{"id":1704,"date":"2022-04-25T07:01:53","date_gmt":"2022-04-25T07:01:53","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=1704"},"modified":"2023-09-07T18:49:37","modified_gmt":"2023-09-07T18:49:37","slug":"a-voz-das-ruas-no-processo-de-independencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=1704","title":{"rendered":"A voz das ruas no processo de independ\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>A informa\u00e7\u00e3o circulava com velocidade, de m\u00e3o em m\u00e3o, de boca em boca e em v\u00e1rios formatos. Ora com linguagem erudita, ora em formato mais popular, em verso, em prosa, curtos ou longos, ora adotando um tom laudat\u00f3rio, ora difamat\u00f3rio, com textos assinados ou an\u00f4nimos. Assim eram os panfletos e pasquins que circularam intensamente no Brasil oitocentista, se constituindo em um g\u00eanero de literatura pol\u00edtica. Estudos recentes sobre este material ajudam a explicar que a independ\u00eancia do Brasil foi um processo bem mais longo e complexo que envolveu atores mais variados do que alguns homens ao largo de um riacho em S\u00e3o Paulo pode supor. Homens letrados e iletrados, negros e mulheres que buscaram participar deste processo por meio de um punhado de folhetos distribu\u00eddos entre o s\u00e9culo XVIII e o s\u00e9culo XIX escreveram uma hist\u00f3ria ainda pouco conhecida pelos brasileiros.<\/p>\n<p>Os \u201cpapelinhos\u201d, \u201cfolhas volantes\u201d ou \u201cpapeis incendi\u00e1rios\u201d, como eram chamados, eram folhas soltas colocadas nas paredes e postes de locais p\u00fablicos. Tamb\u00e9m eram lidos ou memorizados e declamados nos espa\u00e7os das cidades. \u201cEles tiravam a pol\u00edtica do estreito espa\u00e7o de poder onde se movimentavam as autoridades r\u00e9gias, fazendo dela um assunto p\u00fablico\u201d, explicam a historiadora Heloisa Starling e o senador Randolfe Rodrigues, no pref\u00e1cio do livro \u201c<span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/livraria.senado.leg.br\/vozes-do-brasil-a-linguagem-politica-na-independencia-vol-287\">Vozes do Brasil<\/a>:<\/span> a linguagem pol\u00edtica na independ\u00eancia\u201d, lan\u00e7ado no fim do ano passado pela editora do Senado e que re\u00fane 21 panfletos pol\u00edticos, publicados no Brasil e em Portugal entre 1821 e 1824.<\/p>\n<p>Os textos abrangem eventos que animaram o debate p\u00fablico antes e depois da Independ\u00eancia, em lugares como Rio de Janeiro, Pernambuco, Bahia, Maranh\u00e3o e Gr\u00e3o-Par\u00e1. Segundo a historiadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Marcela Telles Elian de Lima, os panfletos exp\u00f5em os projetos em disputa no \u201ccalor da hora\u201d. Por exemplo, na peti\u00e7\u00e3o redigida por Joaquim Gon\u00e7alvez Ledo dirigida a D. Pedro em junho de 1822. \u201cAo insistir na urg\u00eancia em se convocar uma assembleia geral de representantes das prov\u00edncias do Brasil, o texto d\u00e1 conta de um projeto centralizado no Rio de Janeiro, em torno do Pr\u00edncipe Regente ainda que considerasse a participa\u00e7\u00e3o de deputados eleitos pelas prov\u00edncias na elabora\u00e7\u00e3o de um conjunto de leis que contemplasse seus interesses\u201d, aponta Lima, que tamb\u00e9m \u00e9 uma das organizadoras do livro <em>Vozes do Brasil<\/em>.