{"id":11053,"date":"2026-10-29T07:30:13","date_gmt":"2026-10-29T07:30:13","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=11053"},"modified":"2026-10-07T13:53:53","modified_gmt":"2026-10-07T13:53:53","slug":"o-direito-de-contar-sua-propria-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=11053","title":{"rendered":"O direito de contar sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>Um museu pode guardar uma flecha, uma cer\u00e2mica, uma fotografia, um instrumento musical ou um documento. Mas tamb\u00e9m pode guardar aquilo que n\u00e3o cabe em uma vitrine: mem\u00f3rias, conhecimentos, cosmologias, dores, resist\u00eancias e modos de existir. Quando se trata da hist\u00f3ria dos povos ind\u00edgenas e da popula\u00e7\u00e3o negra no Brasil, essa dimens\u00e3o ganha ainda mais import\u00e2ncia. Afinal, durante s\u00e9culos, suas hist\u00f3rias foram contadas principalmente por outros \u2014 muitas vezes a partir de olhares coloniais, racistas ou euroc\u00eantricos. Criar e fortalecer espa\u00e7os capazes de colocar essas popula\u00e7\u00f5es no centro da narrativa \u00e9, portanto, tamb\u00e9m uma forma de disputar o presente.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"quando-a-memoria-foi-construida-de-fora\">Quando a mem\u00f3ria foi constru\u00edda de fora<\/h4>\n<p>Os museus modernos surgiram associados \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de narrativas sobre o passado e \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de imagin\u00e1rios coletivos e projetos de na\u00e7\u00e3o. No Brasil, essa tradi\u00e7\u00e3o foi fortemente influenciada pelos modelos europeus, cujos acervos foram constitu\u00eddos, em grande medida, durante per\u00edodos de coloniza\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o imperial. Objetos retirados de seus territ\u00f3rios de origem passaram a ser reunidos e classificados como testemunhos de povos e culturas muitas vezes tratados como objetos de estudo.<\/p>\n<p>Essa hist\u00f3ria deixou marcas profundas nos acervos ind\u00edgenas brasileiros. Objetos foram coletados por exploradores, viajantes, mission\u00e1rios, comerciantes, pesquisadores e colecionadores e, em muitos casos, acabaram distantes das comunidades que os produziram. A situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se repetiu fora do pa\u00eds: importantes cole\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas brasileiras est\u00e3o hoje em institui\u00e7\u00f5es europeias e norte-americanas. O problema, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas onde est\u00e3o os objetos, mas quem tem acesso a eles, como s\u00e3o catalogados e, sobretudo, quem tem autoridade para interpretar seus significados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"durante-seculos-suas-historias-foram-contadas-principalmente-por-outros-muitas-vezes-a-partir-de-olhares-coloniais-racistas-ou-eurocentricos\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cDurante s\u00e9culos, suas hist\u00f3rias foram contadas principalmente por outros \u2014 muitas vezes a partir de olhares coloniais, racistas ou euroc\u00eantricos.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por isso, falar em museus ind\u00edgenas \u00e9 falar tamb\u00e9m em direito \u00e0 mem\u00f3ria. O Brasil re\u00fane centenas de povos origin\u00e1rios, centenas de l\u00ednguas e uma enorme diversidade de conhecimentos, pr\u00e1ticas e formas de compreender o mundo. Ainda assim, essa diversidade permaneceu durante muito tempo ausente ou sub-representada nas narrativas sobre a forma\u00e7\u00e3o nacional. Museus podem ajudar a modificar esse quadro ao apresentar povos ind\u00edgenas n\u00e3o como personagens de um passado distante, mas como sociedades contempor\u00e2neas, produtoras de conhecimento, arte, tecnologia e pensamento.