{"id":1685,"date":"2022-03-21T07:00:37","date_gmt":"2022-03-21T07:00:37","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=1685"},"modified":"2023-09-07T19:14:27","modified_gmt":"2023-09-07T19:14:27","slug":"as-guerras-da-independencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=1685","title":{"rendered":"As guerras da independ\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Um pr\u00edncipe, um grito, e um pa\u00eds declarado independente. Ao contr\u00e1rio da narrativa oficial que predomina nos livros e nas aulas de hist\u00f3ria, a Independ\u00eancia do Brasil n\u00e3o se consolidou no 7 de setembro de 1822, \u00e0s margens do Rio Ipiranga. Tampouco foi um processo homog\u00eaneo, definitivo e pac\u00edfico. Ao contr\u00e1rio: foi complexo e repleto de lutas nas diferentes regi\u00f5es do territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>O estabelecimento da corte portuguesa no Brasil ocasionou uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as, como a abertura dos portos \u00e0s na\u00e7\u00f5es amigas, a cria\u00e7\u00e3o de novas institui\u00e7\u00f5es, e uma maior autonomia e unidade para a col\u00f4nia. Por outro lado, tamb\u00e9m acarretou o aumento dos impostos e a interfer\u00eancia direta na administra\u00e7\u00e3o da capitania, al\u00e9m de estabelecer uma maior repress\u00e3o contra as mobiliza\u00e7\u00f5es populares.<\/p>\n<p>Isso levou a uma crescente insatisfa\u00e7\u00e3o na col\u00f4nia \u2014 tanto das elites, quanto dos populares. O resultado foi uma s\u00e9rie de revolu\u00e7\u00f5es que eclodiram pelo pa\u00eds, conhecidas como as Guerras pela Independ\u00eancia, que persistiram at\u00e9 meados de 1825. \u201cDe fato, em 1821 e 1822, antes de setembro, havia muita tens\u00e3o pol\u00edtica. As prov\u00edncias podiam escolher atender os decretos das Cortes de Lisboa ou os do pr\u00edncipe-regente. Atrav\u00e9s de jornais e de cartas oficiais ou particulares, os integrantes de diferentes prov\u00edncias procuravam convencer os moradores delas ou de outras a aderir a esse ou aquele projeto pol\u00edtico\u201d, aponta Adriano Comissoli, professor do Departamento de Hist\u00f3ria e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.ufsm.br\/\">Universidade Federal de Santa Maria<\/a> <\/span>(UFSM).<\/p>\n<p>A primeira delas, que antecedeu a Proclama\u00e7\u00e3o da Independ\u00eancia, foi a Revolu\u00e7\u00e3o Pernambucana de 1817 \u2014 um movimento de car\u00e1ter separatista, republicano e liberal. O movimento foi o \u00fanico do per\u00edodo\u00a0colonial que atingiu a tomada do poder, levando a capitania de Pernambuco a declarar sua separa\u00e7\u00e3o do Brasil e a proclamar uma rep\u00fablica. A repress\u00e3o foi violenta: 14 revoltosos foram executados (a maioria enforcada e esquartejada), e centenas morreram em combate ou na pris\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-1686 size-full\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/batalhas1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"207\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/batalhas1.jpg 500w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/batalhas1-300x124.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/batalhas1-18x7.jpg 18w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-1-exercito-do-imperio-do-brasil-ataca-as-forcas-confederadas-no-recife-em-1824-no-contexto-da-confederacao-do-equador-principal-reacao-contra-a-politica-centralizadora-de-d-pedro-i\"><strong>Figura 1.<\/strong> <strong>Ex\u00e9rcito do Imp\u00e9rio do Brasil ataca as for\u00e7as confederadas no Recife, em 1824, no contexto da Confedera\u00e7\u00e3o do Equador, principal rea\u00e7\u00e3o contra a pol\u00edtica centralizadora de D. Pedro I.<br \/>\n<\/strong>(\u201cCombate entre rebeldes e legalistas na luta dos Afogados\u201d, de Leandro Martins. Reprodu\u00e7\u00e3o)<em>.