{"id":2240,"date":"2022-06-20T07:58:49","date_gmt":"2022-06-20T07:58:49","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=2240"},"modified":"2023-09-01T10:57:56","modified_gmt":"2023-09-01T10:57:56","slug":"as-referencias-indigenas-no-modernismo-do-carater-antropofagico-a-reantropofagia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=2240","title":{"rendered":"As refer\u00eancias ind\u00edgenas no Modernismo"},"content":{"rendered":"<p>Onde estavam os ind\u00edgenas na Semana de Arte Moderna de 1922? Se por um lado o grande evento modernista em S\u00e3o Paulo foi marcado pela aus\u00eancia de artistas ind\u00edgenas, por outro as refer\u00eancias da cultura dos povos tradicionais estiveram muito presentes no Modernismo, constituindo sua ess\u00eancia antropof\u00e1gica.<\/p>\n<p>\u201cO momento alto do Modernismo paulista \u00e9 totalmente impens\u00e1vel sem as refer\u00eancias ind\u00edgenas, sem a percep\u00e7\u00e3o \u2014 para usar uma frase do <em>Manifesto Antrop\u00f3fago <\/em>\u2014 de que \u2018j\u00e1 t\u00ednhamos a l\u00edngua surrealista\u2019 (algo que Raul Bopp mobiliza em \u2018<em>Cobra Norato\u2019<\/em> e sobre o qual teoriza depois); (o Modernismo) \u00e9 impens\u00e1vel sem a percep\u00e7\u00e3o de que as formas modernas estavam, por assim dizer, \u2018aqui\u2019\u201d, destaca o professor Alexandre Nodari, do Departamento de Literatura e Lingu\u00edstica e dos Programas de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Letras e Filosofia da <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.ufpr.br\/portalufpr\/\">Universidade Federal do Paran\u00e1<\/a><\/span> (UFPR).<\/p>\n<p>Esta \u201cpresen\u00e7a\u201d dos povos tradicionais, embora significativa, acontece assim de forma indireta \u2014 ou seja, sempre por autoria de artistas n\u00e3o-ind\u00edgenas. Por\u00e9m, mesmo com a aus\u00eancia de artistas ind\u00edgenas na Semana de Arte Moderna de 1922 e com a apropria\u00e7\u00e3o de elementos de sua cultura por artistas n\u00e3o-ind\u00edgenas, os povos origin\u00e1rios foram important\u00edssimos para a est\u00e9tica do Modernismo. Na avalia\u00e7\u00e3o do artista ind\u00edgena Denilson Baniwa, os modernistas eram pessoas da elite brasileira que viajavam para Paris e visitavam as fazendas dos seus pais no Brasil, e que num certo momento, para atender a uma demanda externa, se viram em busca de uma identidade, \u201cde um sentido nacionalista ou brasileirista\u201d. \u201cMas isso nasceu na Europa e fez com que os modernistas tivessem uma emerg\u00eancia de se dizerem brasileiros\u201d. Nestas circunst\u00e2ncias, diz o artista, \u201celes esqueceram de fazer isso com cuidado e s\u00f3 conseguiram pegar uma parcela da cultura ind\u00edgena, de uma maneira que o ind\u00edgena fica caricato\u201d.<\/p>\n<p>Apesar de a presen\u00e7a de temas e figuras ind\u00edgenas em 1922 ter sido escassa, sobretudo se comparada ao que seria visto depois, na segunda metade da d\u00e9cada de 20, quando essas refer\u00eancias se tornariam centrais, \u201cno geral, os artistas fizeram, naquele momento, o que era poss\u00edvel fazer\u201d, afirma Eduardo Sterzi, professor de Teoria Liter\u00e1ria no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/\">Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)<\/a><\/span> e coordenador do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Teoria e Hist\u00f3ria Liter\u00e1ria da mesma universidade. A leitura que o pesquisador faz \u00e9 que os artistas \u201ccombinaram uma