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"da-colecao-a-autonarrativa\">Da cole\u00e7\u00e3o \u00e0 autonarrativa<\/h4>\n<p>Essa mudan\u00e7a depende, por\u00e9m, de mais do que aumentar o n\u00famero de objetos ind\u00edgenas ou negros nas vitrines. \u00c9 preciso questionar a pr\u00f3pria maneira como os acervos s\u00e3o organizados, pesquisados e apresentados. Uma cole\u00e7\u00e3o pode, por exemplo, separar objetos por tipo, fun\u00e7\u00e3o ou regi\u00e3o geogr\u00e1fica e deixar de registrar informa\u00e7\u00f5es fundamentais para os povos que os produziram \u2014 como o nome da comunidade, o territ\u00f3rio de origem, o nome ind\u00edgena do objeto ou as pessoas respons\u00e1veis por sua produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ponto que ganha for\u00e7a o protagonismo das pr\u00f3prias comunidades. Em iniciativas como o <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.gov.br\/museudoindio\/pt-br\/acesso-a-informacao\/institucional\/museu-do-indio\">Museu Nacional dos Povos Ind\u00edgenas<\/a><\/strong><\/span> (RJ) e o <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/museudasculturasindigenas.org.br\/\">Museu das Culturas Ind\u00edgenas<\/a> <\/strong><\/span>(SP), a presen\u00e7a ind\u00edgena na constru\u00e7\u00e3o das narrativas desloca o museu de uma posi\u00e7\u00e3o tradicional de autoridade sobre o outro. O conhecimento deixa de ser produzido apenas \u201csobre\u201d determinado povo e passa a ser constru\u00eddo tamb\u00e9m \u201ccom\u201d e \u201ca partir\u201d dele. Essa participa\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para que os museus deixem de reproduzir antigas hierarquias e se transformem em espa\u00e7os de di\u00e1logo e reconhecimento.<\/p>\n<p>O Museu Nacional dos Povos Ind\u00edgenas, criado em 1953 por Darcy Ribeiro, \u00e9 um dos exemplos mais importantes dessa trajet\u00f3ria. Seu acervo re\u00fane mais de 20 mil pe\u00e7as etnogr\u00e1ficas, al\u00e9m de documentos, fotografias e registros audiovisuais. A institui\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m re\u00fane cole\u00e7\u00f5es constitu\u00eddas pelos pr\u00f3prios ind\u00edgenas e, segundo o material consultado, tornou-se o primeiro grande acervo etnogr\u00e1fico brasileiro a contar com dire\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. A proposta evidencia que preservar patrim\u00f4nio n\u00e3o significa simplesmente conservar objetos, mas tamb\u00e9m garantir que seus detentores participem das decis\u00f5es sobre sua mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, o Museu das Culturas Ind\u00edgenas apresenta uma experi\u00eancia ainda mais expl\u00edcita de gest\u00e3o compartilhada e protagonismo ind\u00edgena. Inaugurado em 2022, o espa\u00e7o trabalha com exposi\u00e7\u00f5es sensoriais, arte contempor\u00e2nea e tradicional, performances e conhecimentos ancestrais. J\u00e1 em diferentes regi\u00f5es da Amaz\u00f4nia Legal, experi\u00eancias como o <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/visite.museus.gov.br\/instituicoes\/museu-paiter-a-soe\/\">Museu Paiter A Soe<\/a><\/strong><\/span>, criado pelo povo Paiter Suru\u00ed em Rond\u00f4nia, e o <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.google.com\/aclk?sa=L&amp;pf=1&amp;ai=DChsSEwjQt7a1gqiXAxUgQUgAHSdWEkcYACICCAEQABoCY2U&amp;co=1&amp;ase=2&amp;gclid=CjwKCAjw25fWBhAVEiwAMopNjkiv5nwOEvv3Ml32qPA4WWSjFLH7hB-SCa1R0yAT6jObmdZRYHYA-xoCrHkQAvD_BwE&amp;cid=CAAS0wHkaI_E6WNve2ch0z9w2Yex2Jo-QCBGn6FSJKsItVKYjiCHZkWizEKzIkd0l-Hv1UL9jRwgMKbButkRvlL2gkP6QX5XDlZ9Bi_WujABJGF5cEx8FbPdjbklg1ICZGJeq8NhazT1xki24MrdEBGlVZHmfLIkAljS3m2vKKS7uzLJp1IaXHCfsZjLRlsigmOq4g7PyONU9BqRnCdDDgqi9pZL3I1DHurHAzAQ6qYWomxkB_MStlX7Akn8t21r5V316StC5-8iSmHqScoDKYAk2SXRFgzM&amp;cce=2&amp;category=acrcp_v1_32&amp;sig=AOD64_0-mUs4MSsxGo7_D1FloDTorPXN6w&amp;q&amp;nis=4&amp;adurl=https:\/\/institutoiepe.org.br\/tag\/museu-kuahi\/?gad_source%3D1%26gad_campaignid%3D6801026836%26gbraid%3D0AAAAADjDbBSzH3fOi6PPR-_4vth4_6_Bi%26gclid%3DCjwKCAjw25fWBhAVEiwAMopNjkiv5nwOEvv3Ml32qPA4WWSjFLH7hB-SCa1R0yAT6jObmdZRYHYA-xoCrHkQAvD_BwE&amp;ved=2ahUKEwja06-1gqiXAxUykZUCHZx2D_oQ0Qx6BAgNEAE\">Museu Kuah\u00ed<\/a><\/strong><\/span>, no Amap\u00e1, mostram como os pr\u00f3prios povos podem criar institui\u00e7\u00f5es voltadas \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o, transmiss\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o de suas hist\u00f3rias