{"id":2233,"date":"2022-05-30T07:58:26","date_gmt":"2022-05-30T07:58:26","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=2233"},"modified":"2023-09-01T10:57:15","modified_gmt":"2023-09-01T10:57:15","slug":"o-modernismo-alem-de-sao-paulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=2233","title":{"rendered":"O Modernismo al\u00e9m de S\u00e3o Paulo"},"content":{"rendered":"<p>O Modernismo no Brasil costuma ter data de nascimento: os tr\u00eas dias de fevereiro de 1922 da Semana de Arte Moderna no Teatro Municipal de S\u00e3o Paulo. O dia 13 foi dedicado \u00e0 pintura e \u00e0 escultura; o dia 15 \u00e0 literatura e o dia 17 \u00e0 m\u00fasica. N\u00e3o resta d\u00favida que foi um evento da elite paulistana. Afinal, entre os patrocinadores citam-se Paulo Prado, membro da oligarquia cafeeira paulista; <a href=\"https:\/\/www.teses.usp.br\/teses\/disponiveis\/8\/8146\/tde-04022015-114953\/pt-br.php\"><span style=\"color: #800000;\">Ren\u00e9 Thiollier<\/span><\/a>, sobrinho da propriet\u00e1ria do Vale do Anhangaba\u00fa, criador da Revista da Academia Paulista de Letras e em cujo nome est\u00e1 no recibo de aluguel do Teatro Municipal; Alfredo Pujol, deputado em S\u00e3o Paulo por sete legislaturas; o empres\u00e1rio Ant\u00f4nio da Silva Prado J\u00fanior; e Gra\u00e7a Aranha, que emprestou seu nome para conferir prest\u00edgio ao evento. Entre os palestrantes, nomes como <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.al.sp.gov.br\/noticia\/?14\/02\/2022\/conheca-os-ex-parlamentares-da-alesp-que-participaram-da-semana-de-arte-moderna-de-1922--\">Menotti del Picchia, Pl\u00ednio Salgado e C\u00e2ndido Motta Filho<\/a> <\/span>estiveram ao lado de M\u00e1rio de Andrade e Oswald de Andrade no dia 15 de fevereiro, estes considerados os grandes precursores do modernismo brasileiro.<\/p>\n<p>Mas em 1922 j\u00e1 existiam intelectuais e escritores, como o paraense Bruno de Menezes, o sergipano Silvio Romero, o baiano Sos\u00edgenes Costa, o fluminense Euclides da Cunha e o ga\u00facho Augusto Meyer, e artistas pl\u00e1sticos, como os irm\u00e3os pernambucanos Joaquim e Vicente do Rego Monteiro, que se afastaram de influ\u00eancias europeias por meio de abordagens que valorizavam a cultura nacional. Outros, como a pintora mineira Zina Aita, que participou da exposi\u00e7\u00e3o que se instalou no Foyer do Teatro Municipal com oito obras, \u00e9 raramente mencionada. Foi um evento da elite paulistana.<\/p>\n<p>Ou seja, h\u00e1 quem afirme que o Modernismo no Brasil n\u00e3o teve in\u00edcio em 1922; S\u00e3o Paulo n\u00e3o \u00e9 sua terra natal; e M\u00e1rio de Andrade e Oswald de Andrade n\u00e3o s\u00e3o propriamente seus fundadores. T\u00e3o importantes quanto eles em mat\u00e9ria de poesia modernista s\u00e3o Manuel Bandeira, pernambucano radicado no Rio, e Carlos Drummond de Andrade, poeta mineiro. O primeiro com seu livro modernista \u201cLibertinagem\u201d e o segundo com \u201cAlguma Poesia\u201d, livros de 1930 em que reuniam sua produ\u00e7\u00e3o esparsa dos anos 20. Anelito Pereira de Oliveira, poeta e professor visitante de Literaturas Africanas na<span style=\"color: #800000;\"> <a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/ufmg.br\/\">Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)<\/a><\/span>, aponta que a centralidade do modernismo tantas vezes atribu\u00edda a S\u00e3o Paulo \u00e9 \u201cdecorrente da cultura urbana de uma elite branca, em que M\u00e1rio de Andrade, um sujeito negro, disfar\u00e7ou sua negritude do mesmo modo que Machado de Assis\u201d.