{"id":2002,"date":"2022-04-25T07:59:13","date_gmt":"2022-04-25T07:59:13","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=2002"},"modified":"2023-09-07T18:45:29","modified_gmt":"2023-09-07T18:45:29","slug":"povos-e-lutas-em-revista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=2002","title":{"rendered":"Povos e lutas em revista"},"content":{"rendered":"<p>A celebra\u00e7\u00e3o do Sesquicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia do Brasil em 1972 n\u00e3o traz boas recorda\u00e7\u00f5es. Em pleno regime militar, atravessando uma das fases mais brutais da ditadura, o pa\u00eds era assombrado por censura, persegui\u00e7\u00f5es e viol\u00eancia. Tanto terror destoava do ufanismo indecente que tomou conta das comemora\u00e7\u00f5es orquestradas para aquele ano. Elas se espalharam pelo Brasil, regadas a investimento maci\u00e7o de recursos do governo em encontros c\u00edvicos, festas e eventos esportivos de massa, como a Ta\u00e7a Independ\u00eancia e a Corrida da P\u00e1tria. N\u00e3o foram esquecidas figuras carimbadas como D. Pedro I (cujos despojos vindos de Lisboa peregrinaram pelo pa\u00eds) e Tiradentes, rememoradas em cerim\u00f4nias concorridas. Edi\u00e7\u00f5es de livros, capas e mat\u00e9rias de revistas, assim como filmes \u00e9picos completaram o esfor\u00e7o de populariza\u00e7\u00e3o do regime.<\/p>\n<p>Bem longe desses holofotes, poucos se lembrar\u00e3o que, na manh\u00e3 de 6 de julho do mesmo ano de 1972, uma mesa redonda foi organizada na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) por iniciativa conjunta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia (SBPC), que realizava sua XXIV reuni\u00e3o anual entre 2 e 8 daquele m\u00eas, e da Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Professores Universit\u00e1rios de Hist\u00f3ria (ANPUH), que promovia ent\u00e3o o primeiro encontro do n\u00facleo regional de S\u00e3o Paulo, entre 5 e 7 de julho. O tema da reuni\u00e3o dos historiadores n\u00e3o poderia deixar de ser outro, o Sesquicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia.<\/p>\n<p>A dobradinha foi idealizada por Shozo Motoyama, egresso do Instituto de F\u00edsica, que passara a lecionar Hist\u00f3ria das Ci\u00eancias no Departamento de Hist\u00f3ria da USP, e proposta \u00e0 SBPC pelo n\u00facleo da ANPUH, na pessoa do seu diretor Eur\u00edpedes Sim\u00f5es de Paula. A mesa, com o singelo t\u00edtulo de \u201cUm encontro entre Cientistas e Humanistas\u201d, trazia entre seus debatedores Eduardo d\u2019Oliveira Fran\u00e7a, Jos\u00e9 Reis, Ruy Galv\u00e3o de Andrada Coelho, Oscar Sala, Ernst W. Hamburger, dentre outros. Tamb\u00e9m na plateia se misturavam historiadores (e historiadoras), fil\u00f3sofos, matem\u00e1ticos, f\u00edsicos, isto \u00e9, profissionais \u201cde um e de outro campo da Ci\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-2036\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/sbpc.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"269\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/sbpc.jpg 500w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/sbpc-300x160.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/sbpc-18x10.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/sbpc-260x140.jpg 260w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"os-fisicos-ernst-e-amelia-amburger-durante-reuniao-da-sbpc-no-cearaimagem-acervo-sbpc\"><strong>Os f\u00edsicos Ernst e Amelia Amburger durante reuni\u00e3o da SBPC, no Cear\u00e1<br \/>\n<\/strong>[Imagem: Acervo SBPC]<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sob a claustrofobia em que se vivia, os participantes refor\u00e7avam, nos acesos debates daquele dia, a import\u00e2ncia da unidade para enfrentar os desafios contempor\u00e2neos. \u201cCientistas naturais e os cientistas do homem\u201d, sintetizou Oscar Sala, precisam se reunir num \u201cprofundo campo de encontro\u201d, demanda que era tamb\u00e9m uma cr\u00edtica velada \u00e0 reforma universit\u00e1ria que fatiou o ensino da ci\u00eancia quatro anos antes. Outro consenso que dali saiu foi a recomenda\u00e7\u00e3o da implementa\u00e7\u00e3o de n\u00facleos de hist\u00f3ria da ci\u00eancia nos departamentos das universidades brasileiras, tema da comunica\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Reis na mesa redonda.