{"id":10482,"date":"2026-07-16T07:30:23","date_gmt":"2026-07-16T07:30:23","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=10482"},"modified":"2026-07-06T12:50:36","modified_gmt":"2026-07-06T12:50:36","slug":"precisamos-criar-salvaguardas-para-que-a-bioeconomia-seja-socialmente-justa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=10482","title":{"rendered":"&#8220;Precisamos criar salvaguardas para que a bioeconomia seja socialmente justa&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><em>Entender a Amaz\u00f4nia exige muito mais do que estudar suas \u00e1rvores, rios e esp\u00e9cies. \u00c9 preciso compreender tamb\u00e9m as pessoas que vivem na floresta, os modos de vida que sustentam seus territ\u00f3rios e as rela\u00e7\u00f5es entre biodiversidade, clima, economia e justi\u00e7a social. Foi justamente esse caminho que marcou a trajet\u00f3ria da bi\u00f3loga Joice Ferreira. Ao longo de mais de duas d\u00e9cadas de pesquisas na regi\u00e3o, seu olhar evoluiu da ecologia dos ecossistemas para uma abordagem integrada dos sistemas socioecol\u00f3gicos amaz\u00f4nicos, na qual ci\u00eancia, conserva\u00e7\u00e3o e desenvolvimento caminham lado a lado. &#8220;Temos defendido usar o conceito &#8216;Sociobioeconomia&#8217; para deixar claro que estamos falando da valoriza\u00e7\u00e3o da sociobiodiversidade&#8221;, afirma. Bi\u00f3loga e pesquisadora da <\/em><span style=\"color: #800000;\"><strong><em><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.embrapa.br\/web\/amazonia-oriental\">Embrapa Amaz\u00f4nia Oriental<\/a><\/em><\/strong><\/span><em>, em Bel\u00e9m (PA) e cofundadora da <\/em><span style=\"color: #800000;\"><strong><em><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/ras-network.org\/\">Rede Amaz\u00f4nia Sustent\u00e1vel (RAS)<\/a><\/em><\/strong><\/span><em>, Joice Ferreira desenvolve pesquisas sobre usos da terra, resili\u00eancia das florestas, conserva\u00e7\u00e3o e restaura\u00e7\u00e3o de ecossistemas, biodiversidade e sistemas socioecol\u00f3gicos na Amaz\u00f4nia. Nesta entrevista \u00e0 <\/em><span style=\"color: #800000;\"><strong><em><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a><\/em><\/strong><\/span><em>, a pesquisadora reflete sobre a capacidade de regenera\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia diante das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, os desafios de transformar conhecimento cient\u00edfico em pol\u00edticas p\u00fablicas, o fortalecimento da sociobioeconomia e o papel das mulheres na constru\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es para a crise ambiental. &#8220;As mulheres que lideram hoje certamente t\u00eam que pagar um pre\u00e7o alto para desviar dessa trajet\u00f3ria para a qual foram educadas.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ci\u00eancia &amp; Cultura &#8211; Voc\u00ea construiu sua trajet\u00f3ria cient\u00edfica a partir de duas d\u00e9cadas de pesquisa de campo na Amaz\u00f4nia Oriental. Como essa conviv\u00eancia prolongada com a floresta e com as comunidades locais transformou sua compreens\u00e3o sobre sustentabilidade, ci\u00eancia aplicada e os limites dos modelos tradicionais de desenvolvimento? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Joice Ferreira &#8211;<\/strong> Quando cheguei \u00e0 Amaz\u00f4nia para meu primeiro trabalho de campo, em 2002, estava iniciando o doutorado em Ecologia, sob orienta\u00e7\u00e3o da professora Mercedes Bustamante, da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.unb.br\/\">Universidade de Bras\u00edlia (UnB)<\/a><\/strong><\/span>. Naquela \u00e9poca, eu era muito movida pela magnitude biof\u00edsica da Amaz\u00f4nia, pelos seus processos ecol\u00f3gicos e pelo papel global dos ecossistemas amaz\u00f4nicos na regula\u00e7\u00e3o do clima. Viv\u00edamos o auge do Programa LBA (Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amaz\u00f4nia), uma grande coopera\u00e7\u00e3o entre o governo brasileiro, os Estados Unidos e outros pa\u00edses. Meu trabalho consistia em realizar sondagens profundas do solo, com impulsos el\u00e9tricos que alcan\u00e7avam mais de 30 metros de profundidade, para compreender como a redu\u00e7\u00e3o das chuvas afetava a vegeta\u00e7\u00e3o. Era um grande experimento de exclus\u00e3o de chuvas, conhecido como <em>Seca Floresta<\/em>, que cobriu um hectare de floresta com pain\u00e9is pl\u00e1sticos e reuniu diversas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Naquele momento, meu olhar estava totalmente voltado para a vegeta\u00e7\u00e3o, os solos e os organismos que comp\u00f5em os ecossistemas. At\u00e9 hoje me lembro da sensa\u00e7\u00e3o de ver a floresta pela janela do avi\u00e3o e da primeira vez em que entrei na Floresta Nacional do Tapaj\u00f3s. Lembro do cheiro da mata, do encantamento diante do tamanho das \u00e1rvores, dos macacos-aranha e de dormir embalada pelo som dos guaribas. Mas, desde essa primeira experi\u00eancia, comecei a conviver com as pessoas da regi\u00e3o. Os assistentes de campo eram moradores das comunidades locais, e passei a visitar outras comunidades pr\u00f3ximas. Foi ali que comecei a ampliar minha perspectiva e olhar mais atentamente para quem vivia naquele territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Quando entrei para a <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.embrapa.br\/web\/amazonia-oriental\">Embrapa Amaz\u00f4nia Oriental<\/a><\/strong><\/span>, em Bel\u00e9m, em 2006, esse olhar se aprofundou ainda mais. Passei a compreender as pessoas como parte integrante daquele ambiente. A Embrapa tem uma atua\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima do meio rural e tive a oportunidade de frequentar associa\u00e7\u00f5es, sindicatos e cooperativas, convivendo com agricultores familiares, pecuaristas, produtores de soja e diversos outros atores. Essa experi\u00eancia, tanto em Santar\u00e9m quanto em outras regi\u00f5es da Amaz\u00f4nia, revelou para mim a enorme complexidade da realidade amaz\u00f4nica. As desigualdades e assimetrias que vemos hoje n\u00e3o come\u00e7aram nas d\u00e9cadas de 1960 ou 1970, mas remontam ao per\u00edodo da coloniza\u00e7\u00e3o europeia. Ao longo do tempo, diferentes problemas foram se acumulando at\u00e9 chegar ao cen\u00e1rio atual.<\/p>\n<p>Meu entendimento hoje \u00e9 que houve \u2014 e ainda h\u00e1 \u2014 uma tentativa de apagamento dos modos de vida tradicionais em favor de pr\u00e1ticas consideradas &#8220;modernas&#8221; de uso intensivo da terra. Quando falo em pr\u00e1ticas tradicionais, refiro-me especialmente aos modos ind\u00edgenas de manejo do territ\u00f3rio. Esse modelo importado trouxe in\u00fameros problemas, enquanto os conhecimentos locais enfrentam enormes dificuldades para se manter. Ainda assim, eles resistem. E, se forem devidamente apoiados, podem apontar caminhos para uma trajet\u00f3ria mais sustent\u00e1vel na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"meu-entendimento-atual-e-que-houve-e-ainda-ha-uma-tentativa-de-apagamento-dos-meios-de-vida-tradicionais-em-detrimento-de-praticas-consideradas-modernas-de-uso-intensivo-da-terra\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>&#8220;Meu entendimento atual \u00e9 que houve e ainda h\u00e1 uma tentativa de apagamento dos meios de vida tradicionais em detrimento de pr\u00e1ticas consideradas &#8216;modernas&#8217; de uso intensivo da terra.