<\/p>\n<h3 id=\"o-modernismo-e-um-processo\"><strong>\u201cO Modernismo \u00e9 um processo\u201d<\/strong><\/h3>\n<p>Quem afirma \u00e9 Cid Seixas Fraga Filho, escritor e jornalista nascido em Maragogipe, Bahia, que acrescenta: \u201cNada veio do nada. Sempre que temos esse tipo de recorte, devemos no m\u00ednimo desconfiar\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-2235\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/CC-2-edicao-reportagem-O-Modernismo-ale\u0301m-de-Sa\u0303o-Paulo-figura1.jpg\" alt=\"\" width=\"387\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/CC-2-edicao-reportagem-O-Modernismo-ale\u0301m-de-Sa\u0303o-Paulo-figura1.jpg 336w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/CC-2-edicao-reportagem-O-Modernismo-ale\u0301m-de-Sa\u0303o-Paulo-figura1-232x300.jpg 232w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/CC-2-edicao-reportagem-O-Modernismo-ale\u0301m-de-Sa\u0303o-Paulo-figura1-9x12.jpg 9w\" sizes=\"(max-width: 387px) 100vw, 387px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-1-capa-de-uma-edicao-da-revista-verde-de-cataguases-mgreproducao\"><strong>Figura 1. Capa de uma edi\u00e7\u00e3o da <em>Revista Verde<\/em>, de Cataguases (MG)<br \/>\n<\/strong>(Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nesse processo, muitos especialistas consideram que temos inclusive um pr\u00e9-modernismo, no\u00e7\u00e3o cristalizada por Trist\u00e3o de Athayde (pseud\u00f4nimo de Alceu Amoroso Lima, cr\u00edtico liter\u00e1rio, professor, escritor e l\u00edder cat\u00f3lico brasileiro) que cunhou em 1939 esse termo para denominar o per\u00edodo entre 1916 e 1920. Anos depois, Trist\u00e3o de Athayde reviu esta delimita\u00e7\u00e3o e considerou o Pr\u00e9-modernismo como sendo o per\u00edodo entre 1875 e 1925. Posteriormente, o Alfredo Bosi, professor da <a href=\"https:\/\/www5.usp.br\/\"><span style=\"color: #800000;\">Universidade de S\u00e3o Paulo (USP)<\/span>, <\/a>adotou o termo em sua \u201cHist\u00f3ria Concisa da Literatura Brasileira\u201d. Atualmente, j\u00e1 n\u00e3o se fala em pr\u00e9-modernismo <em>versus<\/em> modernismo e sim numa pluralidade de modernismos, dentre os quais se destaca o modernismo diretamente derivado da Semana de Arte Moderna.<\/p>\n<p>Seja como for, a classifica\u00e7\u00e3o de elementos da cultura como modernos est\u00e1 sempre provocando controv\u00e9rsias. Cid Seixas, por exemplo, considera que Cruz e Souza, autor de \u201cMissal\u201d e de \u201cBroqu\u00e9is\u201d, lan\u00e7ados em 1893, foi ultramoderno, ainda que seja considerado por muitos como pertencente ao simbolismo que, com o naturalismo e o realismo, constitui uma das fases do pr\u00e9-modernismo. Doutor em Literatura pela USP e professor titular aposentado da <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.ufba.br\/\">Universidade Federal da Bahia (UFBA)<\/a><\/span>, Seixas acrescenta: \u201cA Semana foi mitificada, colocada num patamar de relev\u00e2ncia est\u00e9tica, cultural, econ\u00f4mica e pol\u00edtica em raz\u00e3o de um interesse da elite paulista de colocar S\u00e3o Paulo acima do Brasil\u201d.