{"id":2289,"date":"2022-05-30T10:00:00","date_gmt":"2022-05-30T10:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=2289"},"modified":"2023-09-01T10:51:43","modified_gmt":"2023-09-01T10:51:43","slug":"a-semana-o-modernismo-linha-do-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=2289","title":{"rendered":"A semana, o modernismo &#8211;  linha do tempo"},"content":{"rendered":"<p>No ano do centen\u00e1rio da Semana de Arte Moderna, seu produto direto, o Modernismo, tem sido questionado das mais variadas formas e pelos mais variados motivos. \u00c9 certo que a multiplicidade de farpas e flechas contra o Modernismo \u00e9 determinada pela pr\u00f3pria diversidade de campos cobertos pelo movimento, originado nas letras e artes, mas desdobrado por todas as \u00e1reas da cultura nas d\u00e9cadas que se seguiram \u00e0 da Semana, como se discute nos artigos e reportagens da <strong>segunda edi\u00e7\u00e3o da revista Ci\u00eancia &amp; Cultura:<\/strong> &#8220;<strong>A semana de Arte Moderna e o S\u00e9culo Modernista \u2013 Extens\u00f5es&#8221;<\/strong>.<\/p>\n<p>Assim, no plano hist\u00f3rico geral, para efeitos de sistematiza\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, defina-se Modernismo como a narrativa mestra delineadora da identidade intelectual e art\u00edstica brasileira ao longo da maior parte do s\u00e9culo passado, ou seja, o per\u00edodo compreendido entre o ano da Semana e algum momento na d\u00e9cada de 1980. Elementos essenciais dessa narrativa sendo o car\u00e1ter multirracial da sociedade brasileira, a incorpora\u00e7\u00e3o da cultura popular pela cultura pedag\u00f3gica, o reconhecimento da especificidade colonial na compreens\u00e3o de nossa hist\u00f3ria, a valoriza\u00e7\u00e3o de uma cultura de \u201cexporta\u00e7\u00e3o\u201d e n\u00e3o \u201cde imita\u00e7\u00e3o\u201d, a consolida\u00e7\u00e3o de um coloquial brasileiro culto como linguagem de uso escrito e falado. Busca de uma brasilidade moderna, atualizada com as conquistas art\u00edsticas, filos\u00f3ficas e tecnol\u00f3gicas do mundo.<\/p>\n<p>Narrativa mestra, narrativa can\u00f4nica. Da poesia \u00e0 m\u00fasica, desta \u00e0s artes pl\u00e1sticas, \u00e0 arquitetura, dramaturgia, ci\u00eancias sociais, prosa de fic\u00e7\u00e3o, o Modernismo <strong>\u00e9 <\/strong>o s\u00e9culo 20 em mat\u00e9ria de cultura brasileira. Suas ramifica\u00e7\u00f5es \u2014 inclusive contradi\u00e7\u00f5es internas \u2014 comp\u00f5em em extens\u00e3o tal o tecido de valores, verdades e mitos estimuladores da imagina\u00e7\u00e3o criadora brasileira que ao indagarmos ou questionarmos o Modernismo hoje, estamos tamb\u00e9m indagando sobre o que afinal nos legou o s\u00e9culo passado, enquanto perspectiva civilizacional de futuro. O futuro que \u00e9 hoje. O futuro chegou. Fazer o balan\u00e7o do Modernismo \u00e9 avaliar o que restou dos projetos e sonhos de identidade nacional entre uma ponta e outra da linha do tempo.<\/p>\n<p>Talvez a maior diferen\u00e7a entre o ano da Semana e este do centen\u00e1rio resida justamente na percep\u00e7\u00e3o de futuro. Tanto a Semana quanto o Modernismo definiam cultura com perspectiva de futuro. Tinha-se como certo, no Brasil e no mundo, de que haveria um futuro, constru\u00eddo por mil gestos e a\u00e7\u00f5es de moderniza\u00e7\u00e3o. A cada fen\u00f4meno de moderniza\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, social, econ\u00f4mica, corresponderia uma modalidade ou extens\u00e3o do modernismo cultural e n\u00e3o havia outra hip\u00f3tese no horizonte sen\u00e3o a do progresso humano.