<\/p>\n<p>Outro exemplo \u00e9 o panfleto de autoria do negociante portugu\u00eas Jo\u00e3o Rodrigues de Miranda, publicado no Maranh\u00e3o, em 1822, no qual ele defende a manuten\u00e7\u00e3o da uni\u00e3o entre Brasil e Portugal: <em>\u201cFujamos das p\u00e9rfidas sugest\u00f5es da corrompida C\u00f4rte do Rio de Janeiro; mas reconhe\u00e7amos outra Authoridade do que, a do Soberano no Congresso das C\u00f4rtes, e d\u00b4ElRei o Senhor D. Jo\u00e3o VI. Constitucional; respeitemos os seus s\u00e1bios Decretos; juremos-lhe de novo a mais firme ades\u00e3o<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>A profus\u00e3o dos panfletos mostram ao mesmo tempo que as pessoas dos mais variados estratos sociais ansiavam por informa\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m que queriam participar de alguma forma das discuss\u00f5es e das decis\u00f5es sobre os rumos do pa\u00eds naquele momento. Eles eram um tipo de comunica\u00e7\u00e3o direta, simples e barata. \u201cCom um panfleto na m\u00e3o, qualquer pessoa, mesmo ainda mal iniciada na participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, ingressava rapidamente em um novo espa\u00e7o de debate que transbordava dos c\u00edrculos letrados para o ambiente das ruas, e se envolvia em longas discuss\u00f5es sobre os rumos de um Brasil ainda em forma\u00e7\u00e3o\u201d, afirmaram Rodrigues e Starling.<\/p>\n<p>\u201cOs panfletos oferecem informa\u00e7\u00f5es acerca da conjuntura hist\u00f3rica e da sociedade da \u00e9poca \u2013 seus temas e preocupa\u00e7\u00f5es mais imediatos\u201d, explica Lima. \u201cQuando s\u00e3o estruturados no formato abaixo-assinado ou manifesto, por exemplo, o objetivo principal \u00e9 a mobiliza\u00e7\u00e3o, ou seja, reunir diferentes setores da popula\u00e7\u00e3o em torno de uma demanda comum. Com o <em>Manifesto do Epaminondas Americano, ao Soberano, e Independente Congresso Nacional em Cortes Gerais, <\/em>o advogado portugu\u00eas, Manuel Paix\u00e3o dos Santos Zacheo \u2013 sob pseud\u00f4nimo \u2013 exp\u00f4s sua posi\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria a extin\u00e7\u00e3o do Convento de Nossa Senhora das Merc\u00eas, como determinado pela Junta Provincial. Mas, por tr\u00e1s desse fato, estava o combate ferrenho ao governador do Maranh\u00e3o, Bernardo da Silveira Pinto da Fonseca (1818-1822) e seu sucessor e aliado o bispo dom Frei Joaquim de Nossa Senhora do Nazar\u00e9, respons\u00e1vel pela decis\u00e3o, considerada arbitr\u00e1ria\u201d, descreve.<\/p>\n<p>\u00c9 importante lembrar que se trata aqui de um pa\u00eds onde uma parcela muito pequena da popula\u00e7\u00e3o era alfabetizada. \u201cA comunica\u00e7\u00e3o se efetivou por meio da oralidade. Era muito comum a leitura desses panfletos ser feita nas ruas e nas pra\u00e7as. A escrita dos panfletos era muito voltada para o oral\u201d, conta Lucia Bastos Pereira das Neves, historiadora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Esses mat\u00e9rias adquiriam formatos diversos: di\u00e1logos, discursos, catecismos ou at\u00e9 fazendo par\u00f3dias de ora\u00e7\u00f5es da Igreja Cat\u00f3lica. \u201cAssim era mais f\u00e1cil chegar ao povo iletrado que repetia algumas informa\u00e7\u00f5es com uma compreens\u00e3o pr\u00f3pria. Outra caracter\u00edstica dos panfletos era seu car\u00e1ter did\u00e1tico, com uma linguagem mais simples. Pode-se afirmar que havia uma pedagogia c\u00edvica nos panfletos\u201d, afirma.<\/p>\n<h3 id=\"multiplas-independencias\"><strong>M\u00faltiplas independ\u00eancias<\/strong><\/h3>\n<p>Esta pedagogia buscava discutir e convencer as pessoas sobre diferentes projetos de emancipa\u00e7\u00e3o do Brasil e mesmo sobre a manuten\u00e7\u00e3o da liga\u00e7\u00e3o com Portugal. Manifesta\u00e7\u00f5es autonomistas brotavam por todo lado, em todas as prov\u00edncias, e os panfletos retrataram isso. Eles ajudam a contar a hist\u00f3ria da separa\u00e7\u00e3o de Portugal a partir de outros pontos de vista que n\u00e3o o do Rio de Janeiro, revelando m\u00faltiplas independ\u00eancias. \u00c0 \u00e9poca, o Brasil n\u00e3o era uma unidade homog\u00eanea de Norte a Sul, pelo contr\u00e1rio. Havia disputas entre as prov\u00edncias. Muitas questionavam a autoridade de Portugal, mas tamb\u00e9m a centraliza\u00e7\u00e3o do poder no Rio. Da\u00ed que antes e depois da Proclama\u00e7\u00e3o