{"id":11008,"date":"2026-10-08T07:30:14","date_gmt":"2026-10-08T07:30:14","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=11008"},"modified":"2026-10-06T19:52:18","modified_gmt":"2026-10-06T19:52:18","slug":"o-cheiro-da-memoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=11008","title":{"rendered":"O cheiro da mem\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>Uma rajada de perfume no elevador. O cheiro de terra molhada antes da chuva. Caf\u00e9 rec\u00e9m-passado pela manh\u00e3. P\u00e3o saindo do forno. De repente, sem aviso, uma cena inteira parece voltar: a cozinha da casa da inf\u00e2ncia, uma viagem, algu\u00e9m que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 por perto, uma situa\u00e7\u00e3o que havia sido esquecida. N\u00e3o \u00e9 apenas uma lembran\u00e7a. Por alguns segundos, \u00e9 como se o passado tivesse encontrado um caminho de volta \u2014 e esse caminho pode passar pelo nariz.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre cheiro e mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 uma impress\u00e3o subjetiva sem explica\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica. Ela intrigava pesquisadores muito antes de a neuroci\u00eancia conseguir observar os circuitos envolvidos. Em 1935, o psic\u00f3logo Donald Laird publicou um dos <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.scirp.org\/reference\/referencespapers?referenceid=2897374\">primeiros estudos sistem\u00e1ticos sobre o tema<\/a><\/strong><\/span>. Professor da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.colgate.edu\/\">Universidade Colgate<\/a><\/strong><\/span>, nos Estados Unidos, Donald Laird pediu a 254 participantes que registrassem situa\u00e7\u00f5es em que determinados odores haviam despertado lembran\u00e7as. Os relatos iam do perfume associado a uma aula de dan\u00e7a constrangedora ao cheiro de l\u00e3 que remetia ao sobretudo de um tio j\u00e1 falecido. Um participante, filho de um oper\u00e1rio de serraria, contou que o odor de serragem evocava \u201cuma s\u00e9rie de imagens v\u00edvidas t\u00e3o n\u00edtidas que, por um instante, eu revivia as cenas\u201d.<\/p>\n<p>Para o pesquisador, havia algo particularmente interessante nesses epis\u00f3dios: as lembran\u00e7as provocadas pelos odores pareciam intensas, emocionais e profundas. A experi\u00eancia o levou a questionar se o olfato poderia ser, nas suas palavras, uma esp\u00e9cie de \u201cvia de acesso \u00e0 mente\u201d. Quase um s\u00e9culo depois, a pergunta continua atual. A diferen\u00e7a \u00e9 que hoje os pesquisadores conseguem acompanhar parte do caminho percorrido por uma mol\u00e9cula odor\u00edfera desde o nariz at\u00e9 circuitos cerebrais relacionados \u00e0 emo\u00e7\u00e3o e \u00e0 mem\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"quando-o-cheiro-encontra-a-memoria\">Quando o cheiro encontra a mem\u00f3ria<\/h4>\n<p>Tudo come\u00e7a com mol\u00e9culas presentes no ar. Ao respirarmos, subst\u00e2ncias capazes de produzir odores entram na cavidade nasal e entram em contato com centenas de tipos de receptores olfativos. Cada receptor reconhece determinadas caracter\u00edsticas moleculares e, quando ocorre a intera\u00e7\u00e3o, c\u00e9lulas especializadas transformam essa informa\u00e7\u00e3o qu\u00edmica em sinais el\u00e9tricos.<\/p>\n<p>Esses sinais chegam primeiro ao bulbo olfat\u00f3rio, uma estrutura localizada na parte anterior do c\u00e9rebro, logo acima da cavidade nasal. De l\u00e1, a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 distribu\u00edda para diferentes regi\u00f5es, entre elas o c\u00f3rtex piriforme, relacionado \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o dos odores; a am\u00edgdala, importante para o processamento emocional; e o hipocampo, fundamental para a forma\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o das mem\u00f3rias. \u00c9 justamente essa vizinhan\u00e7a anat\u00f4mica que ajuda a explicar por que um cheiro pode adquirir uma carga emocional t\u00e3o poderosa. (<strong>Figura 1<\/strong>)<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-11010\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CD-o-cheiro-da-memoria-fig-1-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"334\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CD-o-cheiro-da-memoria-fig-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CD-o-cheiro-da-memoria-fig-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CD-o-cheiro-da-memoria-fig-1-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CD-o-cheiro-da-memoria-fig-1-800x534.