vis\u00e3o que passava inevitavelmente por certo <em>exotismo,<\/em> um certo olhar marcadamente <em>de fora<\/em> (afinal n\u00e3o eram eles mesmos ind\u00edgenas), com uma compreens\u00e3o por vezes especialmente aguda do pensamento ind\u00edgena. Isto se v\u00ea exemplarmente em \u2018<em>Macuna\u00edma\u2019<\/em>, onde a imagina\u00e7\u00e3o m\u00edtica transtorna e transforma a pr\u00f3pria forma do romance, e na Antropofagia oswaldiana, cujo ponto de partida \u00e9 um entendimento \u00edmpar do que estava em quest\u00e3o na antropofagia ritual tupinamb\u00e1 \u2014 e, nisto, Oswald \u00e9 um disc\u00edpulo direto de (Michel de) Montaigne, com seu ensaio genial sobre os \u2018canibais\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Sem as refer\u00eancias ind\u00edgenas, portanto, Sterzi acredita que, \u201cem seu conjunto desdobrado no tempo, para al\u00e9m da Semana, o Modernismo brasileiro teria sido muito diferente disto que conhecemos hoje, e certamente muito menos interessante do que \u00e9\u201d.<\/p>\n<h3 id=\"fonte-de-inspiracao\"><strong>Fonte de inspira\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>Os povos amer\u00edndios aparecem no Modernismo por volta de 1927\/28, quando h\u00e1 uma inflex\u00e3o no movimento modernista paulista.<\/p>\n<p>Entre as refer\u00eancias ind\u00edgenas que inspiraram os modernistas, o professor Alexandre Nodari cita os pr\u00f3prios relatos coloniais, especialmente sobre povos tupis, e o Dicion\u00e1rio Tupi-Guarani do jesu\u00edta Antonio Ruiz de Montoya, al\u00e9m das obras de proto-etn\u00f3grafos e compiladores\/tradutores de mitos, entre os quais Nodari destaca \u201c<em>O selvagem\u201d<\/em>, de Jos\u00e9 Vieira Couto de Magalh\u00e3es, e o livro de Capistrano de Abreu sobre os Kaxinaw\u00e1 (hoje auto-denominados Huni-Ku\u0129) cujo t\u00edtulo \u00e9 &#8220;R\u00e3-txa hu-n\u00ed ku-i, a L\u00edngua dos Caxinau\u00e1s do Rio Ibua\u00e7u, Afluente do Muru\u201d, por J. Capistrano de Abreu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-momento-alto-do-modernismo-paulista-e-totalmente-impensavel-sem-as-referencias-indigenas\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\">\u201cO momento alto do Modernismo paulista \u00e9 totalmente impens\u00e1vel sem as refer\u00eancias ind\u00edgenas.\u201d<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda, segundo Nodari, \u201c<em>A Lenda de Jurupari\u201d, <\/em>da regi\u00e3o do Rio Negro, escrita em nheengatu pelo ind\u00edgena Maximiano Jos\u00e9 Roberto e traduzida ao italiano por Ermano Stradelli (os \u201coriginais\u201d teriam se perdido); a \u201c<em>Poranduba amazonense\u201d<\/em>, de Barbosa Rodrigues; e <em>\u201cLendas em nheengatu e em portugu\u00eas\u201d<\/em>, de Brand\u00e3o de Amorim. \u201cObra que L\u00facia S\u00e1 Rebello diz que devemos considerar n\u00e3o uma <em>fonte <\/em>modernista, mas uma <em>obra <\/em>ela mesmo modernista\u201d, diz o professor.<\/p>\n<p>Nodari finaliza suas cita\u00e7\u00f5es de refer\u00eancias ind\u00edgenas com obras os mitos taurepang e arekuna sobre Makunaim\u00ee, transcritos pelo antrop\u00f3logo alem\u00e3o Theodor Koch-Gr\u00fcnberg a partir dos relatos de Mayulua\u00edpu e Akuli, que serviram de inspira\u00e7\u00e3o para M\u00e1rio de Andrade em sua obra \u201cMacuna\u00edma\u201d, lan\u00e7ada em 1928.