<\/em><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cA Revolu\u00e7\u00e3o Pernambucana \u00e9 um movimento muito forte no Nordeste em 1817\u201d, explica Paulo\u00a0Pinheiro Machado, professor do Departamento de Hist\u00f3ria da <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/ufsc.br\/\">Universidade Federal de Santa Catarina<\/a> <\/span>(UFSC). \u201c\u00c9 um movimento federalista em que se desenhava outro tipo de Estado, republicano, com a separa\u00e7\u00e3o dos poderes executivo, legislativo e judici\u00e1rio para evitar a centraliza\u00e7\u00e3o de poder\u201d.<\/p>\n<h3 id=\"revoltas-motins-e-levantes\"><strong>Revoltas, motins e levantes<\/strong><\/h3>\n<p>A Proclama\u00e7\u00e3o da Independ\u00eancia, no entanto, n\u00e3o acalmou os \u00e2nimos. Muito pelo contr\u00e1rio: v\u00e1rios grupos tomaram posi\u00e7\u00f5es variadas, aumentando a tens\u00e3o atrav\u00e9s do territ\u00f3rio. O site <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.historia.uff.br\/impressoesrebeldes\/?page_id=4\">Impress\u00f5es Rebeldes<\/a><\/span>, do Instituto de Hist\u00f3ria da <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"http:\/\/www.uff.br\">Universidade Federal Fluminense<\/a> <\/span>(UFF), lista 24 ocorr\u00eancias entre 1820 e 1824, classificadas como revoltas, motins e levantes. \u201cSobre as lutas da independ\u00eancia \u00e9 importante considerar o quanto foram variadas. N\u00e3o apenas houve batalhas contra tropas portuguesas, mas tamb\u00e9m revoltas, lutas pelo poder local, motins, e muitas intimida\u00e7\u00f5es por parte das for\u00e7as militares\u201d, afirma Comissoli. \u201cEm resumo, podemos falar de guerras entre o Rio de Janeiro e for\u00e7as leais a Lisboa, revoltas locais, motins e guerras separatistas\u201d, continua.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"nao-apenas-houve-batalhas-contra-tropas-portuguesas-mas-tambem-revoltas-lutas-pelo-poder-local-motins-e-muitas-intimidacoes-por-parte-das-forcas-militares\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\">&#8220;N\u00e3o apenas houve batalhas contra tropas portuguesas, mas tamb\u00e9m revoltas, lutas pelo poder local, motins, e muitas intimida\u00e7\u00f5es por parte das for\u00e7as militares.&#8221;<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Bahia foi um dos locais mais conflituosos. Na regi\u00e3o, os tumultos aumentam em 1822 com a Carta R\u00e9gia que substitu\u00eda o brasileiro Manuel Pedro de Freitas Guimar\u00e3es, governador das armas da Bahia, pelo portugu\u00eas In\u00e1cio Lu\u00eds Madeira de Melo. Ap\u00f3s uma fracassada tentativa de acordo entre a Junta Provis\u00f3ria e a C\u00e2mara de Salvador, as tropas entram em choque. Salvador \u00e9 ent\u00e3o cercada pelo ex\u00e9rcito portugu\u00eas, e dezenas de fam\u00edlias e soldados brasileiros deixam a cidade rumo \u00e0s vilas do Rec\u00f4ncavo Baiano. L\u00e1, tropas de volunt\u00e1rios \u2014 formadas especialmente por escravos fugidos \u2014 se re\u00fanem para compor uma armada que organiza a resist\u00eancia em solo baiano. Nos meses seguintes, v\u00e1rias batalhas s\u00e3o travadas por terra e mar, com caracter\u00edsticas de guerra civil. O ponto m\u00e1ximo \u00e9 alcan\u00e7ando nos meses de maio e junho de 1823, quando as tropas brasileiras cercam Salvador e expulsam os portugueses da regi\u00e3o, no dia 2 de julho.<\/p>\n<p>\u201cO rec\u00f4ncavo baiano foi um local de disputas muito violentas, onde chegou a se formar um segundo ex\u00e9rcito, composto por escravos fugidos, que cercaram a capital Salvador e expulsaram os portugueses\u201d, aponta Machado. \u201cEssas lutas baianas s\u00e3o consideradas fundamentais para a consolida\u00e7\u00e3o da ideia de unidade do territ\u00f3rio brasileiro\u201d.<\/p>\n<p>No Piau\u00ed, enquanto as autoridades se opunham ao novo governo, v\u00e1rios grupos apoiavam o projeto de D. Pedro. A prov\u00edncia era controlada pelo governador e major portugu\u00eas Jo\u00e3o Jos\u00e9 da Cunha Fidi\u00e9, que tinha a miss\u00e3o de manter o norte da ex-col\u00f4nia fiel \u00e0 Coroa Portuguesa. No entanto, pouco mais de um m\u00eas ap\u00f3s o Grito do Ipiranga, as cidades de Parna\u00edba e Oeiras declaram sua ades\u00e3o ao projeto da independ\u00eancia. Fidi\u00e9 parte para reprimir o movimento rebelde, quando \u00e9 surpreendido por uma coluna de piauienses, maranhenses e cearenses \u00e0s margens do Rio Jenipapo, em