{"id":10668,"date":"2026-09-02T07:50:54","date_gmt":"2026-09-02T07:50:54","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=10668"},"modified":"2026-09-02T10:19:50","modified_gmt":"2026-09-02T10:19:50","slug":"memoria-da-ditadura-no-cinema-brasileiro-contemporaneo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=10668","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria da ditadura no cinema brasileiro contempor\u00e2neo"},"content":{"rendered":"<p>O cinema brasileiro vive, inegavelmente, um momento singular de sua hist\u00f3ria. Por dois anos seguidos, filmes que abordam o per\u00edodo da ditadura militar conseguiram enorme sucesso de p\u00fablico e, concomitantemente, uma trajet\u00f3ria vitoriosa no circuito das premia\u00e7\u00f5es internacionais. Falo, claro, de \u201cAinda estou aqui\u201d, de 2024, com dire\u00e7\u00e3o de Walter Salles, e de \u201cO agente secreto\u201d, de 2025, escrito e dirigido por Kleber Mendon\u00e7a Filho.<\/p>\n<p>O filme de Walter Salles, visto por cerca de seis milh\u00f5es de espectadores nacionais em salas de cinema, colecionou sucessivos pr\u00eamios em 2024 e 2025, at\u00e9 conquistar o Oscar de Melhor Filme Internacional, em 2025. \u201cO agente secreto\u201d, por sua vez, assistido at\u00e9 o momento por dois milh\u00f5es e meio de expectadores, em salas de cinema, iniciou em 2025 sua trajet\u00f3ria de sucesso nos grandes festivais, que culminou com quatro indica\u00e7\u00f5es ao Oscar de 2026.<\/p>\n<p>Ambos os filmes est\u00e3o solidamente ancorados na longa tradi\u00e7\u00e3o do cinema brasileiro. Seu desempenho em termos de sucesso no p\u00fablico nacional e na cr\u00edtica internacional, contudo, supera em muito a m\u00e9dia dos indicadores das demais obras produzidas no pa\u00eds no mesmo per\u00edodo. Pretendo aqui discutir em linhas gerais cada um dos filmes e indagar algumas poss\u00edveis raz\u00f5es da excepcionalidade de sua recep\u00e7\u00e3o, nacional e internacional.<\/p>\n<p>O filme de Walter Salles narra o sequestro e o desaparecimento de Rubens Paiva, ex-deputado e empres\u00e1rio, no Rio de Janeiro, nos primeiros dias de 1971, e o longo e sofrido percurso de sua vi\u00fava para chegar ao esclarecimento dos fatos e ao reconhecimento do Estado brasileiro de sua responsabilidade por eles.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-10670\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/CC-3E26-opiniao-Memoria-da-ditadura-figura-1-300x158.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"263\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/CC-3E26-opiniao-Memoria-da-ditadura-figura-1-300x158.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/CC-3E26-opiniao-Memoria-da-ditadura-figura-1-1024x538.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/CC-3E26-opiniao-Memoria-da-ditadura-figura-1-768x403.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/CC-3E26-opiniao-Memoria-da-ditadura-figura-1-1536x806.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/CC-3E26-opiniao-Memoria-da-ditadura-figura-1-18x9.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/CC-3E26-opiniao-Memoria-da-ditadura-figura-1-380x200.jpg 380w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/CC-3E26-opiniao-Memoria-da-ditadura-figura-1-800x420.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/CC-3E26-opiniao-Memoria-da-ditadura-figura-1-1160x609.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/CC-3E26-opiniao-Memoria-da-ditadura-figura-1.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-1-cena-do-filme-ainda-estou-aqui-imagem-sony-pictures-divulgacao\" style=\"text-align: center;\"><strong>Figura 1. Cena do filme \u201cAinda estou aqui\u201d.