{"id":10986,"date":"2026-10-13T07:55:06","date_gmt":"2026-10-13T07:55:06","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=10986"},"modified":"2026-10-02T18:43:16","modified_gmt":"2026-10-02T18:43:16","slug":"patrimonios-perifericos-em-busca-de-reconhecimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=10986","title":{"rendered":"Patrim\u00f4nios perif\u00e9ricos em busca de reconhecimento"},"content":{"rendered":"<p>Como esperar que algo que \u00e9 socialmente marginalizado seja reconhecido como patrim\u00f4nio? Al\u00e9m da luta por suas exist\u00eancias, os patrim\u00f4nios perif\u00e9ricos lutam para que suas trajet\u00f3rias sejam valorizadas. Do hip hop a vilas oper\u00e1rias, a cultura nascida fora dos centros de elite vive um momento tenso, no qual \u00f3rg\u00e3os que deveriam proteger suas mem\u00f3rias se recusam a reconhecer o seu valor hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>\u201cPensando, por exemplo, em g\u00eaneros musicais, que \u00e9 uma forma bastante expressiva de cultura, os g\u00eaneros musicais que s\u00e3o oriundos de periferias urbanas, que s\u00e3o oriundos, evidentemente, de um entrecruzamento muito forte entre uma experi\u00eancia de classe e uma experi\u00eancia racial, t\u00eam muitas dificuldades para entrarem nos c\u00e2nones da legitima\u00e7\u00e3o cultural, utilizando a\u00ed o conceito do soci\u00f3logo franc\u00eas Pierre Bourdieu. E mesmo quando tem o reconhecimento, esse reconhecimento vai muito mais pelo lado mercadol\u00f3gico, porque a m\u00fasica que \u00e9 produzida na periferia, em alguns momentos, ela \u00e9 acaparada pelo mercado\u201d, conta Tiaraj\u00fa Pablo D&#8217;Andrea, professor da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/portal.unifesp.br\/\">Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp)<\/a><\/strong> <\/span>e coordenador do <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.instagram.com\/centrodeestudosperifericos\/\">Centro de Estudos Perif\u00e9ricos (CEP)<\/a><\/strong><\/span>. Em seus estudos, ele busca refletir sobre modos de vida das periferias, suas organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e o desenvolvimento da cultura, seja na produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, seja ao olhar para h\u00e1bitos e costumes. Para ele, como a sociedade demorou para reconhecer a exist\u00eancia das periferias, demorou mais ainda para reconhecer seus patrim\u00f4nios. \u201cTanto no \u00e2mbito de uma produ\u00e7\u00e3o cultural, olhando para a arte, a m\u00fasica, houve essa demora de reconhecimento, mas tamb\u00e9m, se a gente pensar patrim\u00f4nio a partir de uma concretude territorial, arquitet\u00f4nica, etc. As periferias n\u00e3o s\u00e3o tratadas como cidade, n\u00e9? Tudo come\u00e7a por a\u00ed. Elas s\u00e3o uma parte da cidade que \u00e9 uma cidade ileg\u00edtima. N\u00f3s temos cidades leg\u00edtimas, que \u00e9 a cidade onde habita a classe m\u00e9dia, onde habita a burguesia, mas h\u00e1 tamb\u00e9m onde se habitam as pessoas mais pobres, que em sua maioria s\u00e3o pessoas negras. Esses territ\u00f3rios t\u00eam muita dificuldade de provar a sua hist\u00f3ria e a sua historicidade.\u201d<\/p>\n<p>Foi a vontade de reconhecer a hist\u00f3ria n\u00e3o reconhecida que mobilizou os trabalhos de Simone Scifoni, professora do Departamento de Geografia da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"http:\/\/www.fflch.usp.br\/\">Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas da Universidade de S\u00e3o Paulo (FFLCH\/USP)<\/a><\/strong>.