<\/p>\n<p>\u201cO que M\u00e1rio de Andrade fez foi pegar este mito e transformar na imagem do que seria o brasileiro. Ele pegou v\u00e1rias partes do mito. Mas foi uma inspira\u00e7\u00e3o bem errada, porque M\u00e1rio de Andrade n\u00e3o tinha conhecimento dos Macuxi\u201d, declara Baniwa. Ele conta que o mito Makunaim\u00ee \u00e9 origin\u00e1rio do povo Macuxi, de Roraima, etnia \u00e0 qual pertencia o artista Jaider Esbell, que se declarava neto da entidade.<\/p>\n<p>\u201cMakunaim\u00ee \u00e9 como um deus, uma entidade, que existiu no come\u00e7o do mundo, na cria\u00e7\u00e3o dos Macuxi. Ele n\u00e3o \u00e9 bom nem ruim. N\u00e3o \u00e9 uma pessoa cheia de v\u00edcios e malandragem, como no livro. Mas eu n\u00e3o tenho raiva de M\u00e1rio de Andrade, nem penso que ele \u00e9 ladr\u00e3o. Tanto que eu estou servindo ele na minha obra (\u201cReAntropofagia\u201d, 2019), porque acho interessante. Ningu\u00e9m vai comer o que n\u00e3o gosta. Al\u00e9m disso, se n\u00e3o fosse M\u00e1rio de Andrade, n\u00e3o existiria o <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"http:\/\/portal.iphan.gov.br\/\">Iphan (Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional)<\/a><\/span>, t\u00e3o importante para a cultura ind\u00edgena\u201d, diz Baniwa.<\/p>\n<h3 id=\"resposta-indigena\"><strong>Resposta ind\u00edgena<\/strong><\/h3>\n<p>Para o artista, o que houve \u201cfoi um atropelamento do tempo das coisas que acabou por desconfigurar estas criaturas transformando mais em um s\u00edmbolo do movimento, sem que houvesse respeito ao mito. Mas foi importante tudo acontecer para que hoje os artistas ind\u00edgenas pudessem reivindicar estes lugares. Tudo segue um ciclo. O que est\u00e1 acontecendo hoje \u00e9 uma ReAntropofagia, que \u00e9 o nome da minha obra. \u00c9 um retorno a este lugar, para revermos o que foi perdido em 1922\u201d, conclui Denilson Baniwa.<\/p>\n<p>Baniwa pintou em 2019 o quadro \u201cReAntropofagia\u201d (2019, t\u00e9cnica mista com base acr\u00edlica, 100 cm X 120 cm), que hoje est\u00e1 em comodato na <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"http:\/\/pinacoteca.org.br\/\">Pinacoteca de S\u00e3o Paulo<\/a><\/span>, onde permanecer\u00e1 at\u00e9 2023. A tela retrata a cabe\u00e7a de M\u00e1rio de Andrade cortada dentro de um cesto. \u201cO trabalho em si \u00e9 uma cr\u00edtica ao Modernismo, mas muito mais que uma cr\u00edtica ele \u00e9 uma oferenda, para que os artistas ind\u00edgenas possam devorar, possam se servir. \u00c9 como se eu juntasse o repert\u00f3rio modernista e entregasse aos ind\u00edgenas para que comam e desenvolvam sua arte. \u00c9 sobre antropofagia ap\u00f3s tantos anos de coloniza\u00e7\u00e3o e sequestro da arte e cultura ind\u00edgenas\u201d, explica Baniwa.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-2242\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/CC-2-edicao-reportagem-Referencias-indigenas-figura1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"422\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/CC-2-edicao-reportagem-Referencias-indigenas-figura1.jpg 723w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/CC-2-edicao-reportagem-Referencias-indigenas-figura1-300x253.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/CC-2-edicao-reportagem-Referencias-indigenas-figura1-14x12.jpg 14w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-1-referencias-indigenas-estao-presentes-nas-obras-dos-modernistas-e-introduzem-os-artistas-nos-debates-politicos-da-epoca-e-na-busca-de-uma-identidade-nacionalmakunaima\"><strong>Figura 1. Refer\u00eancias ind\u00edgenas est\u00e3o presentes nas obras dos modernistas e introduzem os artistas nos debates pol\u00edticos da \u00e9poca e na busca de uma identidade nacional<br \/>\n<\/strong>(\u201cMakunaima\u201d,\u00a0de Jaider Esbell. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Alexandre Nodari v\u00ea na obra de Baniwa, \u201cReAntropoagia\u201d, um car\u00e1ter pol\u00eamico e agon\u00edstico, \u201cno bom sentido\u201d. \u201cEle participa junto a manifesta\u00e7\u00f5es de outros artistas ind\u00edgenas contempor\u00e2neos, como Gustavo Caboco e Jaider Esbell, que recentemente nos deixou, de um gesto eminentemente cr\u00edtico que consiste, creio, n\u00e3o em colocar <em>Macuna\u00edma <\/em>e a Antropofagia <em>em quest\u00e3o, <\/em>afinal, Denilson prop\u00f5e a re-antropofagia, mas de recoloc\u00e1-los como <em>quest\u00e3o,<\/em> o que a monumentaliza\u00e7\u00e3o do Modernismo na historiografia e nas escolas impedia de fazer\u201d, diz o professor. \u201cA pot\u00eancia disso est\u00e1 em que se trata de uma resposta <em>ind\u00edgena<\/em> a essa monumentaliza\u00e7\u00e3o, o que muda os termos da quest\u00e3o\u201d, conclui.<\/p>\n<h3 id=\"chances-para-a-eternidade\"><strong>Chances para a eternidade<\/strong><\/h3>\n<p>Sterzi lembra que Esbell narra uma conversa dele com Makunaim\u00ee sobre o livro de M\u00e1rio de Andrade, em que seu av\u00f4 teria lhe dito: \u201cMeu filho eu me grudei na capa daquele livro. Dizem que fui raptado, que fui lesado, roubado, injusti\u00e7ado, que fui tra\u00eddo, enganado. Dizem que fui besta. N\u00e3o! Fui eu mesmo que quis ir na capa daquele livro. Fui eu que quis acompanhar aqueles homens. Fui eu que quis ir fazer a nossa hist\u00f3ria. Vi ali todas as chances para a nossa eternidade. Vi ali toda a chance poss\u00edvel para que um dia voc\u00eas pudessem estar aqui junto com todos. Agora voc\u00eas est\u00e3o juntos com todos eles e somos de fato uma car\u00eancia de unidade. Vi voc\u00eas no futuro. Vi e me lancei. Me lancei dormente, do transe da for\u00e7a da decis\u00e3o, da cegueira de lucidez, do cora\u00e7\u00e3o explodido da grande paix\u00e3o. Estive na margem de todas as margens, cheguei onde nunca antes nenhum de n\u00f3s esteve. N\u00e3o estive l\u00e1 por acaso. Fui posto l\u00e1 para nos trazer at\u00e9 aqui\u201d.<\/p>\n<p>Com isso, o professor Eduardo Sterzi conclui que Jaider Esbell compreendia que \u201cfigura\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas como aquela do \u2018<em>Macuna\u00edma\u2019<\/em>, por mais que comportassem \u2018apropria\u00e7\u00f5es\u2019, prepararam o terreno para que os pr\u00f3prios ind\u00edgenas aparecessem, agora, como agentes decisivos do panorama cultural contempor\u00e2neo\u201d, conclus\u00e3o esta que se alinha ao que Denilson Baniwa declara sobre o ciclo das coisas e a reantropofagia. O professor Sterzi continua: \u201cE isso n\u00e3o s\u00f3 no Brasil. Basta ver a presen\u00e7a das obras do pr\u00f3prio Jaider Esbell na Bienal de Veneza atualmente em cartaz.\u201d Para o professor, \u201c\u2019<em>Macuna\u00edma\u2019 \u00e9<\/em> uma das mais potentes figura\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, isto \u00e9, ficcionais, da singularidade do pensamento ind\u00edgena\u201d.<\/p>\n<p>Para Alexandre Nodari, quando Jaider Esbell afirma que Makunaim\u00ee decidiu colocar seu nome na capa da obra de M\u00e1rio de Andrade, \u201cisso ressitua todo o debate sobre a autoria e a presen\u00e7a ind\u00edgenas na obra, bem como o que <em>\u00e9 <\/em>uma obra, o que <em>\u00e9 <\/em>a literatura, quais as ag\u00eancias em jogo nela, quem fala e o que fala quando lemos, etc.