{"id":11045,"date":"2026-10-28T07:30:44","date_gmt":"2026-10-28T07:30:44","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=11045"},"modified":"2026-10-07T13:54:15","modified_gmt":"2026-10-07T13:54:15","slug":"as-mulheres-que-a-historia-da-ciencia-esqueceu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=11045","title":{"rendered":"As mulheres que a hist\u00f3ria da ci\u00eancia esqueceu"},"content":{"rendered":"<p>Imagine abrir um livro sobre a hist\u00f3ria da ci\u00eancia brasileira e encontrar p\u00e1ginas repletas de homens. N\u00e3o porque eles tenham sido os \u00fanicos a pesquisar, descobrir, ensinar ou construir institui\u00e7\u00f5es, mas porque, durante muito tempo, foram eles que receberam mais cr\u00e9dito, mais espa\u00e7o e mais perman\u00eancia na mem\u00f3ria. Algumas mulheres aparecem como exce\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias \u2014 quase sempre acompanhadas da palavra \u201cprimeira\u201d ou \u201cpioneira\u201d, como se a simples presen\u00e7a dela naquele espa\u00e7o fosse algo extraordin\u00e1rio. Outras surgem como esposas, assistentes ou colaboradoras de homens. Muitas simplesmente desaparecem. O problema \u00e9 que o apagamento n\u00e3o termina quando uma cientista deixa o laborat\u00f3rio: ele pode continuar na forma como seus trabalhos s\u00e3o citados, seus nomes aparecem em livros, seus pr\u00eamios s\u00e3o distribu\u00eddos e sua contribui\u00e7\u00e3o \u00e9 lembrada pelas gera\u00e7\u00f5es seguintes.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 uma diferen\u00e7a importante entre apagamento e simples aus\u00eancia. N\u00e3o se trata apenas de contar quantas mulheres est\u00e3o dentro da ci\u00eancia. \u00c9 preciso observar quem recebe cr\u00e9dito, quem assina primeiro, quem \u00e9 convidado a liderar, quem ganha financiamento, quem ocupa posi\u00e7\u00f5es de decis\u00e3o e quem passa a ser lembrado como autor de uma descoberta. A ci\u00eancia \u00e9 uma atividade coletiva, mas suas recompensas s\u00e3o distribu\u00eddas de maneira desigual. E, quando o reconhecimento se concentra repetidamente nos mesmos grupos, a pr\u00f3pria hist\u00f3ria produz a impress\u00e3o de que eles foram os principais respons\u00e1veis pelo conhecimento constru\u00eddo.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"uma-ciencia-que-mudou-mas-nao-por-completo\">Uma ci\u00eancia que mudou, mas n\u00e3o por completo<\/h4>\n<p>O Brasil avan\u00e7ou muito na participa\u00e7\u00e3o feminina na pesquisa. <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.ipea.gov.br\/cts\/pt\/central-de-conteudo\/todas-as-publicacoes\/publicacoes\/443-analise-dos-resultados-do-censo-dos-grupos-de-pesquisa-de-2023\">Segundo o Censo de 2023 do Diret\u00f3rio dos Grupos de Pesquisa do CNPq<\/a><\/strong><\/span>, as mulheres representavam 52% dos pesquisadores vinculados aos grupos cadastrados, contra 50% em 2016. O dado desmonta a ideia de que as mulheres seriam uma pequena minoria na ci\u00eancia brasileira. Elas est\u00e3o presentes em grande n\u00famero e participam ativamente da produ\u00e7\u00e3o de conhecimento.<\/p>\n<p>O problema aparece quando se acompanha a trajet\u00f3ria ao longo da carreira. Em 2023, o pr\u00f3prio governo federal destacava que as mulheres correspondiam a 60% das bolsas de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, mas a apenas 35% das bolsas de produtividade do <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.gov.br\/cnpq\/pt-br\">CNPq<\/a><\/strong><\/span> \u2014 um indicador associado \u00e0s etapas mais avan\u00e7adas da carreira de pesquisa. O que parece uma linha cont\u00ednua de forma\u00e7\u00e3o transforma-se, portanto, em uma esp\u00e9cie de funil: muitas meninas entram, muitas mulheres se formam, mas uma parcela menor chega aos espa\u00e7os de maior prest\u00edgio e poder.<\/p>\n<p>A <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.abc.org.br\/\">Academia Brasileira de Ci\u00eancias (ABC)<\/a> <\/strong><\/span>oferece outro retrato dessa assimetria. Ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es de 2024, as mulheres passaram a representar 22,26% dos membros titulares da institui\u00e7\u00e3o. Entre os membros afiliados, que representam uma gera\u00e7\u00e3o mais jovem de pesquisadores, a propor\u00e7\u00e3o era de 40,67%. A diferen\u00e7a entre as categorias n\u00e3o explica sozinha toda a desigualdade, mas revela como a presen\u00e7a feminina diminui \u00e0 medida que se sobe na hierarquia cient\u00edfica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"uma-cientista-pode-estar-presente-no-laboratorio-e-ainda-assim-permanecer-ausente-da-historia\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cUma cientista pode estar presente no laborat\u00f3rio e ainda assim permanecer ausente da hist\u00f3ria.