e patrim\u00f4nios. (<strong>Figura 1<\/strong>)<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-11056\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CC-Quem-conta-a-historia-fig1-200x300.jpg\" alt=\"\" width=\"333\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CC-Quem-conta-a-historia-fig1-200x300.jpg 200w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CC-Quem-conta-a-historia-fig1-8x12.jpg 8w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CC-Quem-conta-a-historia-fig1.jpg 683w\" sizes=\"(max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-1-museu-kuahi-foto-hugo-macial-instituto-iepe-reproducao\" style=\"text-align: center;\">Figura 1. Museu Kuah\u00ed (Foto: Hugo Macial\/ Instituto IEPE. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"uma-historia-negra-que-tambem-precisa-ser-contada\">Uma hist\u00f3ria negra que tamb\u00e9m precisa ser contada<\/h4>\n<p>A disputa pela mem\u00f3ria n\u00e3o diz respeito apenas aos povos ind\u00edgenas. Em um pa\u00eds cuja forma\u00e7\u00e3o foi profundamente marcada pela di\u00e1spora africana e pela escraviza\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de pessoas, preservar e divulgar hist\u00f3rias afro-brasileiras significa tamb\u00e9m enfrentar uma narrativa nacional que durante muito tempo reduziu a popula\u00e7\u00e3o negra \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra escravizada. Museus dedicados \u00e0s culturas africanas e afro-brasileiras ajudam a deslocar essa perspectiva, revelando trajet\u00f3rias de resist\u00eancia, produ\u00e7\u00e3o intelectual, religiosidade, arte, organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria e cria\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n<p>Em Salvador, o <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/museuafrobrasileiro.com.br\/\">Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab)<\/a><\/strong> <\/span>aproxima o p\u00fablico das matrizes africanas que participaram da forma\u00e7\u00e3o do Brasil, com destaque para regi\u00f5es como Angola, Mo\u00e7ambique e Guin\u00e9. Resist\u00eancia negra, quilombos, religiosidade, festas e culturas populares aparecem como dimens\u00f5es de uma hist\u00f3ria que n\u00e3o pode ser compreendida apenas pelo trauma da escravid\u00e3o. A <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/visite.museus.gov.br\/instituicoes\/casa-do-benin\/\">Casa do Benin<\/a><\/strong><\/span>, tamb\u00e9m em Salvador, estabelece outra ponte importante: seu acervo e suas atividades ressaltam os v\u00ednculos hist\u00f3ricos entre a Bahia e o Golfo do Benin, lembrando que a di\u00e1spora n\u00e3o apagou as conex\u00f5es entre os dois lados do Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, essa mem\u00f3ria tamb\u00e9m se manifesta de maneira particularmente contundente. O <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/pretosnovos.com.br\/\">Instituto de Pesquisa e Mem\u00f3ria Pretos Novos<\/a><\/strong> <\/span>preserva vest\u00edgios arqueol\u00f3gicos e hist\u00f3ricos do antigo Cemit\u00e9rio dos Pretos Novos, onde milhares de africanos escravizados foram sepultados. J\u00e1 o <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.rio.rj.gov.br\/web\/muhcab\">Museu da Hist\u00f3ria e da Cultura Afro-Brasileira<\/a><\/strong><\/span>, localizado na regi\u00e3o conhecida como Pequena \u00c1frica, re\u00fane atividades educativas, exposi\u00e7\u00f5es e manifesta\u00e7\u00f5es culturais que colocam em evid\u00eancia a contribui\u00e7\u00e3o e a resist\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o negra. S\u00e3o espa\u00e7os nos quais a mem\u00f3ria deixa de ser abstrata: ela se relaciona diretamente com lugares onde vidas foram vividas, violentadas, reconstru\u00eddas e transformadas. (<strong>Figura 2<\/strong>)<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-11055\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CC-Quem-conta-a-historia-fig2-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CC-Quem-conta-a-historia-fig2-300x200.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CC-Quem-conta-a-historia-fig2-768x512.