<\/span> Ge\u00f3grafa, ela se apaixonou por um campo com atua\u00e7\u00e3o predominantemente de historiadores e arquitetos: os estudos sobre patrim\u00f4nio. Iniciou as pesquisas em patrim\u00f4nios naturais, mas logo em seguida come\u00e7ou a dar aulas sobre educa\u00e7\u00e3o patrimonial, at\u00e9 chegar ao tema que tem marcado seus estudos nos \u00faltimos anos: os patrim\u00f4nios da classe trabalhadora. \u201cQuando a gente vai ver os conjuntos patrimoniais, percebe que eles s\u00e3o marcadamente a hist\u00f3ria das classes dominantes. Ent\u00e3o, eu busco dar essa guinada em dire\u00e7\u00e3o a um outro sujeito social, que \u00e9 a classe trabalhadora. Um sujeito social que produz uma base material que n\u00e3o se destaca muitas vezes do ponto de vista est\u00e9tico e arquitet\u00f4nico, n\u00e9? Se a gente for pensar na moradia da classe trabalhadora, \u00e9 o conjunto habitacional, \u00e9 a vila oper\u00e1ria. Os bens representativos dessa mem\u00f3ria est\u00e3o muito ligados \u00e0 hist\u00f3ria de luta da classe trabalhadora, mas tamb\u00e9m, se a gente pensar nas formas de lazer, \u00e9 o futebol de v\u00e1rzea, \u00e9 o campo de v\u00e1rzea\u201d, explica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"historia-e-valorizacao\">Hist\u00f3ria e valoriza\u00e7\u00e3o<\/h4>\n<p>A pesquisadora conta que as reflex\u00f5es nacionais sobre patrim\u00f4nios foram iniciadas nos anos 1980, com os debates da nova Constitui\u00e7\u00e3o Federal e as promessas de uma virada social do Pa\u00eds. Entretanto, mesmo com a Constitui\u00e7\u00e3o considerando a import\u00e2ncia da democratiza\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio, essas reflex\u00f5es j\u00e1 come\u00e7am de um panorama das classes dominantes, ou seja, reproduzindo um padr\u00e3o elitista que se mant\u00e9m at\u00e9 os dias de hoje. \u201cQuando a gente fala de patrim\u00f4nio da classe trabalhadora, a gente est\u00e1 falando de outra qualidade de patrim\u00f4nio. N\u00e3o \u00e9 um grande monumento, n\u00e3o \u00e9 o palacete, n\u00e3o \u00e9 a igreja cat\u00f3lica, mas s\u00e3o outros objetos dotados de import\u00e2ncia e que n\u00e3o s\u00e3o valorizados pelas pol\u00edticas\u201d, diz Simone Scifoni. Ela ainda alerta que, nos tempos atuais, existe uma grande flexibiliza\u00e7\u00e3o de quem gerencia os \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos dedicados aos patrim\u00f4nios. Muitas vezes, esses \u00f3rg\u00e3os ficam sob o comando de pessoas alinhadas com governos que n\u00e3o reconhecem a import\u00e2ncia da gest\u00e3o hist\u00f3rica patrimonial, fazendo com que mem\u00f3rias sejam, literalmente, destru\u00eddas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"esses-territorios-tem-muita-dificuldade-de-provar-a-sua-historia-e-a-sua-historicidade\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cEsses territ\u00f3rios t\u00eam muita dificuldade de provar a sua hist\u00f3ria e a sua historicidade.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cRecentemente teve um caso de uma vila oper\u00e1ria aqui no Tatuap\u00e9, zona leste de S\u00e3o Paulo, em que o propriet\u00e1rio a demoliu quase toda, sobraram apenas algumas casinhas que estavam em processo de tombamento. Mas o <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/prefeitura.sp.gov.br\/web\/cultura\/w\/conpresp-1\">Conpresp [Conselho Municipal de Preserva\u00e7\u00e3o do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico, Cultural e Ambiental da Cidade de S\u00e3o Paulo]<\/a><\/strong><\/span>, que \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o municipal, recentemente abriu m\u00e3o dessas casinhas, e a\u00ed elas j\u00e1 foram demolidas. Ent\u00e3o, a gente v\u00ea isso, a dificuldade de avan\u00e7armos politicamente porque os \u00f3rg\u00e3os est\u00e3o comprometidos com os interesses do mercado imobili\u00e1rio, ou seja, os interesses privados\u201d, complementa a pesquisadora.<\/p>\n<p>Este caso aconteceu em junho deste ano, quando tr\u00eas vilas oper\u00e1rias localizadas nos bairros paulistas de Tatuap\u00e9, Catumbi e Belenzinho perderam a prote\u00e7\u00e3o de patrim\u00f4nio hist\u00f3rico que o pr\u00f3prio Conpresp havia destinado em 2023, com base em estudos realizados pelo Departamento do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico (DPH) do munic\u00edpio. Por seis votos a tr\u00eas, o Conselho retirou o tombamento, atendendo a pedidos da propriet\u00e1ria dos terrenos. O ent\u00e3o presidente do \u00f3rg\u00e3o, Ricardo Ferrari Nogueira, chegou a declarar que o tombamento das vilas oper\u00e1rias foi uma das maiores injusti\u00e7as que ele j\u00e1 tinha visto.