<\/p>\n<p>Cem anos depois da Semana, no Brasil e no mundo, em contraste com aquela situa\u00e7\u00e3o quase id\u00edlica de um p\u00f3s-guerra que depois vimos ser apenas o primeiro, a palavra que mais imediatamente se pode associar hoje a futuro \u00e9&#8230; <strong>incerteza<\/strong>. A incerteza p\u00f3s-nuclear, p\u00f3s-cat\u00e1strofe. A incerteza faz do novo futuro um campo aberto de possibilidades desconhecidas e atemorizantes em alguns cen\u00e1rios. E cada vez mais o horizonte de incertezas se decide no terreno pol\u00edtico. Diante disso, como valor, como conceito, como narrativa can\u00f4nica indicadora de um padr\u00e3o civilizat\u00f3rio, o conceito do Modernismo n\u00e3o sai ileso. Por consequ\u00eancia, desloca-se tamb\u00e9m o lugar pedag\u00f3gico da mem\u00f3ria da Semana, lugar em que, desde sempre, conviveram o trabalho do mito e o trabalho da Hist\u00f3ria, com tudo que o primeiro tem de inspirador e o segundo de desconstrutor. Hoje, critica-se o conte\u00fado de classe da Semana. Embora seja simplificador reduzir o valor da Semana por ter sido supostamente um evento restrito de elite, a demanda cultural hoje \u00e9 substantivamente democr\u00e1tica, o que acaba por apontar para os limites do Modernismo em sua historicidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>Por ter perdurado tanto tempo como matriz referencial da vida cultural brasileira, o termo Modernismo acumulou uma carga sem\u00e2ntica heter\u00f3clita, de modo que nos debates contempor\u00e2neos \u00e0s vezes \u00e9 dif\u00edcil discernir a qual camada de significa\u00e7\u00e3o se est\u00e1 reportando. A come\u00e7ar pela tens\u00e3o interna entre, de um lado, o significado est\u00e9tico vanguardista, que animou a Semana e as experi\u00eancias liter\u00e1rias e art\u00edsticas nos anos 1920, e de outro lado, o significado can\u00f4nico a partir dos anos 1930, consolidado nos anos 1940\/50 como pol\u00edtica cultural de Estado, atravessando ditadura varguista, Rep\u00fablica de 46 e estendendo-se at\u00e9 a ditadura militar. Numa palavra: o Modernismo torna-se a cultura oficial da moderniza\u00e7\u00e3o do Estado brasileiro. Torna-se sin\u00f4nimo de <strong>moderno brasileiro <\/strong>em geral. Um moderno oficial que se traduz, por exemplo, nos projetos urbanos da Pampulha, de Bras\u00edlia, mas tamb\u00e9m na recupera\u00e7\u00e3o do Barroco colonial e a ideia concomitante da preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio hist\u00f3rico, sobre a qual paira a figura fundadora de M\u00e1rio de Andrade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"cem-anos-depois-da-semana-no-brasil-e-no-mundo-em-contraste-com-aquela-situacao-quase-idilica-de-um-pos-guerra-que-depois-vimos-ser-apenas-o-primeiro-a-palavra-que-mais-imediatamente-se-po\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\">\u201cCem anos depois da Semana, no Brasil e no mundo, em contraste com aquela situa\u00e7\u00e3o quase id\u00edlica de um p\u00f3s-guerra que depois vimos ser apenas o primeiro, a palavra que mais imediatamente se pode associar hoje a futuro \u00e9&#8230; incerteza.\u201d<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Do ponto de vista da literatura, a \u201coficializa\u00e7\u00e3o\u201d do Modernismo se d\u00e1 pelo triunfo do realismo cl\u00e1ssico (em alguns momentos tingido de doutrina cat\u00f3lica ou socialista) sobre os experimentalismos e ousadias formais das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20. Os anos 1950 assistem \u00e0 volta dos poetas \u00e0s formas cl\u00e1ssicas, como o soneto, assinalando a disjun\u00e7\u00e3o entre o termo \u201cmodernismo\u201d e a camada de significa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, que, claro, n\u00e3o deixa de existir como possibilidade. A valoriza\u00e7\u00e3o do realismo regionalista e\/ou nacionalista, assim como o pendor tradicionalista e classicizante (cabe lembrar os belos poemas sobre Ouro Preto e a Inconfid\u00eancia Mineira escritos por tantos poetas nos anos 1950) adequam-se