<\/p>\n<h4 id=\"\"><\/h4>\n<h4 id=\"ha-quem-afirme-que-o-modernismo-no-brasil-nao-teve-inicio-em-1922-sao-paulo-nao-e-sua-terra-natal-e-mario-de-andrade-e-oswald-de-andrade-nao-sao-propriamente-seus-fundadores\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\">\u201cH\u00e1 quem afirme que o Modernismo no Brasil n\u00e3o teve in\u00edcio em 1922; S\u00e3o Paulo n\u00e3o \u00e9 sua terra natal; e M\u00e1rio de Andrade e Oswald de Andrade n\u00e3o s\u00e3o propriamente seus fundadores.\u201d<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Maria Teresa Boaventura, no texto \u201cSemana de arte moderna: o que comemorar?\u201d, publicado em 2013, aponta que a Semana foi apenas uma festa que consolidou e ampliou a atua\u00e7\u00e3o de um grupo formado por volta de 1917, depois do impacto da Exposi\u00e7\u00e3o de Anita Malfatti, e agilizou o lan\u00e7amento de obras, como o romance cinematogr\u00e1fico \u201cAlma\u201d de Oswald de Andrade, lan\u00e7ado em outubro, e \u201cPauliceia Desvairada\u201d, de M\u00e1rio de Andrade, e \u201cO Homem e a Morte\u201d, de Menotti del Picchia, lan\u00e7ados em novembro. E mais, a Semana contribuiu para deslocar o centro dos acontecimentos culturais da ent\u00e3o capital do pa\u00eds para S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<h3 id=\"o-modernismo-brasil-afora\"><strong>O modernismo Brasil afora<\/strong><\/h3>\n<p>Em debate sobre centen\u00e1rio da Semana de Arte Moderna de 1922, promovido pelo jornal <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=BxhYqvNCxjU\">Folha de S\u00e3o Paulo em 07 de dezembro de 2021<\/a><\/span>, o jornalista e escritor Ruy Castro criticou os discursos que valorizam o evento paulista em detrimento da efervesc\u00eancia cultural no Rio de Janeiro. Afinal, j\u00e1 em 1909 Lima Barreto lan\u00e7ava <em>Recorda\u00e7\u00f5es do Escriv\u00e3o Isa\u00edas Caminha<\/em>, romance sobre a trajet\u00f3ria de um jovem mulato do interior que sofre s\u00e9rios preconceitos raciais no Rio, e em 1915 publicou em livro sua obra-prima <em>O Triste Fim de Policarpo Quaresma<\/em>, sobre os ideais e as frustra\u00e7\u00f5es de um funcion\u00e1rio p\u00fablico met\u00f3dico e nacionalista fan\u00e1tico.<\/p>\n<p>\u201cCom toda a certeza, podemos afirmar que a busca por uma nova consci\u00eancia cultural e art\u00edstica brasileira j\u00e1 estava em curso antes de 1922 e em outras cidades, fora de S\u00e3o Paulo. O Rio de Janeiro teve um papel central nesse momento, e cidades como S\u00e3o Lu\u00eds, Recife e outras tamb\u00e9m estavam buscando formas de discutir o pa\u00eds republicano e p\u00f3s-escravagista\u201d. Quem aponta \u00e9 Giovanna Deltry, professora de Literatura Brasileira na <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.uerj.br\/\">Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)<\/a><\/span>, que acrescenta: \u201cno Rio de Janeiro, o jornalista, cronista, tradutor e teatr\u00f3logo Jo\u00e3o do Rio (pseud\u00f4nimo de Jo\u00e3o Paulo Em\u00edlio Crist\u00f3v\u00e3o dos Santos Coelho Barreto) \u00e9 considerado um pioneiro da cr\u00f4nica-reportagem iniciada em 1903. Organizadora do livro \u201cVida Vertiginosa\u201d, de Jo\u00e3o do Rio, publicado originalmente em 1911, Giovanna Deltry cita tamb\u00e9m Gilka Machado, que lan\u00e7ou seu primeiro livro de poesias em 1915 e que se destacou pela produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica de tem\u00e1tica er\u00f3tica, em uma \u00e9poca extremamente conservadora.