<\/p>\n<p>Mas ainda existem exce\u00e7\u00f5es, como o caso da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Companhia_Brasileira_de_Cimento_Portland_Perus\">Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus<\/a><\/strong><\/span>, um patrim\u00f4nio que fica na periferia de S\u00e3o Paulo. \u201cFoi um tombamento muito importante dos anos 1990, que foi feito totalmente diferente da maioria, em cima de hist\u00f3ria oral com os antigos trabalhadores, que valorizaram uma mem\u00f3ria de luta. Eles tiveram uma greve que durou sete anos durante a ditadura. A f\u00e1brica foi tombada n\u00e3o exatamente como um patrim\u00f4nio industrial, pensando na edifica\u00e7\u00e3o, na hist\u00f3ria do capital, mas foi pensada na mem\u00f3ria da luta dos trabalhadores. Ent\u00e3o, \u00e9 um caso \u00fanico. A gente tem outras f\u00e1bricas tombadas? Temos, mas sempre pensadas na \u00f3tica da hist\u00f3ria do capital\u201d, conta Simone Scifoni. (<strong>Figura 1<\/strong>)<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-10989\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CC-3E26-reportagem-patrimonio-periferico-figura-1-300x201.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"335\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CC-3E26-reportagem-patrimonio-periferico-figura-1-300x201.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CC-3E26-reportagem-patrimonio-periferico-figura-1-768x514.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CC-3E26-reportagem-patrimonio-periferico-figura-1-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CC-3E26-reportagem-patrimonio-periferico-figura-1-800x536.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CC-3E26-reportagem-patrimonio-periferico-figura-1.jpg 960w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-1-companhia-brasileira-de-cimento-portland-perusfoto-humberto-do-lago-muller-cc-by-sa-3-0-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><strong>Figura 1. Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus<br \/>\n<\/strong>(Foto: Humberto do Lago M\u00fcller. CC BY-SA 3.0. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quem tamb\u00e9m lamenta a destrui\u00e7\u00e3o dos patrim\u00f4nios \u00e9 Tiaraj\u00fa D&#8217;Andrea. \u201cA cidade de S\u00e3o Paulo destr\u00f3i a mem\u00f3ria muito facilmente. \u00c0s vezes at\u00e9 comento para os meus estudantes: \u2018Olha, se voc\u00ea passou pela esta\u00e7\u00e3o de Itaquera, quem passou, passou; quem viveu, viveu, porque ela j\u00e1 n\u00e3o existe mais\u2019. Eu fico pensando tamb\u00e9m nos est\u00e1dios de futebol, sempre fui muito frequentador. E est\u00e1dios de futebol, mesmo que n\u00e3o localizados exatamente nas periferias, eram frequentados por moradores de periferias, e foram destru\u00eddos, houve um processo de apagamento da mem\u00f3ria.\u201d<\/p>\n<p>Andrea Scifoni ressalta que a n\u00e3o valoriza\u00e7\u00e3o de patrim\u00f4nios rompe uma rela\u00e7\u00e3o afetuosa entre pessoas e os locais. \u201cH\u00e1 um processo de apagamento de uma s\u00e9rie de mem\u00f3rias que foram constru\u00eddas por muitas pessoas durante muito tempo, e essas mem\u00f3rias fazem parte da rela\u00e7\u00e3o dessas pessoas com a sua pr\u00f3pria cidade. \u00c0 medida que a gente apaga e invisibiliza essas marcas, a gente est\u00e1 quebrando uma rela\u00e7\u00e3o de afeto que as pessoas t\u00eam com o pr\u00f3prio urbano, com a pr\u00f3pria cidade. As pessoas passam a n\u00e3o mais se reconhecer no lugar onde elas nasceram, cresceram, constru\u00edram seus afetos e suas mem\u00f3rias.\u201d<\/p>\n<p>Professor de Sociologia da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/site\/\">Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)<\/a><\/strong><\/span>, Alexandre Magalh\u00e3es tamb\u00e9m \u00e9 um estudioso da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nas periferias, incluindo culturas e modos de vida no territ\u00f3rio. Ele acredita que os patrim\u00f4nios perif\u00e9ricos podem ser visualizados como uma manifesta\u00e7\u00e3o cultural, mas igualmente como um modo de fazer, uma mem\u00f3ria de luta, uma pr\u00e1tica religiosa, uma festa, uma forma de ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio, um espa\u00e7o de sociabilidade ou mesmo nas narrativas elaboradas pelos moradores. \u201c<span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/museudefavela.org\/\">O Museu de Favela<\/a><\/strong><\/span>, o <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.museumare.org\/\">Museu da Mar\u00e9<\/a><\/strong><\/span> e o <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/museudasremocoes.com\/\">Museu das Remo\u00e7\u00f5es<\/a><\/strong><\/span>, no Rio de Janeiro, s\u00e3o experi\u00eancias interessantes justamente porque desconstroem a no\u00e7\u00e3o de patrim\u00f4nio como um objeto isolado e apostam nas pr\u00f3prias territorialidades e experi\u00eancias daqueles que os habitam\u201d, explica. (<strong>Figura 2<\/strong>)<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-10988\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CC-3E26-reportagem-patrimonio-periferico-figura-2-300x161.webp\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"269\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CC-3E26-reportagem-patrimonio-periferico-figura-2-300x160.webp 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CC-3E26-reportagem-patrimonio-periferico-figura-2-768x413.webp 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CC-3E26-reportagem-patrimonio-periferico-figura-2-18x10.webp 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CC-3E26-reportagem-patrimonio-periferico-figura-2-260x140.webp 260w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CC-3E26-reportagem-patrimonio-periferico-figura-2-800x430.webp 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CC-3E26-reportagem-patrimonio-periferico-figura-2-560x300.webp 560w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CC-3E26-reportagem-patrimonio-periferico-figura-2.webp 874w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-2-museu-da-favelafoto-divulgacao\" style=\"text-align: center;\"><strong>Figura 2. Museu da Favela<br \/>\n<\/strong>(Foto: Divulga\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Alexandre Magalh\u00e3es ressalta que muitas manifesta\u00e7\u00f5es que podem ser definidas como patrim\u00f4nios perif\u00e9ricos s\u00e3o resultados das a\u00e7\u00f5es de popula\u00e7\u00f5es negras e portam hist\u00f3rias de resist\u00eancia \u00e0s variadas formas de viol\u00eancia e destitui\u00e7\u00e3o. \u201cO Hip-Hop, os Slams, o samba, o jongo, entre tantas outras manifesta\u00e7\u00f5es, n\u00e3o podem ser considerados somente como express\u00f5es culturais situadas na periferia, mas como formas de produ\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria, identidade, conhecimento e pertencimento. Dessa forma, imaginar os patrim\u00f4nios perif\u00e9ricos seria tamb\u00e9m se perguntar como processos de racializa\u00e7\u00e3o colaboraram para definir quais culturas seriam reconhecidas como leg\u00edtimas e quais seriam qualificadas como marginais.\u201d<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"quem-reconhece-e-quem-qualifica-os-patrimonios\">Quem reconhece e quem qualifica os patrim\u00f4nios<\/h4>\n<p>A quest\u00e3o do reconhecimento dos patrim\u00f4nios perif\u00e9ricos est\u00e1 menos na popula\u00e7\u00e3o das periferias, que j\u00e1 luta pela valoriza\u00e7\u00e3o de suas mem\u00f3rias, e mais nos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos criados para o reconhecimento de patrim\u00f4nios, que tendem a reproduzir comportamentos elitistas. O <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.gov.br\/pt-br\/orgaos\/instituto-do-patrimonio-historico-e-artistico-nacional\">Iphan (Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional)<\/a><\/strong> <\/span>chama os patrim\u00f4nios perif\u00e9ricos de \u201cbens culturais n\u00e3o hegem\u00f4nicos, vinculados a grupos e comunidades historicamente invisibilizados pelas pol\u00edticas p\u00fablicas de preserva\u00e7\u00e3o, como os patrim\u00f4nios de matriz africana e ind\u00edgenas\u201d.