{"id":10599,"date":"2026-08-13T07:30:04","date_gmt":"2026-08-13T07:30:04","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=10599"},"modified":"2026-07-29T13:03:40","modified_gmt":"2026-07-29T13:03:40","slug":"precisamos-produzir-ciencia-com-as-comunidades-e-nao-apenas-sobre-elas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=10599","title":{"rendered":"&#8220;Precisamos produzir ci\u00eancia com as comunidades, e n\u00e3o apenas sobre elas.&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><em>A gest\u00e3o de res\u00edduos s\u00f3lidos costuma ser associada a desafios t\u00e9cnicos e ambientais, mas, para a soci\u00f3loga Sonia Maria Dias, o tema tamb\u00e9m revela disputas por reconhecimento, inclus\u00e3o e justi\u00e7a social. Refer\u00eancia internacional em gest\u00e3o inclusiva de res\u00edduos, a pesquisadora defende que a economia circular s\u00f3 faz sentido quando incorpora as pessoas que historicamente sustentam a reciclagem, especialmente os catadores e as catadoras de materiais recicl\u00e1veis. \u201cOs aspectos sociais ainda aparecem de forma muito marginal, como um ap\u00eandice, e n\u00e3o como algo org\u00e2nico\u201d, explica. Doutora em Ci\u00eancia Pol\u00edtica pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), especialista global em res\u00edduos da WIEGO e coordenadora da C\u00e2mara Tem\u00e1tica de Economia Circular do F\u00f3rum Brasileiro de Mudan\u00e7a do Clima, Sonia Dias \u00a0construiu uma trajet\u00f3ria marcada pelo di\u00e1logo entre ci\u00eancia, pol\u00edticas p\u00fablicas e movimentos sociais. \u201cA perspectiva de g\u00eanero veio para mim trabalhando com catadores e catadoras&#8221;, conta a pesquisadora\u201d. Nesta entrevista \u00e0 Ci\u00eancia &amp; Cultura, ela reflete sobre produ\u00e7\u00e3o compartilhada do conhecimento, participa\u00e7\u00e3o social, desigualdades de g\u00eanero e os desafios de construir pol\u00edticas ambientais verdadeiramente inclusivas.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/strong> \u2013 <strong>A gest\u00e3o de res\u00edduos e a economia circular costumam ser tratadas como temas t\u00e9cnicos, mas seu trabalho mostra o quanto elas s\u00e3o profundamente pol\u00edticas. Em que momento da sua trajet\u00f3ria ficou claro que produzir conhecimento nessa \u00e1rea exigiria disputar narrativas, poder e reconhecimento \u2014 e n\u00e3o apenas dados?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sonia Maria Dias<\/strong> \u2013 Sou soci\u00f3loga de forma\u00e7\u00e3o e comecei minha trajet\u00f3ria profissional antes mesmo do mestrado e do doutorado. Meu primeiro trabalho foi em um programa de desenvolvimento comunit\u00e1rio do governo de Minas Gerais, que reunia equipes multidisciplinares para atuar em comunidades rurais e urbanas. No in\u00edcio, trabalh\u00e1vamos com processos participativos para identificar as demandas das comunidades, em projetos que envolviam desde cisternas e equipamentos coletivos at\u00e9 melhorias de infraestrutura.<\/p>\n<p>Depois fui transferida para Belo Horizonte e passei a integrar um projeto inovador de urbaniza\u00e7\u00e3o de vilas e favelas, que reunia engenheiros, arquitetos, cientistas sociais e pedagogos. Nossa fun\u00e7\u00e3o era ouvir a popula\u00e7\u00e3o, mapear suas necessidades e transform\u00e1-las em projetos capazes de captar recursos nacionais e internacionais.<\/p>\n<p>Foi nesse processo que surgiu uma demanda que mudaria completamente minha trajet\u00f3ria: a implanta\u00e7\u00e3o da coleta regular de lixo em comunidades que n\u00e3o tinham acesso ao servi\u00e7o. Ao estudar esse tema, percebi que a gest\u00e3o de res\u00edduos n\u00e3o era apenas um sistema t\u00e9cnico, mas um sistema sociot\u00e9cnico, que envolve infraestrutura, trabalho, cidadania e acesso a direitos.