<br \/>\n<\/strong>(Imagem: Sony Pictures. Divulga\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o do roteiro, a dire\u00e7\u00e3o, o desempenho dos atores, a primorosa reconstitui\u00e7\u00e3o da cidade de cinco d\u00e9cadas atr\u00e1s, tudo contribui para o poder de convencimento da obra. Mas o tra\u00e7o fundamental para esse fim, a meu ver, \u00e9 a economia de meios na exposi\u00e7\u00e3o do argumento. Walter Salles, auxiliado pelo desempenho extraordin\u00e1rio de Fernanda Torres no papel da protagonista, abdica do exagero, da grandiloqu\u00eancia, da reitera\u00e7\u00e3o, para deixar mais claro o que pretende dizer. Na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, simplifica, omite os detalhes, para tornar o n\u00facleo relevante dos fatos cristalino para todos. E esse n\u00facleo \u00e9 simples: a viol\u00eancia e a mentira, o sequestro, a tortura, o assassinato e o ocultamento, de responsabilidade do Estado e de seus agentes, com o reconhecimento posterior, ainda que tardio.<\/p>\n<p>Na estrat\u00e9gia de procurar a clareza pela omiss\u00e3o do acess\u00f3rio, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio mostrar os abusos dos agentes na casa da fam\u00edlia, a min\u00facia da tortura sofrida, os detalhes rocambolescos das sucessivas vers\u00f5es forjadas para explicar o caso, inocentando sempre os policiais e militares respons\u00e1veis. Para o espectador, como para os familiares, Rubens Paiva desapareceu no momento em que entrou no seu carro, o mesmo que, encontrado no estacionamento de um quartel, tornou-se a evid\u00eancia de sua pris\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-filme-traz-portanto-para-a-reflexao-do-expectador-a-memoria-critica-de-uma-situacao-recente-na-historia-do-pais\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cO filme traz, portanto, para a reflex\u00e3o do expectador, a mem\u00f3ria cr\u00edtica de uma situa\u00e7\u00e3o recente na hist\u00f3ria do pa\u00eds.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O filme traz, portanto, para a reflex\u00e3o do espectador, a mem\u00f3ria cr\u00edtica de uma situa\u00e7\u00e3o recente na hist\u00f3ria do pa\u00eds, posterior \u00e0 derrocada de um regime democr\u00e1tico e sua substitui\u00e7\u00e3o por uma ditadura militar. Na situa\u00e7\u00e3o anterior ao golpe, havia direitos e garantias individuais, embora, obviamente, vigorassem de forma diferenciada, segundo crit\u00e9rios de classe, ra\u00e7a e g\u00eanero. Na ditadura, todos, sem exce\u00e7\u00e3o, podem tornar-se alvo de sequestro, tortura e morte nas m\u00e3os de agentes p\u00fablicos. A op\u00e7\u00e3o pelo crime \u00e9 uma alternativa dispon\u00edvel para toda a cadeia de comando dos \u00f3rg\u00e3os estatais, do Presidente da Rep\u00fablica ao guarda da esquina.<\/p>\n<p>A recep\u00e7\u00e3o no Brasil do filme \u201cO agente secreto\u201d apresenta, por seu turno, particularidades interessantes. Ao contr\u00e1rio da obra de Walter Salles, avaliada positivamente por grande parte da cr\u00edtica, nesse caso houve entusiasmo por parte de alguns, rejei\u00e7\u00e3o por parte de outros e algum estranhamento, em grau vari\u00e1vel, por parte da maioria. O filme, mesmo entre alguns cr\u00edticos favor\u00e1veis, \u00e9 caracterizado, em grau vari\u00e1vel, como simplificador, manique\u00edsta, localista, com um roteiro mal amarrado, recheado de pontas soltas. Essas avalia\u00e7\u00f5es me parecem, ao menos, exageradas e tento, com os coment\u00e1rios que se seguem, apresentar meus argumentos para justificar essa posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-10671\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/CC-3E26-opiniao-Memoria-da-ditadura-figura-2-300x169.