Campo Maior. \u00c9 a\u00ed que se trava, no dia 13 de mar\u00e7o de 1823, um dos confrontos mais sangrentos das Guerras da Independ\u00eancia: a Batalha do Jenipapo. Armados com espingardas, fac\u00f5es, machados, foices, e at\u00e9 paus e pedras, os rebeldes enfrentam os bem armados soldados de Fidi\u00e9. Em poucas horas de embate, entre 200 e 400 brasileiros s\u00e3o mortos. Apesar da grande baixa, os rebeldes conseguem debandar, levando os suprimentos portugueses. As tropas lusitanas s\u00e3o obrigadas a recuar para o Maranh\u00e3o e os rebeldes conseguem dominar a prov\u00edncia. Fidi\u00e9 acaba preso, enviado ao Rio de Janeiro e deportado para Lisboa.<\/p>\n<h3 id=\"e-a-guerra-continua\"><strong>E a guerra continua<\/strong><\/h3>\n<p>Algumas prov\u00edncias desfrutavam de uma rela\u00e7\u00e3o privilegiada com Portugal \u2014 e, por isso, resistiram mais para aderir ao projeto da independ\u00eancia. Esse \u00e9 o caso do Maranh\u00e3o e do Gr\u00e3o-Par\u00e1.<\/p>\n<p>A elite maranhense possu\u00eda uma s\u00e9rie de vantagens quanto a exporta\u00e7\u00e3o, a manuten\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o e as rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ligadas aos portugueses \u2014\u00a0da\u00ed o desejo em manter os v\u00ednculos com Portugal.\u00a0No entanto, o interesse do Imp\u00e9rio era manter a unidade do territ\u00f3rio. Assim, nos primeiros meses de 1823, tropas organizadas a partir do Cear\u00e1 e do Piau\u00ed invadiram o Maranh\u00e3o. A capital S\u00e3o Lu\u00eds foi cercada por mar e amea\u00e7ada de destrui\u00e7\u00e3o at\u00e9 se render no dia 28 de julho.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, o Gr\u00e3o-Par\u00e1 tamb\u00e9m possu\u00eda uma forte liga\u00e7\u00e3o com os comerciantes portugueses. Havia ainda a vantagem da dist\u00e2ncia e a navega\u00e7\u00e3o, bem mais segura e r\u00e1pida para Lisboa do que para o Rio de Janeiro, o que facilitava o com\u00e9rcio e as rela\u00e7\u00f5es com Portugal. Entretanto, ap\u00f3s a Independ\u00eancia do Brasil, a rela\u00e7\u00e3o da Prov\u00edncia com as Cortes de Lisboa ficou estremecida. A elite paraense e o rec\u00e9m-criado imp\u00e9rio brasileiro come\u00e7am a pressionar a capitania para que aderisse \u00e0 independ\u00eancia. Ent\u00e3o, at\u00e9 que D. Pedro envia o militar ingl\u00eas John Grenfell para intimar as autoridades pela ades\u00e3o. Para cumprir sua miss\u00e3o, o militar envia um of\u00edcio alertando que a cidade est\u00e1 sitiada e ser\u00e1 invadida se as autoridades civis, militares e eclesi\u00e1sticas n\u00e3o aderirem \u00e0 independ\u00eancia. O epis\u00f3dio n\u00e3o passa de um blefe porque, na verdade, o capit\u00e3o ingl\u00eas tinha apenas uma esquadra. Sem saber da mentira de Grenfell, as autoridades do Gr\u00e3o-Par\u00e1 assinam a ades\u00e3o \u00e0 independ\u00eancia no dia 15 de agosto de 1823.<\/p>\n<p>Mas a ades\u00e3o da capitania n\u00e3o foi assim t\u00e3o simples. Um dos pontos de maior conflito foi o fato de que a elite poderia manter seus t\u00edtulos e propriedades ao assinar um documento jurando fidelidade a D. Pedro. \u201cNo Par\u00e1 a guerra de independ\u00eancia \u00e9 um conflito entre brasileiros fi\u00e9is a Portugal e brasileiros fi\u00e9is ao Imp\u00e9rio, enfim uma guerra civil entre brasileiros\u201d, explica Vitor Izecksohn, professor do Instituto de Hist\u00f3ria e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria Social da <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/ufrj.br\/\">Universidade Federal do Rio de Janeiro<\/a> <\/span>(UFRJ)<strong>. <\/strong>Assim, apenas tr\u00eas meses ap\u00f3s a ades\u00e3o, eclodiu uma revolta das tropas paraenses em Bel\u00e9m, lutando por direitos iguais. O movimento foi duramente reprimido, e 256 paraenses foram confinados no por\u00e3o do navio S\u00e3o Jos\u00e9 Diligente e morreram asfixiados, sufocados ou at\u00e9 mesmo fuzilados.