{"id":10772,"date":"2026-09-17T07:30:21","date_gmt":"2026-09-17T07:30:21","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=10772"},"modified":"2026-09-14T11:58:34","modified_gmt":"2026-09-14T11:58:34","slug":"por-que-o-chocolate-e-tao-irresistivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=10772","title":{"rendered":"Por que o chocolate \u00e9 t\u00e3o irresist\u00edvel?"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0s vezes, basta abrir uma embalagem para que o c\u00e9rebro pare\u00e7a tomar uma decis\u00e3o antes mesmo de a primeira mordida chegar \u00e0 boca. O aroma, a textura cremosa, o sabor doce e a lembran\u00e7a de momentos agrad\u00e1veis formam uma combina\u00e7\u00e3o poderosa. O chocolate \u00e9 capaz de despertar desejo, prazer e a vontade de repetir a experi\u00eancia \u2014 fen\u00f4meno que h\u00e1 d\u00e9cadas intriga pesquisadores. Mas ser\u00e1 que isso significa que ele pode realmente causar depend\u00eancia? A resposta \u00e9 mais complexa do que parece e envolve uma mistura de qu\u00edmica, neuroci\u00eancia, comportamento e at\u00e9 f\u00edsica.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"o-alimento-dos-deuses\">O alimento dos deuses<\/h4>\n<p>O pr\u00f3prio nome cient\u00edfico do cacau j\u00e1 d\u00e1 uma pista sobre o fasc\u00ednio que ele exerce. A \u00e1rvore que produz o fruto \u00e9 chamada <em>Theobroma cacao<\/em>, express\u00e3o de origem grega que significa \u201calimento dos deuses\u201d. O cacau est\u00e1 na origem de uma das prepara\u00e7\u00f5es alimentares mais apreciadas do mundo e, ao longo da hist\u00f3ria, foi associado a prazer, celebra\u00e7\u00e3o e at\u00e9 propriedades afrodis\u00edacas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-10775\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/CD-Por-que-o-chocolate-e-tao-irresistivel-fig-1-300x189.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"314\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/CD-Por-que-o-chocolate-e-tao-irresistivel-fig-1-300x189.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/CD-Por-que-o-chocolate-e-tao-irresistivel-fig-1-1024x644.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/CD-Por-que-o-chocolate-e-tao-irresistivel-fig-1-768x483.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/CD-Por-que-o-chocolate-e-tao-irresistivel-fig-1-1536x966.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/CD-Por-que-o-chocolate-e-tao-irresistivel-fig-1-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/CD-Por-que-o-chocolate-e-tao-irresistivel-fig-1-800x503.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/CD-Por-que-o-chocolate-e-tao-irresistivel-fig-1-1160x729.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/CD-Por-que-o-chocolate-e-tao-irresistivel-fig-1.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-1-foto-de-andriyko-podilnyk-na-unsplash-reproducao\" style=\"text-align: center;\">Figura 1. Foto de <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/pt-br\/@andriyko?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText\">Andriyko Podilnyk<\/a> na <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/pt-br\/fotografias\/mulher-comendo-chocolate-LF4I7YkT_TU?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText\">Unsplash<\/a>. Reprodu\u00e7\u00e3o<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O encanto, por\u00e9m, n\u00e3o est\u00e1 concentrado em uma \u00fanica subst\u00e2ncia. O chocolate cont\u00e9m centenas de compostos qu\u00edmicos, e o cacau \u00e9 fonte de mol\u00e9culas que podem influenciar o organismo. Entre elas est\u00e3o a teobromina, a cafe\u00edna, a feniletilamina e diferentes flavonoides. O chocolate tamb\u00e9m re\u00fane a\u00e7\u00facar e gordura em propor\u00e7\u00f5es que contribuem fortemente para sua palatabilidade. De acordo com o <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.nigms.nih.gov\/home\">National Institute of General Medical Sciences (NIGMS)<\/a><\/strong><\/span>, o chocolate cont\u00e9m mais de 800 compostos qu\u00edmicos, embora apenas uma pequena parcela deles tenha sido estudada em rela\u00e7\u00e3o aos seus efeitos.