\u201d. Ele acredita que o que se coloca \u201cpara n\u00f3s n\u00e3o-ind\u00edgenas\u201d \u00e9 o que fazer diante dessa \u201cresposta <em>ind\u00edgena<\/em> que ressitua a quest\u00e3o em outros termos\u201d. O professor acredita que \u201cn\u00e3o se trata de tentar resolv\u00ea-la num passe de m\u00e1gica, rejeitando em bloco M\u00e1rio e Oswald de Andrade, num gesto n\u00e3o ausente de auto-penit\u00eancia crist\u00e3, misto de culpa e mecanismo compensat\u00f3rio. Acredito que devamos, como diria Donna Haraway, <em>ficar com o problema, ficar com a quest\u00e3o<\/em>, que, depois da resposta ind\u00edgena, j\u00e1 virou outra, e tentar entender os termos e as consequ\u00eancias dessa altera\u00e7\u00e3o de perspectiva, o que ela diz sobre n\u00f3s, nossa arte e nossas rela\u00e7\u00f5es ainda eivadas de colonialidade\u201d.<\/p>\n<p>Sterzi tamb\u00e9m identifica na obra de M\u00e1rio e Oswald \u201cum salto gigante para al\u00e9m da maioria das obras anteriores com tem\u00e1tica ind\u00edgena\u201d, visto que levaram a s\u00e9rio a singularidade do pensamento amer\u00edndio, \u201cque se tratava de uma, digamos sem medo da palavra, filosofia\u201d. Segundo o professor, este salto fica evidente sobretudo se suas obras s\u00e3o comparadas \u00e0s obras rom\u00e2nticas, \u201cque transformavam muitas vezes os primeiros habitantes desta terra em avatares de her\u00f3is europeus\u201d.<\/p>\n<p>Sterzi cita como uma exce\u00e7\u00e3o anterior ao Modernismo o poema \u00e9pico \u201c<em>O Guesa\u201d<\/em>, de Joaquim de Sous\u00e2ndrade, \u201ccom sua figura\u00e7\u00e3o protoantropof\u00e1gica de um her\u00f3i ind\u00edgena dos Andes que perambula pelas Am\u00e9ricas, chegando at\u00e9 Nova York, isto \u00e9, at\u00e9 o centro do capitalismo financeiro em consolida\u00e7\u00e3o\u201d. Al\u00e9m disso, o pesquisador considera o poema \u201c<em>O trovador<\/em>\u201d, de M\u00e1rio de Andrade, que se encerra com o verso \u201cSou um tupi tangendo um ala\u00fade\u201d, a refer\u00eancia mais consistente \u00e0 tem\u00e1tica ind\u00edgena, na literatura, na \u00e9poca da Semana de Arte Moderna. Ainda em 1922 ele foi publicado em seu livro \u201c<em>Pauliceia desvairada\u201d<\/em>. O professor lembra que, apenas alguns anos depois, em 1928, o autor publicou \u201c<em>Macuna\u00edma\u201d<\/em>. Tamb\u00e9m em 1928, foi publicado \u201cAntropofagia\u201d, de Oswald de Andrade (<em>Manifesto antrop\u00f3fago<\/em>, 1928), mesmo ano em que Tarsila do Amaral apresentou \u201c<em>Abaporu\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Todos estes temas e figuras ind\u00edgenas tornaram-se fundamentais para a defini\u00e7\u00e3o do Modernismo brasileiro, afirma Sterzi, que menciona ainda a obra de Raul Bopp, \u201c<em>Cobra Norato\u201d<\/em>, de 1931. \u201cParalelamente, Vicente do Rego Monteiro publicou na Fran\u00e7a, em 1925, o \u00e1lbum \u2018<em>Quelques visages de Paris\u2019<\/em>, uma fic\u00e7\u00e3o em que tanto os desenhos de lugares caracter\u00edsticos da capital francesa quanto os poemas que os comentam s\u00e3o atribu\u00eddos a um chefe ind\u00edgena deslocado da Amaz\u00f4nia para l\u00e1\u201d, diz.<\/p>\n<p>As refer\u00eancias ind\u00edgenas tamb\u00e9m ser\u00e3o decisivas na obra musical de Villa-Lobos. \u201cMas temos de tomar cuidado na data\u00e7\u00e3o dessa presen\u00e7a, porque o compositor frequentemente alterava <em>a posteriori<\/em> as datas de suas obras, de modo a se conferir uma certa presci\u00eancia (por exemplo, quanto \u00e0 import\u00e2ncia dos motivos ind\u00edgenas) que, no entanto, \u00e9 mais prov\u00e1vel que venha do contato com os demais artistas que trabalharam antes com tais temas\u201d, afirma Sterzi.