{"id":10694,"date":"2026-09-02T07:55:20","date_gmt":"2026-09-02T07:55:20","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=10694"},"modified":"2026-08-31T10:18:09","modified_gmt":"2026-08-31T10:18:09","slug":"memoria-sob-as-aguas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=10694","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria sob as \u00e1guas"},"content":{"rendered":"<p>Ao olhar com aten\u00e7\u00e3o e contexto, o fundo das \u00e1guas pode guardar hist\u00f3rias que a terra firme n\u00e3o \u00e9 capaz de contar. Embarca\u00e7\u00f5es naufragadas, paisagens inundadas e at\u00e9 cidades inteiras podem permanecer conservadas por s\u00e9culos sob rios, mares e oceanos, constituindo cen\u00e1rios in\u00e9ditos para investigar diferentes \u00e9pocas e formas de viver. Essa miss\u00e3o \u00e9 abra\u00e7ada pela arqueologia subaqu\u00e1tica, \u00e1rea que busca pistas sobre a hist\u00f3ria de ambientes, pessoas e sociedades a partir de vest\u00edgios submersos.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"as-aguas-preservam-memoria\">As \u00e1guas preservam mem\u00f3ria<\/h4>\n<p>Quando um pesquisador acessa um material submerso, abre caminhos para conhecer tamb\u00e9m os detalhes da rela\u00e7\u00e3o humana com as \u00e1reas aqu\u00e1ticas e costeiras. \u201cMuitos desses vest\u00edgios preservam informa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o aparecem em nenhuma outra fonte hist\u00f3rica\u201d, destaca Ialy Cintra Ferreira, pesquisadora na \u00e1rea de Arqueologia Hist\u00f3rica e Arqueologia Subaqu\u00e1tica e doutoranda em Arqueologia na <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.ufpe.br\/\"><strong>Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)<\/strong><\/a>.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>\u201cUm objeto isolado diz pouco, mas, quando permanece associado ao ambiente em que foi depositado e aos demais vest\u00edgios, permite compreender processos hist\u00f3ricos, tecnol\u00f3gicos, econ\u00f4micos e sociais de forma ampla\u201d, complementa. De acordo com a pesquisadora, a \u00e1gua pode favorecer essa compreens\u00e3o ao manter os materiais associados ao contexto em que foram deixados. \u201cEm terra, essas associa\u00e7\u00f5es podem ser destru\u00eddas pela ocupa\u00e7\u00e3o cont\u00ednua ou pela a\u00e7\u00e3o do tempo, por exemplo\u201d, diz.<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es debaixo d\u2019\u00e1gua tamb\u00e9m podem ajudar a conservar os pr\u00f3prios materiais. Rodrigo de Oliveira Torres, doutor em Arqueologia N\u00e1utica e Subaqu\u00e1tica pela <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.tamu.edu\/index.html\"><strong>Universidade A&amp;M do Texas<\/strong><\/a><\/span> e p\u00f3s-doutor pela <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/ufba.br\/\"><strong>Universidade Federal da Bahia (UFBA)<\/strong><\/a>,<\/span> explica que isso ocorre porque fatores como a menor penetra\u00e7\u00e3o da luz, menores varia\u00e7\u00f5es de temperatura e concentra\u00e7\u00f5es reduzidas de oxig\u00eanio tendem a diminuir a energia das rea\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas e a atividade biol\u00f3gica, favorecendo a preserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"patrimonio-e-algo-com-que-nos-identificamos-e-queremos-preservar\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cPatrim\u00f4nio \u00e9 algo com que nos identificamos e queremos preservar.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um exemplo s\u00e3o os itens met\u00e1licos, que, nesses ambientes, podem formar concre\u00e7\u00f5es \u2014 massas duras criadas pelo ac\u00famulo de minerais e produtos da corros\u00e3o. Essas estruturas podem desacelerar a degrada\u00e7\u00e3o, preservando os artefatos ou at\u00e9 mesmo seus moldes. J\u00e1 em materiais org\u00e2nicos, como madeira, couro e ossos, a \u00e1gua preenche os poros \u00e0 medida que as estruturas celulares se degradam, contribuindo para a manuten\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas originais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"os-desafios-de-conhecer-a-historia-sob-as-aguas\">Os desafios de conhecer a hist\u00f3ria sob as \u00e1guas<\/h4>\n<p>As mesmas condi\u00e7\u00f5es que