da Independ\u00eancia por D. Pedro, em S\u00e3o Paulo, houve diversas lutas e guerras de independ\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cEm verdade, n\u00e3o havia Brasil, mas Brasis. A independ\u00eancia, inicialmente, era do centro-sul contra Portugal. Os pr\u00f3prios deputados portugueses assim comentavam. O Par\u00e1, Maranh\u00e3o, Piau\u00ed e Bahia mantiveram-se unidos \u00e0s ideias das Cortes de Lisboa de 1821 a 1822. Acreditavam que o Rio de Janeiro se transformara em uma nova metr\u00f3pole. E que D. Pedro, ao desobedecer a algumas medidas das Cortes agia de forma autorit\u00e1ria, em confronto com a proposta liberal e constitucional das Cortes de Lisboa\u201d, conta Neves. \u201cEssas regi\u00f5es s\u00f3 foram integradas ao Imp\u00e9rio do Brasil ao longo de 1823, depois de muitas guerras civis. H\u00e1 ainda o caso de Pernambuco que por algum tempo procurou se manter aut\u00f4nomo, sem se ligar a Portugal ou ao Brasil. E ainda h\u00e1 a quest\u00e3o da Cisplatina, em que encontramos uma corrente favor\u00e1vel \u00e0 Independ\u00eancia do Brasil, outra ligada \u00e0s Cortes de Lisboa e outra que queria a autonomia da Prov\u00edncia\u201d, complementa.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-1706 size-full\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/panfleto1.jpg\" alt=\"\" width=\"339\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/panfleto1.jpg 339w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/panfleto1-203x300.jpg 203w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/panfleto1-8x12.jpg 8w\" sizes=\"(max-width: 339px) 100vw, 339px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-1-trecho-da-carta-com-as-noticias-de-pernambuco-enderecada-aos-leitores-em-lisboa-de-autor-anonimo-escrita-em-1o-de-fevereiro-de-1822-a-correspondencia-apresenta-o-cenario-desolador-causado\"><strong>Figura 1. Trecho da Carta com as not\u00edcias de Pernambuco endere\u00e7ada aos leitores em Lisboa, de autor an\u00f4nimo. Escrita em 1\u00ba de fevereiro de 1822, a correspond\u00eancia apresenta o cen\u00e1rio desolador causado pelos violentos acontecimentos di\u00e1rios ocorridos na cidade ap\u00f3s o dia 20 de janeiro, no contexto das lutas pela emancipa\u00e7\u00e3o do Brasil.<br \/>\n<\/strong>(\u201cCarta Pernambuco\u201d. Vozes do Brasil. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>Com fortes rela\u00e7\u00f5es comerciais com Portugal, a Bahia \u2013 Salvador em especial \u2013 tinha posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica tanto para Lisboa quanto para o Rio de Janeiro. A disputa entre ambos pela prov\u00edncia produziu um cap\u00edtulo \u00e0 parte no processo de Independ\u00eancia do Brasil, conforme descrevem Lima e Valqu\u00edria Ferreira da Silva em um dos cap\u00edtulos do livro \u201cVozes do Brasil\u201d. \u201cMilitares, magistrados, mas principalmente os comerciantes portugueses viam na rela\u00e7\u00e3o com as Cortes a oportunidade em retomar a import\u00e2ncia da capitania no interior do Imp\u00e9rio, ap\u00f3s Salvador ter sido preterida pelo Rio de Janeiro como sede da Corte\u201d, afirmaram as pesquisadoras. E estas disputas eram tema constante dos panfletos afixados nos lugares de grande circula\u00e7\u00e3o na capital baiana e tamb\u00e9m no Rio de Janeiro e em Lisboa. Elas se desenrolavam em manifesta\u00e7\u00f5es feitas em formatos diversos, em r\u00e9plicas e tr\u00e9plicas que ocupavam redatores, jornais e que agitavam a vida dessas cidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"nao-houve-portanto-um-processo-de-emancipacao-amplo-e-unificado-por-meio-de-um-acordo-amigavel-entre-colonia-e-metropole\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\">&#8220;N\u00e3o houve, portanto, um processo de emancipa\u00e7\u00e3o amplo e unificado, por meio de um acordo amig\u00e1vel entre col\u00f4nia e metr\u00f3pole.