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CD-o-cheiro-da-memoria-fig-1.jpg 1000w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-1-magnific-reproducao\" style=\"text-align: center;\">Figura 1. Magnific. (Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda uma particularidade importante. Diferentemente das informa\u00e7\u00f5es visuais, auditivas e t\u00e1teis, que passam inicialmente por uma estrutura chamada t\u00e1lamo antes de alcan\u00e7ar v\u00e1rias regi\u00f5es corticais, as informa\u00e7\u00f5es olfativas seguem por uma rota relativamente direta em dire\u00e7\u00e3o a \u00e1reas ligadas \u00e0 emo\u00e7\u00e3o e \u00e0 mem\u00f3ria. Isso n\u00e3o significa que o cheiro simplesmente \u201cv\u00e1 direto para a mem\u00f3ria\u201d, mas ajuda a compreender por que o sistema olfativo possui uma rela\u00e7\u00e3o especialmente estreita com circuitos emocionais.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m por isso que a mem\u00f3ria olfativa pode parecer t\u00e3o imediata. Um cheiro n\u00e3o precisa necessariamente ser reconhecido ou descrito em palavras para provocar uma rea\u00e7\u00e3o. Antes mesmo de conseguirmos dizer \u201cisso me lembra a casa da minha av\u00f3\u201d, o c\u00e9rebro j\u00e1 pode ter associado aquele padr\u00e3o de mol\u00e9culas a experi\u00eancias armazenadas anteriormente. Se a experi\u00eancia original foi emocionalmente significativa, a associa\u00e7\u00e3o tende a ser ainda mais marcante.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"o-passado-tem-cheiro\">O passado tem cheiro<\/h4>\n<p>Pesquisas experimentais indicam que mem\u00f3rias desencadeadas por odores podem apresentar caracter\u00edsticas diferentes daquelas evocadas por imagens ou sons. Elas tendem a ser descritas como mais emocionais e, em alguns estudos, como mais antigas ou relacionadas a per\u00edodos anteriores da vida. A inf\u00e2ncia aparece com frequ\u00eancia nessas lembran\u00e7as \u2014 talvez porque os primeiros anos sejam um per\u00edodo de intensa forma\u00e7\u00e3o de conex\u00f5es cerebrais e de constru\u00e7\u00e3o das refer\u00eancias afetivas que acompanham a vida adulta.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno tamb\u00e9m ajuda a entender por que alguns cheiros se tornam t\u00e3o pessoais. O odor de bolo pode ser agrad\u00e1vel para muitas pessoas, mas o cheiro espec\u00edfico da receita preparada por algu\u00e9m da fam\u00edlia pode carregar uma hist\u00f3ria que nenhuma descri\u00e7\u00e3o consegue reproduzir. O c\u00e9rebro n\u00e3o armazena apenas \u201ccheiro de bolo\u201d: ele associa est\u00edmulos sensoriais ao contexto em que foram vivenciados, \u00e0s pessoas presentes, ao lugar, \u00e0s emo\u00e7\u00f5es e \u00e0s circunst\u00e2ncias daquele momento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"por-alguns-segundos-e-como-se-o-passado-tivesse-encontrado-um-caminho-de-volta-e-esse-caminho-pode-passar-pelo-nariz\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cPor alguns segundos, \u00e9 como se o passado tivesse encontrado um caminho de volta \u2014 e esse caminho pode passar pelo nariz.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa dimens\u00e3o subjetiva \u00e9 importante porque n\u00e3o existe um cat\u00e1logo universal de cheiros capazes de despertar determinadas mem\u00f3rias. O aroma que para uma pessoa significa conforto pode ser indiferente \u2014 ou at\u00e9 desagrad\u00e1vel \u2014 para outra. A for\u00e7a da lembran\u00e7a depende da experi\u00eancia individual e das associa\u00e7\u00f5es constru\u00eddas ao longo da vida.<\/p>\n<p>O escritor e especialista em ci\u00eancia dos alimentos Harold McGee chamou aten\u00e7\u00e3o para essa intimidade do olfato <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/books.google.com.br\/books\/about\/A_qu%C3%ADmica_do_olfato.html?id=AuCoEAAAQBAJ&amp;redir_esc=y\">em seus estudos<\/a><\/strong><\/span> ao refletir sobre como as mol\u00e9culas presentes no ambiente entram continuamente em nosso corpo. O cheiro do mar, do caf\u00e9 coado ou da comida sendo preparada n\u00e3o \u00e9 apenas uma informa\u00e7\u00e3o sobre o mundo exterior: \u00e9 tamb\u00e9m uma experi\u00eancia sensorial que pode se tornar parte da nossa hist\u00f3ria pessoal. A pr\u00f3pria pandemia de covid-19 tornou essa dimens\u00e3o mais evidente ao provocar altera\u00e7\u00f5es ou perda do olfato em muitas pessoas, mostrando como a aus\u00eancia de um sentido aparentemente discreto pode alterar profundamente a rela\u00e7\u00e3o com comida, ambiente e experi\u00eancias cotidianas.