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-2236\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/CC-2-edicao-reportagem-O-Modernismo-ale\u0301m-de-Sa\u0303o-Paulo-figura2.jpg\" alt=\"\" width=\"364\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/CC-2-edicao-reportagem-O-Modernismo-ale\u0301m-de-Sa\u0303o-Paulo-figura2.jpg 266w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/CC-2-edicao-reportagem-O-Modernismo-ale\u0301m-de-Sa\u0303o-Paulo-figura2-219x300.jpg 219w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/CC-2-edicao-reportagem-O-Modernismo-ale\u0301m-de-Sa\u0303o-Paulo-figura2-9x12.jpg 9w\" sizes=\"(max-width: 364px) 100vw, 364px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-2-os-vandalos-do-apocalipse-e-outras-historias-arte-e-literatura-no-para-dos-anos-20-de-aldrin-de-moura-figueiredo-reproducao\"><strong>Figura 2. &#8220;Os V\u00e2ndalos do Apocalipse e outras hist\u00f3rias: Arte e Literatura no Par\u00e1 dos Anos 20&#8221;, de Aldrin de Moura Figueiredo.<br \/>\n<\/strong>(Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Autor de livros como \u201cMetr\u00f3pole \u00e0 Beira-mar e As Vozes da Metr\u00f3pole\u201d, que mostram o dinamismo e a modernidade da produ\u00e7\u00e3o cultural da capital do Brasil nos anos 1920, Ruy Castro afirmou no debate promovido pela Folha que \u00e9 necess\u00e1rio discutir a ideia de que o resto do Brasil vivia um atraso cultural monumental e que tenha sido necess\u00e1rio &#8220;que dois g\u00eanios, M\u00e1rio e Oswald de Andrade, viessem nos salvar daquele abismo de soneto parnasiano e pronome bem-colocado, que \u00e9 o que n\u00f3s faz\u00edamos, segundo eles, o tempo todo aqui&#8221;. E ironizou: &#8220;os modernistas de S\u00e3o Paulo fizeram a Semana n\u00e3o para atualizar o Brasil, mas para atualizar a si mesmos&#8221;.<\/p>\n<p>A centralidade do Modernismo atribu\u00edda a S\u00e3o Paulo abafou por muitas d\u00e9cadas obras e iniciativas culturais importantes. Em Bel\u00e9m de 1921, um grupo de intelectuais que usufru\u00edam do privil\u00e9gio de receber not\u00edcias da vanguarda europeia antes dos portos do Sudeste criou os \u201cV\u00e2ndalos do Apocalipse\u201d \u2014 posteriormente \u201cAcademia do Peixe Frito&#8221; \u2014 cujo expoente era o poeta Bruno de Menezes e que tinham na Casa da rua Jo\u00e3o Diogo, 26, talvez o mais importante endere\u00e7o do primeiro Modernismo paraense.<\/p>\n<p>Em Cataguases (MG), Humberto Mauro apresentou em 1926 \u201cNa Primavera da Vida\u201d, sua primeira produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica, que buscava uma linguagem no cinema nacional desvinculada da tradi\u00e7\u00e3o francesa. \u00c9 tamb\u00e9m em Cataguases que surge em 1927 a <em>Revista <\/em><em>Verde<\/em>, peri\u00f3dico mensal de arte e cultura do Movimento Verde, que contava com a participa\u00e7\u00e3o do romancista e poeta Ros\u00e1rio Fusco e dos poetas Asc\u00e2nio Lopes e Enrique de Resende, todos considerados modernistas. Ros\u00e1rio Fusco, por exemplo, \u00e9 considerado o menino-prod\u00edgio do Modernismo brasileiro, precursor do suprarrealismo liter\u00e1rio. A <em>Revista Verde<\/em> foi editada entre 1927 e 1929, e contou com a colabora\u00e7\u00e3o de poetas, escritores e ilustradores modernistas do Brasil. A pintora mineira Zina Aita participou da exposi\u00e7\u00e3o que se instalou no Foyer do Teatro Municipal com oito obras e \u00e9 raramente lembrada.