&#8221;<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o houve, portanto, um processo de emancipa\u00e7\u00e3o amplo e unificado, por meio de um acordo amig\u00e1vel entre col\u00f4nia e metr\u00f3pole. Os v\u00e1rios projetos de separa\u00e7\u00e3o que competiam entre si adiaram a constitui\u00e7\u00e3o do novo Imp\u00e9rio do Brasil. \u201cA Independ\u00eancia do Brasil n\u00e3o se resume ao 7de setembro, mas envolve um processo iniciado com o movimentos constitucional de 1820, que pode ser considerado, em parte, finalizado em 1825 com o Tratado de Reconhecimento por parte de Portugal do novo Imp\u00e9rio\u201d, escreveu a historiadora em <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/alm\/a\/4Y94RFYh6GcsssPXZjfRZpQ\/abstract\/?lang=pt\">artigo<\/a> <\/span>em que prop\u00f5e uma outra abordagem da hist\u00f3ria da Independ\u00eancia do Brasil, para al\u00e9m das grandes personagens conhecidas pela historiografia, que possibilite trazer \u00e0 tona os indiv\u00edduos muitas vezes esquecidos desse processo.<\/p>\n<h3 id=\"multiplos-atores\"><strong>M\u00faltiplos atores<\/strong><\/h3>\n<p>Um exemplo de atores geralmente esquecidos quando se fala na independ\u00eancia do Brasil s\u00e3o os pretos e pardos. Animados pelos panfletos e pasquins que defendiam a separa\u00e7\u00e3o do Brasil de Portugal, e acreditando que isso significaria tamb\u00e9m a sua liberdade, eles se organizaram em grupos para reivindicar a independ\u00eancia. \u201cPara al\u00e9m do que j\u00e1 foi estudado pelo historiador Jo\u00e3o Jos\u00e9 Reis, o papel atribu\u00eddo a um \u2018partido negro\u2019 no movimento da Independ\u00eancia, conforme relato de um informante franc\u00eas, escrito provavelmente depois de 1823, era que este \u2018partido dos negros e das pessoas de cor\u2019 constitu\u00eda-se como o mais perigoso, \u2018pois trata[va]-se do mais forte numericamente falando\u2019. Sem d\u00favida, em prov\u00edncias com forte presen\u00e7a de escravos, seu comportamento frente \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de conflito era contr\u00e1rio aos portugueses, que monopolizavam a venda de produtos b\u00e1sicos de subsist\u00eancia, manipulando seus pre\u00e7os de acordo com seus interesses. Claro que muitos tamb\u00e9m se opunham \u00e0 elite branca nascida no Brasil\u201d, explica Lucia Neves.<\/p>\n<p>Ainda segundo ela, nos folhetos n\u00e3o h\u00e1 muitas men\u00e7\u00f5es a escravos, mas not\u00edcias em jornais, cartas e documentos oficiais mostram que eles tentaram obter um papel pol\u00edtico mais claro na vit\u00f3ria dos favor\u00e1veis \u00e0 \u201ccausa brasileira\u201d, como na Bahia. Maria B\u00e1rbara Garcez Pinto, importante dama baiana, dona de engenhos na Bahia, casada com Lu\u00eds Paulino d\u2019Oliveira Pinto da Fran\u00e7a, deputado pela prov\u00edncia da Bahia nas Cortes de Lisboa, ao lhe escrever, informava que: \u201ca crioulada da Cachoeira fez requerimentos para serem livres\u201d, acreditando que de forma ordeira, podiam ter uma interven\u00e7\u00e3o maior na cena p\u00fablica.<\/p>\n<p>De outro lado, ao longo das guerras de independ\u00eancia, especialmente na Bahia, diversos escravos fugiram para se engajar nas for\u00e7as brasileiras. \u201cAcreditavam que, ao lutar pela liberdade do Brasil, podiam lutar tamb\u00e9m por sua pr\u00f3pria liberdade. Vislumbravam um novo \u2018horizonte de expectativa\u2019. Inclusive, mais tarde, o governo imperial procurou recompensar esses homens, recomendando que seus senhores dessem sua alforria por meio de um pagamento justo com recursos da Junta Provincial da Fazenda\u201d, complementa. Para ela, h\u00e1 muito ainda por descobrir por detr\u00e1s desses rostos an\u00f4nimos, embora alguns avan\u00e7os foram realizados por