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo Oswaldo Porchat, da USP, um dos debatedores convidados, pareceu indicar a tarefa mais imediata: \u201cAcredito que o contato de cientistas de diferentes campos pode permitir \u00e0queles que presenciam compreender que \u00e9 preciso combater sobretudo tudo o que pudesse da civiliza\u00e7\u00e3o moderna qualificar-se como recusa do bom e verdadeiro esp\u00edrito cient\u00edfico\u201d. Outra interven\u00e7\u00e3o corajosa partiu de Ernst Hamburger, do Instituto de F\u00edsica da USP, ao provocar: \u201cseria de desejar que o s\u00e9culo futuro, seja o s\u00e9culo das ci\u00eancias humanas e que os cientistas possam chegar a compreender a natureza da vida em sociedade e com isso criar subs\u00eddios para que o mundo aos poucos se torne um lugar melhor de se viver\u201d. O f\u00edsico sabia bem o que isso significava pois, h\u00e1 pouco mais de um ano (em dezembro de 1970), ele e sua esposa (a f\u00edsica Am\u00e9lia Hamburger) haviam sido encarcerados e processados pelo governo militar.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>De certa maneira, a escolha da tem\u00e1tica \u201cPovos e Lutas\u201d para o primeiro de uma s\u00e9rie de <a href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?page_id=1546\">tr\u00eas n\u00fameros<\/a> da revista <em>Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/em>, dedicados ao Bicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia, inspirou-se nessas atitudes de combatividade. Afinal, assim como a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura militar instaurada com o golpe de 1964, os cientistas estiveram ao longo da hist\u00f3ria do Brasil invariavelmente comprometidos com a resist\u00eancia em \u00e9pocas de opress\u00e3o. Fazendo um panorama superficial de algumas contesta\u00e7\u00f5es mais c\u00e9lebres, havia mineralogistas dentre os participantes da Inconfid\u00eancia Mineira, cientistas naturais foram suspeitos de conspirar contra a monarquia portuguesa na Sociedade Liter\u00e1ria do Rio de Janeiro em 1794, Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, o \u201cpatriarca da independ\u00eancia\u201d tinha forma\u00e7\u00e3o em qu\u00edmica, juristas e m\u00e9dicos fizeram parte decisiva da luta abolicionista, engenheiros e professores estiveram nas fileiras do movimento tenentista. Os exemplos poderiam se multiplicar.<\/p>\n<p>\u201cPovos e Lutas\u201d \u00e9 uma escolha que assinala tamb\u00e9m a op\u00e7\u00e3o de desbotar o brilho solene da hist\u00f3ria e da mem\u00f3ria da Independ\u00eancia com artigos, reportagens e entrevistas, nos epis\u00f3dios de <a href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?cat=4\">podcast<\/a> e de <a href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?cat=5\">v\u00eddeos<\/a>. Tal mobiliza\u00e7\u00e3o em 2022 de cientistas sociais, historiadores, ativistas e jornalistas comprometidos com a populariza\u00e7\u00e3o do conhecimento buscou trazer \u00e0 luz formas diversas de a\u00e7\u00f5es coletivas e individuais feitas por homens e mulheres, grupos ind\u00edgenas, escravizados e libertos. Embora estejam presentes no imagin\u00e1rio do passado formador de nossa identidade nacional, quase sempre colaborando para ilustrar falsas imagens de docilidade nas rela\u00e7\u00f5es raciais ou a pureza ind\u00edgena, esses protagonistas poucas vezes foram encarados como agentes decisivos no processo de emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Sem a participa\u00e7\u00e3o dos povos, como sabem os leitores, ouvintes e espectadores que vem acompanhando a publica\u00e7\u00e3o do material recente da <em>Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/em>, seria dif\u00edcil imaginar a conquista da plena soberania brasileira na luta contra Portugal. Mas a independ\u00eancia, disputada de maneira ostensiva entre 1820 e 1825, n\u00e3o seria nem a primeira nem tampouco a \u00faltima manifesta\u00e7\u00e3o de protesto. Foi decerto a maior delas, capaz de superar as acentuadas diferen\u00e7as regionais, equilibrar o peso dessas elites avessas ao centralismo exercido a partir da corte do Rio de Janeiro, ber\u00e7o da conspira\u00e7\u00e3o, calibrar as ideias constitucionais e acomodar temporariamente o caldeir\u00e3o de demandas e expectativas dos diversos segmentos sociais rumo a um projeto pol\u00edtico colossal.