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente essa combina\u00e7\u00e3o que ajuda a explicar por que o chocolate n\u00e3o deve ser analisado apenas como uma fonte de mol\u00e9culas capazes de produzir efeitos no c\u00e9rebro. A experi\u00eancia de comer \u00e9 multissensorial: envolve sabor, aroma, temperatura, textura, expectativas e mem\u00f3rias. Estudos sobre o chamado \u201c<em>craving<\/em>\u201d, ou desejo intenso por determinado alimento, indicam que as caracter\u00edsticas sensoriais do chocolate \u2014 especialmente a combina\u00e7\u00e3o de gordura, a\u00e7\u00facar, textura e aroma \u2014 s\u00e3o importantes para explicar sua atra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"quando-o-cerebro-diz-quero-mais\">Quando o c\u00e9rebro diz \u201cquero mais\u201d<\/h4>\n<p>O sistema nervoso participa ativamente dessa experi\u00eancia. Um <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.science.org\/content\/article\/your-brain-chocolate?utm_source=chatgpt.com\">estudo publicado na revista <em>Science<\/em><\/a><\/strong> <\/span>em 2001 investigou altera\u00e7\u00f5es na atividade cerebral durante o consumo de chocolate. Os participantes foram levados a consumir o alimento at\u00e9 chegar ao ponto de repulsa, permitindo aos pesquisadores observar como o c\u00e9rebro respondia quando uma experi\u00eancia inicialmente prazerosa passava a ser desagrad\u00e1vel. A pesquisa mostrou diferen\u00e7as na ativa\u00e7\u00e3o de regi\u00f5es relacionadas ao processamento de recompensa, emo\u00e7\u00e3o e saciedade.<\/p>\n<p>Quando o chocolate era desejado, regi\u00f5es envolvidas na motiva\u00e7\u00e3o e no processamento da recompensa, como o mesenc\u00e9falo e a \u00ednsula, eram ativadas. \u00c0 medida que o consumo prosseguia e a sensa\u00e7\u00e3o de prazer dava lugar \u00e0 saciedade e ao desconforto, outras \u00e1reas, incluindo regi\u00f5es pr\u00e9-frontais, passavam a participar mais intensamente do processamento. O resultado ajuda a ilustrar uma distin\u00e7\u00e3o fundamental da neuroci\u00eancia da alimenta\u00e7\u00e3o: \u201cquerer\u201d um alimento e \u201cgostar\u201d dele n\u00e3o s\u00e3o necessariamente a mesma coisa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-cerebro-nao-responde-apenas-ao-alimento-que-esta-na-boca-mas-tambem-as-expectativas-e-as-associacoes-construidas-ao-longo-da-vida\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u00a0\u201cO c\u00e9rebro n\u00e3o responde apenas ao alimento que est\u00e1 na boca, mas tamb\u00e9m \u00e0s expectativas e \u00e0s associa\u00e7\u00f5es constru\u00eddas ao longo da vida.\u201d <\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa diferen\u00e7a tamb\u00e9m aparece em estudos experimentais envolvendo os chamados sistemas opioides end\u00f3genos. Em 2012, <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/23000149\/?utm_source=chatgpt.com\">pesquisadores da Universidade de Michigan<\/a><\/strong><\/span> observaram, em ratos, que o acesso a chocolate palat\u00e1vel provocava aumento de encefalinas \u2014 pept\u00eddeos produzidos naturalmente pelo organismo que atuam em receptores opioides. Quando os pesquisadores estimularam experimentalmente esses receptores em uma regi\u00e3o espec\u00edfica do neoestriado dorsal, os animais passaram a consumir muito mais alimento palat\u00e1vel.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 importante, mas precisa ser interpretado com cuidado. O estudo foi realizado em animais e n\u00e3o demonstra que seres humanos se tornam \u201cviciados em chocolate\u201d pelo mesmo mecanismo. Ele mostra, sim, que circuitos opioides do c\u00e9rebro participam da motiva\u00e7\u00e3o para consumir alimentos muito palat\u00e1veis. A pr\u00f3pria pesquisa distinguiu o aumento do \u201cquerer\u201d \u2014 a motiva\u00e7\u00e3o para consumir \u2014 do \u201cgostar\u201d, relacionado \u00e0 intensidade do prazer produzido pelo sabor.