{"id":10713,"date":"2026-09-02T07:30:49","date_gmt":"2026-09-02T07:30:49","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=10713"},"modified":"2026-08-31T18:26:30","modified_gmt":"2026-08-31T18:26:30","slug":"a-cientista-que-ensinou-o-rna-a-falar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=10713","title":{"rendered":"A cientista que ensinou o RNA a falar"},"content":{"rendered":"<p>Durante d\u00e9cadas, Katalin Karik\u00f3 insistiu em uma ideia que parecia, para muitos de seus colegas, pouco promissora: usar uma mol\u00e9cula fr\u00e1gil e passageira para ensinar as pr\u00f3prias c\u00e9lulas do corpo a produzir medicamentos. O RNA mensageiro \u2014 ou mRNA \u2014 era inst\u00e1vel, dif\u00edcil de manipular e, quando introduzido artificialmente no organismo, frequentemente despertava uma rea\u00e7\u00e3o indesejada do sistema imunol\u00f3gico. A pesquisadora passou anos tentando resolver esse problema, mesmo quando perdeu financiamentos, foi rebaixada de cargo e ouviu que n\u00e3o tinha qualidade suficiente para seguir na carreira acad\u00eamica. Quando a pandemia de Covid-19 chegou, em 2020, aquela pesquisa aparentemente marginal j\u00e1 continha uma das chaves para o desenvolvimento, em tempo recorde, de vacinas capazes de salvar milh\u00f5es de vidas.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"uma-mensagem-dentro-da-celula\">Uma mensagem dentro da c\u00e9lula<\/h4>\n<p>Para entender a dimens\u00e3o da descoberta, \u00e9 preciso voltar ao funcionamento b\u00e1sico das c\u00e9lulas. O DNA guarda grande parte das instru\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas necess\u00e1rias \u00e0 vida, mas n\u00e3o circula livremente pelo organismo distribuindo ordens. Entre o gene e a prote\u00edna existe um intermedi\u00e1rio: o RNA mensageiro. Sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 transportar temporariamente a informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica que ser\u00e1 lida pela maquinaria celular para produzir prote\u00ednas.<\/p>\n<p>As prote\u00ednas est\u00e3o envolvidas em praticamente todos os processos biol\u00f3gicos: formam estruturas, aceleram rea\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas, transmitem sinais e participam da defesa do organismo. Katalin Karik\u00f3 percebeu, ainda no in\u00edcio de sua carreira, que o RNA mensageiro poderia ser usado como uma esp\u00e9cie de instru\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria. Em vez de alterar permanentemente o DNA de uma pessoa, seria poss\u00edvel introduzir um RNA contendo a receita para produzir uma prote\u00edna espec\u00edfica durante determinado per\u00edodo.<\/p>\n<p>A ideia tinha enorme potencial. Em princ\u00edpio, uma mesma plataforma poderia ser adaptada para diferentes finalidades: estimular a produ\u00e7\u00e3o de prote\u00ednas ausentes em determinadas doen\u00e7as, preparar o sistema imunol\u00f3gico contra um agente infeccioso ou, no futuro, ajudar o organismo a reconhecer caracter\u00edsticas espec\u00edficas de tumores. Mas havia um obst\u00e1culo fundamental. O organismo n\u00e3o recebia o RNA sint\u00e9tico como uma simples mensagem.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"quando-o-corpo-desconfia-da-mensagem\">Quando o corpo desconfia da mensagem<\/h4>\n<p>O sistema imunol\u00f3gico \u00e9 especializado em reconhecer sinais de perigo. V\u00edrus, por exemplo, utilizam diferentes tipos de RNA durante seu ciclo de reprodu\u00e7\u00e3o, e as c\u00e9lulas desenvolveram mecanismos capazes de detectar mol\u00e9culas que pare\u00e7am estranhas ou associadas a infec\u00e7\u00f5es. Assim, quando os pesquisadores introduziam RNA mensageiro produzido artificialmente, o organismo podia interpret\u00e1-lo como uma amea\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-vacina-que-parecia-ter-surgido-em-tempo-recorde-era-na-verdade-o-resultado-de-decadas-de-pesquisa-acumulada\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u00a0\u201cA vacina que parecia ter surgido em tempo recorde era, na verdade, o resultado de d\u00e9cadas de pesquisa acumulada.