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"um-sentido-que-tambem-pode-adoecer\">Um sentido que tamb\u00e9m pode adoecer<\/h4>\n<p>A conex\u00e3o entre olfato, emo\u00e7\u00e3o e mem\u00f3ria ajuda a explicar por que altera\u00e7\u00f5es nesse sentido podem ter consequ\u00eancias que v\u00e3o al\u00e9m da dificuldade de identificar cheiros. A anosmia \u2014 perda do olfato \u2014 pode afetar a alimenta\u00e7\u00e3o, a percep\u00e7\u00e3o do ambiente e a sensa\u00e7\u00e3o de bem-estar. Segundo <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/oir.nih.gov\/wals\/2024-2025-wals-season\/mechanisms-meaning-smell\">as pesquisas<\/a><\/strong> <\/span>de Sandeep Robert Datta, professor de neurobiologia da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/hms.harvard.edu\/\">Harvard Medical School<\/a><\/strong><\/span>, o olfato participa de nossa orienta\u00e7\u00e3o no mundo e mant\u00e9m v\u00ednculos estreitos com os sistemas cognitivos e emocionais.<\/p>\n<p>Os odores, por\u00e9m, n\u00e3o evocam apenas lembran\u00e7as agrad\u00e1veis. A mesma capacidade de associar um cheiro a uma experi\u00eancia pode transformar determinado aroma em um gatilho para uma lembran\u00e7a dolorosa. Para pessoas que passaram por situa\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas, odores associados ao acontecimento podem provocar respostas emocionais intensas e, em alguns casos, contribuir para epis\u00f3dios relacionados ao transtorno de estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico (TEPT).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"um-cheiro-nao-precisa-necessariamente-ser-reconhecido-ou-descrito-em-palavras-para-provocar-uma-reacao\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cUm cheiro n\u00e3o precisa necessariamente ser reconhecido ou descrito em palavras para provocar uma rea\u00e7\u00e3o.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m abriu uma frente de pesquisa sobre como o c\u00e9rebro aprende e desaprende associa\u00e7\u00f5es entre cheiros e perigo. Em experimentos com roedores, pesquisadores observaram altera\u00e7\u00f5es no sistema olfativo depois que determinados odores foram associados a est\u00edmulos aversivos. Quando os animais passaram por processos de extin\u00e7\u00e3o \u2014 nos quais o odor era apresentado repetidamente sem a experi\u00eancia negativa que o acompanhava \u2014 algumas dessas altera\u00e7\u00f5es retornaram aos n\u00edveis anteriores. Os resultados sugerem que o sistema olfativo \u00e9 pl\u00e1stico e capaz de se modificar de acordo com as experi\u00eancias ambientais.<\/p>\n<p>\u00c9 importante, entretanto, separar o que j\u00e1 foi demonstrado em animais do que pode ser aplicado diretamente a seres humanos. Pesquisas sobre o uso terap\u00eautico de odores para traumas ainda est\u00e3o em desenvolvimento. Experimentos com exposi\u00e7\u00e3o controlada a est\u00edmulos olfativos, inclusive em ambientes de realidade virtual, j\u00e1 foram realizados com pessoas com TEPT, mas ainda s\u00e3o necess\u00e1rios estudos mais amplos para determinar como e em quais condi\u00e7\u00f5es essas estrat\u00e9gias podem ser incorporadas ao tratamento cl\u00ednico.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"quando-o-nariz-ajuda-a-investigar-o-cerebro\">Quando o nariz ajuda a investigar o c\u00e9rebro<\/h4>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre olfato e mem\u00f3ria tamb\u00e9m desperta interesse porque altera\u00e7\u00f5es na capacidade de sentir ou identificar odores podem aparecer em algumas doen\u00e7as neurol\u00f3gicas. Pesquisas t\u00eam investigado, por exemplo, a possibilidade de que d\u00e9ficits olfativos estejam associados a altera\u00e7\u00f5es neurodegenerativas antes do surgimento de outros sintomas da doen\u00e7a de Alzheimer.<\/p>\n<p>Um <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/magazine-hms-harvard-edu.translate.goog\/articles\/connections-between-smell-memory-and-health?