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CC-Quem-conta-a-historia-fig2-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CC-Quem-conta-a-historia-fig2-800x533.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/CC-Quem-conta-a-historia-fig2.jpg 960w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-2-museu-da-historia-e-da-cultura-afro-brasileira-foto-sailko-cc-by-sa-4-0-reproducao\" style=\"text-align: center;\">Figura 2. Museu da Hist\u00f3ria e da Cultura Afro-Brasileira (Foto: Sailko. CC BY-SA 4.0. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, o <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/museuafrobrasil.org.br\/\">Museu Afro Brasil Emanoel Araujo<\/a><\/strong><\/span> re\u00fane mais de oito mil obras relacionadas \u00e0 religiosidade, \u00e0 arte e \u00e0s hist\u00f3rias das culturas africanas e afro-brasileiras. Em Belo Horizonte, o <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/portalbelohorizonte.com.br\/o-que-fazer\/arte-e-cultura\/muquifu-museu-dos-quilombos-e-favelas-urbanos\">Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos (Muquifu)<\/a><\/strong> <\/span>amplia ainda mais a ideia de patrim\u00f4nio ao reunir fotografias, objetos, festas, dan\u00e7as, celebra\u00e7\u00f5es e hist\u00f3rias das comunidades de favelas e quilombos urbanos. No Maranh\u00e3o, a Casa do Tambor de Crioula valoriza uma manifesta\u00e7\u00e3o de matriz afro-brasileira reconhecida como Patrim\u00f4nio Cultural do Brasil; no Amap\u00e1, o <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/macapa.ap.gov.br\/museudonegro\/\">Museu de Artes, Culturas e Mem\u00f3rias Negras<\/a> <\/strong><\/span>evidencia a heran\u00e7a africana na forma\u00e7\u00e3o da identidade afro-amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"memoria-tambem-e-educacao\">Mem\u00f3ria tamb\u00e9m \u00e9 educa\u00e7\u00e3o<\/h4>\n<p>A import\u00e2ncia desses espa\u00e7os ultrapassa as paredes do museu. Ao aproximar estudantes, professores e p\u00fablico em geral de hist\u00f3rias e conhecimentos que foram frequentemente invisibilizados, essas institui\u00e7\u00f5es podem contribuir para uma educa\u00e7\u00e3o mais plural. O papel \u00e9 especialmente relevante diante da legisla\u00e7\u00e3o brasileira que tornou obrigat\u00f3rio o ensino da hist\u00f3ria e da cultura afro-brasileira e ind\u00edgena nas escolas. Museus, centros culturais, memoriais e acervos podem funcionar, assim, como espa\u00e7os de pesquisa, forma\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de materiais educativos.<\/p>\n<p>Mas preservar mem\u00f3ria exige recursos. Muitos museus brasileiros possuem cole\u00e7\u00f5es importantes e, ao mesmo tempo, enfrentam limita\u00e7\u00f5es de espa\u00e7o, infraestrutura, equipes t\u00e9cnicas e financiamento. A conserva\u00e7\u00e3o de materiais org\u00e2nicos, por exemplo, demanda controle de temperatura e umidade, combate a fungos e pragas e equipes especializadas. O inc\u00eandio do Museu Nacional, em 2018, tornou dramaticamente vis\u00edvel o que est\u00e1 em jogo quando institui\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis por preservar patrim\u00f4nios hist\u00f3ricos n\u00e3o disp\u00f5em das condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda um desafio contempor\u00e2neo: tornar os acervos acess\u00edveis sem ignorar os direitos das comunidades. A digitaliza\u00e7\u00e3o pode ampliar enormemente o acesso a documentos e objetos, especialmente quando cole\u00e7\u00f5es est\u00e3o espalhadas por diferentes institui\u00e7\u00f5es e pa\u00edses. Mas nem tudo deve necessariamente estar dispon\u00edvel para todos. Para os povos ind\u00edgenas, por exemplo, determinados objetos e conhecimentos podem possuir usos, significados ou restri\u00e7\u00f5es espec\u00edficos. Protocolos de acesso precisam, portanto, ser constru\u00eddos com consulta \u00e0s comunidades, respeitando seus costumes e tradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"de-quem-e-o-patrimonio\">De quem \u00e9 o patrim\u00f4nio?