<\/p>\n<p>Comecei ent\u00e3o a olhar para as pessoas que estavam por tr\u00e1s desse sistema: primeiro os garis e, depois, os catadores de materiais recicl\u00e1veis. Foi a\u00ed que compreendi que n\u00e3o era poss\u00edvel discutir res\u00edduos s\u00f3lidos sem considerar suas dimens\u00f5es sociais, o trabalho formal e informal e as desigualdades no acesso aos servi\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m vivi, desde cedo, os desafios de ser uma mulher da \u00e1rea das Ci\u00eancias Sociais atuando em um campo tradicionalmente ocupado por engenheiros. Quando fui contratada pela Prefeitura de Belo Horizonte para continuar esse trabalho, enfrentei a resist\u00eancia de quem acreditava que res\u00edduos s\u00f3lidos eram exclusivamente uma quest\u00e3o de engenharia e arquitetura.<\/p>\n<p>Essa disputa acabou marcando toda a minha carreira. Sempre procurei mostrar que a gest\u00e3o de res\u00edduos tamb\u00e9m envolve rela\u00e7\u00f5es de trabalho, inclus\u00e3o social e participa\u00e7\u00e3o cidad\u00e3. Se n\u00e3o olharmos para quem coleta os res\u00edduos \u2014 sejam os trabalhadores da limpeza urbana ou os catadores \u2014 deixamos de compreender uma dimens\u00e3o fundamental desse sistema.<\/p>\n<p>Quando olho para tr\u00e1s, vejo que houve avan\u00e7os importantes. Aquele trabalho pioneiro desenvolvido ainda na d\u00e9cada de 1980 ajudou a ampliar o interesse pelo tema, tanto na formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas quanto na pesquisa acad\u00eamica. Hoje existe um n\u00famero muito maior de profissionais e pesquisadores dedicados aos aspectos sociais da gest\u00e3o de res\u00edduos, algo que, naquela \u00e9poca, praticamente n\u00e3o existia.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"a-gestao-de-residuos-nao-era-um-sistema-tecnico-era-um-sistema-sociotecnico\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>&#8220;A gest\u00e3o de res\u00edduos n\u00e3o era um sistema t\u00e9cnico; era um sistema sociot\u00e9cnico.&#8221; <\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/strong> \u2013 <strong>Grande parte da ci\u00eancia que orienta pol\u00edticas de res\u00edduos nasce fora dos laborat\u00f3rios, nos territ\u00f3rios e no cotidiano dos catadores. Que desafios \u2014 cient\u00edficos e institucionais \u2014 surgem quando o conhecimento vem de sujeitos historicamente marginalizados, e como isso tensiona a forma tradicional de fazer ci\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sonia Maria Dias<\/strong> \u2013 Hoje sou muito associada ao tema da inclus\u00e3o dos catadores, tanto no Brasil quanto internacionalmente, embora meu trabalho tamb\u00e9m tenha abordado outras dimens\u00f5es sociais da gest\u00e3o de res\u00edduos. Essa perspectiva trouxe muitos aprendizados, mas tamb\u00e9m muitos desafios.<\/p>\n<p>O primeiro deles diz respeito \u00e0 forma como produzimos conhecimento. Apesar dos avan\u00e7os em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 interdisciplinaridade, a universidade ainda tem dificuldade em construir conhecimento de forma compartilhada. O saber continua sendo, em grande medida, transmitido e n\u00e3o coproduzido. H\u00e1 resist\u00eancia em dialogar com outras \u00e1reas e, principalmente, em reconhecer os conhecimentos produzidos pelos pr\u00f3prios sujeitos envolvidos na pesquisa.<\/p>\n<p>Eu mesma vivi isso. Meu tema ficava em uma esp\u00e9cie de fronteira entre as Ci\u00eancias Sociais e a Engenharia. Em vez de ser visto como uma oportunidade de di\u00e1logo entre \u00e1reas, muitas vezes parecia n\u00e3o pertencer a nenhuma delas.<\/p>\n<p>Outro desafio est\u00e1 nas metodologias. Fala-se muito em pesquisa participativa, mas poucos pesquisadores s\u00e3o efetivamente preparados para trabalhar dessa forma. \u00c9 preciso flexibilidade para adaptar os m\u00e9todos \u00e0s comunidades, sem abrir m\u00e3o do rigor cient\u00edfico. Muitas vezes, a metodologia chega pronta ao campo, sem espa\u00e7o para incorporar as experi\u00eancias e os conhecimentos das pessoas que participam da pesquisa.