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"a-quimica-do-prazer\">A qu\u00edmica do prazer<\/h4>\n<p>Entre os componentes do cacau est\u00e1 a teobromina, um alcaloide quimicamente semelhante \u00e0 cafe\u00edna e encontrado em maior concentra\u00e7\u00e3o no cacau do que em caf\u00e9 ou ch\u00e1. O chocolate tamb\u00e9m cont\u00e9m cafe\u00edna, e a combina\u00e7\u00e3o das duas subst\u00e2ncias pode contribuir para uma pequena sensa\u00e7\u00e3o de est\u00edmulo ap\u00f3s o consumo. Os efeitos, entretanto, s\u00e3o relativamente modestos nas quantidades normalmente ingeridas.<\/p>\n<p>Outro composto frequentemente associado ao chocolate \u00e9 a feniletilamina, que j\u00e1 foi chamada de \u201csubst\u00e2ncia do amor\u201d por sua rela\u00e7\u00e3o com mecanismos de recompensa. Embora essa mol\u00e9cula possa provocar libera\u00e7\u00e3o de dopamina em determinadas condi\u00e7\u00f5es, existe uma ressalva importante: quando ingerida no chocolate, ela \u00e9 metabolizada pelo organismo antes de alcan\u00e7ar o c\u00e9rebro em quantidade suficiente para produzir os efeitos frequentemente atribu\u00eddos a ela. Portanto, a ideia de que a feniletilamina do chocolate seja diretamente respons\u00e1vel pela sensa\u00e7\u00e3o de paix\u00e3o ou euforia \u00e9 uma simplifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O chocolate tamb\u00e9m cont\u00e9m anandamida, uma mol\u00e9cula relacionada ao sistema endocanabinoide. Seu nome deriva do s\u00e2nscrito <em>ananda<\/em>, associado a \u201calegria\u201d, \u201cfelicidade\u201d e \u201cprazer\u201d. A presen\u00e7a de compostos que interagem com sistemas relacionados \u00e0 recompensa ajudou a alimentar a hip\u00f3tese de que o chocolate possuiria propriedades semelhantes \u00e0s da cannabis. No entanto, novamente, \u00e9 preciso separar a presen\u00e7a de uma mol\u00e9cula de seus efeitos efetivos no organismo: as concentra\u00e7\u00f5es e a forma como essas subst\u00e2ncias s\u00e3o metabolizadas fazem toda a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>A serotonina \u00e9 outro personagem recorrente nessa hist\u00f3ria. O chocolate e os carboidratos s\u00e3o frequentemente associados ao neurotransmissor que participa da regula\u00e7\u00e3o do humor, mas n\u00e3o \u00e9 correto concluir que comer chocolate simplesmente \u201creabastece\u201d a serotonina cerebral. A rela\u00e7\u00e3o entre alimenta\u00e7\u00e3o, triptofano, serotonina e humor \u00e9 fisiologicamente complexa, e os efeitos r\u00e1pidos atribu\u00eddos ao chocolate n\u00e3o podem ser explicados apenas por esse mecanismo. Revis\u00f5es da literatura indicam que outros componentes e, principalmente, as caracter\u00edsticas sensoriais e a combina\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar e gordura t\u00eam papel importante no desejo pelo alimento.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"a-irresistivel-textura\">A irresist\u00edvel textura<\/h4>\n<p>Se a qu\u00edmica explica apenas parte da hist\u00f3ria, a f\u00edsica ajuda a completar o quebra-cabe\u00e7a. Quando um peda\u00e7o de chocolate entra na boca, o calor e a saliva transformam sua estrutura. A gordura participa quase imediatamente desse processo e ajuda a formar uma pel\u00edcula que recobre a l\u00edngua e outras superf\u00edcies da boca. \u00c9 essa lubrifica\u00e7\u00e3o que contribui para a caracter\u00edstica sensa\u00e7\u00e3o de suavidade e derretimento associada ao chocolate.