<\/p>\n<p>Na Bahia, tr\u00eas grupos s\u00e3o considerados precursores do Modernismo em Salvador. Um deles \u00e9 a Academia dos Rebeldes, criada provavelmente em 1927 e da qual faziam parte Jorge Amado, Pinheiro Viegas, Sos\u00edgenes Costa, Guilherme Dias Gomes, Walter da Silveira, entre outros. Outro \u00e9 o da revista <em>Arco &amp; Flexa: mens\u00e1rio de cultura moderna<\/em>, liderado por jovens cujas idades variavam entre 16 e 22 anos, lan\u00e7ada em novembro de 1928. E um terceiro, tamb\u00e9m liderado por jovens que se reuniam na \u201cBaixinha\u201d, localizada entre as ladeiras do Pelourinho, do Passo e do Carmo, e a faixa que liga o Tabo\u00e3o \u00e0 Baixa dos Sapateiros, e que lan\u00e7ou em 1928 a Revista <em>Samba<\/em>, que teve apenas quatro n\u00fameros.<\/p>\n<p>Um caso emblem\u00e1tico \u00e9 o de Godofredo Filho, com \u201cSamba Verde\u201d, colet\u00e2nea de 13 poemas escritos em 1925. Cid Seixas, em seu livro \u201cA Literatura na Bahia: tradi\u00e7\u00e3o e modernidade\u201d, aponta que \u201cdepois de ter visto as primeiras provas, em 1928, Godofredo recolheu a edi\u00e7\u00e3o do seu livro antes do lan\u00e7amento, argumentando que este n\u00e3o mais representava a deriva, ou o caminho, da sua pesquisa est\u00e9tica\u201d. Para Cid Seixas, trata-se de um exemplo de auto apagamento de escritores baianos no in\u00edcio do s\u00e9culo, em contraposi\u00e7\u00e3o aos escritores de Pernambuco na \u00e9poca.<\/p>\n<p>Ou seja, v\u00e1rios autores, muitas cidades e v\u00e1rios ramos da cultura, como pintura, dan\u00e7a, literatura e m\u00fasica, foram eclipsados por S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<h3 id=\"os-esquecidos-da-festa-do-modernismo-paulista-eram-negros-e-pobres\"><strong>Os esquecidos da festa do Modernismo paulista eram negros e pobres<\/strong><\/h3>\n<p>Para Anelito de Oliveira, \u201c\u00e9 necess\u00e1rio pensar a Semana de 22 no bojo de um processo hist\u00f3rico\u201d, cujas ra\u00edzes s\u00e3o a Aboli\u00e7\u00e3o da Escravatura em 1888 e a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica em 1889. A partir da\u00ed observa-se uma moderniza\u00e7\u00e3o\u00a0do\u00a0pa\u00eds, com\u00a0in\u00edcio de desenvolvimento\u00a0industrial e constru\u00e7\u00e3o de estradas de\u00a0ferro, mas com a economia ainda dependente da agricultura e com a popula\u00e7\u00e3o negra mantida \u00e0 margem da sociedade brasileira.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-2237\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/CC-2-edicao-reportagem-O-Modernismo-ale\u0301m-de-Sa\u0303o-Paulo-figura3.jpg\" alt=\"\" width=\"333\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/CC-2-edicao-reportagem-O-Modernismo-ale\u0301m-de-Sa\u0303o-Paulo-figura3.jpg 280w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/CC-2-edicao-reportagem-O-Modernismo-ale\u0301m-de-Sa\u0303o-Paulo-figura3-200x300.jpg 200w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/CC-2-edicao-reportagem-O-Modernismo-ale\u0301m-de-Sa\u0303o-Paulo-figura3-8x12.jpg 8w\" sizes=\"(max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-3-lino-guedes-poeta-moderno-nascido-em-socorro-sp-e-que-lancou-seu-primeiro-livro-luiz-gama-e-sua-individualidade-literaria-em-1924-reproducao\"><strong>Figura 3. Lino Guedes &#8211; Poeta moderno nascido em Socorro (SP) e que lan\u00e7ou seu primeiro livro, \u201cLuiz Gama e sua individualidade liter\u00e1ria\u201d, em 1924.