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o \u00e9tica importante. Para quem pesquisa, o resultado \u00e9 um artigo, uma disserta\u00e7\u00e3o ou um livro. Para a comunidade, muitas vezes esse retorno simplesmente n\u00e3o existe. Precisamos pensar em formas de produzir conhecimento que tamb\u00e9m gerem benef\u00edcios concretos para os grupos com os quais trabalhamos, construindo conjuntamente as perguntas, os objetivos e os resultados da pesquisa.<\/p>\n<p>Esse desafio tamb\u00e9m aparece na gest\u00e3o p\u00fablica. Muitos gestores nunca foram formados para trabalhar com processos participativos, facilitar di\u00e1logos ou construir diagn\u00f3sticos junto \u00e0s comunidades. Soma-se a isso o curto prazo das administra\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, que frequentemente priorizam a\u00e7\u00f5es imediatas em vez de pol\u00edticas de Estado voltadas ao desenvolvimento social de longo prazo.<\/p>\n<p>Quando lidamos com grupos historicamente marginalizados, como os catadores, ainda existe outro elemento fundamental: a confian\u00e7a. S\u00e3o comunidades que carregam uma hist\u00f3ria de exclus\u00e3o e, muitas vezes, de persegui\u00e7\u00e3o. Construir rela\u00e7\u00f5es de coopera\u00e7\u00e3o exige tempo, escuta e presen\u00e7a nos territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>Por isso, os desafios s\u00e3o muitos, tanto na produ\u00e7\u00e3o do conhecimento quanto na formula\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas. Em ambos os casos, precisamos aprender a construir solu\u00e7\u00f5es com as comunidades, e n\u00e3o apenas para elas.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/strong> \u2013 <strong>Sendo uma mulher atuando na intersec\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia, pol\u00edticas p\u00fablicas e movimentos sociais, que tipos de resist\u00eancias ou silenciamentos voc\u00ea enfrentou ao longo da carreira \u2014 e como eles se manifestam de maneira sutil ou estrutural?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sonia Maria Dias<\/strong> \u2013 As resist\u00eancias come\u00e7aram muito cedo. Quando tentei fazer meu mestrado, meu tema praticamente n\u00e3o encontrava lugar dentro das pr\u00f3prias Ci\u00eancias Sociais, porque tratava de uma \u00e1rea tradicionalmente vista como pertencente \u00e0 Engenharia.<\/p>\n<p>Mais tarde, quando morava na Inglaterra, fui aceita para fazer doutorado sobre res\u00edduos s\u00f3lidos na Universidade de Londres. Solicitei uma bolsa ao CNPq, mas o parecer foi de que res\u00edduos s\u00f3lidos n\u00e3o eram uma \u00e1rea para cientistas sociais, e sim para engenheiros. Esse epis\u00f3dio marcou profundamente minha trajet\u00f3ria.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos houve muitos avan\u00e7os, mas essa dificuldade de reconhecer a dimens\u00e3o social da gest\u00e3o de res\u00edduos permanece. A pr\u00f3pria economia circular \u00e9 um exemplo. Hoje o conceito ganhou enorme proje\u00e7\u00e3o internacional, mas durante muito tempo foi tratado quase exclusivamente sob a perspectiva t\u00e9cnica e econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Lembro de uma conversa com a Funda\u00e7\u00e3o Ellen MacArthur, quando apresentei essa preocupa\u00e7\u00e3o. Eu dizia que o famoso diagrama da &#8220;borboleta&#8221;, que representa a economia circular, era extremamente interessante, mas praticamente n\u00e3o dialogava com as pessoas que vivem da circularidade, como os catadores de materiais recicl\u00e1veis. Faltava incorporar a dimens\u00e3o social de forma estruturante.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos esse debate avan\u00e7ou. Hoje coordeno a C\u00e2mara Tem\u00e1tica de Economia Circular do F\u00f3rum Brasileiro de Mudan\u00e7a do Clima, que re\u00fane universidades, organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil e institui\u00e7\u00f5es como o Instituto Clima e Sociedade. H\u00e1 muito mais espa\u00e7o para discutir inclus\u00e3o social do que havia quando comecei.