\u201d <\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O resultado era uma resposta inflamat\u00f3ria intensa, capaz de comprometer a efic\u00e1cia e a seguran\u00e7a da estrat\u00e9gia. Em vez de simplesmente entrar nas c\u00e9lulas e orientar a produ\u00e7\u00e3o de uma prote\u00edna, o RNA podia ser rapidamente atacado ou provocar uma rea\u00e7\u00e3o imunol\u00f3gica excessiva. Era justamente esse impasse que tornava a tecnologia t\u00e3o promissora quanto frustrante.<\/p>\n<p>Katalin Karik\u00f3 nasceu em 1955, em Szolnok, na Hungria, e come\u00e7ou a trabalhar com RNA ainda no in\u00edcio de sua carreira cient\u00edfica. Formou-se na Universidade de Szeged e concluiu o doutorado em bioqu\u00edmica em 1982. Mais tarde, diante da perda de financiamento em seu laborat\u00f3rio, mudou-se com a fam\u00edlia para os Estados Unidos, levando consigo pouco dinheiro e uma convic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que se mostraria muito mais resistente do que sua posi\u00e7\u00e3o profissional.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"anos-de-insistencia\">Anos de insist\u00eancia<\/h4>\n<p>Nos Estados Unidos, Katalin Karik\u00f3 passou pela Temple University e, em 1989, chegou \u00e0 Universidade da Pensilv\u00e2nia. Ali, dedicou-se cada vez mais \u00e0 ideia de transformar o RNA mensageiro em uma ferramenta terap\u00eautica. A aposta, por\u00e9m, n\u00e3o encontrava muitos entusiastas. O RNA era visto como uma mol\u00e9cula inst\u00e1vel, dif\u00edcil de transportar e pouco adequada para aplica\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-10714\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/HC-Katalin-Kariko-fig1.jpg\" alt=\"\" width=\"498\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/HC-Katalin-Kariko-fig1.jpg 299w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/HC-Katalin-Kariko-fig1-150x150.jpg 150w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/HC-Katalin-Kariko-fig1-12x12.jpg 12w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/HC-Katalin-Kariko-fig1-80x80.jpg 80w\" sizes=\"(max-width: 498px) 100vw, 498px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-1-katalin-kariko-no-laboratorio-da-temple-university-1989-foto-biblioteca-klebelsberg-da-universidade-de-szeged-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><strong>Figura 1. Katalin Karik\u00f3 no laborat\u00f3rio da Temple University, 1989<\/strong> (Foto: Biblioteca Klebelsberg da Universidade de Szeged. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A pesquisadora enfrentou dificuldades para obter recursos e avan\u00e7ar na carreira acad\u00eamica. Em determinado momento, foi rebaixada de cargo, mas continuou trabalhando no laborat\u00f3rio. Anos depois, lembraria que simplesmente seguiu em frente, como se nada tivesse acontecido. Sua persist\u00eancia, contudo, n\u00e3o significava trabalhar sozinha para sempre.<\/p>\n<p>No final dos anos 1990, um encontro aparentemente banal mudaria a trajet\u00f3ria da pesquisa. Katalin Karik\u00f3 conheceu o imunologista Drew Weissman, tamb\u00e9m pesquisador da Universidade da Pensilv\u00e2nia. Os dois tinham conhecimentos complementares: ela dominava a bioqu\u00edmica do RNA; ele estudava o funcionamento do sistema imunol\u00f3gico e buscava novas estrat\u00e9gias para o desenvolvimento de vacinas.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"o-encontro-que-mudou-a-pesquisa\">O encontro que mudou a pesquisa<\/h4>\n<p>A parceria levou os dois cientistas diretamente ao principal problema da tecnologia. Se o RNA mensageiro poderia ensinar as c\u00e9lulas a fabricar uma prote\u00edna, como evitar que o sistema imunol\u00f3gico destru\u00edsse a mensagem antes que ela fosse compreendida?<\/p>\n<p>Os experimentos mostravam que diferentes tipos de RNA podiam provocar respostas imunol\u00f3gicas muito distintas. Karik\u00f3 e Weissman passaram anos investigando por que algumas mol\u00e9culas eram reconhecidas como sinais de perigo enquanto outras conseguiam circular de maneira mais discreta pelo organismo.