favorecem a preserva\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m criam desafios para os estudos. Equipamentos comuns na arqueologia terrestre, como GPS, n\u00e3o funcionam sob as \u00e1guas e d\u00e3o lugar a t\u00e9cnicas ac\u00fasticas, como sonares e balizas de ecolocaliza\u00e7\u00e3o. O acesso aos s\u00edtios tamb\u00e9m depende de estrat\u00e9gias espec\u00edficas de mergulho, especialmente em grandes profundidades. \u201cEsse \u00e9 o caso em s\u00edtios encontrados em profundidades inferiores a 30 ou 40 metros; mais que isso, s\u00f3 com t\u00e9cnicas avan\u00e7adas de mergulho ou com ve\u00edculos remotamente controlados\u201d, pontua Rodrigo de Oliveira Torres.<\/p>\n<p>Uma vez que se decide resgatar um artefato ou estrutura ap\u00f3s sua localiza\u00e7\u00e3o, as t\u00e9cnicas utilizadas s\u00e3o semelhantes \u00e0quelas empregadas em terra firme. \u201cVoc\u00ea vai ver as pessoas desenhando, fotografando, escaneando e tomando notas e, pelo menos, uma lupa binocular, um pincel, um paqu\u00edmetro e uma balan\u00e7a ao lado, isso \u00e9 certo\u201d, diz o pesquisador.<\/p>\n<p>As preocupa\u00e7\u00f5es com a conserva\u00e7\u00e3o j\u00e1 come\u00e7am no cuidado durante a escava\u00e7\u00e3o e no transporte at\u00e9 a superf\u00edcie. \u201cArtefatos que estiveram submersos por muito tempo precisam continuar molhados at\u00e9 sua estabiliza\u00e7\u00e3o\u201d, explica. O trabalho, por\u00e9m, n\u00e3o termina quando o item chega \u00e0 superf\u00edcie. \u201cUm canh\u00e3o de ferro retirado da \u00e1gua salgada, por exemplo, pode precisar de dois ou tr\u00eas anos, ou mais, para ser estabilizado\u201d, destaca. Tais medidas ajudam a proteger os artefatos contra altera\u00e7\u00f5es f\u00edsico-qu\u00edmicas e mec\u00e2nicas e previnem que itens preservados durante s\u00e9culos sejam perdidos em poucas semanas.<\/p>\n<p>Rodrigo de Oliveira Torres frisa ainda o papel das tecnologias digitais modernas na explora\u00e7\u00e3o e documenta\u00e7\u00e3o de ambientes aqu\u00e1ticos. \u201cUm pesquisador-mergulhador com equipamento e condi\u00e7\u00f5es t\u00edpicas pode passar entre 40 minutos e 1 hora e 20 minutos debaixo d\u2019\u00e1gua, em, no m\u00e1ximo, duas ou tr\u00eas imers\u00f5es por dia; \u00e9 pouco tempo e muito trabalho para fazer\u201d, diz. Ele explica que as ferramentas de mapeamento digital e de reconstru\u00e7\u00e3o tridimensional t\u00eam ajudado a aumentar a precis\u00e3o dos registros, al\u00e9m de favorecer a orienta\u00e7\u00e3o dos processos de escava\u00e7\u00e3o e na interpreta\u00e7\u00e3o, otimizando o tempo e permitindo que at\u00e9 mesmo especialistas n\u00e3o mergulhadores possam participar. \u201cConseguimos at\u00e9 reconstruir digitalmente os s\u00edtios estudados, facilitando que sejam visualizados e analisados de distintos \u00e2ngulos em terra, onde temos mais tempo\u201d, exemplifica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"de-naufragios-e-paisagens-subaquaticas-a-rituais-religiosos\">De naufr\u00e1gios e paisagens subaqu\u00e1ticas a rituais religiosos<\/h4>\n<p>O processo de recupera\u00e7\u00e3o e estudo dos materiais encontrados sob as \u00e1guas tamb\u00e9m depende de sua natureza. Eles podem ser divididos em, ao menos, quatro categorias, dentre as quais os s\u00edtios de naufr\u00e1gios s\u00e3o os mais conhecidos. \u201cQuando encontrados preservados em contexto, nos permitem conhecer e interpretar aspectos tanto da vida a bordo como tamb\u00e9m das sociedades \u00e0s quais estavam relacionados\u201d, relata Rodrigo de Oliveira Torres. O estudo das cargas, dos itens associados e at\u00e9 mesmo dos pr\u00f3prios cascos das embarca\u00e7\u00f5es pode revelar informa\u00e7\u00f5es sobre arquitetura, economia, cotidiano, cultura e tecnologias. (<strong>Figura 1<\/strong>)<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-10696\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/CC-3E26-reportagem-Memoria-sob-as-aguas-figura-1-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/CC-3E26-reportagem-Memoria-sob-as-aguas-figura-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/CC-3E26-reportagem-Memoria-sob-as-aguas-figura-1-16x12.jpg 16w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/CC-3E26-reportagem-Memoria-sob-as-aguas-figura-1.jpg 720w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-1-sitio-do-naufragio-do-vapor-frances-bretagne-situado-a-cerca-de-350-metros-do-farol-da-barra-em-salvador-ba-foto-ufba-divulgacao\" style=\"text-align: center;\"><strong>Figura 1. S\u00edtio do naufr\u00e1gio do vapor franc\u00eas \u201cBretagne\u201d situado a cerca de 350 metros do Farol da Barra em Salvador (BA).