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse percurso \u00e9 conhecido na literatura como <em>efeito tesoura<\/em>: mulheres e homens podem come\u00e7ar uma trajet\u00f3ria acad\u00eamica em propor\u00e7\u00f5es relativamente pr\u00f3ximas \u2014 ou mesmo com vantagem feminina em determinados n\u00edveis \u2014, mas as duas linhas se afastam conforme avan\u00e7am a forma\u00e7\u00e3o, a carreira e os cargos de maior responsabilidade. N\u00e3o h\u00e1 uma \u00fanica causa. Entram nessa equa\u00e7\u00e3o estere\u00f3tipos sobre quais \u00e1reas seriam \u201cadequadas\u201d para mulheres, redes profissionais predominantemente masculinas, distribui\u00e7\u00e3o desigual do trabalho de cuidado, crit\u00e9rios de avalia\u00e7\u00e3o e diferentes oportunidades de acesso a financiamento, lideran\u00e7a e reconhecimento.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"o-tempo-que-nao-aparece-no-curriculo\">O tempo que n\u00e3o aparece no curr\u00edculo<\/h4>\n<p>Um dos pontos de maior impacto \u00e9 a maternidade. A carreira cient\u00edfica costuma ser organizada em torno da produtividade: n\u00famero de artigos, cita\u00e7\u00f5es, projetos, orienta\u00e7\u00f5es, participa\u00e7\u00e3o em eventos e obten\u00e7\u00e3o de recursos. O problema \u00e9 que esses indicadores pressup\u00f5em uma disponibilidade de tempo que n\u00e3o \u00e9 distribu\u00edda igualmente. Pesquisas brasileiras mostram que <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/er\/a\/K7cJTTmXvLT3ZFKpCkdJ7BL\/\">professoras e pesquisadoras m\u00e3es enfrentam tens\u00f5es relacionadas \u00e0s jornadas extensas<\/a><\/strong><\/span>, ao trabalho reprodutivo e \u00e0 necessidade de conciliar cuidado e carreira.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simplesmente que a maternidade \u201creduz a produtividade\u201d das mulheres. O ponto mais profundo \u00e9 que o sistema cient\u00edfico frequentemente transforma uma diferen\u00e7a tempor\u00e1ria de disponibilidade em desvantagem acumulada. Um intervalo na publica\u00e7\u00e3o de artigos pode afetar bolsas, promo\u00e7\u00f5es, convites, orienta\u00e7\u00f5es e oportunidades futuras. Por isso, algumas ag\u00eancias passaram a adaptar seus crit\u00e9rios. O CNPq, por exemplo, prev\u00ea em determinados comit\u00eas a amplia\u00e7\u00e3o da janela de avalia\u00e7\u00e3o para pesquisadoras que tiveram filhos ou adotaram crian\u00e7as. Em 2026, a <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.gov.br\/capes\/pt-br\/acesso-a-informacao\/acoes-e-programas\/bolsas\/programas-estrategicos\/programa-aurora\">CAPES criou o Programa Aurora<\/a><\/strong><\/span>, voltado a reduzir o impacto da maternidade na continuidade da carreira cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Essas medidas s\u00e3o importantes justamente porque mostram que a desigualdade n\u00e3o pode ser explicada como falta de esfor\u00e7o individual. Se mulheres e homens s\u00e3o avaliados por um sistema constru\u00eddo sobre trajet\u00f3rias diferentes, tratar todos exatamente da mesma maneira pode produzir resultados desiguais. Equidade, nesse caso, n\u00e3o significa conceder vantagens arbitr\u00e1rias, mas reconhecer condi\u00e7\u00f5es concretas que interferem na possibilidade de produzir, pesquisar, viajar, estabelecer redes e permanecer na carreira.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"as-mulheres-que-estavam-la\">As mulheres que estavam l\u00e1<\/h4>\n<p>A hist\u00f3ria brasileira oferece in\u00fameros exemplos de cientistas cuja presen\u00e7a foi muito maior do que a mem\u00f3ria p\u00fablica deixou transparecer. Yolande Monteux, nascida na Fran\u00e7a e naturalizada brasileira, foi a primeira mulher a se formar em F\u00edsica no Brasil, pela USP, em 1937. Trabalhou com pesquisas em raios c\u00f3smicos e, por mais de duas d\u00e9cadas, esteve entre as poucas mulheres com forma\u00e7\u00e3o superior atuando no Instituto de Pesquisas Tecnol\u00f3gicas. Ainda assim, o pr\u00f3prio CNPq observa que atualmente pouco se sabe sobre sua trajet\u00f3ria em compara\u00e7\u00e3o com a de outros pioneiros da f\u00edsica brasileira.