<\/p>\n<p>Mesmo assim, ainda percebo que, nos grandes documentos e nas pol\u00edticas sobre economia circular, os aspectos sociais costumam aparecer de forma marginal, quase como um complemento. A inclus\u00e3o das pessoas que fazem parte desse sistema continua sendo tratada como um ap\u00eandice, quando deveria ser um elemento org\u00e2nico da pr\u00f3pria economia circular.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-conhecimento-ainda-e-passado-ele-nao-e-cogestado\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>&#8220;O conhecimento ainda \u00e9 passado, ele n\u00e3o \u00e9 cogestado.&#8221; <\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/strong> \u2013 <strong>A economia circular ganhou visibilidade global, mas nem sempre incorpora as desigualdades de g\u00eanero, classe e ra\u00e7a presentes na gest\u00e3o de res\u00edduos. Que riscos existem quando esse conceito \u00e9 esvaziado de sua dimens\u00e3o social, e qual tem sido o papel das mulheres nesse debate?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sonia Maria Dias<\/strong> \u2013 Quando falamos dos catadores, \u00e9 importante entender que existem realidades bastante diferentes. Considerando toda a categoria, cerca de 70% s\u00e3o homens. Mas, quando olhamos apenas para as cooperativas e associa\u00e7\u00f5es, o cen\u00e1rio se inverte: aproximadamente 58% dos integrantes s\u00e3o mulheres.<\/p>\n<p>Apesar dessa presen\u00e7a expressiva, durante muito tempo elas ocuparam poucos espa\u00e7os de lideran\u00e7a. As rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero reproduziam padr\u00f5es de discrimina\u00e7\u00e3o bastante conhecidos: havia mais mulheres trabalhando, mas eram os homens que, em geral, assumiam a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a condu\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Essa realidade mudou muito nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Hoje existem lideran\u00e7as femininas extremamente importantes, resultado de um longo processo de forma\u00e7\u00e3o, fortalecimento institucional e debate sobre igualdade de g\u00eanero. As mulheres passaram a ocupar espa\u00e7os de decis\u00e3o, representar o movimento em f\u00f3runs nacionais e internacionais e participar das discuss\u00f5es sobre pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Ainda assim, esse processo est\u00e1 longe de estar conclu\u00eddo. As mudan\u00e7as dentro das organiza\u00e7\u00f5es caminham junto com as transforma\u00e7\u00f5es da sociedade, e tamb\u00e9m sofrem os impactos dos retrocessos que observamos no debate p\u00fablico. O crescimento do machismo e de posturas autorit\u00e1rias afeta igualmente os movimentos sociais e pode colocar em risco avan\u00e7os conquistados ao longo de muitos anos.<\/p>\n<p>Isso nos leva a outra reflex\u00e3o importante. N\u00e3o basta que um movimento social defenda direitos e inclus\u00e3o se, internamente, continua reproduzindo rela\u00e7\u00f5es marcadas pelo autoritarismo, pelo sexismo ou pela concentra\u00e7\u00e3o de poder. A democracia tamb\u00e9m precisa ser constru\u00edda dentro das pr\u00f3prias organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por isso, a perspectiva de g\u00eanero continua sendo uma das principais lentes do nosso trabalho. Seja em pesquisas sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, economia circular ou condi\u00e7\u00f5es de trabalho dos catadores, buscamos sempre compreender como g\u00eanero, ra\u00e7a e outras desigualdades influenciam os resultados e precisam ser considerados na formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/strong> \u2013 <strong>Para jovens mulheres interessadas em ci\u00eancia, pol\u00edticas p\u00fablicas e justi\u00e7a socioambiental, que conselhos voc\u00ea daria sobre como construir uma trajet\u00f3ria cient\u00edfica sem abrir m\u00e3o do compromisso com o territ\u00f3rio, com a escuta e com a transforma\u00e7\u00e3o social?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sonia Maria Dias<\/strong> \u2013 Minha trajet\u00f3ria come\u00e7ou na gest\u00e3o p\u00fablica, muito antes de eu ingressar na pesquisa acad\u00eamica. Tive a felicidade de contar com a mentoria de duas engenheiras que me acolheram em uma \u00e1rea predominantemente masculina e me ajudaram a compreender o universo da gest\u00e3o de res\u00edduos s\u00f3lidos. Esse apoio foi fundamental para que eu pudesse construir meu caminho.