{"id":1698,"date":"2022-04-25T07:00:26","date_gmt":"2022-04-25T07:00:26","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=1698"},"modified":"2023-09-07T19:19:00","modified_gmt":"2023-09-07T19:19:00","slug":"independencia-entre-a-historia-dos-livros-e-a-verdade-dos-corpos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=1698","title":{"rendered":"Independ\u00eancia: entre a hist\u00f3ria dos livros e a verdade dos corpos"},"content":{"rendered":"<p>Repensar as narrativas hist\u00f3ricas de um pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 apenas uma demanda dos movimentos sociais de hoje. Aqui no Brasil, enquanto o ano 2000 era marcado por uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es em comemora\u00e7\u00e3o aos 500 anos do descobrimento, a fil\u00f3sofa Marilena Chau\u00ed j\u00e1 defendia que n\u00e3o havia nada a festejar, pois, se do lado dos portugueses existia uma narrativa de progresso, para os ind\u00edgenas o per\u00edodo foi um genoc\u00eddio. Rumo ao bicenten\u00e1rio da independ\u00eancia, nos deparamos com o mesmo questionamento: temos o que comemorar?<\/p>\n<p>Se olharmos do ponto de vista dos grupos considerados minorit\u00e1rios, essa \u00e9 uma pergunta dif\u00edcil de responder.\u00a0Segundo o<span style=\"color: #800000;\">\u00a0<a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.ipea.gov.br\/atlasviolencia\/publicacoes\">Atlas da Viol\u00eancia 2021<\/a>,<\/span> a chance de uma pessoa negra ser assassinada no pa\u00eds \u00e9 2,6 vezes superior ao de uma pessoa n\u00e3o negra. O mesmo relat\u00f3rio aponta que os\u00a0homic\u00eddios de ind\u00edgenas cresceram mais de 20% em dez anos. Ainda, o estudo \u201c<a href=\"https:\/\/soudapaz.org\/o-que-fazemos\/mobilizar\/sistema-de-justica-criminal-e-seguranca-publica\/participacao-no-debate-publico\/controle-de-armas\/?show=documentos#5618\"><span style=\"color: #800000;\">Viol\u00eancia armada e racismo: o papel da arma de fogo na desigualdade racial<\/span><\/a>\u201d, do <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/soudapaz.org\/\">Instituto Sou da Paz<\/a><\/span>, mostra que dos 30 mil assassinatos por agress\u00e3o armada em 2019, 78% foram contra pessoas negras. J\u00e1 o <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/cimi.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/relatorio-violencia-povos-indigenas-2020-cimi.pdf\">Relat\u00f3rio Viol\u00eancia Contra os Povos Ind\u00edgenas do Brasil<\/a><\/span>, publicado pelo <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/cimi.org.br\/observatorio-da-violencia\/o-relatorio\/\">Conselho Indigenista Mission\u00e1rio (Cimi)<\/a><\/span>, apontou que as invas\u00f5es possess\u00f3rias, a explora\u00e7\u00e3o ilegal de recursos e os danos ao patrim\u00f4nio\u00a0tamb\u00e9m aumentaram: foram 263 casos registrados em 2020. <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/relatorio-visivel-e-invisivel-3ed-2021-v3.pdf\">Levantamento do Datafolha<\/a><\/span>\u00a0encomendado pelo\u00a0<span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/\">F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/a><\/span>\u00a0indicou que uma em cada quatro mulheres acima de 16 anos sofreu algum tipo de viol\u00eancia no \u00faltimo ano no Brasil.\u00a0Por fim, o <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/anuario-brasileiro-seguranca-publica\/\">15.\u00ba Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/a><\/span>, divulgado pelo <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/\">F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica (FBSP)<\/a><\/span>, mostrou um aumento de 24,7% nos homic\u00eddios contra a popula\u00e7\u00e3o LGBTI no per\u00edodo de 2020 comparado a 2019.