<\/p>\n<h3 id=\"debate-politico\"><strong>Debate pol\u00edtico<\/strong><\/h3>\n<p>S\u00e3o refer\u00eancias ind\u00edgenas que introduzem os modernistas no debate da elite pol\u00edtica e intelectual paulista da virada do s\u00e9culo, afirma Alexandre Nodari. Na ocasi\u00e3o, a quest\u00e3o era sobre os Guaian\u00e1s, ind\u00edgenas que habitavam a regi\u00e3o da capital na \u00e9poca da Conquista e que seriam os antepassados \u201cem\u00e9ritos\u201d, por assim dizer, dessa elite, pontua o professor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"as-sociedades-amerindias-nao-sao-como-no-romantismo-situadas-no-passado-na-origem-ja-ultrapassada-da-nacao-mas-tratadas-no-presente-como-vivas-e-alem-disso-como-exemplos-de-futuro\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\">\u201cAs sociedades amer\u00edndias n\u00e3o s\u00e3o, como no romantismo, situadas no passado, na origem j\u00e1 ultrapassada da Na\u00e7\u00e3o, mas tratadas no presente, como vivas e, al\u00e9m disso, como exemplos de futuro.\u201d<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ele explica que a pol\u00eamica girava em torno de saber se os Guaian\u00e1s eram povos tupis ou tapuias (n\u00e3o tupi), \u201co que tinha grandes implica\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas e pol\u00edticas, j\u00e1 que essa divis\u00e3o (muito mais simb\u00f3lica que real), constru\u00edda nos tempos coloniais e fortalecida durante o indianismo rom\u00e2ntico do Imp\u00e9rio, visava separar \u2018bons\u2019 selvagens (tupi) e \u2018maus\u2019 selvagens (tapuia), e o debate evidenciava que os Kaingang, que se opunham e resistiam \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da estrada de ferro Noroeste, eram descendentes dos Guaian\u00e1s (ou os pr\u00f3prios), o que dificultava justificar a sua elimina\u00e7\u00e3o, como defendido explicitamente por Ihering\u201d.<\/p>\n<p>Mas o Modernismo paulista se torna, de fato, uma quest\u00e3o pol\u00edtica, quando, em 1929, aparece, \u201cem contraponto \u00e0 Antropofagia\u201d, diz Nodari, o \u201c<em>Manifesto nheenga\u00e7u verde-amarelo\u201d<\/em>, do grupo modernista \u00e0 direita que daria depois no Integralismo. \u201cO manifesto reproduz a separa\u00e7\u00e3o tupi-tapuia, e busca situar os \u00edndios tupis no passado, como tendo se \u2018assimilado\u2019 voluntariamente. Agora, tudo isso n\u00e3o se d\u00e1, sem sombra de d\u00favida, sem conflito e de maneira homog\u00eanea\u201d, diz o professor.<\/p>\n<h3 id=\"modernismo-amazonico\"><strong>Modernismo amaz\u00f4nico<\/strong><\/h3>\n<p>Entre as obras citadas por Alexandre Nodari que mostram como os artistas modernistas se mobilizaram sobre a quest\u00e3o pol\u00edtica dos tupi e tapuia, ele destaca o contato e o di\u00e1logo que Raul Bopp travou com \u00edndios, ribeirinhos, e intelectuais da Amaz\u00f4nia durante sua estada na regi\u00e3o. \u201cSe abrirmos o escopo para al\u00e9m do modernismo paulista, e formos analisar a presen\u00e7a, fontes e refer\u00eancias ind\u00edgenas no modernismo amaz\u00f4nico, como tem feito Aldrin Figueiredo e Heraldo Galv\u00e3o Jr. sobre o Par\u00e1, por exemplo, ter\u00edamos um quadro totalmente diferente deste cen\u00e1rio paulista\u201d, explica o professor. A primeira diferen\u00e7a est\u00e1 na mobiliza\u00e7\u00e3o e positiva\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es, mitos e concep\u00e7\u00f5es de uma multiplicidade de povos ind\u00edgenas. \u201cIsso quebra o \u2018tupicentrismo\u2019 que dominou o indianismo rom\u00e2ntico, devido ao bin\u00f4mio tupi-tapuia mencionado\u201d, conclui.