{"id":2213,"date":"2022-06-20T07:59:09","date_gmt":"2022-06-20T07:59:09","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=2213"},"modified":"2023-09-01T10:54:21","modified_gmt":"2023-09-01T10:54:21","slug":"a-fotografia-moderna-de-monteiro-lobato-e-mario-de-andrade-encontros-e-desencontros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=2213","title":{"rendered":"A Fotografia moderna de Monteiro Lobato e M\u00e1rio de Andrade"},"content":{"rendered":"<p>A rivalidade entre os escritores paulistas Monteiro Lobato e M\u00e1rio de Andrade \u00e9 tema recorrente nos relatos sobre a Semana de Arte Moderna de 1922. Ainda que v\u00e1rias pesquisas recentes tenham reexaminado os acontecimentos da \u00e9poca, a vis\u00e3o dominante op\u00f5e um Lobato conservador e acad\u00eamico a um M\u00e1rio inovador e vanguardista. Mas, para al\u00e9m da literatura e dos artigos nos jornais, h\u00e1 um territ\u00f3rio comum entre eles que n\u00e3o tem sido objeto de compara\u00e7\u00e3o: a fotografia.<\/p>\n<p>N\u00e3o conhe\u00e7o outros escritores brasileiros de renome que, na primeira metade do s\u00e9culo XX, tenham se dedicado tanto \u00e0 fotografia. E h\u00e1 bem poucos fot\u00f3grafos t\u00e3o modernos quanto eles em seu tempo. Em fins dos anos 1920, M\u00e1rio de Andrade viaja para o Norte e o Nordeste e Lobato para os Estados Unidos. O primeiro cumpre a agenda modernista de \u201cdescobrimento do Brasil\u201d, iniciada com a expedi\u00e7\u00e3o \u00e0s cidades hist\u00f3ricas de Minas, em 1924. Fotografa exaustivamente as gentes que encontra e comp\u00f5e cenas zombeteiras de si e dos amigos, criando um tipo peculiar de etnografia visual das praias e rios do Brasil. Lobato, por sua vez, ao assumir o posto de adido comercial em Nova York, descobre a Am\u00e9rica. Registrando o do modo como a mulher e os filhos v\u00e3o sendo afetados pela paisagem t\u00e9cnica dos Estados Unidos, antecipa uma vis\u00e3o de progresso que est\u00e1 na origem de suas campanhas pela moderniza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do pa\u00eds. S\u00e3o ambos \u201cturistas aprendizes\u201d \u2014 tomando emprestado a express\u00e3o de M\u00e1rio.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada seguinte, dirigindo o Departamento de Cultura de S\u00e3o Paulo, M\u00e1rio contrata profissionais para levar adiante o registro do patrim\u00f4nio cultural paulista e s\u00f3 retorna \u00e0 \u201ccodaquinha\u201d, pela \u00faltima vez, em 1936, para fotografar uma festa folcl\u00f3rica em Mogi das Cruzes. Na mesma \u00e9poca, Lobato est\u00e1 empenhado na Campanha do Petr\u00f3leo, documentando os empreendimentos de prospec\u00e7\u00e3o e as paisagens naturais e humanas onde essas iniciativas ocorriam em S\u00e3o Paulo, Alagoas e Mato Grosso (Figura 1). Ao contr\u00e1rio de M\u00e1rio, que nos 12 \u00faltimos anos de sua vida abre m\u00e3o da c\u00e2mera, Lobato seguir\u00e1 fotografando at\u00e9 o fim de seus dias.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-2215\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Lissovsky-Foto-1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Lissovsky-Foto-1.jpg 320w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Lissovsky-Foto-1-300x300.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Lissovsky-Foto-1-150x150.jpg 150w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Lissovsky-Foto-1-12x12.jpg 12w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Lissovsky-Foto-1-80x80.jpg 80w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-1-monteiro-lobato-documentou-os-empreendimentos-de-prospeccao-e-as-paisagens-naturais-e-humanas-da-campanha-do-petroleo-sao-paulo-alagoas-e-mato-grosso-alagoas-1935-de-m\"><strong>Figura 1. <\/strong><strong>Monteiro Lobato documentou os empreendimentos de prospec\u00e7\u00e3o e as paisagens naturais e humanas da Campanha do Petr\u00f3leo S\u00e3o Paulo, Alagoas e Mato Grosso.<br \/>\n<\/strong>(\u201cAlagoas, 1935\u201d, de Monteiro Lobato. Fonte: CEDAE\/IEL\/UNICAMP. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>S\u00e3o fot\u00f3grafos amadores, mas n\u00e3o ing\u00eanuos. Criticaram duramente a fotografia profissional praticada no Brasil nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX e assinaram revistas especializadas. O primeiro assunto da fotografia de Lobato foi a esposa Purezinha. Durante o ano de 1912, gra\u00e7as a efeitos de luz e figurinos, ela personifica desde a virgem santa \u00e0 mulher insinuante e misteriosa. Na fazenda Buquira, as fotos da fam\u00edlia observam o c\u00e2none do pitoresco e a composi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, mas ao chegar em Nova York, Lobato absorve os princ\u00edpios est\u00e9ticos da fotografia moderna norte-americana: os retratos valorizam a multiplica\u00e7\u00e3o das linhas retas de degraus, janelas e paredes de tijolos e concreto; as chuvas de primavera em Nova York, celebrizadas por Alfred Stieglitz em 1901, s\u00e3o emuladas por Lobato no inverno de 1928; o carro de boi dos filhos \u00e9 substitu\u00eddo pelo carrinho de beb\u00ea passeando na avenida novaiorquina: em vez da estabilidade da vida rural, predominam as diagonais que acentuam o movimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 id=\"a-camera-foi-essencial-para-uma-concepcao-moderna-de-autoria-atribuindo-as-pessoas-e-as-coisas-o-carater-de-materia-bruta-de-uma-escrita-trabalho\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\">&#8220;A c\u00e2mera foi essencial para uma concep\u00e7\u00e3o moderna de autoria, atribuindo \u00e0s pessoas e \u00e0s coisas, o car\u00e1ter de mat\u00e9ria bruta de uma escrita-trabalho.&#8221;<\/span><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O interesse pela fotografia era partilhado por v\u00e1rios escritores modernos, particularmente pelas vanguardas russas. Vladislav Khodasevich (tardiamente convertido ao modernismo) comp\u00f5e \u201cAs Fotografias de Sorrento\u201d inspirado por duplas exposi\u00e7\u00f5es tomadas durante seus passeios de moto pela It\u00e1lia em companhia de M\u00e1ximo Gorki entre 1924 e 1925. O poeta exilado percebe na superposi\u00e7\u00e3o acidental de duas imagens (uma atual e pr\u00f3xima, outra remota e distante), a \u201cimpress\u00e3o de dois mundos\u201d. A superposi\u00e7\u00e3o como choque de universos d\u00edspares tamb\u00e9m acendeu uma fagulha em M\u00e1rio (Figura 2). Na anota\u00e7\u00e3o dessa \u201cfoto futurista\u201d, como em v\u00e1rias outras, M\u00e1rio associa suas imagens a processos inconscientes.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-2217\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Lissovsky-Foto-2.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"349\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Lissovsky-Foto-2.jpg 865w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Lissovsky-Foto-2-300x209.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Lissovsky-Foto-2-768x536.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Lissovsky-Foto-2-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Lissovsky-Foto-2-800x559.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-2-mario-de-andrade-mario-associa-suas-imagens-a-processos-inconscientes-foto-futurista-de-mag-e-dolur-sobrepostas-as-margens-do-amazonas-junho-1927-obsessao-de-mario-de-a\"><strong>Figura 2. M\u00e1rio de Andrade M\u00e1rio associa suas imagens a processos inconscientes.<br \/>\n<\/strong>(\u201cFoto futurista de Mag e Dolur sobrepostas \u00e0s margens do Amazonas. junho 1927 Obsess\u00e3o\u201d, de M\u00e1rio de Andrade. Fonte: IEB\/USP. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sergei Tretyakov, ide\u00f3logo do realismo socialista, afirma em \u201cUma c\u00e2mera nas m\u00e3os do escritor\u201d: \u201c<em>Eu n\u00e3o sei o que seria mais dif\u00edcil para mim viajando como escritor: perder meu bloco de notas e minha caneta ou perder minha c\u00e2mera.<\/em>\u201d A Leica era seu di\u00e1rio de viagem p\u00f3s-revolu\u00e7\u00e3o. As fotografias que expressavam o dinamismo da vida, mesmo as defeituosas, mal expostas e borradas, seriam muito mais \u00fateis ao escritor que as im\u00f3veis e monumentais. A c\u00e2mera foi essencial para uma concep\u00e7\u00e3o moderna de autoria, atribuindo \u00e0s pessoas e \u00e0s coisas, o car\u00e1ter de mat\u00e9ria bruta de uma escrita-trabalho: o autor-fot\u00f3grafo era o pren\u00fancio de um autor-coletivo. Sob o impacto dessa concep\u00e7\u00e3o, o fil\u00f3sofo alem\u00e3o Walter Benjamin argumentou que os escritores que n\u00e3o soubessem fotografar seriam os analfabetos do futuro, e ainda mais analfabetos que esses, os fot\u00f3grafos que n\u00e3o escrevessem as pr\u00f3prias imagens.