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"281\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/CC-3E26-opiniao-Memoria-da-ditadura-figura-2-300x169.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/CC-3E26-opiniao-Memoria-da-ditadura-figura-2-768x432.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/CC-3E26-opiniao-Memoria-da-ditadura-figura-2-18x10.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/CC-3E26-opiniao-Memoria-da-ditadura-figura-2.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-2-cena-do-filme-o-agente-secreto-imagem-vitrine-filmes-divulgacao\" style=\"text-align: center;\"><strong>Figura 2. Cena do filme \u201cO Agente Secreto\u201d.<br \/>\n<\/strong>(Imagem: Vitrine Filmes. Divulga\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Come\u00e7o com as cenas que apresentam a chegada do protagonista \u00e0 pens\u00e3o que abriga pessoas diversas em situa\u00e7\u00e3o de alto risco. Na chegada, aparece, circulando pela casa, uma gata de duas cabe\u00e7as. O protagonista olha, e n\u00f3s com ele, o animal mais de uma vez. A primeira impress\u00e3o pode concluir por uma excentricidade gratuita, a revelar a predile\u00e7\u00e3o do diretor pela disformidade em geral. Me parece mais interessante uma explica\u00e7\u00e3o alternativa. \u00c9 corrente na nossa tradi\u00e7\u00e3o, pelo menos desde o livro do Apocalipse, associar mudan\u00e7as profundas no mundo dos homens, o mundo em que vivemos, a sinais pr\u00e9vios de anomalia no mundo natural, sejam eles astron\u00f4micos, clim\u00e1ticos, s\u00edsmicos ou biol\u00f3gicos. Entendo que o filme, cuja a\u00e7\u00e3o transcorre em sua maior parte em 1977, procura retratar um desses momentos, a ditadura militar brasileira, que perdurou de 1964 a 1985. N\u00e3o por meio da narra\u00e7\u00e3o de algumas de suas a\u00e7\u00f5es t\u00edpicas de repress\u00e3o pol\u00edtica e cultural, como fez Walter Salles, mas sim pela encena\u00e7\u00e3o na tela de seus efeitos difusos na sociedade que passou por aquela experi\u00eancia. Nessa linha, a ditadura foi um apocalipse em escala menor e a gata bic\u00e9fala, um sinal dos tempos.<\/p>\n<p>O filme fala, portanto, da ditadura, mas n\u00e3o da ditadura vista na perspectiva de seus efeitos imediatos, mas sob a \u00f3tica do alastramento progressivo de sua l\u00f3gica por todas as esferas da sociedade. Nessa linha de argumenta\u00e7\u00e3o, a ditadura \u00e9 pervasiva e seus efeitos perniciosos v\u00e3o muito al\u00e9m do somat\u00f3rio das viola\u00e7\u00f5es de direitos individuais promovidas por agentes do Estado ao longo de sua dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ditaduras s\u00e3o incapazes de respeitar a pr\u00f3pria legalidade; a repress\u00e3o pol\u00edtica segue uma l\u00f3gica pr\u00f3pria, que normaliza o uso de meios de coer\u00e7\u00e3o criminosos: sequestro, tortura e assassinato. Nessa situa\u00e7\u00e3o, a anomia prevalece e a fronteira entre legal e ilegal torna-se fluida e porosa. O card\u00e1pio da repress\u00e3o fica dispon\u00edvel para uso de todos os atores sociais com capacidade de pagar por eles, para equacionamento de conflitos diversos que contrap\u00f5em interesses de particulares. Conflitos esses que, no filme, envolvem concorr\u00eancia entre empresas, p\u00fablicas e privadas, demandas trabalhistas, disputas acad\u00eamicas por direitos de propriedade intelectual e at\u00e9 mesmo vingan\u00e7a de ofensas pessoais, uma vez que, na falta de lei, tudo pode ser equacionado por meio da viol\u00eancia armada.