sons que est\u00e3o desaparecendo<\/h4>\n<p>As transforma\u00e7\u00f5es urbanas v\u00eam alterando profundamente o ambiente ac\u00fastico das cidades. A expans\u00e3o do tr\u00e1fego, a verticaliza\u00e7\u00e3o, a mecaniza\u00e7\u00e3o do trabalho e as mudan\u00e7as nos h\u00e1bitos de consumo substitu\u00edram muitos sons tradicionais por ru\u00eddos mais uniformes e cont\u00ednuos.<\/p>\n<p>Entre os exemplos mais emblem\u00e1ticos est\u00e3o os preg\u00f5es dos vendedores ambulantes. Durante s\u00e9culos, comerciantes anunciaram seus produtos por meio de frases cantadas, versos improvisados e melodias facilmente reconhec\u00edveis. Em muitas cidades brasileiras, esses sons foram gradualmente substitu\u00eddos por carros de som padronizados ou simplesmente desapareceram com o avan\u00e7o do com\u00e9rcio digital.<\/p>\n<h6 id=\"figura-1-unsplash-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-10438\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/CC-A-memoria-dos-sons-fig1-200x300.jpg\" alt=\"\" width=\"333\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/CC-A-memoria-dos-sons-fig1-200x300.jpg 200w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/CC-A-memoria-dos-sons-fig1-8x12.jpg 8w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/CC-A-memoria-dos-sons-fig1.jpg 640w\" sizes=\"(max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><br \/>\nFigura 1. Unsplash. Reprodu\u00e7\u00e3o<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Outro exemplo s\u00e3o os cantos de trabalho. Antes da mecaniza\u00e7\u00e3o intensa, trabalhadores utilizavam ritmos vocais para sincronizar movimentos em atividades agr\u00edcolas, portu\u00e1rias e artesanais. Essas manifesta\u00e7\u00f5es combinavam fun\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica, express\u00e3o cultural e sociabilidade, mas hoje sobrevivem apenas em registros hist\u00f3ricos e em algumas comunidades tradicionais.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m os sinos das igrejas, que durante s\u00e9culos organizaram a vida cotidiana, perderam espa\u00e7o. Al\u00e9m das mudan\u00e7as culturais e religiosas, muitas comunidades enfrentam restri\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0 polui\u00e7\u00e3o sonora. O resultado \u00e9 o sil\u00eancio de campan\u00e1rios que antes marcavam as horas, celebravam festas e anunciavam acontecimentos importantes da vida comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Nas oficinas tradicionais, o cen\u00e1rio \u00e9 semelhante. O som da marcenaria manual, da ferraria ou da sapataria artesanal vem sendo substitu\u00eddo por m\u00e1quinas industriais ou desaparece \u00e0 medida que esses estabelecimentos deixam os centros urbanos.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"a-ciencia-da-preservacao-sonora\">A ci\u00eancia da preserva\u00e7\u00e3o sonora<\/h4>\n<p>Para registrar esse patrim\u00f4nio em risco, pesquisadores utilizam ferramentas cada vez mais sofisticadas. Uma das principais \u00e9 a grava\u00e7\u00e3o de alta fidelidade, capaz de capturar n\u00e3o apenas o som principal, mas toda a ambi\u00eancia ao redor.<\/p>\n<p>Microfones binaurais, por exemplo, simulam a audi\u00e7\u00e3o humana tridimensional e permitem reproduzir com grande realismo a experi\u00eancia sonora de um local. O resultado funciona como uma verdadeira c\u00e1psula do tempo ac\u00fastica, preservando detalhes que dificilmente poderiam ser descritos apenas por fotografias ou textos.<\/p>\n<h6 id=\"figura-2-unsplash-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-10437\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/CC-A-memoria-dos-sons-fig2-300x195.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"324\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/CC-A-memoria-dos-sons-fig2-300x195.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/CC-A-memoria-dos-sons-fig2-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/CC-A-memoria-dos-sons-fig2.jpg 640w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\nFigura 2. Unsplash. Reprodu\u00e7\u00e3o<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Outra frente importante \u00e9 o desenvolvimento de arquivos digitais e museus sonoros. Projetos internacionais, como o <span style=\"color: #800000;\"><strong><em><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.conservethesound.de\/\">Conserve the Sound<\/a><\/em><\/strong><\/span>, catalogam ru\u00eddos e sons amea\u00e7ados de desaparecer. Universidades e centros de pesquisa tamb\u00e9m criam bancos de dados dedicados \u00e0 documenta\u00e7\u00e3o de paisagens sonoras urbanas, rurais e tradicionais. No Brasil, iniciativas como o <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/DZ8WB0Fkzam\/?