&#8221;<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Seu trabalho tem mostrado como mudan\u00e7as no uso da terra afetam a biodiversidade, os servi\u00e7os ecossist\u00eamicos e a resili\u00eancia das florestas. O que a ci\u00eancia j\u00e1 sabe \u2014 e o que ainda subestima \u2014 sobre a capacidade de regenera\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia diante do desmatamento, das queimadas e das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas? <\/strong><\/p>\n<p><strong>JF &#8211; <\/strong>Nos \u00faltimos anos avan\u00e7amos muito na compreens\u00e3o da resili\u00eancia e da capacidade de regenera\u00e7\u00e3o dos ecossistemas amaz\u00f4nicos, gra\u00e7as ao trabalho consistente de diversas redes de pesquisa e de pesquisadores que atuam na regi\u00e3o. Hoje sabemos que, de forma geral, a capacidade de regenera\u00e7\u00e3o natural das florestas amaz\u00f4nicas ainda \u00e9 elevada. Isso ocorre porque os principais usos da terra s\u00e3o relativamente recentes, em geral pouco intensivos, o clima ainda tem favorecido esse processo e, sobretudo, porque existem extensas \u00e1reas de floresta remanescente que funcionam como fonte de sementes e abrigo para a fauna respons\u00e1vel por sua dispers\u00e3o. Tamb\u00e9m sabemos, por\u00e9m, que essa capacidade varia muito entre as diferentes regi\u00f5es da Amaz\u00f4nia. No nordeste do Par\u00e1, por exemplo, praticamente n\u00e3o restam florestas prim\u00e1rias. J\u00e1 no sul do estado, as secas se tornaram mais severas em consequ\u00eancia do desmatamento. Temos ainda diversos estudos mostrando que, uma vez queimadas, as florestas perdem parte de sua resili\u00eancia e tornam-se cada vez mais suscet\u00edveis a novos inc\u00eandios.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, existem importantes lacunas de conhecimento. A ci\u00eancia conhece muito mais algumas regi\u00f5es do que outras. Sabemos pouco sobre a capacidade de regenera\u00e7\u00e3o do oeste amaz\u00f4nico, onde as florestas permanecem mais conservadas. Tamb\u00e9m conhecemos pouco sobre os efeitos combinados de diferentes press\u00f5es, como secas, inc\u00eandios e explora\u00e7\u00e3o madeireira. E sabemos quase nada sobre como a regenera\u00e7\u00e3o responder\u00e1 \u00e0s condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas futuras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; A Rede Amaz\u00f4nia Sustent\u00e1vel (RAS), o Centro CAPOEIRA e o Painel de Ci\u00eancia pela Amaz\u00f4nia apostam na integra\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia, sociedade e pol\u00edticas p\u00fablicas. Quais s\u00e3o os principais desafios para transformar evid\u00eancias cient\u00edficas sobre a Amaz\u00f4nia em decis\u00f5es concretas, especialmente em um contexto de press\u00f5es econ\u00f4micas e interesses conflitantes? <\/strong><\/p>\n<p><strong>JF &#8211; <\/strong>Nessas redes, nossa preocupa\u00e7\u00e3o vai muito al\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o de artigos cient\u00edficos voltados ao p\u00fablico acad\u00eamico. Nosso objetivo \u00e9 contribuir para transformar realidades rumo a uma Amaz\u00f4nia mais sustent\u00e1vel. Isso exige um trabalho muito mais longo e desafiador do que a pesquisa acad\u00eamica tradicional. Na <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/ras-network.org\/\">Rede Amaz\u00f4nia Sustent\u00e1vel<\/a><\/strong><\/span>, por exemplo, buscamos manter um di\u00e1logo cont\u00ednuo com tomadores de decis\u00e3o, o que demanda participa\u00e7\u00e3o em f\u00f3runs, comit\u00eas t\u00e9cnicos e grupos de trabalho ligados ao Minist\u00e9rio do Meio Ambiente e \u00e0s secretarias estaduais. No <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.embrapa.br\/busca-de-noticias\/-\/noticia\/100901816\/amazonia-ganha-centro-de-pesquisas-para-apoiar-a-recuperacao-de-areas-desmatadas-e-degradadas\">Centro CAPOEIRA<\/a><\/strong><\/span>, estamos implantando Laborat\u00f3rios Vivos junto \u00e0s comunidades locais. S\u00e3o espa\u00e7os de cocria\u00e7\u00e3o e experimenta\u00e7\u00e3o liderados pelas pr\u00f3prias comunidades. Nosso papel \u00e9 apoiar sua constru\u00e7\u00e3o, mas nossa expectativa \u00e9 que esses espa\u00e7os sejam futuramente geridos pelos pr\u00f3prios moradores. Neste momento, estamos elaborando regimentos, processos de forma\u00e7\u00e3o e mecanismos de governan\u00e7a. No <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.sp-amazon.org\/br\">Painel de Ci\u00eancia pela Amaz\u00f4nia<\/a><\/strong><\/span>, h\u00e1 um esfor\u00e7o permanente para levar as evid\u00eancias cient\u00edficas aos espa\u00e7os de tomada de decis\u00e3o, como as Confer\u00eancias das Partes (COPs) e as Semanas do Clima.<\/p>\n<p>Esse caminho exige tempo para construir rela\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a, produzir materiais em diferentes linguagens e manter um di\u00e1logo cont\u00ednuo com diferentes p\u00fablicos. \u00c9 um trabalho adicional que, na maioria das vezes, n\u00e3o \u00e9 reconhecido pelos \u00f3rg\u00e3os de fomento. Al\u00e9m disso, os financiamentos costumam ser de curta dura\u00e7\u00e3o e incompat\u00edveis com rela\u00e7\u00f5es de longo prazo. Em geral, apoiam apenas a pesquisa ou apenas a implementa\u00e7\u00e3o, raramente permitindo integrar as duas dimens\u00f5es em um mesmo projeto. Esse \u00e9 apenas um dos muitos desafios que enfrentamos para aproximar ci\u00eancia, sociedade e pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"nosso-objetivo-e-contribuir-para-transformar-realidades-rumo-a-maior-sustentabilidade-na-amazonia\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>&#8220;Nosso objetivo \u00e9 contribuir para transformar realidades rumo a maior sustentabilidade na Amaz\u00f4nia.&#8221;<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C \u2013 No relat\u00f3rio do SPA, voc\u00ea atua diretamente na discuss\u00e3o sobre bioeconomia e restaura\u00e7\u00e3o de ecossistemas. Que tipo de bioeconomia faz sentido para a Amaz\u00f4nia em um cen\u00e1rio de crise clim\u00e1tica? E como evitar que esse conceito seja esvaziado ou apropriado de forma pouco sustent\u00e1vel? <\/strong><\/p>\n<p><strong>JF &#8211;<\/strong> Essa \u00e9 uma discuss\u00e3o incontorn\u00e1vel na atualidade. A agenda da bioeconomia surgiu no Norte Global, principalmente como uma estrat\u00e9gia para reduzir o uso de combust\u00edveis f\u00f3sseis. Quando esse debate chegou ao Sul Global, especialmente \u00e0 Am\u00e9rica Latina, tornou-se evidente a necessidade de ressignificar esse conceito. Temos promovido uma s\u00e9rie de discuss\u00f5es sobre qual bioeconomia faz sentido para a Amaz\u00f4nia. Diversos pesquisadores j\u00e1 publicaram trabalhos refletindo justamente sobre essa quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Em ecossistemas t\u00e3o sens\u00edveis do ponto de vista da biodiversidade e da presen\u00e7a de povos ind\u00edgenas, comunidades tradicionais e quilombolas, precisamos ir muito al\u00e9m da agenda clim\u00e1tica relacionada apenas \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o dos combust\u00edveis f\u00f3sseis. \u00c9 fundamental criar salvaguardas para que a bioeconomia seja socialmente justa, baseada na conserva\u00e7\u00e3o e na restaura\u00e7\u00e3o dos ecossistemas e comprometida com a prote\u00e7\u00e3o da biodiversidade. Por isso, temos defendido o uso do conceito de &#8220;sociobioeconomia&#8221;, para deixar claro que estamos falando de algo ainda mais