<br \/>\n<\/strong>(Foto. UFBA. Divulga\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Outra categoria relevante s\u00e3o os s\u00edtios terrestres submersos, formados por estruturas originalmente constru\u00eddas em terra ou na beira d\u2019\u00e1gua, como p\u00ederes, cais e antigas instala\u00e7\u00f5es portu\u00e1rias, posteriormente inundadas por processos naturais ou pela a\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>J\u00e1 os s\u00edtios deposit\u00e1rios re\u00fanem materiais descartados, abandonados ou perdidos em ambientes aqu\u00e1ticos, como \u00e2ncoras, cargas e utens\u00edlios. \u201cPode parecer engra\u00e7ado, mas encontrar uma lixeira bem preservada \u00e9 um dos maiores tesouros da arqueologia\u201d, exemplifica o pesquisador. \u201cElas podem nos conectar com aqueles h\u00e1bitos cotidianos, ordin\u00e1rios e mundanos das pessoas, que, muitas vezes, n\u00e3o chegam aos livros de Hist\u00f3ria\u201d, ressalta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"por-meio-da-reconstrucao-digital-de-sitios-e-artefatos-estamos-montando-verdadeiros-museus-virtuais\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cPor meio da reconstru\u00e7\u00e3o digital de s\u00edtios e artefatos, estamos montando verdadeiros museus virtuais.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda os s\u00edtios-santu\u00e1rios, onde objetos foram depositados intencionalmente como parte de pr\u00e1ticas religiosas ou simb\u00f3licas. \u201cEsses contextos podem revelar aspectos importantes das cosmologias, das pr\u00e1ticas de deposi\u00e7\u00e3o ritual e das diferentes formas de atribuir significado aos ambientes aqu\u00e1ticos, ampliando o horizonte da disciplina\u201d, destaca Ialy Cintra Ferreira. A pesquisadora menciona ainda os sambaquis submersos, montes de conchas deixados por popula\u00e7\u00f5es litor\u00e2neas pr\u00e9-hist\u00f3ricas cobertos pela \u00e1gua por conta da varia\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar ao longo dos mil\u00eanios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"patrimonios-culturais-subaquaticos\">Patrim\u00f4nios culturais subaqu\u00e1ticos<\/h4>\n<p>A variedade de vest\u00edgios alimenta o debate sobre como esses materiais devem ser classificados. A <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/unescoportugal.mne.gov.pt\/images\/Comunica%C3%A7%C3%A3o\/convencao_sobre_a_proteccao_do_patrimonio_cultural_subaquatico.pdf\"><strong>Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, a Ci\u00eancia e a Cultura (UNESCO)<\/strong><\/a><\/span> define que todos os tra\u00e7os de exist\u00eancia humana com car\u00e1ter cultural, hist\u00f3rico ou arqueol\u00f3gico, que tenham estado parcial ou totalmente debaixo de \u00e1gua durante, pelo menos, 100 anos, s\u00e3o considerados patrim\u00f4nios culturais subaqu\u00e1ticos, posicionando quaisquer vest\u00edgios que se enquadrem nessas condi\u00e7\u00f5es sob o v\u00e9u da prote\u00e7\u00e3o legal.<\/p>\n<p>Para Gilson Rambelli, arque\u00f3logo subaqu\u00e1tico e professor do Departamento de Arqueologia da <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.ufs.br\/\"><strong>Universidade Federal de Sergipe (UFSE)<\/strong><\/a><\/span>, por\u00e9m, essa descri\u00e7\u00e3o pode ser limitante. \u201cEssa defini\u00e7\u00e3o se tornou um cl\u00e1ssico dentro da conven\u00e7\u00e3o da UNESCO, de 2001, sobre a prote\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio cultural subaqu\u00e1tico, mas, hoje, j\u00e1 se faz arqueologia relacionada \u00e0 Ditadura Militar, \u00e0 Segunda Guerra\u2026 Se pensarmos em 100 anos, isso n\u00e3o se enquadraria\u201d, argumenta.