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, dado que a ditadura interfere por meio da censura na circula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, a pr\u00f3pria delimita\u00e7\u00e3o entre real e irreal, fatos e fantasmagorias, entra em pane. A perna cabeluda foi, nas palavras do diretor, uma imagem criada por jornalistas para preservar da censura as not\u00edcias da repress\u00e3o policial aos pontos de encontro gay no Recife da \u00e9poca. Mas pode ser vista tamb\u00e9m, numa visada mais ampla, como uma consequ\u00eancia l\u00f3gica, embora imprevista, de anos de censura sobre a circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-ditadura-e-pervasiva-e-seus-efeitos-perniciosos-vao-muito-alem-do-somatorio-das-violacoes-de-direitos-individuais-promovidas-por-agentes-do-estado-ao-longo-de-sua-duracao\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cA ditadura \u00e9 pervasiva e seus efeitos perniciosos v\u00e3o muito al\u00e9m do somat\u00f3rio das viola\u00e7\u00f5es de direitos individuais promovidas por agentes do Estado ao longo de sua dura\u00e7\u00e3o.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se o notici\u00e1rio sobre os fatos n\u00e3o \u00e9 inteiramente confi\u00e1vel, as sensa\u00e7\u00f5es disseminadas na popula\u00e7\u00e3o de medo, incerteza, sobressalto e ressentimento alimentam a demanda por not\u00edcias fantasmas, como a perna cabeluda em Recife e lendas urbanas outras do mesmo teor em outras capitais brasileiras. Como nota a personagem angolana, a hist\u00f3ria \u00e9 fant\u00e1stica, mas o mais assombroso \u00e9 ter conseguido espa\u00e7o persistente na imprensa di\u00e1ria.<\/p>\n<p>A ditadura gera anomia, a indistin\u00e7\u00e3o progressiva entre legal e ilegal, moral e imoral, real e irreal. A cura dessa situa\u00e7\u00e3o e a vacina contra a reincid\u00eancia do pequeno apocalipse \u00e9 a mem\u00f3ria. Da\u00ed que os patrocinadores da rede de apoio aos perseguidos de todo tipo sejam tamb\u00e9m os coletores e deposit\u00e1rios da hist\u00f3ria de cada um. Da\u00ed tamb\u00e9m a estrutura circular do roteiro. O filme termina com a entrega ao filho do protagonista das fitas que cont\u00eam a hist\u00f3ria que o espectador acaba de assistir.<\/p>\n<p>Nesse caso, o recurso predominante na constru\u00e7\u00e3o do roteiro parece ser a reitera\u00e7\u00e3o. Epis\u00f3dios se sucedem; a conex\u00e3o aparente entre eles \u00e9 fr\u00e1gil, mas est\u00e3o ligados pela presen\u00e7a, comum a todos, da sombra da ditadura. Nessa linha, penso que devemos ver o filme como um mosaico, no qual cada evento \u00e9 um fragmento e a cada um corresponde um evento-espelho, n\u00e3o na realidade, mas nos peda\u00e7os da realidade que chegam a conhecimento p\u00fablico, ou seja, que chegam ao notici\u00e1rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o o notici\u00e1rio brasileiro de 1977, mas o notici\u00e1rio de Recife, pelo menos de 1964 a 2025. Se a hip\u00f3tese estiver correta, tudo no filme passou antes por esse notici\u00e1rio: profus\u00e3o de assassinatos sem solu\u00e7\u00e3o, conluios que envolvem corrup\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o, baterias de l\u00edtio, achados de pernas humanas em est\u00f4magos de tubar\u00e3o, ataques da perna cabeluda, desempenho de foli\u00f5es vestidos de \u201c<em>a la ursa<\/em>\u201d em cada carnaval, etc. O filme faz inclusive refer\u00eancia a um caso not\u00f3rio recente, a morte de um menino que, por