espec\u00edfico: a valoriza\u00e7\u00e3o da sociobiodiversidade. Essa distin\u00e7\u00e3o \u00e9 importante porque uma mesma cadeia produtiva pode gerar resultados completamente diferentes. O a\u00e7a\u00ed \u00e9 um bom exemplo. Os impactos s\u00e3o muito distintos quando a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 realizada por comunidades locais, utilizando pr\u00e1ticas tradicionais de manejo, mantendo a diversidade da floresta e fortalecendo sua organiza\u00e7\u00e3o social e o processamento local da produ\u00e7\u00e3o. Em contrapartida, h\u00e1 modelos intensivos baseados em \u00e1reas desmatadas, que pouco contribuem para a conserva\u00e7\u00e3o da floresta e n\u00e3o fortalecem o protagonismo das comunidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Ao longo da sua carreira, voc\u00ea tem ocupado espa\u00e7os de lideran\u00e7a cient\u00edfica em um campo historicamente masculinizado e marcado por disputas territoriais e pol\u00edticas. Como \u00e9 ser mulher fazendo ci\u00eancia na Amaz\u00f4nia, tanto no laborat\u00f3rio quanto no campo? Que obst\u00e1culos e pot\u00eancias essa posi\u00e7\u00e3o traz? <\/strong><\/p>\n<p><strong>JF &#8211; <\/strong>Ainda sentimos a falta de uma estrutura institucional capaz de amparar as mulheres. Existe uma sobrecarga constante decorrente da combina\u00e7\u00e3o entre trabalho dom\u00e9stico, cuidado com os filhos e carreira acad\u00eamica. Essa carga \u00e9 significativa e, ao mesmo tempo, as exig\u00eancias para que uma mulher seja reconhecida como igualmente competente em rela\u00e7\u00e3o a um homem costumam ser ainda maiores. Na nossa \u00e1rea, essas barreiras aparecem desde o in\u00edcio da carreira e se tornam especialmente evidentes durante os trabalhos de campo, sobretudo nas \u00e1reas rurais. Mas talvez o maior desafio seja a cobran\u00e7a interna, resultado das estruturas sociais nas quais fomos educadas desde a inf\u00e2ncia. Muitas mulheres da minha gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o foram ensinadas para ocupar espa\u00e7os de lideran\u00e7a, mas para obedecer. Isso continua refletindo na forma como nos posicionamos profissionalmente.<\/p>\n<p>As mulheres que hoje ocupam posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a, muitas vezes, precisam pagar um pre\u00e7o alto para romper com essa trajet\u00f3ria. Aprender a dizer &#8220;n\u00e3o&#8221;, quando se passou a vida inteira sendo incentivada a dizer &#8220;sim&#8221; e a ser considerada uma &#8220;boa menina&#8221;, parece algo simples, mas envolve um processo muito profundo. Felizmente, sinto que hoje posso criar minha filha de uma maneira completamente diferente. Ao mesmo tempo, acredito que as mulheres desenvolveram, ao longo de suas trajet\u00f3rias, capacidades muito importantes para enfrentar os desafios atuais. Frequentemente fomos estimuladas a lidar com m\u00faltiplas tarefas, desenvolver pensamentos complexos e agir com sensibilidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas. Naturalmente, isso n\u00e3o pode significar mais sobrecarga. Mas acredito que essas capacidades representam uma contribui\u00e7\u00e3o muito relevante para os espa\u00e7os de di\u00e1logo e negocia\u00e7\u00e3o que caracterizam os conflitos socioambientais contempor\u00e2neos. A percep\u00e7\u00e3o ampliada, a capacidade de realizar an\u00e1lises complexas, a intui\u00e7\u00e3o e a constru\u00e7\u00e3o de consensos podem ser fundamentais diante de problemas t\u00e3o desafiadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"as-crises-climaticas-e-de-biodiversidade-tem-em-sua-essencia-mais-profunda-a-disputa-por-poder-desigualdade-social-a-falta-de-empatia-e-de-visao-de-longo-prazo\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>&#8220;As crises clim\u00e1ticas e de biodiversidade t\u00eam em sua ess\u00eancia mais profunda a disputa por poder, desigualdade social, a falta de empatia e de vis\u00e3o de longo prazo.