<\/p>\n<p>Ialy Cintra Ferreira concorda e acrescenta que a arqueologia subaqu\u00e1tica n\u00e3o estuda apenas o passado. \u201cEla tamb\u00e9m documenta o presente em constru\u00e7\u00e3o e amplia continuamente nossa compreens\u00e3o sobre as m\u00faltiplas formas de intera\u00e7\u00e3o humana com a \u00e1gua, sejam elas econ\u00f4micas, tecnol\u00f3gicas, sociais ou simb\u00f3licas\u201d, pontua. De acordo com a pesquisadora, h\u00e1, por exemplo, reservat\u00f3rios artificiais que inundaram cidades, estradas e antigas edifica\u00e7\u00f5es em per\u00edodos recentes, que criaram novos contextos arqueol\u00f3gicos e que j\u00e1 despertam interesse cient\u00edfico.<\/p>\n<p>Nesse sentido, Gilson Rambelli explica que outros par\u00e2metros podem ser usados para definir o que deve ou n\u00e3o ser classificado como um patrim\u00f4nio cultural subaqu\u00e1tico. \u201cAl\u00e9m dos crit\u00e9rios t\u00e9cnicos e legais, patrim\u00f4nio \u00e9 algo com que nos identificamos e queremos preservar\u201d, destaca. \u201cO fato de que esses bens se encontrem debaixo d\u2019\u00e1gua n\u00e3o \u00e9, isoladamente, um crit\u00e9rio para definir seu car\u00e1ter de patrim\u00f4nio; \u00e9 preciso terem import\u00e2ncia hist\u00f3rica e cient\u00edfica, representatividade cultural e que sejam reconhecidos como tal\u201d, refor\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-quem-pertencem-os-patrimonios-subaquaticos\">A quem pertencem os patrim\u00f4nios subaqu\u00e1ticos?<\/h4>\n<p>O reconhecimento de um bem como patrim\u00f4nio n\u00e3o encerra as quest\u00f5es que envolvem sua preserva\u00e7\u00e3o. Cercados por uma atmosfera romantizada e aventureira, os patrim\u00f4nios culturais subaqu\u00e1ticos enfrentam a cultura da ca\u00e7a ao tesouro, que traz desafios para o estudo desses s\u00edtios. \u201cInfelizmente, acontecem saques nos s\u00edtios; existe mercado para compra de antiguidades e muitos mergulhadores fazem isso para ganhar dinheiro ou pela simples satisfa\u00e7\u00e3o de ter uma pe\u00e7a em casa\u201d, diz Gilson Rambelli.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-brasil-ainda-nao-conhece-o-brasil-debaixo-dagua\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cO Brasil ainda n\u00e3o conhece o Brasil debaixo d\u2019\u00e1gua.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para o pesquisador, o patrim\u00f4nio cultural n\u00e3o deve pertencer a um indiv\u00edduo, ao museu ou ao mergulhador que o encontra. \u201cPatrim\u00f4nio cultural n\u00e3o tem dono\u201d, explica, ressaltando que esses s\u00e3o achados p\u00fablicos e que devem permanecer sob tutela da Uni\u00e3o. Nesse contexto, ele defende que \u00e9 dever da arqueologia devolver \u00e0 sociedade o conhecimento produzido a partir desses bens. \u201cSe a gente lembrar que s\u00e3o patrim\u00f4nios p\u00fablicos, cada vez que algu\u00e9m saqueia, est\u00e1 cometendo um crime contra a sociedade\u201d, argumenta.<\/p>\n<p>Desde 2001, organismos internacionais, como o\u00a0<span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.icomos.org.br\/\"><strong>Conselho Internacional de Monumentos e S\u00edtios (ICOMOS)<\/strong><\/a> <\/span>e a UNESCO, t\u00eam trabalhado em conjunto para lidar com a ca\u00e7a ao tesouro e a comercializa\u00e7\u00e3o de bens culturais de contexto submersos mundialmente. O tratado, estabelecido h\u00e1 mais de 20 anos, por\u00e9m, ainda n\u00e3o foi ratificado no Brasil.<\/p>\n<p>Mesmo que existam defesas te\u00f3ricas legais, inclusive na Constitui\u00e7\u00e3o Brasileira, Ialy Cintra Ferreira alerta que a prote\u00e7\u00e3o nem sempre \u00e9 eficaz. \u201cExiste uma dist\u00e2ncia entre a prote\u00e7\u00e3o prevista nas normas e a preserva\u00e7\u00e3o efetiva no fundo do mar\u201d, relata.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-futuro-da-arqueologia-subaquatica\">O futuro da arqueologia subaqu\u00e1tica<\/h4>\n<p>Enquanto marcas deixadas sob as \u00e1guas no passado e no presente aguardam novas pesquisas, a arqueologia subaqu\u00e1tica segue em expans\u00e3o. \u201cAcredito que o futuro da arqueologia subaqu\u00e1tica n\u00e3o estar\u00e1 apenas na incorpora\u00e7\u00e3o de novos vest\u00edgios, mas tamb\u00e9m na amplia\u00e7\u00e3o das perguntas que fazemos sobre eles\u201d, afirma Ialy Cintra Ferreira. Ela destaca que os ambientes aqu\u00e1ticos registram at\u00e9 mesmo as transforma\u00e7\u00f5es que est\u00e3o sendo provocadas pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, pela expans\u00e3o urbana no litoral e pelas atividades industriais. Esses vest\u00edgios podem ajudar a compreender as tecnologias empregadas no s\u00e9culo 21 e como a sociedade ocupa, transforma e se relaciona com mares, rios e outros ambientes aqu\u00e1ticos. (<strong>Figura 2<\/strong>)<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-10697\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/CC-3E26-reportagem-Memoria-sob-as-aguas-figura-2-300x199.