<\/p>\n<p>O \u00f3rg\u00e3o, em nota, listou algumas a\u00e7\u00f5es recentes, como a Portaria Iphan n\u00ba 135, de 20 de novembro de 2023, que regulamenta os procedimentos para a declara\u00e7\u00e3o de tombamento de documentos e s\u00edtios detentores de reminisc\u00eancias hist\u00f3ricas dos antigos quilombos. \u201cEm mar\u00e7o de 2026, o Quilombo Tia Eva tornou-se o primeiro a ser declarado tombado por meio do novo instrumento, dando cumprimento ao determinado na Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988. No campo do patrim\u00f4nio material, destacam-se o tombamento da Cole\u00e7\u00e3o Perseveran\u00e7a e do terreiro Il\u00ea Ax\u00e9 Icimim\u00f3 Aganj\u00fa Did\u00ea, ambos em 2024\u201d, complementa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"os-bens-representativos-dessa-memoria-estao-muito-ligados-a-historia-de-luta-da-classe-trabalhadora\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cOs bens representativos dessa mem\u00f3ria est\u00e3o muito ligados \u00e0 hist\u00f3ria de luta da classe trabalhadora.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Iphan tamb\u00e9m destacou o reconhecimento ao Hip Hop, que est\u00e1 em processo de registro, tendo o pedido sido recebido em 2023. \u201cNaquele ano, o Iphan recebeu o invent\u00e1rio participativo do movimento. O Invent\u00e1rio Participativo \u00e9 uma ferramenta de Educa\u00e7\u00e3o Patrimonial que busca estimular discuss\u00f5es sobre Patrim\u00f4nio Cultural e incentivar grupos sociais a identificar suas pr\u00f3prias refer\u00eancias identit\u00e1rias. Seus princ\u00edpios de aplica\u00e7\u00e3o consideram territ\u00f3rios, sociabilidades e o direito ao espa\u00e7o p\u00fablico como instrumentos para forma\u00e7\u00e3o e aprendizado que podem ser associados a valores como cidadania, democracia, participa\u00e7\u00e3o social e melhoria da qualidade de vida. Finalmente, est\u00e1 em curso o processo de registro dos Clubes Sociais Negros, que teve pertin\u00eancia aprovada e dever\u00e1 passar pela etapa de instru\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica.\u201d<\/p>\n<p>Apesar dos reconhecimentos em n\u00edvel federal, esta n\u00e3o \u00e9 a realidade de estados e munic\u00edpios. Simone Scifoni alerta para o per\u00edodo de elei\u00e7\u00f5es atual, que exige que a popula\u00e7\u00e3o questione os candidatos sobre suas propostas olhando para hist\u00f3ria, mem\u00f3ria e patrim\u00f4nio. Ela tamb\u00e9m destaca que, somente na regi\u00e3o de S\u00e3o Paulo, a gest\u00e3o de patrim\u00f4nio est\u00e1 ligada a den\u00fancias e suspeitas. \u201cAs not\u00edcias s\u00e3o cada vez piores, n\u00e9? O Conpresp [Conselho Municipal de Preserva\u00e7\u00e3o do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico, Cultural e Ambiental da Cidade de S\u00e3o Paulo] acabou de mudar a sua composi\u00e7\u00e3o. O \u00f3rg\u00e3o est\u00e1 sendo investigado pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico por conta de v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es, inclusive as da vila oper\u00e1ria do Tatuap\u00e9, e outras a\u00e7\u00f5es que contrariam a lei, como autoriza\u00e7\u00f5es no Parque do Ibirapuera.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/monicabergamo\/2026\/08\/ministerio-publico-abre-inquerito-para-apurar-irregularidades-no-conpresp.shtml\">Em agosto, o Minist\u00e9rio P\u00fablico de S\u00e3o Paulo (MP-SP) abriu um inqu\u00e9rito civil para apurar suspeitas de irregularidades no Conpresp<\/a>. O procedimento atende a uma den\u00fancia da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/APPITSP\/\">Appit (Associa\u00e7\u00e3o dos Propriet\u00e1rios, Protetores e Usu\u00e1rios de Im\u00f3veis Tombados)<\/a><\/strong><\/span>, que afirma que o \u00f3rg\u00e3o est\u00e1 se afastando de sua \u201cmiss\u00e3o institucional de prote\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio cultural para incorporar, cada vez mais, crit\u00e9rios urban\u00edsticos, econ\u00f4micos e imobili\u00e1rios em suas delibera\u00e7\u00f5es\u201d. Como resposta, no dia 21 de setembro, a Prefeitura de S\u00e3o Paulo abriu uma consulta p\u00fablica para discutir a atualiza\u00e7\u00e3o do regimento interno do Conpresp e tamb\u00e9m a sua atua\u00e7\u00e3o. \u00c9 a primeira vez que este tipo