<\/p>\n<p>Hoje, olhando para tr\u00e1s, tamb\u00e9m me pergunto se algumas das resist\u00eancias que enfrentei teriam sido diferentes se eu fosse um homem cientista social. Quando, por exemplo, tive uma bolsa negada porque meu tema era considerado &#8220;da Engenharia&#8221;, essa reflex\u00e3o ainda n\u00e3o fazia parte da minha forma de enxergar o mundo. A perspectiva de g\u00eanero foi sendo constru\u00edda ao longo da minha pr\u00f3pria trajet\u00f3ria.<\/p>\n<p>Curiosamente, ela surgiu no conv\u00edvio com as catadoras de materiais recicl\u00e1veis. Minha forma\u00e7\u00e3o era em Ci\u00eancias Sociais e educa\u00e7\u00e3o popular; meu olhar estava voltado para as pol\u00edticas p\u00fablicas e para os processos participativos. Foi acompanhando o cotidiano dessas mulheres, ouvindo suas hist\u00f3rias e observando suas experi\u00eancias que comecei a perceber as desigualdades de g\u00eanero presentes naquele universo.<\/p>\n<p>Lembro de eventos em que eu fazia a tradu\u00e7\u00e3o para convidados internacionais e observava mulheres catadoras ocupando o palco, enquanto alguns homens tentavam conduzir suas falas ou dizer o que elas deveriam falar. Aos poucos, essas mulheres passaram a compartilhar comigo situa\u00e7\u00f5es que viviam no dia a dia, e foi dessa escuta que nasceu a compreens\u00e3o de que havia ali uma agenda importante de pesquisa e de transforma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>O projeto de g\u00eanero que desenvolvemos n\u00e3o surgiu de um desenho pronto. Antes de se tornar um projeto formal, foi constru\u00eddo durante mais de um ano de conversas, rodas de di\u00e1logo e aprendizagem conjunta. Eu estudava, levava ideias para discuss\u00e3o, ouvia as catadoras, voltava a refletir e retornava ao grupo. O projeto foi sendo desenhado coletivamente.<\/p>\n<p>Essa talvez seja a principal li\u00e7\u00e3o da minha trajet\u00f3ria: o conhecimento n\u00e3o foi produzido apenas por mim, mas com essas mulheres. Aprendi tanto quanto ensinei. Foi um processo de constru\u00e7\u00e3o compartilhada que reuniu universidade, organiza\u00e7\u00e3o internacional e movimento social.<\/p>\n<p>Em determinado momento, tamb\u00e9m compreendi que era preciso dar um passo atr\u00e1s para que elas ocupassem plenamente o protagonismo do projeto. Esse foi um processo dif\u00edcil, mas profundamente coerente com a educa\u00e7\u00e3o popular, que sempre orientou minha atua\u00e7\u00e3o. Facilitar n\u00e3o significa conduzir para sempre, mas criar condi\u00e7\u00f5es para que as pessoas construam sua pr\u00f3pria autonomia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"nao-basta-um-movimento-social-defender-direitos-se-reproduz-internamente-dinamicas-de-autoritarismo-sexismo-e-machismo\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>&#8220;N\u00e3o basta um movimento social defender direitos se reproduz internamente din\u00e2micas de autoritarismo, sexismo e machismo.&#8221; <\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A gest\u00e3o de res\u00edduos s\u00f3lidos costuma ser associada a desafios t\u00e9cnicos e&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":10600,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2,864],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10599"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10599"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10599\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10602,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10599\/revisions\/10602"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/10600"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10599"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10599"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10599"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}