<br \/>\n<\/strong>(Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Autor de \u201cTr\u00eas Festas: A Love Song As Monk\u201d, livro lan\u00e7ado em 2004 e que discorre sobre o conflito entre o mundo exterior e o eu interior, Anelito de Oliveira destaca que n\u00e3o se pode avaliar o papel que \u00e9 conferido a M\u00e1rio de Andrade, Oswald de Andrade e tantos outros escritores no Modernismo brasileiro sem considerar a quest\u00e3o racial. Anelito se apoia no ge\u00f3grafo Milton Santos para afirmar que fatos s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es: \u201clevo em considera\u00e7\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es entre hist\u00f3ria, est\u00e9tica e ideologia\u201d. E acrescenta: \u201ceu vejo no sujeito M\u00e1rio, na sua subjetividade, todo um conjunto de conflitos que s\u00f3 se explica pela sua negritude\u201d.<\/p>\n<p>Modernistas negras e negros est\u00e3o por todo pa\u00eds. No Par\u00e1, o poeta e folclorista Bruno de Meneses, foi uma esp\u00e9cie de anunciador do modernismo em Bel\u00e9m, com sua poesia que evoca a ra\u00e7a negra, a cidade que o tempo levou, as tradi\u00e7\u00f5es e o amor. Negros, como o escritor carioca Lima Barreto, o poeta mineiro Agenor Barbosa, o escritor carioca Lima Barreto, o poeta paulista Lino Guedes, os pintores cariocas Jo\u00e3o e Arthur Tim\u00f3theo da Costa, e o poeta catarinense Jo\u00e3o da Cruz e Sousa ficaram esquecidos na narrativa que se faz em torno de um Modernismo Paulista.<\/p>\n<h4 id=\"-2\"><\/h4>\n<h4 id=\"a-centralidade-do-modernismo-atribuida-a-sao-paulo-abafou-por-muitas-decadas-obras-e-iniciativas-culturais-importantes\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\">\u201cA centralidade do Modernismo atribu\u00edda a S\u00e3o Paulo abafou por muitas d\u00e9cadas obras e iniciativas culturais importantes.\u201d<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O poeta mineiro Agenor Barbosa \u00e9 um exemplo desse esquecimento. Ele nasceu em Montes Claros e mudou-se para S\u00e3o Paulo em 1917, depois de morar quatro anos em Belo Horizonte. Em S\u00e3o Paulo conheceu M\u00e1rio de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti del Picchia e integrou o grupo que planejou as atividades da Semana de Arte Moderna no Teatro Municipal de S\u00e3o Paulo. Embora esquecido, no Programa oficial Agenor Barbosa aparece no segundo dia como integrante do grupo que fez o recital de poesias ap\u00f3s a palestra de abertura de Menotti Del Picchia. E mais: foi o \u00fanico a receber aplausos naquela sess\u00e3o. Talvez porque seus versos n\u00e3o fossem ainda t\u00e3o modernistas.<\/p>\n<p>Para Giovanna Deltry, entre a diversidade cultural e art\u00edstica da \u00e9poca, \u201cn\u00e3o h\u00e1 como compreender a modernidade do in\u00edcio do s\u00e9culo sem estudar a import\u00e2ncia da caricatura \u2014 veloz, \u00e1gil e popular \u2014 e a presen\u00e7a dos cronistas e colunistas nas revistas e jornais cariocas\u201d. E ressalta \u201ca import\u00e2ncia dos jornais do per\u00edodo por onde passaram cronistas e caricaturistas, como Kalixto Cordeiro (K.Lixto) e Raul Pederneiras, que recriavam com precis\u00e3o cenas de capoeiragem e bailes populares e festas, como o carnaval e a Festa da Penha\u201d. A musicalidade negra do Rio de