<\/p>\n<p>M\u00e1rio de Andrade mant\u00e9m, ao lado da c\u00e2mera, seus \u201cdi\u00e1rios de fot\u00f3grafo\u201d, onde toma notas que transcreve depois para o verso das c\u00f3pias. Apontamentos descritivos, como o quiosque cuja \u201ccobertura \u00e9 uma \u00e1rvore\u201d, ou ir\u00f4nicos, como o hotel palustre de Santar\u00e9m que se questiona \u201c<em>to be or not to be<\/em> Veneza\u201d. O turista aprendiz \u00e9 fazedor e leitor das pr\u00f3prias fotografias. As legendas \u2014 informativas, aned\u00f3ticas ou po\u00e9ticas \u2014 protegem suas imagens do pitoresco, driblando as limita\u00e7\u00f5es da c\u00e2mera e a inexperi\u00eancia do fot\u00f3grafo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-2218\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Lissovsky-Foto-3.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"319\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Lissovsky-Foto-3.jpg 1351w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Lissovsky-Foto-3-300x192.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Lissovsky-Foto-3-1024x654.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Lissovsky-Foto-3-768x491.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Lissovsky-Foto-3-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Lissovsky-Foto-3-800x511.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Lissovsky-Foto-3-1160x741.jpg 1160w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-3-o-homem-que-tirou-fotografia-da-gente-aparece-como-legenda-na-fotografia-de-mario-de-andradecrilas-de-assacaio-junho-de-1927-de-mario\"><strong>Figura 3. \u201c\u2026O homem que tirou fotografia da gente&#8230;\u201d aparece como legenda na fotografia de M\u00e1rio de Andrade<br \/>\n<\/strong>(\u201cCrilas de Assacaio. Junho de 1927\u201d, de M\u00e1rio de Andrade. Fonte: IEB\/USP, Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Desde 1913, Lobato \u2014 que teve sempre mais dom\u00ednio t\u00e9cnico \u2014 fantasia as cunhadas para compor quadros pastoris. Mais tarde, as cenas repercutem ou antecipam sua literatura infantil: a neta pesca no rio Para\u00edba, o genro sobre na \u00e1rvore para escapar da on\u00e7a que pretendia ca\u00e7ar, a empregada da filha reproduz o espanto de Tia Nast\u00e1cia diante da panela \u201creformada\u201d. Para os escritores, o espa\u00e7o fotogr\u00e1fico \u00e9 um lugar privilegiado de performance e experimenta\u00e7\u00e3o, mas o poeta-fot\u00f3grafo Paul Noug\u00e9, lideran\u00e7a intelectual do surrealismo na B\u00e9lgica, havia alertado que o mecanismo da c\u00e2mera poderia mascarar a sujei\u00e7\u00e3o da literatura ao automatismo da linguagem. Deixar as palavras por conta pr\u00f3pria (como na &#8220;escrita autom\u00e1tica&#8221;, que Andr\u00e9 Breton imaginava ser uma &#8220;fotografia do pensamento&#8221;), escravizaria o artista. A &#8220;originalidade&#8221;, o &#8220;culto \u00e0 espontaneidade&#8221;, o murm\u00fario das musas, serviam apenas para inflar o narcisismo dos literatos. A verdadeira li\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina fotogr\u00e1fica era que s\u00f3 no artif\u00edcio o poeta experimentaria a liberdade; s\u00f3 por interm\u00e9dio de uma maquina\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, o escritor se libertaria do automatismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"para-os-escritores-o-espaco-fotografico-e-um-lugar-privilegiado-de-performance-e-experimentacao\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\">&#8220;Para os escritores, o espa\u00e7o fotogr\u00e1fico \u00e9 um lugar privilegiado de performance e experimenta\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XIX, as c\u00e2meras fotogr\u00e1ficas tinham um estatuto mec\u00e2nico amb\u00edguo. Devido aos complexos procedimentos de prepara\u00e7\u00e3o