descuido criminoso da patroa de sua m\u00e3e, caiu do alto do edif\u00edcio em Recife. N\u00e3o se trata de anacronismo, mas da entrega deliberada de uma chave de leitura para os mais jovens ou desavisados. E a mensagem que essa chave traz \u00e9 simples: parece absurdo, mas tudo foi not\u00edcia. Algo como uma aplica\u00e7\u00e3o ampliada da m\u00e1xima que Jo\u00e3o Mangabeira formulou para seu estado, a Bahia: pense num absurdo, qualquer um; na ditadura militar h\u00e1 precedente. Ou seja, mesmo quando o enredo parece flutuar nas alturas da fantasia, a ancoragem na realidade, de ontem e de hoje, \u00e9 s\u00f3lida.<\/p>\n<p>Com essa chave em m\u00e3os, n\u00e3o podemos ver o filme com a tranquilidade que a dist\u00e2ncia garantiria. N\u00e3o podemos v\u00ea-lo como uma hist\u00f3ria de terror, que nos permite o prazer da ansiedade moderada, sem nunca chegar ao p\u00e2nico, porque sabemos que, com o acender das luzes da sala ou o apagar da tela da TV, tudo aquilo se desvanecer\u00e1. Tampouco podemos v\u00ea-lo como uma distopia de um passado distante e celebrar a nossa sorte por estar longe de tudo isso. Sabemos que peda\u00e7os desse passado sobrevivem no presente, alguns ocultos, outros evidentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"memoria-coletiva-diz-respeito-a-identidade-nacional-e-o-processo-de-identificacao-e-selecao-de-marcos-dessa-memoria\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cMem\u00f3ria coletiva diz respeito \u00e0 identidade nacional e o processo de identifica\u00e7\u00e3o e sele\u00e7\u00e3o de marcos dessa mem\u00f3ria.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A t\u00edtulo de s\u00edntese, diria que ambos os filmes abordam a ditadura militar brasileira, sob \u00f3ticas distintas: as consequ\u00eancias diretas da a\u00e7\u00e3o de agentes p\u00fablicos na viola\u00e7\u00e3o de direitos individuais e a prolifera\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica da viol\u00eancia em todas as esferas da vida social.<\/p>\n<p>Resta indagar as raz\u00f5es do sucesso nacional e internacional dos dois filmes. Certamente n\u00e3o \u00e9 novo o uso do cinema como meio de apresenta\u00e7\u00e3o para o p\u00fablico amplo de sucessos relevantes do ponto de vista da afirma\u00e7\u00e3o de sua hist\u00f3ria e identidade. Mem\u00f3ria coletiva diz respeito \u00e0 identidade nacional, e o processo de identifica\u00e7\u00e3o e sele\u00e7\u00e3o de marcos dessa mem\u00f3ria, na forma de monumentos, edifica\u00e7\u00f5es, acervos materiais e iconogr\u00e1ficos, acompanha a cria\u00e7\u00e3o e desenvolvimento dos estados nacionais. Os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos, o cinema e os instrumentos posteriores do audiovisual, apenas fornecem novos meios de armazenar informa\u00e7\u00e3o e organizar narrativas a respeito da hist\u00f3ria recente ou remota dos diferentes pa\u00edses.<\/p>\n<p>O cinema cedo explorou esse territ\u00f3rio, tomando como mat\u00e9ria fatos tidos por significativos para a hist\u00f3ria das coletividades. Particularmente, no caso do Brasil e das Am\u00e9ricas, os marcos do in\u00edcio e do fim do processo colonizador, as sagas dos \u201cdescobrimentos\u201d e da independ\u00eancia nacional.