__d=1%E5%A4%A7%E9%99%86%E6%89%8B%E6%9C%BA%E5%8F%B7%E5%A6%82%E4%BD%95%E8%8E%B7%E5%AE%A2%E2%9C%94%EF%B8%8F%2Brigebi.com%2B%E2%AD%90%2B%2B%E6%96%B0%E5%8A%A0%E5%9D%A1%E6%8A%96%E9%9F%B3%E5%8F%B7%E4%BA%A4%E6%98%93%E5%B9%B3%E5%8F%B0\">Tudo Soa no Sert\u00e3o<\/a><\/strong><\/span> documentam as paisagens sonoras do Cear\u00e1 e promovem a escuta ativa, o registro de sons e a educa\u00e7\u00e3o patrimonial com jovens. J\u00e1 os<span style=\"color: #800000;\"> <strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.mapaderuidosp.org.br\/\">Mapas de Ru\u00eddo Urbano<\/a><\/strong><\/span>, desenvolvidos por universidades e centros de pesquisa com apoio da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.proacustica.org.br\/\">ProAc\u00fastica<\/a><\/strong><\/span>, monitoram a polui\u00e7\u00e3o sonora nas cidades, produzindo diagn\u00f3sticos que subsidiam o planejamento urbano, a cria\u00e7\u00e3o de \u00e1reas mais silenciosas e a\u00e7\u00f5es para melhorar a qualidade de vida da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do registro, a ac\u00fastica moderna permite reconstruir ambientes desaparecidos por meio da chamada auraliza\u00e7\u00e3o. Utilizando dados hist\u00f3ricos, caracter\u00edsticas arquitet\u00f4nicas e modelos computacionais, pesquisadores conseguem recriar digitalmente a forma como determinados espa\u00e7os soavam no passado. \u00c9 uma esp\u00e9cie de arqueologia ac\u00fastica que permite ouvir lugares que j\u00e1 n\u00e3o existem.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"educacao-para-ouvir\">Educa\u00e7\u00e3o para ouvir<\/h4>\n<p>A preserva\u00e7\u00e3o sonora tamb\u00e9m tem uma dimens\u00e3o educativa. Diversos projetos ao redor do mundo v\u00eam utilizando caminhadas sonoras, oficinas de escuta e atividades de grava\u00e7\u00e3o com crian\u00e7as para estimular uma percep\u00e7\u00e3o mais atenta do ambiente.<\/p>\n<p>Preservar uma paisagem sonora \u00e9 preservar uma forma de perceber e habitar o mundo. Ao aprender a identificar sons, distinguir camadas ac\u00fasticas e refletir sobre suas transforma\u00e7\u00f5es, crian\u00e7as e jovens desenvolvem n\u00e3o apenas sensibilidade auditiva, mas tamb\u00e9m consci\u00eancia hist\u00f3rica, cultural e ambiental.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-cidade-nao-e-feita-apenas-de-predios-e-ruas-ela-tambem-e-construida-por-sons\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>&#8220;A cidade n\u00e3o \u00e9 feita apenas de pr\u00e9dios e ruas: ela tamb\u00e9m \u00e9 constru\u00edda por sons.&#8221;<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No Brasil, iniciativas ligadas ao patrim\u00f4nio imaterial encontram respaldo em a\u00e7\u00f5es de salvaguarda conduzidas pelo Instituto do <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.gov.br\/pt-br\/orgaos\/instituto-do-patrimonio-historico-e-artistico-nacional\">Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (Iphan)<\/a><\/strong><\/span>. O reconhecimento do Choro como Patrim\u00f4nio Cultural do Brasil em 2024 refor\u00e7a a import\u00e2ncia das express\u00f5es sonoras na constru\u00e7\u00e3o da identidade nacional. Da mesma forma, manifesta\u00e7\u00f5es como o Jongo, o Tambor de Crioula e o Fandango Cai\u00e7ara demonstram que sons, m\u00fasicas e tradi\u00e7\u00f5es orais s\u00e3o componentes fundamentais da diversidade cultural brasileira.<\/p>\n<p>Em um mundo cada vez mais dominado por ru\u00eddos padronizados e tecnologias silenciosas, ouvir pode se tornar um ato de preserva\u00e7\u00e3o. Registrar os sons que nos cercam n\u00e3o significa apenas guardar arquivos digitais para o futuro. Significa proteger mem\u00f3rias, modos de vida e formas de pertencimento que ajudam a contar quem somos. Afinal, a hist\u00f3ria de uma cidade n\u00e3o est\u00e1 escrita apenas em suas fachadas \u2014 ela tamb\u00e9m ecoa em seus sons.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-divulgacao\">Capa. Divulga\u00e7\u00e3o<\/h6>\n<h6 id=\"ciencia-cultura-2022-by-sbpc-is-licensed-under-cc-by-sa-4-0\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a>\u00a0\u00a9 2022 by\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.sbpcnet.org.br\/\">SBPC<\/a>\u00a0is licensed under\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/4.0\/\">CC BY-SA 4.0 \u00a0 <\/a><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/cc.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/by.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/sa.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Feche os olhos por alguns segundos e imagine sua cidade. 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