<\/p>\n<p>A resposta estava em um detalhe qu\u00edmico aparentemente pequeno, mas biologicamente decisivo. O RNA n\u00e3o \u00e9 apenas uma sequ\u00eancia abstrata de letras. Suas bases nucleos\u00eddicas podem apresentar modifica\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas, e essas diferen\u00e7as ajudam as c\u00e9lulas a distinguir mol\u00e9culas produzidas naturalmente pelo organismo de mol\u00e9culas associadas a agentes invasores.<\/p>\n<p>Em 2005, Karik\u00f3 e Weissman publicaram um trabalho mostrando que a modifica\u00e7\u00e3o de determinados nucleos\u00eddeos do RNA sint\u00e9tico podia reduzir drasticamente a resposta inflamat\u00f3ria desencadeada pelo organismo. Uma dessas modifica\u00e7\u00f5es envolvia a substitui\u00e7\u00e3o da uridina por uma vers\u00e3o modificada, a pseudouridina. A altera\u00e7\u00e3o ajudava o RNA a escapar de parte do sistema de vigil\u00e2ncia imunol\u00f3gica e permitia uma produ\u00e7\u00e3o mais eficiente da prote\u00edna desejada.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"uma-pequena-mudanca-uma-grande-consequencia\">Uma pequena mudan\u00e7a, uma grande consequ\u00eancia<\/h4>\n<p>A descoberta n\u00e3o significava simplesmente trocar uma \u201cletra\u201d por outra, como \u00e0s vezes se descreve de forma simplificada. O avan\u00e7o estava na modifica\u00e7\u00e3o qu\u00edmica de componentes do RNA, alterando a maneira como essa mol\u00e9cula era reconhecida pelos sensores do sistema imunol\u00f3gico. Com isso, o RNA mensageiro sint\u00e9tico passou a provocar menos inflama\u00e7\u00e3o indesejada e, ao mesmo tempo, tornou-se mais eficiente para a produ\u00e7\u00e3o de prote\u00ednas.<\/p>\n<p>Karik\u00f3 e Weissman descobriram que uma pequena modifica\u00e7\u00e3o qu\u00edmica podia mudar radicalmente a forma como o organismo respondia ao RNA sint\u00e9tico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"durante-decadas-kariko-insistiu-em-uma-molecula-que-muitos-consideravam-instavel-demais-para-mudar-a-medicina\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u00a0\u201cDurante d\u00e9cadas, Karik\u00f3 insistiu em uma mol\u00e9cula que muitos consideravam inst\u00e1vel demais para mudar a medicina.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O trabalho resolvia um dos principais obst\u00e1culos que haviam limitado, durante d\u00e9cadas, o uso terap\u00eautico do RNA mensageiro. Em pesquisas posteriores, outras inova\u00e7\u00f5es \u2014 incluindo avan\u00e7os na formula\u00e7\u00e3o e no transporte do RNA para dentro das c\u00e9lulas \u2014 ajudariam a transformar esse conhecimento b\u00e1sico em uma plataforma tecnol\u00f3gica capaz de gerar produtos m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, por\u00e9m, o impacto da publica\u00e7\u00e3o de 2005 foi muito menor do que seus autores esperavam. A dupla imaginava que a descoberta despertaria imediatamente o interesse de empresas e pesquisadores. N\u00e3o aconteceu. A pesquisa continuou relativamente distante dos grandes holofotes cient\u00edficos, enquanto Katalin Karik\u00f3 enfrentava novas dificuldades em sua trajet\u00f3ria profissional.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"a-ciencia-que-demorou-a-ser-ouvida\">A ci\u00eancia que demorou a ser ouvida<\/h4>\n<p>Em 2013, depois de anos na Universidade da Pensilv\u00e2nia, a pesquisadora deixou a institui\u00e7\u00e3o e iniciou uma nova fase na empresa de biotecnologia BioNTech. A mudan\u00e7a aproximou sua pesquisa de um ambiente no qual a ideia de transformar o RNA mensageiro em produtos m\u00e9dicos era levada a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>O princ\u00edpio, por\u00e9m, permanecia o mesmo que a pesquisadora havia perseguido durante d\u00e9cadas: em vez de introduzir diretamente uma prote\u00edna no organismo, seria poss\u00edvel entregar \u00e0s c\u00e9lulas as instru\u00e7\u00f5es para que elas pr\u00f3prias a produzissem. A plataforma de RNA mensageiro poderia, em teoria, ser rapidamente adaptada. Bastava modificar a sequ\u00eancia da mensagem de acordo com a prote\u00edna que se desejava produzir.