<\/p>\n<p>No entanto, as duas obras aqui comentadas divergem pelo menos em dois pontos relevantes do padr\u00e3o mais frequente no conjunto de filmes dedicados ao debate da hist\u00f3ria e da identidade coletiva. De um lado, no que se refere ao tema. O foco aqui \u00e9 na institucionalidade, na democracia como regra de conviv\u00eancia, regra fundamental, uma vez que sua aus\u00eancia mergulha o pa\u00eds na barb\u00e1rie. Nessa perspectiva, as duas obras se vinculam a uma das facetas do debate pol\u00edtico contempor\u00e2neo, aquela que op\u00f5e a concep\u00e7\u00e3o tradicional de identidade nacional, constru\u00edda a partir de uma presumida ancestralidade comum, que demanda do cidad\u00e3o uma forma de patriotismo vinculada a uma identidade cultural espec\u00edfica, a um tipo moderno de identidade nacional, que demanda dos cidad\u00e3os outro patriotismo, o patriotismo constitucional, no qual a \u00eanfase se encontra nas regras de conviv\u00eancia entre indiv\u00edduos e grupos culturalmente heterog\u00eaneos.<\/p>\n<p>De outro lado, no que se refere \u00e0 abordagem desse tema, os dois filmes tamb\u00e9m partilham de uma atitude discrepante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s escolhas mais frequentes. Podemos dizer, sem qualquer inten\u00e7\u00e3o pejorativa, que predominou, at\u00e9 agora, nos filmes considerados hist\u00f3ricos por sua tem\u00e1tica, uma abordagem apolog\u00e9tica. Trata-se, nessa linha, de informar o expectador, ou apenas de despertar a sua mem\u00f3ria, a respeito de fatos considerados <em>a priori<\/em> como positivos e, portanto, desej\u00e1veis. A pergunta subjacente apresentada ao espectador \u00e9 como abandonamos uma situa\u00e7\u00e3o indesej\u00e1vel e percorremos coletivamente o caminho na dire\u00e7\u00e3o do estado presente. Obras t\u00e3o diversas em qualidade est\u00e9tica e orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, como \u201cIndepend\u00eancia ou Morte\u201d, de Carlos Coimbra (1972), e \u201cOutubro\u201d, de Eisenstein (1927), seguem esse mesmo percurso.<\/p>\n<p>Os dois casos que examinamos abandonam essa premissa. Ao contr\u00e1rio da maioria dos filmes anteriores a respeito da ditadura brasileira, n\u00e3o tomam como premissa a superioridade estabelecida da ordem democr\u00e1tica nas prefer\u00eancias dos expectadores, mas mostram os efeitos delet\u00e9rios de sua aus\u00eancia. N\u00e3o chamam, portanto, o expectador a repassar as trilhas j\u00e1 conhecidas da hist\u00f3ria e a celebrar com \u00e2nimo renovado a conquista da ordem do presente. Os dois filmes podem ser vistos como um chamado para a reflex\u00e3o e o di\u00e1logo: isto acontece nas ditaduras e n\u00e3o \u00e9 desej\u00e1vel. O que deve ser feito, portanto, por cada um hoje? Nesse aspecto, mais reflexivo e menos apolog\u00e9tico, \u00e9 poss\u00edvel tra\u00e7ar uma analogia entre as duas obras e a trag\u00e9dia na Gr\u00e9cia do per\u00edodo cl\u00e1ssico, que, diferentemente da celebra\u00e7\u00e3o dos feitos heroicos caracter\u00edstica da \u00e9pica, procurou, com a explora\u00e7\u00e3o do acervo mitol\u00f3gico, mostrar aos cidad\u00e3os da polis que decis\u00f5es t\u00eam consequ\u00eancias, muitas inesperadas e algumas nefastas.<\/p>\n<p>Ditaduras s\u00e3o consequ\u00eancias nefastas de decis\u00f5es singulares no tempo hist\u00f3rico, tomadas geralmente em nome de ideais que aparecem como nobres e desej\u00e1veis para parte dos atores pol\u00edticos e seus seguidores. A mem\u00f3ria do processo \u00e9 fundamental, portanto, para sua compreens\u00e3o e, consequentemente, para a preven\u00e7\u00e3o de seu retorno. Por isso, todas as na\u00e7\u00f5es modernas que emergiram de regimes ditatoriais cultivam a lembran\u00e7a desses processos, na forma de museus, memoriais, arquivos p\u00fablicos, rituais c\u00edvicos, livros did\u00e1ticos e, adicionalmente, a narra\u00e7\u00e3o de eventos exemplares, capazes de iluminar a natureza desse tipo de regime, nas formas ficcional, dram\u00e1tica ou cinematogr\u00e1fica. Os dois filmes aqui debatidos devem ser considerados parte desse conjunto maior de instrumentos de preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria da ditadura entre n\u00f3s, com a caracter\u00edstica singular do alcance maior, em termos de p\u00fablico, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s demais modalidades referidas.