de consulta p\u00fablica \u00e9 realizado. <a href=\"https:\/\/participemais.prefeitura.sp.gov.br\/legislation\/processes\/425\">Sugest\u00f5es e considera\u00e7\u00f5es podem ser enviadas at\u00e9 o dia 20 de novembro, por meio da plataforma municipal Participe+<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"ha-um-processo-de-apagamento-de-uma-serie-de-memorias-que-foram-construidas-por-muitas-pessoas-durante-muito-tempo-e-essas-memorias-fazem-parte-da-relacao-dessas-pessoas-com-a-sua-propria-ci\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cH\u00e1 um processo de apagamento de uma s\u00e9rie de mem\u00f3rias que foram constru\u00eddas por muitas pessoas durante muito tempo, e essas mem\u00f3rias fazem parte da rela\u00e7\u00e3o dessas pessoas com a sua pr\u00f3pria cidade.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Alexandre Magalh\u00e3es defende que o que est\u00e1 em debate nos patrim\u00f4nios perif\u00e9ricos n\u00e3o \u00e9 a consci\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o sobre o valor e a import\u00e2ncia daquilo que se produz, mas, fundamentalmente, o reconhecimento institucional, bem como recursos e condi\u00e7\u00f5es materiais para sua preserva\u00e7\u00e3o. \u201cIsso nos coloca diante de uma quest\u00e3o pol\u00edtica importante. Talvez as pessoas perif\u00e9ricas n\u00e3o precisem aprender a reconhecer o patrim\u00f4nio que elas pr\u00f3prias produzem. Talvez as institui\u00e7\u00f5es necessitem aprender a reconhecer as formas pelas quais as periferias j\u00e1 produzem, preservam e comunicam suas pr\u00f3prias mem\u00f3rias. Temos a\u00ed uma invers\u00e3o importante na rela\u00e7\u00e3o tradicional entre especialistas e as comunidades: em vez de o especialista chegar ao territ\u00f3rio para identificar o que mereceria, de seu ponto de vista, ser preservado, \u00e9 poss\u00edvel come\u00e7ar pelas pr\u00e1ticas de mem\u00f3ria j\u00e1 existentes e perguntar como as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas podem apoi\u00e1-las sem necessariamente submet\u00ea-las a uma l\u00f3gica externa\u201d, conclui.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-o-hip-hop-esta-em-processo-de-registro-com-o-pedido-tendo-sido-recebido-em-2023-foto-jose-cruz-agencia-brasil-reproducao\"><strong>Capa. O Hip Hop est\u00e1 em processo de registro, com o pedido tendo sido recebido em 2023.<br \/>\n<\/strong>(Foto: Jos\u00e9 Cruz\/Ag\u00eancia Brasil. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<h6 id=\"ciencia-cultura-2022-by-sbpc-is-licensed-under-cc-by-sa-4-0\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a>\u00a0\u00a9 2022 by\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.sbpcnet.org.br\/\">SBPC<\/a>\u00a0is licensed under\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/4.0\/\">CC BY-SA 4.0 \u00a0 <\/a><img decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/cc.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/by.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/sa.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Como esperar que algo que \u00e9 socialmente marginalizado seja reconhecido como patrim\u00f4nio?&hellip;\n","protected":false},"author":12,"featured_media":10987,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[51],"tags":[],"coauthors":[73],"class_list":["post-10986","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-reportagem"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10986","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/12"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10986"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10986\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10994,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10986\/revisions\/10994"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/10987"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10986"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10986"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10986"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcoauthors&post=10986"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}