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"332\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/CC-3E26-reportagem-Memoria-sob-as-aguas-figura-2-300x199.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/CC-3E26-reportagem-Memoria-sob-as-aguas-figura-2-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/CC-3E26-reportagem-Memoria-sob-as-aguas-figura-2.jpg 624w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-2-ilhabela-e-considerada-um-dos-maiores-cemiterios-de-navios-do-brasil-com-mais-de-100-embarcacoes-estimadas-no-fundo-do-mar-entre-os-seculos-xvi-e-xx-foto-prefeitura-de-ilhabela-divulgac\" style=\"text-align: center;\"><strong>Figura 2. Ilhabela \u00e9 considerada um dos maiores cemit\u00e9rios de navios do Brasil, com mais de 100 embarca\u00e7\u00f5es estimadas no fundo do mar entre os s\u00e9culos XVI e XX.<br \/>\n<\/strong>(Foto: Prefeitura de Ilhabela. Divulga\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Rodrigo de Oliveira Torres frisa ainda a import\u00e2ncia de fazer com que os conhecimentos produzidos pela \u00e1rea ultrapassem os muros dos institutos de pesquisa. \u201cPor exemplo, por meio da reconstru\u00e7\u00e3o digital de s\u00edtios e artefatos, estamos montando verdadeiros museus virtuais e aproveitando a linguagem dos videogames para alcan\u00e7ar p\u00fablicos cada vez mais ecl\u00e9ticos\u201d, exemplifica.<\/p>\n<p>Para Gilson Rambelli, ainda h\u00e1 muito a descobrir. \u201cO Brasil ainda n\u00e3o conhece o Brasil debaixo d\u2019\u00e1gua\u201d, diz. Ialy Cintra Ferreira concorda e ressalta que esse conhecimento depende de investimentos cont\u00ednuos em pesquisa, forma\u00e7\u00e3o de especialistas e preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio, al\u00e9m de maior articula\u00e7\u00e3o entre universidades, \u00f3rg\u00e3os de gest\u00e3o e sociedade. \u201cQuanto mais conhecimento for produzido e compartilhado, maiores ser\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es de preservar esse patrim\u00f4nio e compreender a hist\u00f3ria que ele ainda guarda\u201d, conclui.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-estatua-de-macaco-encontrada-a-25-m-de-profundidade-no-mar-no-cearafofo-labomar-instituto-de-ciencias-do-mar-reproducao\"><strong>Capa. Est\u00e1tua de macaco encontrada a 25 m de profundidade no mar no Cear\u00e1<br \/>\n<\/strong>(Fofo: Labomar\/ Instituto de Ci\u00eancias do Mar. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"ciencia-cultura-2022-by-sbpc-is-licensed-under-cc-by-sa-4-0\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a>\u00a0\u00a9 2022 by\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.sbpcnet.org.br\/\">SBPC<\/a>\u00a0is licensed under\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/4.0\/\">CC BY-SA 4.0 \u00a0 <\/a><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/cc.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/by.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/sa.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ao olhar com aten\u00e7\u00e3o e contexto, o fundo das \u00e1guas pode guardar&hellip;\n","protected":false},"author":124,"featured_media":10695,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10694"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/124"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10694"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10694\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10706,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10694\/revisions\/10706"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/10695"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10694"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10694"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10694"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}