e revela\u00e7\u00e3o das chapas e sua baixa sensibilidade, os fot\u00f3grafos n\u00e3o eram senhores da pr\u00f3pria arte, mas, segundo alguns, vassalos da luz. O surgimento da c\u00e2mera-m\u00e1quina nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX foi essencial para o uso que escritores como M\u00e1rio e Lobato far\u00e3o da fotografia. S\u00f3 assim pode assumir tanto a fei\u00e7\u00e3o de um brinquedo, como a \u201ccodaquinha\u201d do poeta, ou de \u201cum dos instrumentos fundamentais da vida moderna\u201d, como sustentou Lobato em um artigo de 1920. A c\u00e2mera-m\u00e1quina induz nos escritores uma rela\u00e7\u00e3o dial\u00f3gica que lhes permite jogar com o aparelho, explorando o choque de molduras, o contraste de planos, a temporaliza\u00e7\u00e3o do disparo e a intromiss\u00e3o no quadro das pr\u00f3prias sombras \u2014 as m\u00faltiplas formas pelas quais inscrevem uma assinatura nas imagens.<\/p>\n<h6 id=\"\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-2219\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Lissovsky-Foto-4.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Lissovsky-Foto-4.jpg 648w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Lissovsky-Foto-4-300x288.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/Lissovsky-Foto-4-13x12.jpg 13w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/h6>\n<h6 id=\"figura-4-fotografias-de-monteiro-lobato-eram-marcadas-pelo-silencio-e-pelo-vazioas-filhas-ruth-e-martha-buenos-aires-1946-de-monteiro-lobato-fonte-cedae-iel-unicamp-reproduc\"><strong>Figura 4. Fotografias de Monteiro Lobato eram marcadas pelo sil\u00eancio e pelo vazio<br \/>\n<\/strong>(\u201cAs filhas Ruth e Martha. Buenos Aires, 1946\u201d, de Monteiro Lobato. Fonte: CEDAE\/IEL\/UNICAMP. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 24\/07\/1978, Roland Barthes anotou em seu \u201cDi\u00e1rio do Luto\u201d: <em>\u201cFotografia: impossibilidade de dizer o que \u00e9 evidente. Nascimento da Literatura<\/em>\u201d. A literatura estaria compelida a responder ao sil\u00eancio do Real, a essa disjun\u00e7\u00e3o fundamental entre a imagem-evid\u00eancia e a palavra-representa\u00e7\u00e3o. A fotografia assinalaria no escritor o lugar de sua pr\u00f3pria inconformidade. Em M\u00e1rio, ela assume a forma de uma interpela\u00e7\u00e3o: os personagens, em vez posar ou sorrir convencionalmente para a c\u00e2mera, reagem \u00e0 presen\u00e7a do fot\u00f3grafo como se o interrogassem. Em Assacaio, no Amazonas, a legenda no verso inverte o ponto de vista: <em>\u201c\u2026o homem que tirou fotografia da gente&#8230;<\/em>\u201d. \u00c9 preciso retornar \u00e0 escrita, pois se escuta no olhar que vemos uma interpela\u00e7\u00e3o \u00e0 qual a fotografia n\u00e3o consegue responder (Figura 3).<\/p>\n<p>Muitas fotografias de Lobato j\u00e1 nasciam imersas em sil\u00eancio. O banco, diante do rio, em Mato Grosso, est\u00e1 vazio, assim como a cadeira na varanda da casa da filha. A liberdade silenciosa das \u00e1rvores \u2014 um de seus temas mais caros \u2014 foi o contraponto ideal do polemista insaci\u00e1vel que um dia adoeceu e cansou. Em 1946, visitando uma pra\u00e7a de Buenos Aires com as filhas, observa uma grade \u00e1rvore que, t\u00e3o pesada quanto velha, precisa ser sustentada por muletas (Figura 4). Ainda um signo da liberdade da escrita \u2014 mas de uma liberdade insepar\u00e1vel da dor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-mario-de-andrade-e-monteiro-lobato-rivalizavam-na-literatura-e-na-fotografia-contribuindo-para-as-discussoes-e-as-inovacoes-na-arte-brasileiraautorretrato-de-mari\"><strong>Capa. M\u00e1rio de Andrade e Monteiro Lobato rivalizavam na literatura e na fotografia, contribuindo para as discuss\u00f5es \u2013 e as inova\u00e7\u00f5es \u2013 na arte brasileira<br \/>\n<\/strong>(\u201cAutorretrato de Mario de Andrade\u201d, de M\u00e1rio de Andrade. Reprodu\u00e7\u00e3o.)<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 id=\"nota\"><span style=\"color: #808080;\"><strong>Nota<\/strong><\/span><\/h6>\n<p><span style=\"color: #808080;\">A cole\u00e7\u00e3o Fotogr\u00e1fica de M\u00e1rio de Andrade est\u00e1 no Instituto de Estudos Brasileiros, da USP. As Fotografias de Monteiro Lobato, em sua maioria, no Centro de Documenta\u00e7\u00e3o Alexandre Eul\u00e1lio, da Unicamp.