estudos, como o j\u00e1 citado de Jo\u00e3o Jos\u00e9 Reis. Professor na Universidade Federal da Bahia, Reis \u00e9 considerado uma refer\u00eancia mundial para o estudo da hist\u00f3ria e da escravid\u00e3o no s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Os mesmos panfletos que animaram os escravos a se engajar nas lutas pela emancipa\u00e7\u00e3o brasileira expressaram uma linguagem figurada que associava escravid\u00e3o e a independ\u00eancia. Conforme explica Neves, o Brasil era visto como escravo de Portugal. \u201cNesse caso, a ideia fomentada in\u00fameras vezes por adeptos da causa portuguesa era a da possibilidade de uma revolu\u00e7\u00e3o no Brasil nos moldes do Haiti, caso se configurasse a sua separa\u00e7\u00e3o da antiga metr\u00f3pole\u201d, conta. Em 1804, uma revolta de escravizados conseguiu expulsar os franceses de uma de suas possess\u00f5es mais rent\u00e1veis, decretar a Independ\u00eancia do Haiti e proclamar o liberto Jean-Jacques Dessalines \u201cimperador\u201d.<\/p>\n<h3 id=\"anonimos-da-independencia\"><strong>An\u00f4nimos da independ\u00eancia<\/strong><\/h3>\n<p>Nos debates e discuss\u00f5es que os 200 anos da independ\u00eancia do Brasil suscitam, os panfletos, pasquins e seus redatores, an\u00f4nimos ou n\u00e3o, revelam atores e processos originais no processo de separa\u00e7\u00e3o de Portugal. Eles ajudam a contestar as narrativas que t\u00eam como foco grandes her\u00f3is como Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, Diogo Feij\u00f3, a Imperatriz Leopoldina e, sem d\u00favida, D. Pedro.<\/p>\n<h6 id=\"\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-1705 size-full\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/panfleto2.jpg\" alt=\"\" width=\"355\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/panfleto2.jpg 355w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/panfleto2-213x300.jpg 213w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/panfleto2-9x12.jpg 9w\" sizes=\"(max-width: 355px) 100vw, 355px\" \/><\/h6>\n<h6 id=\"figura-2-foto-publicada-no-jornal-gazeta-de-noticias-rio-de-janeiro-n-206-7-set-1922-p-3-nas-comemoracoes-do-centenario-da-independencia-ainda-prevaleceu-uma-narrativa-baseada-em-grandes-heroi\"><strong>Figura 2. Foto publicada no jornal <\/strong><strong><em>Gazeta de Not\u00edcias<\/em><\/strong><strong>, Rio de Janeiro, n.206, 7 set. 1922, p. 3. Nas comemora\u00e7\u00f5es do centen\u00e1rio da independ\u00eancia ainda prevaleceu uma narrativa baseada em grandes her\u00f3is.<br \/>\n<\/strong>(Acervo Biblioteca Nacional. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>Conforme explica Lucia Neves, essa narrativa vem do contexto da historiografia do s\u00e9culo XIX, em que a figura do her\u00f3i assume um papel fundamental nos relatos hist\u00f3ricos. \u201cEra o tempo das biografias em que o papel do indiv\u00edduo se sobressa\u00eda em proveito de abstra\u00e7\u00f5es ou de coletividades an\u00f4nimas, em relatos, muitas vezes, minuciosos, mas lineares\u201d, aponta. A historiadora destaca alguns trabalhos dentro desta linha interpretativa, o de Pereira da Silva, <em>Hist\u00f3ria da funda\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio brasileiro<\/em>, o de Francisco Adolfo Varnhagen, <em>Hist\u00f3ria da Independ\u00eancia<\/em>, publicado ap\u00f3s sua morte, em 1916 e outros livros que continuam com essa vis\u00e3o no s\u00e9culo XX: <em>A vida de Pedro I<\/em>, de Oct\u00e1vio Tarqu\u00ednio de Sousa (1952), ou <em>A vida de D. Pedro I: o rei cavaleiro<\/em>, de Pedro Calmon (1943). \u201cApesar de consagrados na historiografia, apresentam perspectivas mais lineares e de exalta\u00e7\u00e3o ao her\u00f3i nacional. Talvez, o primeiro trabalho que come\u00e7ou a modificar um pouco essa abordagem foi o de Manuel de Oliveira Lima, <em>O movimento da independ\u00eancia<\/em> (1922). A ruptura acontece com os novos trabalhos oriundos da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o dos anos 90 do s\u00e9culo XX\u201d, esclarece.