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-10774\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/CD-Por-que-o-chocolate-e-tao-irresistivel-fig-2-200x300.jpg\" alt=\"\" width=\"333\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/CD-Por-que-o-chocolate-e-tao-irresistivel-fig-2-200x300.jpg 200w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/CD-Por-que-o-chocolate-e-tao-irresistivel-fig-2-8x12.jpg 8w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/CD-Por-que-o-chocolate-e-tao-irresistivel-fig-2.jpg 640w\" sizes=\"(max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-2-foto-de-tetiana-bykovets-na-unsplash\" style=\"text-align: center;\">Figura 2. Foto de <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/pt-br\/@tetiana_bykovets?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText\">Tetiana Bykovets<\/a> na <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/pt-br\/fotografias\/barra-de-chocolate-na-superficie-branca-2SoEaPFcEt4?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText\">Unsplash<\/a><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.leeds.ac.uk\/news-science\/news\/article\/5228\/why-chocolate-feels-so-good-it-s-down-to-lubrication?utm_source=chatgpt.com\"><span style=\"color: #800000;\">Pesquisadores da Universidade de Leeds<\/span><\/a><\/strong> estudaram esse processo usando uma superf\u00edcie artificial semelhante a uma l\u00edngua humana tridimensional e t\u00e9cnicas de tribologia \u2014 \u00e1rea da engenharia que investiga o atrito e a lubrifica\u00e7\u00e3o entre superf\u00edcies. O trabalho mostrou que a gordura localizada na superf\u00edcie do chocolate desempenha papel especialmente importante nos est\u00e1gios iniciais da experi\u00eancia na boca.<\/p>\n<p>A descoberta abre uma possibilidade interessante para a ind\u00fastria aliment\u00edcia. Segundo os pesquisadores, se a sensa\u00e7\u00e3o cremosa depende principalmente de como a gordura se distribui e interage com a l\u00edngua, e n\u00e3o necessariamente da quantidade total de gordura presente no interior do chocolate, seria poss\u00edvel desenvolver produtos que preservem a textura desejada utilizando menos gordura.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"entre-prazer-e-vicio\">Entre prazer e \u201cv\u00edcio\u201d<\/h4>\n<p>Mas onde termina o prazer e come\u00e7a o v\u00edcio? A express\u00e3o \u201cchoc\u00f3latra\u201d ou \u201cchoco\u00f3lico\u201d \u00e9 popular para descrever quem sente uma atra\u00e7\u00e3o particularmente intensa pelo alimento, mas ela n\u00e3o significa, por si s\u00f3, que exista uma depend\u00eancia qu\u00edmica equivalente \u00e0 provocada por \u00e1lcool, nicotina ou outras drogas. A literatura cient\u00edfica reconhece que algumas pessoas podem apresentar padr\u00f5es de desejo e consumo compulsivo de alimentos altamente palat\u00e1veis, mas a ideia de que o chocolate isoladamente seja uma subst\u00e2ncia capaz de causar depend\u00eancia continua sendo objeto de debate.<\/p>\n<p>Parte importante desse comportamento pode estar justamente na combina\u00e7\u00e3o entre a\u00e7\u00facar e gordura. Esses nutrientes, quando reunidos em alimentos muito palat\u00e1veis, ativam circuitos cerebrais associados \u00e0 recompensa e podem refor\u00e7ar a motiva\u00e7\u00e3o para comer. Soma-se a isso a experi\u00eancia sensorial: o chocolate derrete na boca, produz uma textura caracter\u00edstica, libera aromas e sabores e pode estar associado a mem\u00f3rias afetivas. Assim, o desejo por mais um peda\u00e7o n\u00e3o precisa ser explicado por uma \u00fanica \u201csubst\u00e2ncia viciante\u201d, mas por uma complexa intera\u00e7\u00e3o entre c\u00e9rebro, alimento, contexto e comportamento.