<\/p>\n<p>\u201cA regi\u00e3o do Gr\u00e3o-Par\u00e1 \u00e9 uma regi\u00e3o de forte liga\u00e7\u00e3o com a Portugal, especialmente comercial. Os portugueses dominavam o mercado de trabalho e tinham a soberania do com\u00e9rcio de retalho (como era chamado o com\u00e9rcio de varejo). Ap\u00f3s a independ\u00eancia, come\u00e7am a surgir v\u00e1rios movimentos anti-lusitanos e contra o monop\u00f3lio dos portugueses no com\u00e9rcio\u201d, aponta Machado. \u201cAdeptos da causa portuguesa ou brasileira, os negociantes portugueses se tornariam um dos principais alvos das camadas insatisfeitas com a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, econ\u00f4mica e social da Prov\u00edncia. Eles eram vistos como contr\u00e1rios aos interesses da maioria da popula\u00e7\u00e3o composta de ind\u00edgenas, negros e mesti\u00e7os\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-1687 size-full\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/batalha2.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"348\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/batalha2.jpg 500w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/batalha2-300x209.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/batalha2-18x12.jpg 18w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-2-a-cisplatina-foi-uma-regiao-marcada-por-conflitosmorte-do-coronel-brandsen-durante-a-batalha-de-ituzaingo-de-augusto-ballerini-reproducao\"><strong>Figura 2.<\/strong> <strong>A Cisplatina foi uma regi\u00e3o marcada por conflitos<br \/>\n<\/strong>(\u201cMorte do Coronel Brandsen durante a batalha de Ituzaing\u00f3\u201d, de Augusto Ballerini. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>A \u00faltima prov\u00edncia a se tornar independente foi a Cisplatina. A regi\u00e3o sempre foi marcada por conflitos, sendo inicialmente disputada por Portugal e Espanha, e depois entre Brasil e Buenos Aires. Durante o processo de independ\u00eancia brasileira, a Prov\u00edncia da Cisplatina fazia parte do territ\u00f3rio do Brasil \u2014 mas isso n\u00e3o apaziguou a situa\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o do Rio da Prata. \u201cA regi\u00e3o oriental do Rio da Prata era muito cobi\u00e7ada pela sua localiza\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica e pelo seu potencial econ\u00f4mico, e foi incorporada ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves em 1821. Mas a cria\u00e7\u00e3o da Cisplatina e a sua incorpora\u00e7\u00e3o ao territ\u00f3rio brasileiro foram motivos de muita pol\u00eamica e muitos conflitos na regi\u00e3o entre o Brasil, Buenos Aires e o Uruguai\u201d, aponta Izecksohn.<\/p>\n<p>Em 1825, o militar e pol\u00edtico Juan Ant\u00f4nio Lavalleja liderou uma rebeli\u00e3o contra o Brasil para anexar a Cisplatina \u00e0 Prov\u00edncia Unida do Rio da Prata (atual Argentina). Para o imp\u00e9rio brasileiro, a manuten\u00e7\u00e3o territorial do Brasil era fundamental. Assim, D. Pedro enviou tropas para a \u00e1rea, mas suas\u00a0a\u00e7\u00f5es serviram apenas para agravar os \u00e2nimos. As tropas brasileiras foram derrotadas e o Brasil perdeu a Prov\u00edncia da Cisplatina. Mais tarde, o pa\u00eds concordou em participar da Confer\u00eancia Preliminar da Paz, que estabeleceu o cessar-fogo e a separa\u00e7\u00e3o da Cisplatina, que por fim obteve sua independ\u00eancia\u00a0e se tornou a Rep\u00fablica Oriental do Uruguai.<\/p>\n<h3 id=\"exercito-de-negros-indigenas-e-mulheres\"><strong>Ex\u00e9rcito de negros, ind\u00edgenas e mulheres<\/strong><\/h3>\n<p>Os diversos epis\u00f3dios do processo da Independ\u00eancia do Brasil contaram com a participa\u00e7\u00e3o de representantes de todas as ra\u00e7as, classes e g\u00eaneros. Ainda que com interesses e motivos variados, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel negar a contribui\u00e7\u00e3o das camadas populares, negros escravizados e libertos (ou at\u00e9 mesmo fugidos), ind\u00edgenas, sertanejos e mulheres. A maioria das revoltas, motins e levantes que ocorreram atrav\u00e9s do territ\u00f3rio nacional tiveram car\u00e1ter fortemente popular, emancipacionista e democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-maioria-das-revoltas-motins-e-levantes-que-ocorreram-atraves-do-territorio-nacional-tiveram-carater-fortemente-popular-emancipacionista-e-democratico\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\">&#8220;A maioria das revoltas, motins e levantes que ocorreram atrav\u00e9s do territ\u00f3rio nacional tiveram car\u00e1ter fortemente popular, emancipacionista e democr\u00e1tico.