Janeiro carrega um elemento indel\u00e9vel de uma modernidade que, apesar do racismo da sociedade, n\u00e3o \u00e9 capaz de apag\u00e1-la, aponta Giovanna Deltry que acrescenta: \u201cnuma perspectiva contempor\u00e2nea, n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel colocar os paulistas, ou nenhum outro grupo de intelectuais, como &#8220;descobridores&#8221; dos m\u00fasicos negros\u201d. Pixinguinha, <em>Os Oito Batutas<\/em>, Jo\u00e3o da Baiana, Hil\u00e1rio Jovino, Tia Ciata e Donga s\u00e3o alguns dos nomes que inauguraram uma presen\u00e7a musical negra no Rio de Janeiro e que, mais tarde, ganharam o mundo.<\/p>\n<p>E mais, apesar de trajet\u00f3rias diversas, Lima Barreto \u2014 considerado por Oct\u00e1vio Ianni um dos fundadores da literatura afro-brasileira \u2014 e Jo\u00e3o do Rio \u2014 um grande tradutor de Oscar Wilde que em 1902 foi recusado pelo Itamaraty por ser &#8220;gordo, amulatado e homossexual&#8221; \u2014 t\u00eam em comum a observa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da vida urbana. Giovanna Deltry complementa: \u201cSem aderirem por completo \u00e0s express\u00f5es culturais populares, como acontece a partir de 1922, ambos s\u00e3o precursores por escreverem sobre o carnaval, a favela, os sub\u00farbios, a modinha etc. Em suma, os aspectos que o Estado desejava apagar de uma vez por todas, devido \u00e0s origens negras e pobres\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-zina-aita-pintora-nascida-em-belo-horizonte-foi-decisiva-no-modernismo-brasileirohomens-trabalhando-de-zina-aita-reproducao\"><strong>Capa. Zina Aita, pintora nascida em Belo Horizonte, foi decisiva no modernismo brasileiro<br \/>\n<\/strong>(\u201cHomens Trabalhando\u201d, de Zina Aita. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 id=\"assad-leonor-o-modernismo-alem-de-sao-paulo-para-alem-de-sao-paulo-o-modernismo-se-espalhou-por-todas-as-regioes-do-brasil-revolucionando-a-arte-a-cultura-e-a-sociedade-do-pais-cienc\"><span style=\"color: #808080;\"><em>ASSAD, Leonor.<span class=\"article-title\">\u00a0O Modernismo al\u00e9m de S\u00e3o Paulo. Para al\u00e9m de S\u00e3o Paulo, o modernismo se espalhou por todas as regi\u00f5es do Brasil, revolucionando a arte, a cultura e a sociedade do pa\u00eds.<\/span>\u00a0Cienc. Cult.\u00a0[online]. 2022, vol.74, n.2 [citado\u00a0 2023-09-01], pp.1-6. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/cienciaecultura.bvs.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252022000200017&amp;lng=pt&amp;nrm=iso&gt;. ISSN 0009-6725.\u00a0 http:\/\/dx.doi.org\/10.5935\/2317-6660.20220036.<\/em><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O Modernismo no Brasil costuma ter data de nascimento: os tr\u00eas dias&hellip;\n","protected":false},"author":9,"featured_media":2234,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2233"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2233"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2233\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4668,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2233\/revisions\/4668"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2234"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2233"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2233"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2233"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}