<\/p>\n<p>Isso ajuda a explicar tamb\u00e9m por que o mesmo alimento pode provocar experi\u00eancias muito diferentes. Uma pessoa pode comer um quadrado de chocolate e sentir-se satisfeita; outra pode continuar procurando mais mesmo depois de j\u00e1 ter consumido uma quantidade grande. Fatores individuais, h\u00e1bitos alimentares, estado emocional, contexto social e exposi\u00e7\u00e3o repetida a alimentos altamente palat\u00e1veis participam dessa equa\u00e7\u00e3o. O c\u00e9rebro n\u00e3o responde apenas ao alimento que est\u00e1 na boca, mas tamb\u00e9m \u00e0s expectativas e \u00e0s associa\u00e7\u00f5es constru\u00eddas ao longo da vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-que-chamamos-de-irresistibilidade-e-na-realidade-uma-experiencia-construida-por-varias-camadas-do-modo-como-a-gordura-se-espalha-sobre-a-lingua-aos-circuitos-cerebrais-que\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u00a0\u201cO que chamamos de irresistibilidade \u00e9, na realidade, uma experi\u00eancia constru\u00edda por v\u00e1rias camadas \u2014 do modo como a gordura se espalha sobre a l\u00edngua aos circuitos cerebrais que transformam sabor em recompensa.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No fim, talvez o maior segredo do chocolate esteja justamente em n\u00e3o haver um \u00fanico segredo. O prazer nasce do encontro entre a qu\u00edmica do cacau, a presen\u00e7a de a\u00e7\u00facar e gordura, a transforma\u00e7\u00e3o f\u00edsica que ocorre na boca, os circuitos cerebrais de recompensa e as experi\u00eancias pessoais associadas ao alimento. Alguns compostos podem contribuir para seus efeitos, mas nenhum deles, isoladamente, parece explicar por que uma simples barra pode ser t\u00e3o dif\u00edcil de resistir. A ci\u00eancia, portanto, n\u00e3o elimina o encanto do chocolate \u2014 apenas revela que, por tr\u00e1s de cada quadradinho, existe uma sofisticada conversa entre mol\u00e9culas, sentidos e c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>E h\u00e1 uma \u00faltima ironia: quanto mais aprendemos sobre o prazer proporcionado pelo chocolate, menos parece poss\u00edvel atribu\u00ed-lo a uma \u00fanica mol\u00e9cula \u201cm\u00e1gica\u201d. O que chamamos de irresistibilidade \u00e9, na realidade, uma experi\u00eancia constru\u00edda por v\u00e1rias camadas \u2014 do modo como a gordura se espalha sobre a l\u00edngua aos circuitos cerebrais que transformam sabor em recompensa. Talvez seja justamente essa combina\u00e7\u00e3o que tenha feito do chocolate, h\u00e1 s\u00e9culos, um alimento associado ao prazer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-foto-de-louis-hansel-na-unsplash-reproducao\">Capa. Foto de <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/pt-br\/@louishansel?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText\">Louis Hansel<\/a> na <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/pt-br\/fotografias\/grampo-de-cabelo-plastico-preto-na-mesa-de-madeira-marrom-6fRyao7izMk?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText\">Unsplash<\/a>. Reprodu\u00e7\u00e3o<\/h6>\n<h6 id=\"ciencia-cultura-2022-by-sbpc-is-licensed-under-cc-by-sa-4-0\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a>\u00a0\u00a9 2022 by\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.sbpcnet.org.br\/\">SBPC<\/a>\u00a0is licensed under\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/4.0\/\">CC BY-SA 4.0 \u00a0 <\/a><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/cc.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/by.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/sa.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u00c0s vezes, basta abrir uma embalagem para que o c\u00e9rebro pare\u00e7a tomar&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":10773,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2,866],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10772"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10772"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10772\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10783,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10772\/revisions\/10783"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/10773"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10772"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10772"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10772"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}