&#8221;<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, houve forte presen\u00e7a dessas camadas no ex\u00e9rcito. Por\u00e9m, o recrutamento era um assunto um tanto controverso. Por um lado, era temido e repudiado pela popula\u00e7\u00e3o mais pobre, pois significava o afastamento das atividades econ\u00f4micas e sociais. Por outro, era negado aos escravos. \u201cApesar da forte presen\u00e7a de negros e mesti\u00e7os, o servi\u00e7o militar brasileiro n\u00e3o era aberto a escravos\u201d, explica Izecksohn. \u201cA Constitui\u00e7\u00e3o Imperial garantia os direitos de propriedade, e como propriedade os escravos n\u00e3o podiam ser oficialmente expropriados: seja pelo governo imperial, seja pelos governos provinciais. Consequentemente o alistamento estava aberto somente para aqueles que possu\u00edam liberdades civis ou para escravos libertos para defender o Estado sob condi\u00e7\u00f5es excepcionais. Por outro lado, havia muito debate sobre quais eram essas condi\u00e7\u00f5es excepcionais. Al\u00e9m disso, a escassez de soldados fazia com que o ex\u00e9rcito acabasse recorrendo a essa popula\u00e7\u00e3o de negros (libertos ou at\u00e9 mesmo fugidos) e de \u00edndios\u201d.<\/p>\n<p>O processo da independ\u00eancia brasileira foi longo e \u00e1rduo. Segundo os pesquisadores, \u00e9 ainda um projeto em constru\u00e7\u00e3o. \u201cAs pessoas perguntavam-se muito sobre o pa\u00eds e a sociedade que queriam e propunham caminhos para constru\u00ed-la. Este \u00e9 um exerc\u00edcio de pol\u00edtica que precisamos retomar e praticar constantemente: pensar o futuro e os modos de alcan\u00e7\u00e1-lo\u201d, prop\u00f5e Comissoli. \u201cA import\u00e2ncia da constitui\u00e7\u00e3o, da separa\u00e7\u00e3o dos poderes e do respeito \u00e0s leis leg\u00edtimas igualmente se destacam no per\u00edodo. E tamb\u00e9m a participa\u00e7\u00e3o de diversos setores da sociedade\u201d, finaliza.<\/p>\n<h6 id=\"imagem-de-capa-a-bahia-foi-uma-regiao-marcada-pela-resistencia-e-por-diversos-conflitoso-primeiro-passo-para-a-independencia-da-bahia-de-antonio-parreiras-reproducao\"><strong>Imagem de capa. A Bahia foi uma regi\u00e3o marcada pela resist\u00eancia e por diversos conflitos<br \/>\n<\/strong>(\u201cO Primeiro Passo para a Independ\u00eancia da Bahia\u201d, de Ant\u00f4nio Parreiras. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 id=\"bueno-chris-as-guerras-da-independencia-longe-de-ser-um-processo-pacifico-a-independencia-do-brasil-foi-repleta-de-revoltas-motins-e-levantes-por-todo-territorio-cienc-cult-onl\"><span style=\"color: #808080;\">BUENO, Chris.<span class=\"article-title\">\u00a0As guerras da independ\u00eancia. Longe de ser um processo pac\u00edfico, a Independ\u00eancia do Brasil foi repleta de revoltas, motins e levantes por todo territ\u00f3rio.<\/span><i>\u00a0Cienc. Cult.<\/i>\u00a0[online]. 2022, vol.74, n.1 [citado\u00a0 2023-09-07], pp.1-5. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/cienciaecultura.bvs.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252022000100012&amp;lng=pt&amp;nrm=iso&gt;. ISSN 0009-6725.\u00a0 http:\/\/dx.doi.org\/10.5935\/2317-6660.20220012.<\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Um pr\u00edncipe, um grito, e um pa\u00eds declarado independente. Ao contr\u00e1rio da&hellip;\n","protected":false},"author":11,"featured_media":1688,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1685"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1685"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1685\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4696,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1685\/revisions\/4696"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1688"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1685"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1685"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1685"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}