<\/p>\n<p>Claro que as duas caracter\u00edsticas neles apontadas, a democracia como tema e a reflexividade como m\u00e9todo, encontram precedentes na hist\u00f3ria do cinema do s\u00e9culo XX, como mostram os exemplos da obra de Costa Gravas e o document\u00e1rio de Marcel Oph\u00fcls. No entanto, a conjuntura pol\u00edtica internacional, as quest\u00f5es relevantes do debate presente e a forma como os diferentes espa\u00e7os culturais processam essas quest\u00f5es s\u00e3o hoje completamente diversas do que eram nos anos do p\u00f3s-guerra.<\/p>\n<p>De l\u00e1 para c\u00e1, houve d\u00e9cadas de mudan\u00e7as profundas na tecnologia e na produ\u00e7\u00e3o de bens, um aumento in\u00e9dito na circula\u00e7\u00e3o de capitais, mercadorias e pessoas pelo mundo, com a consequente dissemina\u00e7\u00e3o de sensa\u00e7\u00f5es de inseguran\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao presente e pessimismo em rela\u00e7\u00e3o ao futuro na popula\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses at\u00e9 ent\u00e3o mais pr\u00f3speros e democr\u00e1ticos. N\u00e3o cabe aqui debater os pormenores desse processo de enorme escala. Basta constatar que a tend\u00eancia resultante em termos de ambiente pol\u00edtico e cultural parece ser, at\u00e9 o momento, o crescimento de movimentos com tend\u00eancias nacionalistas, xen\u00f3fobas, autorit\u00e1rias e belicistas, unificados pela ideia comum de substitui\u00e7\u00e3o das regras constru\u00eddas por meio do debate pelo uso da for\u00e7a como meio de resolu\u00e7\u00e3o de conflitos e diverg\u00eancias, nos planos nacional e internacional.<\/p>\n<p>Nessa conjuntura, a democracia como tema ganha uma urg\u00eancia nova e a abordagem apolog\u00e9tica costumeira perde sentido. A excepcionalidade da recep\u00e7\u00e3o dos dois filmes junto ao p\u00fablico nacional e \u00e0 cr\u00edtica, nacional e internacional, deve ser atribu\u00edda, nessa linha de argumenta\u00e7\u00e3o, \u00e0 sua capacidade de resposta a quest\u00f5es centrais para parte importante do p\u00fablico, nacional e internacional. Em \u00faltima an\u00e1lise, portanto, \u00e0 sensibilidade dos autores para captar os grandes temas do presente e com eles dialogar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-cena-do-filme-ainda-estou-aqui-imagem-sony-pictures-divulgacao\" style=\"text-align: left;\"><strong>Capa. Cena do filme \u201cAinda estou aqui\u201d.<br \/>\n<\/strong>(Imagem: Sony Pictures. Divulga\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<h6 id=\"ciencia-cultura-2022-by-sbpc-is-licensed-under-cc-by-sa-4-0\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a>\u00a0\u00a9 2022 by\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.sbpcnet.org.br\/\">SBPC<\/a>\u00a0is licensed under\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/4.0\/\">CC BY-SA 4.0 \u00a0 <\/a><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/cc.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/by.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/sa.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O cinema brasileiro vive, inegavelmente, um momento singular de sua hist\u00f3ria. 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