<\/p>\n<p>Nas comemora\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas \u00e9 muito natural considerar os eventos como coisa singular. A celebra\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia em 2022 precisa escapar dessa armadilha. Sob certa perspectiva, ela foi um acontecimento que atravessou um caminho que vinha de longe, e para longe iria seguir, povoado de guerras, conflitos, revoltas e resist\u00eancias. Desde a coloniza\u00e7\u00e3o, donat\u00e1rios reagiram aos primeiros governadores, povos origin\u00e1rios se armaram para defender suas terras e suas tradi\u00e7\u00f5es, escravizados se sublevaram, negociaram ou escaparam para os quilombos, soldados se amotinaram para receber pagamento justo, prov\u00edncias ficaram independentes do poder central flertando algumas vezes com formas republicanas de governo, gente explorada em cantos remotos do pa\u00eds fundou arraiais para construir utopias, camponeses se mobilizaram para exigir acesso \u00e0 terra, trabalhadores das f\u00e1bricas paralisaram a linha de montagem.<\/p>\n<p>Cada um desses acontecimentos tem din\u00e2micas pr\u00f3prias que embalam as a\u00e7\u00f5es coletivas em seu tempo. Cada contesta\u00e7\u00e3o est\u00e1 pautada por circunst\u00e2ncias ditadas pelas institui\u00e7\u00f5es, cren\u00e7as, classifica\u00e7\u00f5es sociais, ideias pol\u00edticas e conveni\u00eancias. Mas h\u00e1 algo que permanece, algo que permanece e ultrapassa a conjuntura da Independ\u00eancia e vence at\u00e9 mesmo o tempo relativamente curto percorrido pelo Brasil na longa hist\u00f3ria das tradi\u00e7\u00f5es c\u00edvicas cl\u00e1ssicas: a defesa leg\u00edtima por direitos e valores humanit\u00e1rios universais e a import\u00e2ncia da rua, da ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico para reivindicar e transformar lutas em conquistas.<\/p>\n<p>Tal \u00e9 o compromisso que inspirou a prepara\u00e7\u00e3o desse primeiro n\u00famero e que merece celebra\u00e7\u00e3o permanente.<\/p>\n<h5 id=\"notas\">Notas<\/h5>\n<h6 id=\"1-informacoes-sobre-a-mesa-redonda-foram-baseadas-em-anpuh-nucleo-regional-de-sao-paulo-a-independencia-um-debate-revista-de-historia-ano-xxiv-v-xlvi-n-94-abril-junho-de-1973-pgs-767-811\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Informa\u00e7\u00f5es sobre a mesa redonda foram baseadas em ANPUH-N\u00facleo Regional de S\u00e3o Paulo, A independ\u00eancia: um debate. Revista de Hist\u00f3ria. Ano XXIV, v. XLVI, n. 94, Abril-Junho de 1973, pgs 767-811; e ainda MOREIRA, Ildeu de Castro.\u00a0<a href=\"http:\/\/cienciaecultura.bvs.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252014000400015&amp;lng=en&amp;nrm=iso\">A ci\u00eancia, a ditadura e os f\u00edsicos<\/a>.<em>\u00a0Cienc. Cult.<\/em> [online]. 2014, vol.66, n.4 [cited\u00a0 2022-04-21], pp.48-53. . ISSN 2317-6660.\u00a0 http:\/\/dx.doi.org\/10.21800\/S0009-67252014000400015.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"imagem-de-capa-participantes-da-reuniao-da-sbpc-lotam-o-tuca-o-teatro-da-universidade-catolica-em-sao-pauloacervo-sbpc\">Imagem de capa: Participantes da reuni\u00e3o da SBPC\u00a0lotam o Tuca, o Teatro da Universidade Cat\u00f3lica, em S\u00e3o Paulo<br \/>\n(Acervo SBPC)<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 id=\"figueiredo-luciano-povos-e-lutas-em-revista-cienc-cult-online-2022-vol-74-n-1-citado-2023-09-07-pp-1-3-disponivel-em-http-cienciaecultura-bvs-br-scielo-phpsc\"><span style=\"color: #808080;\">FIGUEIREDO, Luciano.<span class=\"article-title\">\u00a0Povos e lutas em revista.<\/span><i>\u00a0Cienc. Cult.<\/i>\u00a0[online]. 2022, vol.74, n.1 [citado\u00a0 2023-09-07], pp.1-3. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/cienciaecultura.bvs.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252022000100001&amp;lng=pt&amp;nrm=iso&gt;. ISSN 0009-6725.\u00a0 http:\/\/dx.doi.org\/10.5935\/2317-6660.20220001.<\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A celebra\u00e7\u00e3o do Sesquicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia do Brasil em 1972 n\u00e3o traz&hellip;\n","protected":false},"author":21,"featured_media":2044,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[52,21],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2002"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2002"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2002\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4692,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2002\/revisions\/4692"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2044"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2002"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2002"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2002"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}