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-10715\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/HC-Katalin-Kariko-fig2-300x198.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"330\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/HC-Katalin-Kariko-fig2-300x198.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/HC-Katalin-Kariko-fig2-768x507.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/HC-Katalin-Kariko-fig2-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/HC-Katalin-Kariko-fig2-800x528.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/HC-Katalin-Kariko-fig2.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-2-katalin-kariko-no-laboratorio-de-pesquisa-da-universidade-da-pensilvania-2005-foto-biblioteca-klebelsberg-da-universidade-de-szeged-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><strong>Figura 2. Katalin Karik\u00f3 no laborat\u00f3rio de pesquisa da Universidade da Pensilv\u00e2nia, 2005.<\/strong> (Foto: Biblioteca Klebelsberg da Universidade de Szeged. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Foi essa caracter\u00edstica que se revelaria decisiva quando um novo coronav\u00edrus come\u00e7ou a se espalhar pelo mundo. Em janeiro de 2020, a sequ\u00eancia gen\u00e9tica do SARS-CoV-2 foi disponibilizada publicamente. Cientistas puderam identificar uma das principais prote\u00ednas do v\u00edrus usadas como alvo para o desenvolvimento de vacinas: a prote\u00edna spike.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, a l\u00f3gica da plataforma permitia construir rapidamente uma sequ\u00eancia de mRNA contendo as instru\u00e7\u00f5es para produzir uma vers\u00e3o da prote\u00edna viral. O organismo, ent\u00e3o, utilizaria temporariamente essa mensagem para fabricar a prote\u00edna e treinar o sistema imunol\u00f3gico a reconhec\u00ea-la, sem que fosse necess\u00e1rio introduzir o v\u00edrus capaz de causar a doen\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"quando-a-pandemia-encontrou-quarenta-anos-de-pesquisa\">Quando a pandemia encontrou quarenta anos de pesquisa<\/h4>\n<p>A rapidez com que as vacinas de RNA mensageiro chegaram aos testes cl\u00ednicos e, posteriormente, \u00e0 popula\u00e7\u00e3o mundial n\u00e3o foi resultado de uma tecnologia criada do zero durante a pandemia. Ela foi poss\u00edvel porque d\u00e9cadas de pesquisas anteriores haviam constru\u00eddo os conhecimentos necess\u00e1rios sobre biologia molecular, imunologia, RNA sint\u00e9tico e sistemas de entrega, como as nanopart\u00edculas lip\u00eddicas que ajudam a transportar o mRNA para dentro das c\u00e9lulas.<\/p>\n<p>A vacina que parecia ter surgido em tempo recorde era, na verdade, o resultado de d\u00e9cadas de pesquisa acumulada.<\/p>\n<p>As descobertas de Karik\u00f3 e Weissman resolveram uma parte essencial dessa hist\u00f3ria: como tornar o RNA mensageiro sint\u00e9tico mais toler\u00e1vel e eficiente no organismo. Empresas como BioNTech e Moderna combinaram esse conhecimento com outras tecnologias e plataformas de desenvolvimento para produzir vacinas contra a Covid-19 em uma velocidade sem precedentes.<\/p>\n<p>Em 2023, quase duas d\u00e9cadas depois da publica\u00e7\u00e3o que inicialmente despertou pouco interesse, Karik\u00f3 e Weissman receberam o Pr\u00eamio Nobel de Fisiologia ou Medicina. A Assembleia do Nobel reconheceu as descobertas sobre modifica\u00e7\u00f5es de bases nucleos\u00eddicas que possibilitaram o desenvolvimento de vacinas eficazes de mRNA contra a Covid-19.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"muito-alem-da-covid-19\">Muito al\u00e9m da Covid-19<\/h4>\n<p>A pandemia tornou a tecnologia conhecida do grande p\u00fablico, mas n\u00e3o encerrou sua hist\u00f3ria. O RNA mensageiro continua sendo investigado para outras doen\u00e7as infecciosas e para diferentes aplica\u00e7\u00f5es terap\u00eauticas. Uma das \u00e1reas mais promissoras \u00e9 a oncologia, com pesquisas que buscam desenvolver vacinas personalizadas capazes de apresentar ao sistema imunol\u00f3gico caracter\u00edsticas espec\u00edficas de determinados tumores.