<\/p>\n<p>Esses n\u00fameros retratam uma assombrosa desigualdade que se mant\u00e9m no Brasil, revelando uma heran\u00e7a hist\u00f3rica de injusti\u00e7a social que exclui parte significativa da popula\u00e7\u00e3o do acesso a condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de dignidade e cidadania. \u201cApesar dos processos de independ\u00eancia dos pa\u00edses latino-americanos, como o Brasil, e da consequente transi\u00e7\u00e3o do status de col\u00f4nias para o status de Estados independentes, n\u00e3o podemos dizer que a coloniza\u00e7\u00e3o se encerrou num passado. Mais do que falar em consequ\u00eancias ou em legados do colonialismo, \u00e9 preciso afirmar que o pacto colonial segue sendo reencenado e atualizado\u201d, explica Isaac Porto, mestre em Direito pela <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.puc-rio.br\/index.html\">PUC-RJ<\/a><\/span> e consultor LGBTI do <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/raceandequality.org\/\">Instituto sobre Ra\u00e7a, Igualdade e Direitos Humanos<\/a> <\/span>(<em>Race and Equality<\/em>). \u201cIsso \u00e9 percept\u00edvel nos processos de depend\u00eancia econ\u00f4mica que regem o mundo, mas n\u00e3o s\u00f3. Olhar para a realidade da popula\u00e7\u00e3o negra, dos povos origin\u00e1rios, e a forma desumana e desumanizante com que o Estado lida com essas popula\u00e7\u00f5es, escancara o quanto a humanidade do povo preto ainda \u00e9 expropriada em benef\u00edcios da hegemonia pol\u00edtica, social, econ\u00f4mica e cultural branca\u201d, complementa.<\/p>\n<h3 id=\"uma-questao-de-identidade\"><strong>Uma quest\u00e3o de identidade<\/strong><\/h3>\n<p>O fato \u00e9 que o projeto da Independ\u00eancia do Brasil colocou uma quest\u00e3o muito importante no novo cen\u00e1rio: a defini\u00e7\u00e3o de uma \u201cidentidade nacional\u201d. Afinal, nascia uma na\u00e7\u00e3o que buscava, entre outras demandas, manter seu territ\u00f3rio unido. A cria\u00e7\u00e3o do<span style=\"color: #800000;\"> <a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.ihgb.org.br\/\">Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico Brasileiro (IHGB)<\/a><\/span> em 1838 foi o primeiro passo na tentativa estatal de refletir sobre temas relacionados \u00e0 na\u00e7\u00e3o brasileira. A Literatura, anos depois, contribuiria para a constru\u00e7\u00e3o dessa identidade, aliando a imagem da na\u00e7\u00e3o brasileira \u00e0s suas belezas naturais, como tamb\u00e9m a mitifica\u00e7\u00e3o do ind\u00edgena como componente essencial da na\u00e7\u00e3o brasileira. Desta forma, a natureza e a gente brasileira s\u00e3o os elementos determinados para definir a identidade nacional. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua gente, Brasil possu\u00eda uma situa\u00e7\u00e3o \u00fanica no mundo: a miscigena\u00e7\u00e3o entre brancos, negros e \u00edndios.<\/p>\n<p>No entanto, \u00e9 bom ressaltar que, ap\u00f3s a constitui\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio, o sentimento de nacionalidade ainda era bastante ins\u00edpido e a ideia de identidade nacional praticamente n\u00e3o existia. A situa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a mudar a partir de conflitos externos contra inimigos estrangeiros, que fizeram emergir os sentimentos de patriotismo e civismo. A consolida\u00e7\u00e3o veio ap\u00f3s a Guerra do Paraguai (1864-1870): com a vit\u00f3ria brasileira, refor\u00e7ando s\u00edmbolos que marcariam esse nacionalismo, como a bandeira e o hino nacional.<\/p>\n<p>Apesar de negros e ind\u00edgenas serem considerados parte fundamental da constru\u00e7\u00e3o da identidade nacional, eles mesmos permaneciam sem identidade. No caso dos negros, a Aboli\u00e7\u00e3o da Escravatura s\u00f3 aconteceu 66 anos ap\u00f3s a Proclama\u00e7\u00e3o da Independ\u00eancia do Brasil. Embora tenham conquistado a liberdade, eles n\u00e3o conquistaram direitos: continuaram marginalizados na sociedade e relegados a subempregos ou mesmo a semiescravid\u00e3o. Foi a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, aprovada 100 anos depois, que trouxe conquistas significativas para a popula\u00e7\u00e3o negra, como o direito \u00e0 terra dos quilombolas e a criminaliza\u00e7\u00e3o do racismo. A mesma Constitui\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m garantiu o direito dos ind\u00edgenas, passando a considerar o Estado o respons\u00e1vel por adotar pol\u00edticas p\u00fablicas para preservar as formas de organiza\u00e7\u00e3o social, l\u00ednguas e costumes dos grupos tradicionais. Antes, esses grupos eram considerados representantes de uma cultura inferior que deveriam ser tutelados pelo Estado, e tiveram seus direitos ignorados ou negados at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p>No caso das mulheres, elas constitu\u00edam um grande e silencioso grupo, que ficou de fora de todas as Constitui\u00e7\u00f5es e leis brasileiras at\u00e9 1932, quando finalmente conquistam o direito ao voto. Isso deu for\u00e7as para que passassem