<\/h4>\n<p>Essa discuss\u00e3o conduz a uma quest\u00e3o ainda mais delicada: o que fazer com objetos que foram retirados de seus territ\u00f3rios de origem? O debate sobre repatria\u00e7\u00e3o vem ganhando espa\u00e7o internacionalmente e envolve dimens\u00f5es jur\u00eddicas, diplom\u00e1ticas, hist\u00f3ricas e, sobretudo, \u00e9ticas. O retorno do Manto Tupinamb\u00e1 ao Brasil, depois de permanecer no Museu Nacional da Dinamarca, tornou-se um s\u00edmbolo desse processo. O objeto, levado \u00e0 Europa no s\u00e9culo XVII, \u00e9 apenas um dos mantos Tupinamb\u00e1 que permanecem em institui\u00e7\u00f5es europeias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"museus-sao-instituicoes-de-memoria-mas-tambem-podem-ser-instituicoes-de-futuro\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cMuseus s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es de mem\u00f3ria, mas tamb\u00e9m podem ser institui\u00e7\u00f5es de futuro.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A repatria\u00e7\u00e3o, entretanto, n\u00e3o precisa ser entendida apenas como a devolu\u00e7\u00e3o f\u00edsica de uma pe\u00e7a. Ela tamb\u00e9m envolve a restitui\u00e7\u00e3o do direito de conhecer, acessar, interpretar e decidir sobre o pr\u00f3prio patrim\u00f4nio. A restitui\u00e7\u00e3o digital de acervos, a revis\u00e3o de cat\u00e1logos, a abertura de bases de dados e a participa\u00e7\u00e3o efetiva das comunidades s\u00e3o etapas poss\u00edveis de um processo mais amplo de repara\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, museus podem deixar de ser apenas guardi\u00f5es de cole\u00e7\u00f5es para se tornar parceiros na reconstru\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es historicamente marcadas pela desigualdade.<\/p>\n<p>No fundo, a pergunta sobre os museus \u00e9 tamb\u00e9m uma pergunta sobre o pr\u00f3prio Brasil. Quem aparece quando contamos a hist\u00f3ria do pa\u00eds? Quem \u00e9 apresentado como protagonista e quem aparece apenas como objeto? Quais conhecimentos s\u00e3o reconhecidos como ci\u00eancia, quais mem\u00f3rias s\u00e3o consideradas patrim\u00f4nio e quais vozes ainda permanecem fora das vitrines? Fortalecer museus ind\u00edgenas e afro-brasileiros n\u00e3o significa substituir uma narrativa por outra, mas ampliar o campo de hist\u00f3rias capazes de compor a mem\u00f3ria nacional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-museu-das-culturas-indigenas-mci-divulgacao\">Capa. Museu das Culturas Ind\u00edgenas (MCI). Divulga\u00e7\u00e3o<\/h6>\n<h6 id=\"ciencia-cultura-2022-by-sbpc-is-licensed-under-cc-by-sa-4-0\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a>\u00a0\u00a9 2022 by\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.sbpcnet.org.br\/\">SBPC<\/a>\u00a0is licensed under\u00a0<a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-sa\/4.0\/\">CC BY-SA 4.0 \u00a0 <\/a><img decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/cc.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/by.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/mirrors.creativecommons.org\/presskit\/icons\/sa.svg\" alt=\"\" width=\"30\" height=\"30\" \/><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Um museu pode guardar uma flecha, uma cer\u00e2mica, uma fotografia, um instrumento&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":11054,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[1,2],"tags":[],"coauthors":[77],"class_list":["post-11053","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-blog","category-blog-2"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11053","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=11053"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11053\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11060,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11053\/revisions\/11060"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/11054"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=11053"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=11053"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=11053"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcoauthors&post=11053"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}