<\/p>\n<p>O princ\u00edpio \u00e9 semelhante: utilizar o RNA como uma mensagem tempor\u00e1ria. A diferen\u00e7a est\u00e1 no conte\u00fado. Em vez de instru\u00e7\u00f5es relacionadas a uma prote\u00edna de um v\u00edrus, a sequ\u00eancia pode carregar informa\u00e7\u00f5es sobre prote\u00ednas associadas \u00e0s c\u00e9lulas tumorais, ajudando o sistema imunol\u00f3gico a reconhec\u00ea-las como alvos.<\/p>\n<p>Os resultados dessas pesquisas ainda dependem de estudos cl\u00ednicos e n\u00e3o significam que exista uma solu\u00e7\u00e3o universal para o c\u00e2ncer. Mas mostram por que o trabalho de Katalin Karik\u00f3 ultrapassou a pandemia. A transforma\u00e7\u00e3o do RNA mensageiro em uma plataforma m\u00e9dica abriu possibilidades para desenvolver tratamentos e vacinas de maneira mais flex\u00edvel, adaptando a mensagem gen\u00e9tica ao problema que se deseja enfrentar.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"a-persistencia-por-tras-da-descoberta\">A persist\u00eancia por tr\u00e1s da descoberta<\/h4>\n<p>A hist\u00f3ria de Katalin Karik\u00f3 tamb\u00e9m se tornou um s\u00edmbolo de algo menos vis\u00edvel nos grandes an\u00fancios cient\u00edficos: descobertas transformadoras raramente seguem uma trajet\u00f3ria linear. Entre a ideia inicial e o reconhecimento do Nobel houve experi\u00eancias fracassadas, falta de financiamento, perda de posi\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e anos de trabalho em uma \u00e1rea que muitos consideravam pouco promissora.<\/p>\n<p>Durante d\u00e9cadas, Karik\u00f3 insistiu em uma mol\u00e9cula que muitos consideravam inst\u00e1vel demais para mudar a medicina.<\/p>\n<p>Talvez seja essa a dimens\u00e3o mais reveladora de sua descoberta. A ci\u00eancia que ajudou a enfrentar uma emerg\u00eancia sanit\u00e1ria global n\u00e3o nasceu da previs\u00e3o de uma pandemia nem de uma corrida repentina por uma vacina. Nasceu da investiga\u00e7\u00e3o persistente de uma pergunta b\u00e1sica: por que o corpo rejeita uma mol\u00e9cula de RNA produzida artificialmente e como podemos mudar isso?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-katalin-kariko-durante-discurso-de-agradecimento-no-premio-nobel-foto-clement-morin-nobel-prize-outreach-reproducao\"><strong>Capa. Katalin Karik\u00f3 durante discurso de agradecimento no Pr\u00eamio Nobel.<\/strong> (Foto: Cl\u00e9ment Morin\/ Nobel Prize Outreach. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"ciencia-cultura-2022-by-sbpc-is-licensed-under-cc-by-sa-4-0\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a>\u00a0\u00a9 2022 by\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.sbpcnet.org.br\/\">SBPC<\/a>\u00a0is licensed under\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/4.0\/\">CC BY-SA 4.0 \u00a0 <\/a><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/cc.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/by.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/sa.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Durante d\u00e9cadas, Katalin Karik\u00f3 insistiu em uma ideia que parecia, para muitos&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":10716,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10713"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10713"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10713\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10726,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10713\/revisions\/10726"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/10716"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10713"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10713"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10713"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}