&#8221;<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Pensando no futuro da floresta e da ci\u00eancia brasileira, que papel voc\u00ea acredita que as mulheres cientistas podem desempenhar na constru\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es para a crise clim\u00e1tica? E que mensagem deixaria para jovens pesquisadoras que desejam trabalhar com Amaz\u00f4nia, conserva\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a socioambiental? <\/strong><\/p>\n<p><strong>JF &#8211; <\/strong>As crises clim\u00e1tica e da biodiversidade t\u00eam, em sua ess\u00eancia mais profunda, quest\u00f5es relacionadas \u00e0 disputa por poder, \u00e0s desigualdades sociais, \u00e0 falta de empatia e \u00e0 aus\u00eancia de uma vis\u00e3o de longo prazo. Acredito que as mulheres cientistas podem ter uma capacidade particularmente agu\u00e7ada para reconhecer essas dimens\u00f5es mais profundas dos problemas e contribuir, com sensibilidade, para os espa\u00e7os de di\u00e1logo e de tomada de decis\u00e3o que buscam transformar essa realidade. \u00c0s jovens pesquisadoras que desejam trabalhar com os desafios socioambientais da Amaz\u00f4nia, eu recomendaria que buscassem viver o m\u00e1ximo poss\u00edvel de experi\u00eancias para al\u00e9m da academia. Nas oportunidades de est\u00e1gio e orienta\u00e7\u00e3o, procurem pessoas alinhadas \u00e0s vis\u00f5es de mundo que voc\u00eas desejam construir. Tamb\u00e9m \u00e9 importante n\u00e3o deixar passar oportunidades de conviv\u00eancia com as comunidades locais. \u00c9 nessas experi\u00eancias que conhecemos de perto tanto suas potencialidades quanto os desafios que enfrentam. Da mesma forma, participar de grupos de jovens, de coletivos de mulheres e de f\u00f3runs nacionais e internacionais pode ser extremamente enriquecedor. Esses espa\u00e7os re\u00fanem diferentes atores envolvidos tanto nos problemas quanto nas solu\u00e7\u00f5es e permitem compreender melhor as realidades locais, construir um olhar pr\u00f3prio e desenvolver formas de atua\u00e7\u00e3o mais sens\u00edveis e efetivas diante da complexidade da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<h6 id=\"ciencia-cultura-2022-by-sbpc-is-licensed-under-cc-by-sa-4-0\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a>\u00a0\u00a9 2022 by\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.sbpcnet.org.br\/\">SBPC<\/a>\u00a0is licensed under\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/4.0\/\">CC BY-SA 4.0 \u00a0 <\/a><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/cc.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/by.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/sa.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Entender a Amaz\u00f4nia exige muito mais do que estudar suas \u00e1rvores, rios&hellip;\n","protected":false},"author":11,"featured_media":10483,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2,864],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10482"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10482"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10482\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10486,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10482\/revisions\/10486"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/10483"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10482"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10482"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10482"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}