{"id":10491,"date":"2026-07-26T08:00:17","date_gmt":"2026-07-26T08:00:17","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=10491"},"modified":"2026-07-07T12:49:33","modified_gmt":"2026-07-07T12:49:33","slug":"filantropia-e-ciencia-uma-alianca-para-o-futuro-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=10491","title":{"rendered":"Filantropia e ci\u00eancia: uma alian\u00e7a para o futuro do Brasil"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, o Brasil construiu um sistema de pesquisa admir\u00e1vel. Universidades, institutos e ag\u00eancias de fomento formaram gera\u00e7\u00f5es de cientistas, consolidaram uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o reconhecida internacionalmente e produziram conhecimento que transforma vidas \u2013 da agricultura tropical \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica, da Amaz\u00f4nia ao setor aeroespacial.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Esse patrim\u00f4nio coletivo, por\u00e9m, repousa quase <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">exclusivamente <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">sobre o financiamento p\u00fablico. N\u00e3o \u00e9 a presen\u00e7a do Estado que distingue o caso brasileiro, comum \u00e0s na\u00e7\u00f5es que fazem ci\u00eancia, mas a fragilidade do que deveria complement\u00e1-la.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Aqui, a filantropia e o investimento privado de longo prazo na pesquisa ainda s\u00e3o limitados. As empresas investem em inova\u00e7\u00e3o, mas tendem a concentr\u00e1-la em atividades pr\u00f3ximas ao mercado; o apoio \u00e0 ci\u00eancia b\u00e1sica, \u00e0 pesquisa de fronteira e a projetos de alto risco permanece restrito.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"em-ciencia-a-descontinuidade-cobra-caro-conhecimento-nao-produzido-oportunidades-perdidas-e-pesquisadores-afetados\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cEm ci\u00eancia, a descontinuidade cobra caro: conhecimento n\u00e3o produzido, oportunidades perdidas e pesquisadores afetados.\u201d<\/span><\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O resultado \u00e9 um sistema vulner\u00e1vel \u00e0s oscila\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas. Quando os recursos p\u00fablicos minguam ou se tornam imprevis\u00edveis, laborat\u00f3rios param, jovens talentos reconsideram suas carreiras e linhas promissoras perdem continuidade. E, em ci\u00eancia, a descontinuidade cobra caro: conhecimento n\u00e3o produzido, oportunidades perdidas e pesquisadores afetados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nesse contexto, a filantropia cient\u00edfica, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">conceito que Marcos Kisil e Guilherme Ary Plonski examinam nesta edi\u00e7\u00e3o<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, apresenta-se como <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">uma <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">possibilidade estrat\u00e9gica. A experi\u00eancia internacional mostra que ela n\u00e3o substitui o Estado nem o investimento empresarial: seu papel \u00e9 outro. Tem a capacidade singular de assumir riscos, apostar em ideias n\u00e3o consolidadas e dar flexibilidade a iniciativas que <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">dificilmente <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">caberiam nos mecanismos tradicionais. Como lembra a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Science Philanthropy Alliance<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">e como relata France C\u00f3rdova nesta edi\u00e7\u00e3o<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, descobertas transformadoras costumam nascer de pesquisas fundamentais cujos resultados n\u00e3o se podem prever no curto prazo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O Brasil j\u00e1 d\u00e1 os primeiros passos nesse caminho. Iniciativas como o Instituto Serrapilheira,\u00a0 <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">cujo modelo de apoio a projetos de alto risco Hugo Aguilaniu descreve nestas p\u00e1ginas<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">,\u00a0 e o investimento social de fam\u00edlias empres\u00e1rias, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">como na trajet\u00f3ria relatada por Jos\u00e9 Luiz Setubal<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, mostram que h\u00e1 entre n\u00f3s disposi\u00e7\u00e3o para sustentar a ci\u00eancia. Ainda s\u00e3o exce\u00e7\u00f5es<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">,<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> precisam tornar-se norma.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"sociedades-que-investem-em-conhecimento-ampliam-suas-chances-de-prosperidade-e-bem-estar\" style=\"text-align: center;\"><em><span style=\"color: #800000;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u201c<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Sociedades que investem em conhecimento ampliam suas chances de prosperidade e bem-estar.