a lutar por mais direitos, e fez com que, em 1979, o Brasil assinasse o tratado internacional da <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/brasil.un.org\/\">Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU)<\/a><\/span>, a \u201c<span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"http:\/\/www.pge.sp.gov.br\/centrodeestudos\/bibliotecavirtual\/instrumentos\/discrimulher.htm\">Conven\u00e7\u00e3o Sobre a Elimina\u00e7\u00e3o e Todas as Formas de Discrimina\u00e7\u00e3o Contra As Mulheres<\/a><\/span>\u201d. J\u00e1 sobre a popula\u00e7\u00e3o LGBTI, as discuss\u00f5es s\u00e3o bem mais recentes. Apesar de todos os avan\u00e7os, ainda h\u00e1 um longo caminho pela frente quando se trata dos direitos para esses grupos.<\/p>\n<h3 id=\"povos-tradicionais-desafios-nao-tradicionais\"><strong>Povos tradicionais \u2013 desafios n\u00e3o tradicionais<\/strong><\/h3>\n<p>\u201cA gente \u00e9 t\u00e3o independente juridicamente, mas n\u00e3o tanto na pr\u00e1tica. Porque o universo que colonizou segue nos colonizando de outras formas. Por exemplo, no debate sobre povos ind\u00edgenas e quest\u00f5es LGBTI. Quem levanta esse tema normalmente s\u00e3o os jovens [ind\u00edgenas]. Acredito que foi s\u00f3 em 2018 a primeira vez que essa pauta entrou na Assembleia Nacional dos Estudantes Ind\u00edgenas, que \u00e9 um evento importante do movimento\u201d, reflete Renan Reis, mestre em antropologia e sociologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-universo-que-colonizou-segue-colonizando-de-outras-formas-por-exemplo-no-debate-sobre-povos-indigenas-e-questoes-lgbti\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\">&#8220;O universo que colonizou segue colonizando de outras formas, por exemplo, no debate sobre povos ind\u00edgenas e quest\u00f5es LGBTI.&#8221;<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para o antrop\u00f3logo, este \u00e9 um exemplo de como a coloniza\u00e7\u00e3o est\u00e1 enraizada nas culturas. \u201cEu penso que refletir sobre a Independ\u00eancia \u00e9 reconhecer essas coisas primeiro, esses processos hist\u00f3ricos muito pouco conhecidos. A coloniza\u00e7\u00e3o ao n\u00edvel da antropologia, do pensamento, dos conceitos filos\u00f3ficos, muito presente no povo com que eu trabalho hoje\u201d.<\/p>\n<p>Evitar ser quem \u00e9 para conseguir viver n\u00e3o \u00e9 uma novidade para Gabrielle Weber, professora da Escola de Engenharia de Lorena (EEL), uma institui\u00e7\u00e3o da USP. Marcada j\u00e1 na inf\u00e2ncia por n\u00e3o se identificar com o g\u00eanero que lhe atribu\u00edam, s\u00f3 pode se afirmar como mulher trans ap\u00f3s ter os diplomas acad\u00eamicos e um emprego na mesma academia. \u201cA idade m\u00e9dia em que uma travesti \u00e9 expulsa de casa \u00e9 de 13 anos, essa \u00e9 a raiz do problema. Porque se voc\u00ea \u00e9 expulsa de casa com 13 anos, o que vai fazer? Voc\u00ea n\u00e3o vai para a escola porque a escola n\u00e3o vai te dar o que comer, n\u00e3o vai te dar um teto. Voc\u00ea vai recorrer a formas de sobreviv\u00eancia, voc\u00ea vai acabar na prostitui\u00e7\u00e3o. E eu percebi que eu era trans quando tinha 10 anos, s\u00f3 que a minha ficha caiu exatamente com uma reportagem falando sobre viol\u00eancia. Ent\u00e3o, eu sabia que n\u00e3o era uma op\u00e7\u00e3o para mim. \u00d3bvio, com o tanto de consci\u00eancia que uma crian\u00e7a de 10 anos consegue formular, mas eu j\u00e1 tinha medo de ser expulsa de casa. De uma forma bem inconsciente no come\u00e7o, e que foi ficando mais consciente depois, eu tracei a minha carreira de forma a ter uma posi\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gio, de seguran\u00e7a, para ent\u00e3o depois eu poder ser eu mesma\u201d, conta.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-1701 size-full\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/identitarias1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"370\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/identitarias1.jpg 500w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/identitarias1-300x222.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/identitarias1-16x12.jpg 16w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-1-o-brasil-e-um-dos-paises-mais-violentos-contra-a-populacao-lgbtikiss-de-murillo-chibana-reproducao\"><strong>Figura 1. O Brasil \u00e9 um dos pa\u00edses mais violentos contra a popula\u00e7\u00e3o LGBTI<br \/>\n<\/strong>(\u201cKiss\u201d, de Murillo Chibana. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o de Weber tem justificativa. Segundo dados da <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/antrabrasil.org\/\">Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais<\/a> <\/span>(Antra), s\u00f3 em 2020 o Brasil bateu o recorde de assassinatos contra travestis e mulheres trans, com um total de 175 mortes. J\u00e1 no primeiro semestre de 2021, foram 80 assassinatos, 33 tentativas de assassinato e outras 27 viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos. \u201cUma coisa que \u00e9 muito importante ressaltar \u00e9 que esses dados n\u00e3o s\u00e3o reais, eles s\u00e3o minorantes. As organiza\u00e7\u00f5es que fazem esses levantamentos n\u00e3o trabalham com dados absolutos, elas trabalham muitas vezes com recortes de jornal, com algumas not\u00edcias mal passadas, no sentido de que tem muito ru\u00eddo\u201d, alerta a pesquisadora.<\/p>\n<p>Em abril de 2020, o <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.ibge.gov.br\/\">Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica<\/a><\/span> (IBGE) anunciou oficialmente o cancelamento do Censo 2020. Desde 2014, diversas iniciativas v\u00eam solicitando a inclus\u00e3o de perguntas sobre orienta\u00e7\u00e3o sexual e identidade de g\u00eanero no Censo, de modo a conseguir mapear a popula\u00e7\u00e3o LGBTI do pa\u00eds. Iniciativas ignoradas ou at\u00e9 recusadas por \u00f3rg\u00e3os federais. A a\u00e7\u00e3o mais recente \u00e9 o projeto de lei no. 420\/2021, de autoria do senador Fabiano Contarato (REDE\/ES), que segue parado no plen\u00e1rio do Senado Federal desde fevereiro. Antes da PL, em agosto de 2020, a ong <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/aliancalgbti.org.br\/\">Alian\u00e7a Nacional LGBTI+<\/a><\/span> encaminhou um of\u00edcio ao pr\u00f3prio IBGE pedindo a inclus\u00e3o deste mapeamento social no Censo. O Instituto respondeu negando o pedido, alegando que \u00e9 um tipo de monitoramento n\u00e3o recomendado tanto do ponto de vista t\u00e9cnico quanto operacional, e que a investiga\u00e7\u00e3o de tais quest\u00f5es \u00e9 algo sens\u00edvel.<\/p>\n<p>\u201cSe voc\u00ea monitora, voc\u00ea est\u00e1 abrindo o problema. Olhando do ponto de vista mais acad\u00eamico, toda vez que voc\u00ea quiser levantar algum problema, voc\u00ea precisa de indicadores. Estou envolvida em um levantamento da popula\u00e7\u00e3o realizado pela Academia LGBTQIA+ Brasileira. Para saber quem a gente \u00e9, onde a gente est\u00e1, e assim poder falar que o problema existe. Porque sem n\u00fameros, parece que o problema n\u00e3o existe\u201d, denuncia a especialista.<\/p>\n<h3 id=\"dando-visibilidade-para-o-invisivel\"><strong>Dando visibilidade para o invis\u00edvel<\/strong><\/h3>\n<p>Em 2020, o Instituto sobre Ra\u00e7a, Igualdade e Direitos Humanos publicou um dossi\u00ea para denunciar a situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade da popula\u00e7\u00e3o negra e LGBTI no pa\u00eds (<span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"http:\/\/www.mpsp.mp.br\/portal\/page\/portal\/documentacao_e_divulgacao\/doc_biblioteca\/bibli_servicos_produtos\/bibli_boletim\/2020_Boletim\/Bol22_05.pdf\">Qual \u00e9 a cor do invis\u00edvel? A situa\u00e7\u00e3o de direitos humanos da popula\u00e7\u00e3o LGBTI negra no Brasil<\/a><\/span>). Entre as poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es para resolver o cen\u00e1rio de desigualdade, a entidade recomendou a interseccionalidade de pautas entre os movimentos identit\u00e1rios, ou seja, que os movimentos distintos que ainda lutam pelo direito \u00e0 vida se unissem por pautas em comum.<\/p>\n<p>Isaac Porto, um dos autores do dossi\u00ea, contou os pilares desta vis\u00e3o: \u201cN\u00e3o se trata apenas de reconhecer sofrimentos e dores, mas de colocar esses grupos que escapam \u00e0 branquitude cis-heteronormativa no centro da a\u00e7\u00e3o e da aten\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, rompendo com um hist\u00f3rico de invisibiliza\u00e7\u00f5es de nossas urg\u00eancias. Significa, assim, ter como prioridade m\u00e1xima a luta pela vida, sem esquecer quais s\u00e3o os grupos que precisam, diariamente, colocar seus corpos na linha de frente por essa luta\u201d.