<\/span><\/p>\n<h6 id=\"referencias\"><span style=\"color: #808080;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/span><\/h6>\n<ol>\n<li><span style=\"color: #808080;\">ANDRADE, M. <em>O Turista Aprendiz.<\/em> Bras\u00edlia: IPHAN, 2015.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #808080;\">ALVES, G. S. <em>O Imagin\u00e1rio Fotogr\u00e1fico de Monteiro Lobato<\/em> (Tese de Doutorado em Comunica\u00e7\u00e3o). Rio de Janeiro: Escola de Comunica\u00e7\u00e3o\/UFRJ, 2010.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #808080;\">BARTHES, R. <em>Di\u00e1rio do Luto, 26 de outubro 1977 \u2013 15 de setembro de 1979<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2011.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #808080;\">BENJAMIN, W. <em>Selected Writings, v. 2-1 (1931-1934).<\/em> Cambridge: The Belknap Press of Harvard University Press, 1999.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #808080;\">Mendes, R. (org.). <em>Pensamento cr\u00edtico em fotografia \u2013 Antologia Brasil 1890-1930<\/em>. S\u00e3o Paulo, 2013.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #808080;\">CARNICEL, A. <em>O Fot\u00f3grafo M\u00e1rio de Andrade.<\/em> Campinas: Editora da Unicamp, 1993.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #808080;\">CHIARELLI, T. <em>Um Jeca nas vernissages: Monteiro Lobato e o desejo de uma arte nacional no Brasil.<\/em> S\u00e3o Paulo: Edusp, 1995.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #808080;\">GILLAIN, N. &#8220;Du <em>G\u00e9ant <\/em>\u00e0 l\u2019\u00e9chiquier. Paul Noug\u00e9 au pied de la lettre&#8221;. <em>Interf\u00e9rences litt\u00e9raires,<\/em><em> (nouvelle s\u00e9rie)<\/em>, 2009, n. 2, p. 113-137.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #808080;\">Nafpaktitis, M. Multiple exposures of the photographic motif in Vladislav Khodasevich\u2019s \u2018Sorrentinskie Fotografii\u2019\u201d. <em>Slavic and East European Journal, <\/em>2008, v. 52, n. 3, p. 389-413.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #808080;\">Reischl, K. M. H. \u2018Where I have been with my camera\u2019: Sergei Tret\u2019iakov and developing operativity\u201d. <em>Russian Literature,<\/em> 2019, v. 103-105, p. 119-143.<\/span><\/li>\n<\/ol>\n<hr \/>\n<h6 id=\"lissovsky-mauricio-a-fotografia-moderna-de-monteiro-lobato-e-mario-de-andrade-encontros-e-desencontros-atraves-de-suas-fotografias-monteiro-lobato-e-mario-de-andrade-expressaram-algo-a-respe\"><span style=\"color: #808080;\"><em>LISSOVSKY, Mauricio.<span class=\"article-title\">\u00a0A Fotografia moderna de Monteiro Lobato e M\u00e1rio de Andrade: encontros e desencontros. Atrav\u00e9s de suas fotografias, Monteiro Lobato e M\u00e1rio de Andrade expressaram algo a respeito do Brasil e de si pr\u00f3prios.<\/span>\u00a0Cienc. Cult.\u00a0[online]. 2022, vol.74, n.2 [citado\u00a0 2023-09-01], pp.1-5. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/cienciaecultura.bvs.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252022000200014&amp;lng=pt&amp;nrm=iso&gt;. ISSN 0009-6725.\u00a0 http:\/\/dx.doi.org\/10.5935\/2317-6660.20220029.<\/em><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A rivalidade entre os escritores paulistas Monteiro Lobato e M\u00e1rio de Andrade&hellip;\n","protected":false},"author":33,"featured_media":2221,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[21],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2213"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/33"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2213"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2213\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4665,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2213\/revisions\/4665"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2221"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2213"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2213"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2213"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}