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"registradas-nos-panfletos-a-voz-das-ruas-mostra-que-o-processo-de-independencia-do-brasil-foi-mais-complexo-e-longo-do-que-o-grito-de-independencia-as-margens-do-riacho-ipiranga-pode-fazer-sup\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\">&#8220;Registradas nos panfletos, a voz das ruas mostra que o processo de independ\u00eancia do Brasil foi mais complexo e longo do que o grito de independ\u00eancia \u00e0s margens do Riacho Ipiranga pode fazer supor.&#8221;<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Registradas nos panfletos, a voz das ruas mostra que o processo de independ\u00eancia do Brasil foi mais complexo e longo do que o grito de independ\u00eancia \u00e0s margens do Riacho Ipiranga pode fazer supor. \u201cDa participa\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios segmentos no processo de independ\u00eancia, devemos pensar que uma sociedade pol\u00edtica s\u00f3 pode ser formada e organizada com a participa\u00e7\u00e3o efetiva e consciente de cada cidad\u00e3o. Acredito que esse aspecto deva ser levado em conta nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es em 2022. H\u00e1 100 anos deixamos de ficar sujeitos a uma metr\u00f3pole. Agora, devemos n\u00e3o estar sujeitos a not\u00edcias falsas e a vis\u00f5es providencialistas. Devemos pensar criticamente o presente e votar de acordo com nossa consci\u00eancia cidad\u00e3\u201d, finaliza Lucia Neves.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"imagem-de-capa-panfletos-retratam-um-tempo-de-agitacao-politica-e-batalhas-no-brasil-ex-libris-de-oliveira-lima-reproducao\"><strong>Imagem de capa: Panfletos retratam um tempo de agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e batalhas no Brasil.<br \/>\n<\/strong>(\u201cEx-libris de Oliveira Lima\u201d. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 id=\"mariuzzo-patricia-a-voz-das-ruas-no-processo-de-independencia-em-panfletos-e-pasquins-que-circularam-no-brasil-oitocentista-homens-letrados-e-iletrados-negros-e-mulheres-escreveram-uma-histor\"><span style=\"color: #808080;\">MARIUZZO, Patr\u00edcia.<span class=\"article-title\">\u00a0A voz das ruas no processo de independ\u00eancia. Em panfletos e pasquins que circularam no Brasil oitocentista homens letrados e iletrados, negros e mulheres escreveram uma hist\u00f3ria da separa\u00e7\u00e3o de Portugal ainda pouco conhecida pelos brasileiros.<\/span><i>\u00a0Cienc. Cult.<\/i>\u00a0[online]. 2022, vol.74, n.1 [citado\u00a0 2023-09-07], pp.1-6. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/cienciaecultura.bvs.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252022000100011&amp;lng=pt&amp;nrm=iso&gt;. ISSN 0009-6725.\u00a0 http:\/\/dx.doi.org\/10.5935\/2317-6660.20220011.<\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A informa\u00e7\u00e3o circulava com velocidade, de m\u00e3o em m\u00e3o, de boca em&hellip;\n","protected":false},"author":18,"featured_media":1708,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1704"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/18"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1704"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1704\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4695,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1704\/revisions\/4695"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1708"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1704"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1704"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1704"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}