\u201d<\/span><\/span><\/em><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para isso, \u00e9 preciso completar o que j\u00e1 come\u00e7amos. O pa\u00eds conta, desde 2019, com a Lei dos Fundos Patrimoniais (Lei 13.800), que regulamentou os <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">endowments<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, fundos cujos rendimentos sustentam, de forma <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">permanente<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, universidades e centros de excel\u00eancia. No exterior, fundos como esses sustentam por gera\u00e7\u00f5es laborat\u00f3rios e institui\u00e7\u00f5es inteiras; entre n\u00f3s, ainda s\u00e3o incipientes. Faltou, por\u00e9m, o essencial: os incentivos fiscais \u00e0 dedu\u00e7\u00e3o das doa\u00e7\u00f5es foram vetados na san\u00e7\u00e3o da lei. Restaur\u00e1-los e enfrentar os entraves que ainda dificultam a capta\u00e7\u00e3o pelas universidades p\u00fablicas \u00e9 a fronteira mais imediata.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dois princ\u00edpios precisam ser preservados. O primeiro \u00e9 a autonomia da ci\u00eancia: a filantropia financia a pesquisa, n\u00e3o dita sua agenda. O segundo \u00e9 a adicionalidade, inscrita na pr\u00f3pria lei<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">:<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> os recursos privados somam-se ao or\u00e7amento p\u00fablico, jamais o substituem. Governan\u00e7a transparente e presta\u00e7\u00e3o de contas sustentam a confian\u00e7a entre doadores e sociedade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1, ainda, uma oportunidade a n\u00e3o desperdi\u00e7ar. A filantropia tende a concentrar-se onde a riqueza j\u00e1 est\u00e1; bem orientada, pode fazer o contr\u00e1rio<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">:<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> alcan\u00e7ar institui\u00e7\u00f5es e talentos do Norte e do Nordeste, hoje <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">subfinanciados<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, e tornar-se tamb\u00e9m instrumento de equidade regional.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"investir-em-ciencia-num-pais-de-tantas-urgencias-imediatas-e-um-gesto-de-confianca-no-futuro\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cInvestir em ci\u00eancia, num pa\u00eds de tantas urg\u00eancias imediatas, \u00e9 um gesto de confian\u00e7a no futuro.\u201d<\/span><\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nada disso relativiza a responsabilidade do Estado<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> O financiamento p\u00fablico seguir\u00e1 sendo a espinha dorsal da ci\u00eancia brasileira, indispens\u00e1vel a qualquer na\u00e7\u00e3o que aspire \u00e0 soberania tecnol\u00f3gica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os grandes desafios contempor\u00e2neos <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211;<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> emerg\u00eancia clim\u00e1tica, novas epidemias, transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, intelig\u00eancia artificial, seguran\u00e7a alimentar, desigualdades <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211;<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> ultrapassam a capacidade de qualquer ator isolado. Governo, universidades, empresas, sociedade civil e filantropos precisam agir de forma complementar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sociedades que investem em conhecimento ampliam suas chances de prosperidade e bem-estar. Para quem doa, apoiar a ci\u00eancia \u00e9 deixar um legado de longo alcance: liberdade para experimentar, coragem para arriscar e vis\u00e3o para sustentar aquilo cujo valor pleno talvez s\u00f3 as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es reconhe\u00e7am. \u00c9 um patrim\u00f4nio que se mede em d\u00e9cadas, n\u00e3o em trimestres.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fazer da filantropia uma aliada da pesquisa \u00e9 reconhecer que o desenvolvimento nacional depende n\u00e3o apenas de resolver os problemas do presente, mas tamb\u00e9m da disposi\u00e7\u00e3o de imaginar e construir os horizontes do amanh\u00e3. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Investir em ci\u00eancia, num pa\u00eds de tantas urg\u00eancias imediatas, \u00e9 um gesto de confian\u00e7a no futuro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Que esta edi\u00e7\u00e3o conjunta da Ci\u00eancia <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">&amp;<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> Cultura seja um convite \u00e0 reflex\u00e3o e \u00e0 a\u00e7\u00e3o. O Brasil j\u00e1 demonstrou ser capaz de produzir ci\u00eancia de excel\u00eancia. Chegou o momento de ampliar a comunidade dos que decidem sustent\u00e1-la, porque apoiar a ci\u00eancia \u00e9 um dos atos mais generosos e transformadores de filantropia que uma sociedade pode realizar.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"color: #808080;\"><em><span style=\"font-weight: 400;\">Esse fasc\u00edculo \u00e9 uma iniciativa do Grupo de Trabalho \u2013 Filantropia da SBPC em parceria com o Grupo de Estudos de Modelos de Apoio \u00e0 Ci\u00eancia (GEMA Filantropia), do Instituto de Estudos Avan\u00e7ados da USP (IEA-USP), e a Funda\u00e7\u00e3o Conrado Wessel (FCW), que financiou a publica\u00e7\u00e3o.<\/span><\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, o Brasil construiu um sistema de pesquisa admir\u00e1vel. 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