<\/p>\n<p>Alexandre Nodari menciona, ainda, uma s\u00e9rie de manifesta\u00e7\u00f5es sobre quest\u00f5es ind\u00edgenas contempor\u00e2neas (o protesto contra a catequiza\u00e7\u00e3o de povos amer\u00edndios, a defesa do n\u00e3o-contato com povos que se isolaram, etc.) na <em>Revista de Antropofagia.<\/em> \u201cAs sociedades amer\u00edndias n\u00e3o s\u00e3o, como no romantismo, situadas no passado, na origem j\u00e1 ultrapassada da Na\u00e7\u00e3o, mas tratadas no presente, como vivas e, al\u00e9m disso, como exemplos (mas n\u00e3o modelos) de futuro, ou \u2018roteiros\u2019, como diz o \u2018<em>Manifesto Antrop\u00f3fago\u2019<\/em>, que, ademais, colocam em quest\u00e3o a possibilidade de uma identidade \u00fanica e fechada do pa\u00eds\u201d, finaliza o professor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-povos-originarios-serviram-de-inspiracao-para-os-modernistas-mas-ficaram-a-margem-do-modernismoreantropofagia-de-denilson-baniwa-reproducao\"><strong>Capa. Povos origin\u00e1rios serviram de inspira\u00e7\u00e3o para os modernistas, mas ficaram \u201c\u00e0 margem\u201d do modernismo<br \/>\n<\/strong>(\u201cReAntropofagia\u201d, de Denilson Baniwa. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<hr \/>\n<h5 id=\"leia-mais\"><strong>Leia mais<\/strong><\/h5>\n<ol>\n<li><span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/rdp\/a\/nRTJWzK4pkWq8CMwG7Lqz7G\/?format=pdf&amp;lang=pt#:~:text=A%20quest%C3%A3o%20ind%C3%ADgena%20do%20Manifesto,S%C3%B3%20o%20selvagem%20nos%20salvar%C3%A1.\">A quest\u00e3o (ind\u00edgena) do Manifesto Antrop\u00f3fago<\/a><\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/portaldeperiodicos.animaeducacao.com.br\/index.php\/Critica_Cultural\/article\/view\/9417\/pdf\">A metamorfologia de Macuna\u00edma: notas iniciais<\/a><\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/revistalanda.ufsc.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/11.-Alexandre-Nodari-A-oca-de-Clovis-Gusmao.pdf\">A oca de Cl\u00f3vis de Gusm\u00e3o: sobre a p\u00e1gina antrop\u00f3faga na revista O Q A (O que h\u00e1)<\/a><\/span><\/li>\n<\/ol>\n<hr \/>\n<h6 id=\"menezes-adriana-vilar-de-as-referencias-indigenas-no-modernismo-do-carater-antropofagico-a-reantropofagia-todo-o-repertorio-indigena-vem-de-fontes-indiretas-presenca-que-se-da-pela-ausencia\"><span style=\"color: #808080;\"><em>MENEZES, Adriana Vilar de.<span class=\"article-title\">\u00a0As refer\u00eancias ind\u00edgenas no Modernismo: do car\u00e1ter antropof\u00e1gico \u00e0 reantropofagia. Todo o repert\u00f3rio ind\u00edgena vem de fontes indiretas, presen\u00e7a que se d\u00e1 pela aus\u00eancia.<\/span>\u00a0Cienc. Cult.\u00a0[online]. 2022, vol.74, n.2 [citado\u00a0 2023-09-01], pp.1-5. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/cienciaecultura.bvs.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252022000200018&amp;lng=pt&amp;nrm=iso&gt;. ISSN 0009-6725.\u00a0 http:\/\/dx.doi.org\/10.5935\/2317-6660.20220037.<\/em><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Onde estavam os ind\u00edgenas na Semana de Arte Moderna de 1922? 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