<\/p>\n<p>Poucos anos depois, Sonja Ashauer tornou-se outra pioneira. Formada em F\u00edsica pela USP, ela foi para Cambridge em 1945 e realizou seu doutorado sob orienta\u00e7\u00e3o de Paul Dirac, Nobel de F\u00edsica de 1933. Defendeu a tese em 1948, sobre eletrodin\u00e2mica qu\u00e2ntica, tornando-se a primeira mulher brasileira a obter um doutorado em F\u00edsica no exterior. Morreu naquele mesmo ano, aos 25 anos. Sua carreira curta ajuda a explicar parte de sua aus\u00eancia da mem\u00f3ria p\u00fablica, mas n\u00e3o explica tudo: durante d\u00e9cadas, sua contribui\u00e7\u00e3o permaneceu pouco conhecida fora de c\u00edrculos especializados.<\/p>\n<p>Elisa Frota-Pess\u00f4a foi outra personagem fundamental da f\u00edsica brasileira. Uma das primeiras mulheres formadas em F\u00edsica no pa\u00eds, ela foi a \u00fanica mulher entre os fundadores do <strong><a href=\"https:\/\/www.gov.br\/cbpf\/pt-br\"><span style=\"color: #800000;\">Centro Brasileiro de Pesquisas F\u00edsicas (CBPF)<\/span><\/a> <\/strong>e teve papel importante na cria\u00e7\u00e3o e estrutura\u00e7\u00e3o do Departamento de Emuls\u00f5es Nucleares. Seu trabalho envolveu estudos de radioatividade e de part\u00edculas subat\u00f4micas. Hoje, seu nome batiza uma premia\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica feminina \u2014 uma forma de reconhecimento que tamb\u00e9m evidencia como sua trajet\u00f3ria precisou ser recuperada e reinscrita na mem\u00f3ria da pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. (<strong>Figura 1<\/strong>)<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-11049\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CB-mulheres-apagadas-fig1.jpg\" alt=\"\" width=\"297\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CB-mulheres-apagadas-fig1.jpg 223w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CB-mulheres-apagadas-fig1-9x12.jpg 9w\" sizes=\"(max-width: 297px) 100vw, 297px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-1-elisa-frota-pessoa-foto-arquivo-pessoal-reproducao\" style=\"text-align: center;\">Figura 1. Elisa Frota-Pess\u00f4a. (Foto: Arquivo pessoal. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"quando-a-ciencia-se-mistura-a-outras-lutas\">Quando a ci\u00eancia se mistura a outras lutas<\/h4>\n<p>H\u00e1 ainda trajet\u00f3rias que revelam como g\u00eanero, ra\u00e7a e classe podem se combinar na produ\u00e7\u00e3o da invisibilidade. Enedina Alves Marques, formada em Engenharia Civil pela ent\u00e3o Universidade do Paran\u00e1 em 1945, foi a primeira engenheira negra do Brasil. Filha de uma empregada dom\u00e9stica, estudou em condi\u00e7\u00f5es adversas e ingressou em uma profiss\u00e3o e em uma universidade dominadas por homens brancos. Como engenheira, participou de importantes obras de infraestrutura no Paran\u00e1, incluindo trabalhos relacionados \u00e0 Usina Capivari-Cachoeira. A <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/ufpr.br\/\">Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR) <\/a><\/strong><\/span>registra que sua trajet\u00f3ria foi pouco abordada por muito tempo e que estudos posteriores identificaram padr\u00f5es hierarquizados de classe, etnia e g\u00eanero em sua passagem pela Faculdade de Engenharia. (<strong>Figura 2<\/strong>)<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-11048\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CB-mulheres-apagadas-fig2-300x300.webp\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CB-mulheres-apagadas-fig2-300x300.webp 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CB-mulheres-apagadas-fig2-150x150.webp 150w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CB-mulheres-apagadas-fig2-12x12.webp 12w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CB-mulheres-apagadas-fig2-80x80.webp 80w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CB-mulheres-apagadas-fig2.webp 400w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-2-enedina-alves-marques-foto-divulgacao\" style=\"text-align: center;\">Figura 2. Enedina Alves Marques. (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bertha Lutz, por sua vez, \u00e9 frequentemente lembrada por sua atua\u00e7\u00e3o no movimento sufragista brasileiro. Essa mem\u00f3ria \u00e9 leg\u00edtima, mas incompleta. Naturalista e bi\u00f3loga, ela trabalhou no Museu Nacional e participou de expedi\u00e7\u00f5es e pesquisas sobre anf\u00edbios, al\u00e9m de atuar na organiza\u00e7\u00e3o de cole\u00e7\u00f5es cient\u00edficas. A documenta\u00e7\u00e3o do <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.museunacional.ufrj.br\/\">Museu Nacional<\/a><\/strong> <\/span>mostra uma carreira que atravessava pesquisa, curadoria, viagens cient\u00edficas e atua\u00e7\u00e3o institucional. Sua hist\u00f3ria ajuda a perceber outro mecanismo de apagamento: quando uma mulher possui uma atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica marcante, sua produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica pode acabar relegada a segundo plano. (<strong>Figura 3<\/strong>)<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-11047\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CB-mulheres-apagadas-fig3.jpg\" alt=\"\" width=\"324\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CB-mulheres-apagadas-fig3.jpg 202w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CB-mulheres-apagadas-fig3-10x12.jpg 10w\" sizes=\"(max-width: 324px) 100vw, 324px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-3-bertha-lutz-divulgacao\" style=\"text-align: center;\">Figura 3. Bertha Lutz. (Divulga\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No caso de Nise da Silveira, a invisibilidade assumiu outras formas. Formada em Medicina em 1926, \u00fanica mulher de sua turma, ela enfrentou tanto o machismo de seu ambiente profissional quanto persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica durante o governo Vargas. Ao retornar ao servi\u00e7o p\u00fablico, recusou m\u00e9todos psiqui\u00e1tricos ent\u00e3o utilizados, como eletrochoques, e criou uma abordagem baseada na terapia ocupacional, na express\u00e3o art\u00edstica e no v\u00ednculo afetivo. Em 1952, fundou o <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/museuimagensdoinconsciente.org.br\/\">Museu de Imagens do Inconsciente<\/a><\/strong><\/span>. Hoje reconhecida como uma das figuras fundamentais da hist\u00f3ria da sa\u00fade mental no Brasil, sua trajet\u00f3ria mostra que inova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica tamb\u00e9m pode significar questionar pr\u00e1ticas consideradas normais por uma institui\u00e7\u00e3o inteira. (<strong>Figura 4<\/strong>)<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-11046\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CB-mulheres-apagadas-fig4-300x238.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"317\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CB-mulheres-apagadas-fig4-300x238.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CB-mulheres-apagadas-fig4-15x12.jpg 15w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CB-mulheres-apagadas-fig4.jpg 622w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-4-nise-da-silveira-foto-divulgacao\" style=\"text-align: center;\">Figura 4. Nise da Silveira. (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"nao-basta-colocar-mulheres-na-fotografia\">N\u00e3o basta colocar mulheres na fotografia<\/h4>\n<p>Essas hist\u00f3rias t\u00eam algo em comum: n\u00e3o basta perguntar quantas mulheres participaram da ci\u00eancia. \u00c9 preciso perguntar em que condi\u00e7\u00f5es participaram e o que aconteceu com o reconhecimento de seu trabalho. Uma cientista pode estar presente no laborat\u00f3rio e ainda assim permanecer ausente da hist\u00f3ria. Pode assinar um artigo e ter sua contribui\u00e7\u00e3o atribu\u00edda ao colega mais conhecido. Pode liderar uma equipe e n\u00e3o ser lembrada como autora principal. Pode produzir conhecimento durante d\u00e9cadas e continuar desconhecida fora de seu c\u00edrculo profissional.<\/p>\n<p>Isso tamb\u00e9m ajuda a explicar por que recuperar nomes n\u00e3o \u00e9 apenas um exerc\u00edcio de justi\u00e7a hist\u00f3rica. Mem\u00f3ria produz refer\u00eancia. Quando meninas aprendem que a hist\u00f3ria da f\u00edsica, da engenharia, da medicina ou da matem\u00e1tica foi constru\u00edda quase exclusivamente por homens, a mensagem n\u00e3o precisa ser expl\u00edcita para produzir efeitos: aquele lugar parece pertencer a eles. A invisibilidade de cientistas do passado pode, assim, contribuir para limitar as possibilidades imaginadas pelas cientistas do presente.