_x_tr_sl=en&amp;_x_tr_tl=pt&amp;_x_tr_hl=pt&amp;_x_tr_pto=sge\">estudo conduzido por pesquisadores do Massachusetts General Hospital e da Harvard Medical School<\/a><\/strong><\/span> encontrou associa\u00e7\u00e3o entre menor capacidade de identificar odores e risco aumentado de desenvolver Alzheimer. Isso n\u00e3o significa que perder o olfato seja, por si s\u00f3, um diagn\u00f3stico da doen\u00e7a. Altera\u00e7\u00f5es olfativas podem ter muitas causas, e um teste de identifica\u00e7\u00e3o de odores ainda n\u00e3o substitui uma avalia\u00e7\u00e3o m\u00e9dica. A import\u00e2ncia dessa linha de pesquisa est\u00e1 em outra quest\u00e3o: entender por que o sistema olfativo pode ser afetado t\u00e3o cedo por processos que tamb\u00e9m comprometem a mem\u00f3ria. (<strong>Figura 2<\/strong>)<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-11011\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CD-o-cheiro-da-memoria-fig-2-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"334\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CD-o-cheiro-da-memoria-fig-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CD-o-cheiro-da-memoria-fig-2-768x512.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CD-o-cheiro-da-memoria-fig-2-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CD-o-cheiro-da-memoria-fig-2-800x534.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CD-o-cheiro-da-memoria-fig-2.jpg 1000w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-2-magnific-reproducao\" style=\"text-align: center;\">Figura 2. Magnific. (Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que a resposta esteja justamente na arquitetura compartilhada desses circuitos. O c\u00f3rtex olfativo e o hipocampo mant\u00eam conex\u00f5es estreitas, e os pesquisadores investigam se o funcionamento da mem\u00f3ria olfativa pode ajudar a compreender mecanismos mais gerais de forma\u00e7\u00e3o, armazenamento e recupera\u00e7\u00e3o das lembran\u00e7as. Nesse sentido, estudar como o c\u00e9rebro se lembra de um cheiro pode ser tamb\u00e9m uma maneira de estudar como ele se lembra de outras coisas.<\/p>\n<p>Ainda h\u00e1 muito a descobrir. Uma quest\u00e3o particularmente fascinante \u00e9 saber at\u00e9 que ponto existem mem\u00f3rias que permanecem inacess\u00edveis \u00e0 consci\u00eancia e que poderiam ser reativadas quando encontramos novamente um determinado odor. A neurocientista Rachel Herz, da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.brown.edu\/\">Brown University<\/a><\/strong><\/span>, j\u00e1 levantou essa possibilidade ao discutir a singularidade das mem\u00f3rias olfativas em seus <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/27447673\/\">estudos<\/a><\/strong><\/span>: talvez alguns cheiros funcionem como chaves para experi\u00eancias que n\u00e3o conseguimos recuperar por outros caminhos.<\/p>\n<p>No fim, talvez a pergunta feita por Donald Laird em 1935 continue sendo a melhor maneira de resumir o mist\u00e9rio: \u201c<span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.jstor.org\/stable\/16002\">O que voc\u00ea pode fazer com o seu nariz?<\/a><\/strong><\/span>\u201d. Hoje sabemos que ele pode muito mais do que simplesmente detectar se h\u00e1 caf\u00e9 sendo preparado ou se a chuva est\u00e1 chegando. Por meio de mol\u00e9culas invis\u00edveis, o olfato ajuda o c\u00e9rebro a reconhecer o ambiente, associar experi\u00eancias, produzir emo\u00e7\u00f5es e recuperar fragmentos de uma hist\u00f3ria que julg\u00e1vamos perdida. \u00c0s vezes, basta uma \u00fanica inspira\u00e7\u00e3o para que o presente encontre, por alguns instantes, uma porta aberta para o passado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-magnific-reproducao\">Capa. Magnific. Reprodu\u00e7\u00e3o.<\/h6>\n<h6 id=\"ciencia-cultura-2022-by-sbpc-is-licensed-under-cc-by-sa-4-0\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a>\u00a0\u00a9 2022 by\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.sbpcnet.org.br\/\">SBPC<\/a>\u00a0is licensed under\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/4.0\/\">CC BY-SA 4.0 \u00a0 <\/a><img decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/cc.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/by.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/sa.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Uma rajada de perfume no elevador. 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