<\/p>\n<p>Para Porto, a luta por direitos segue em dificuldade no pa\u00eds, mas n\u00e3o se deve olhar apenas na perspectiva dos obst\u00e1culos. \u201cN\u00f3s tivemos avan\u00e7os importantes ao longo dos \u00faltimos anos, como a pol\u00edtica de cotas ou a garantia da retifica\u00e7\u00e3o de nome e g\u00eanero de pessoas transexuais, dentre outros, que s\u00e3o fruto da luta hist\u00f3rica dos movimentos sociais \u2014 e isso n\u00e3o pode ser deixado de lado. Embora ainda haja muitos problemas e estejamos em uma onda de retrocessos, os movimentos negros, os movimentos ind\u00edgenas e LGBTI+ t\u00eam ecoado grandes vozes de resist\u00eancia na luta pela vida&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"que-independencia-foi-essa-para-quem-o-que-mudou-por-causa-disso-e-o-que-a-gente-pode-fazer-a-partir-dai\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\">&#8220;Que Independ\u00eancia foi essa? Para quem? O que mudou por causa disso? E o que a gente pode fazer a partir da\u00ed?&#8221;<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E sobre a Independ\u00eancia do Brasil, devemos comemorar? Weber afirma que sim, mas com a devida contextualiza\u00e7\u00e3o do per\u00edodo, e com destaque a outras \u00e9pocas importantes da hist\u00f3ria do pa\u00eds. \u201cA gente tem que olhar para datas mais relevantes para as identidades, como o Dia da Consci\u00eancia Negra, que \u00e9 um crime n\u00e3o ser feriado nacional. Mas eu n\u00e3o penso que a independ\u00eancia tem que ser esquecida. Porque sim, foi uma data importante, mas ela tem que ser colocada no lugar dela. O que a independ\u00eancia significou? Significou o rompimento das rela\u00e7\u00f5es de vassalagem entre Brasil e Portugal, basicamente. A minha rela\u00e7\u00e3o com o Dia da Independ\u00eancia \u00e9: tem que continuar existindo, e com festividades, mas festividades entre muitas aspas, para discuss\u00f5es. Que Independ\u00eancia foi essa? Para quem foi? O que mudou no Brasil por causa disso? E o que a gente pode fazer a partir da\u00ed?\u201d, conclui.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"imagem-de-capa-discutir-a-independencia-do-brasil-tambem-envolve-discutir-a-independencia-de-corpos-e-ate-mesmo-de-expressaobandeira-lgbtq-no-congresso-nacional-do-brasil-de-ant\"><strong>Imagem de capa. Discutir a Independ\u00eancia do Brasil tamb\u00e9m envolve discutir a independ\u00eancia de corpos e at\u00e9 mesmo de express\u00e3o<br \/>\n<\/strong>(\u201cBandeira LGBTQ+ no Congresso Nacional do Brasil\u201d, de Antonio Cruz\/ABr. Ag\u00eancia Brasil)<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 id=\"revadam-rafael-independencia-entre-a-historia-dos-livros-e-a-verdade-dos-corpos-para-movimentos-identitarios-o-desafio-e-olhar-a-comemoracao-historica-com-menos-heroismo-e-mais-realidade\"><span style=\"color: #808080;\">REVADAM, Rafael.<span class=\"article-title\">\u00a0Independ\u00eancia: entre a hist\u00f3ria dos livros e a verdade dos corpos. Para movimentos identit\u00e1rios, o desafio \u00e9 olhar a comemora\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica com menos hero\u00edsmo e mais realidade.<\/span><i>\u00a0Cienc. Cult.<\/i>\u00a0[online]. 2022, vol.74, n.1 [citado\u00a0 2023-09-07], pp.1-5. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/cienciaecultura.bvs.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252022000100015&amp;lng=pt&amp;nrm=iso&gt;. ISSN 0009-6725.\u00a0 http:\/\/dx.doi.org\/10.5935\/2317-6660.20220015.<\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Repensar as narrativas hist\u00f3ricas de um pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 apenas uma demanda&hellip;\n","protected":false},"author":12,"featured_media":1702,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1698"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/12"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1698"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1698\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4700,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1698\/revisions\/4700"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1702"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1698"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1698"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1698"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}