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"reescrever-a-historia-e-mudar-o-presente\">Reescrever a hist\u00f3ria \u00e9 mudar o presente<\/h4>\n<p>O movimento de recupera\u00e7\u00e3o dessas trajet\u00f3rias j\u00e1 acontece em institui\u00e7\u00f5es brasileiras. O CNPq mant\u00e9m o programa <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/memoria.cnpq.br\/pioneiras-da-ciencia1\">Pioneiras da Ci\u00eancia<\/a><\/strong><\/span>, criado para dar visibilidade \u00e0s contribui\u00e7\u00f5es de mulheres \u00e0 ci\u00eancia brasileira. Em 2025, o governo federal tamb\u00e9m entregou a primeira edi\u00e7\u00e3o do <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.gov.br\/cnpq\/pt-br\/acesso-a-informacao\/acoes-e-programas\/premios\/home-premio-mulheres-ciencia\">Pr\u00eamio Mulheres e Ci\u00eancia<\/a><\/strong><\/span>, reconhecendo pesquisadoras e institui\u00e7\u00f5es de diferentes regi\u00f5es e \u00e1reas do conhecimento. Iniciativas como essas n\u00e3o eliminam desigualdades estruturais, mas ajudam a disputar quais nomes entram nos arquivos, nos museus, nos livros e na mem\u00f3ria p\u00fablica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"quando-esses-nomes-voltam-aos-livros-aos-laboratorios-aos-arquivos-e-as-salas-de-aula-nao-estamos-apenas-corrigindo-uma-injustica-do-passado\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cQuando esses nomes voltam aos livros, aos laborat\u00f3rios, aos arquivos e \u00e0s salas de aula, n\u00e3o estamos apenas corrigindo uma injusti\u00e7a do passado.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a, por\u00e9m, exige mais do que acrescentar algumas mulheres a uma narrativa que continua essencialmente masculina. \u00c9 preciso revisar os pr\u00f3prios crit\u00e9rios pelos quais o m\u00e9rito cient\u00edfico \u00e9 reconhecido, ampliar a diversidade nos espa\u00e7os de decis\u00e3o, considerar as diferentes condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o da pesquisa, combater vieses na avalia\u00e7\u00e3o e garantir que mulheres negras, ind\u00edgenas e de outros grupos historicamente sub-representados tamb\u00e9m possam permanecer e ascender na carreira. O pr\u00f3prio desenho de pol\u00edticas recentes j\u00e1 aponta nessa dire\u00e7\u00e3o: chamadas do CNPq passaram a prever a\u00e7\u00f5es espec\u00edficas para meninas e mulheres nas ci\u00eancias exatas, engenharias e computa\u00e7\u00e3o e iniciativas voltadas \u00e0 internacionaliza\u00e7\u00e3o de pesquisadoras negras, ind\u00edgenas, quilombolas e ciganas.<\/p>\n<p>Talvez a pergunta mais importante, portanto, n\u00e3o seja quantas mulheres conseguiram \u201cvencer\u201d apesar das barreiras. Essa formula\u00e7\u00e3o coloca novamente sobre elas a responsabilidade por superar um sistema que n\u00e3o foi constru\u00eddo em condi\u00e7\u00f5es iguais. A pergunta \u00e9 outra: que ci\u00eancia poderia ter sido constru\u00edda se tantas mulheres tivessem recebido, desde o in\u00edcio, as mesmas oportunidades de reconhecimento, financiamento, autoria e lideran\u00e7a? N\u00e3o h\u00e1 como responder retrospectivamente. Mas \u00e9 poss\u00edvel olhar para os nomes que foram esquecidos e perceber que a hist\u00f3ria conhecida da ci\u00eancia brasileira \u00e9 apenas uma parte da hist\u00f3ria que efetivamente aconteceu.<\/p>\n<h6 id=\"ciencia-cultura-2022-by-sbpc-is-licensed-under-cc-by-sa-4-0\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a>\u00a0\u00a9 2022 by\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.sbpcnet.org.br\/\">SBPC<\/a>\u00a0is licensed under\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/4.0\/\">CC BY-SA 4.0 \u00a0 <\/a><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/cc.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/by.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/sa.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Imagine abrir um livro sobre a hist\u00f3ria da ci\u00eancia brasileira e encontrar&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":11050,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[1,2],"tags":[],"coauthors":[77],"class_list":["post-11045","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-blog","category-blog-2"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11045","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=11045"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11045\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11061,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11045\/revisions\/11061"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/11050"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=11045"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=11045"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=11045"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcoauthors&post=11045"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}