perfeitamente \u00e0 fun\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica paradigm\u00e1tica exercida pelo Modernismo em sentido amplo, que define a identidade nacional em todos os campos. Nesse edif\u00edcio pedag\u00f3gico, a literatura exerce papel simb\u00f3lico fundamental, pois cabe-lhe fornecer as narrativas humanizadoras que tecem afinidades de sentido na diversidade fragment\u00e1ria dos saberes e pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>Uma nova camada sem\u00e2ntica agrega-se ao termo Modernismo nos anos 1960, em guinada t\u00e3o marcante quanto fora a virada os anos 1930, contudo agora em sentido sim\u00e9trico inverso. O vanguardismo no cinema, no teatro, o esp\u00edrito rebelde da contracultura jovem e finalmente o Tropicalismo operam uma volta e resgatam aquele Modernismo primeiro, o movimento iconocl\u00e1stico dos tempos da Semana. Se o Modernismo at\u00e9 ent\u00e3o consagrado tivera em M\u00e1rio de Andrade e Carlos Drummond de Andrade suas figuras mais emblem\u00e1ticas, as vanguardas culturais e o Tropicalismo dos anos 1960 recuperam a vida e a obra de Oswald de Andrade, com destaque para as met\u00e1foras e propostas de seu \u201cManifesto Antrop\u00f3fago\u201d (1928).<\/p>\n<p>A Antropofagia oswaldiana ca\u00eda como uma luva para explicar o novo programa est\u00e9tico praticado e vivido. Ela orientava as fus\u00f5es e hibridismos (na verdade, apropria\u00e7\u00f5es) entre cultura brasileira erudita e popular e cultura pop internacional. O atrito com os dados da ind\u00fastria cultural internacionalizada reviviam os dilemas do debate entre cultura de importa\u00e7\u00e3o e cultura de exporta\u00e7\u00e3o e viam-se esclarecidos pelos princ\u00edpios expostos nos \u201cManifestos Pau-Brasil\u201d (1924) e \u201cAntrop\u00f3fago\u201d (1928), assim como nas especula\u00e7\u00f5es libert\u00e1rias da chamada fase ut\u00f3pica de Oswald. O modernismo da Semana era ressignificado em trabalhos como o Teatro Oficina ou as leituras cinematogr\u00e1ficas de cl\u00e1ssicos liter\u00e1rios, a come\u00e7ar pelo hist\u00f3rico filme \u201cMacuna\u00edma\u201d, de Joaquim Pedro de Andrade. O que se resgatava era o car\u00e1ter descolonizador do paradigma cultural modernista, dando um vi\u00e9s pol\u00edtico ao tema da identidade nacional.<\/p>\n<p>Esse novo modo de ser e interpretar o legado modernista tornar-se-\u00e1 predominante na cena art\u00edstica brasileira. No palco, no filme, nas artes, na dan\u00e7a, na est\u00e9tica geral da vida, a cultura modernista, temperada pela subvers\u00e3o oswaldiana, ser\u00e1 doravante a refer\u00eancia onipresente, mais ou menos explicitada em cada manifesta\u00e7\u00e3o. Evidencia-se assim, na arqueologia do conceito, a conviv\u00eancia de dois modernismos. De um lado, ideologia hegem\u00f4nica nas defini\u00e7\u00f5es de identidade nacional, atravessando regimes pol\u00edticos antag\u00f4nicos. De outro, inspira\u00e7\u00e3o permanente de vanguardismo e subvers\u00e3o na esfera das artes.<\/p>\n<p>M\u00e1rio de um lado, Oswald de outro. Diga-se de passagem que nesse momento dos anos 1960\/70, a presen\u00e7a ausente de M\u00e1rio se d\u00e1 mais pelas digitais nas pol\u00edticas p\u00fablicas e pela mem\u00f3ria afetiva de quem com ele convivera. Na cultura oposicionista dos anos 1960\/70, n\u00e3o houve muito espa\u00e7o para o culto \u00e0 personalidade de M\u00e1rio, assim como nos anos 1940\/50 n\u00e3o tinha havido para Oswald. Eis a\u00ed o p\u00eandulo ic\u00f4nico e mis\u00f3gino em torno do qual proliferaram narrativas de interpreta\u00e7\u00e3o do Modernismo e lutas culturais acirradas. Cada qual com seu her\u00f3i. Um jogo que foi agora desbaratado, com a nova import\u00e2ncia assumida pelo papel das mulheres no Modernismo, na esteira das cr\u00edticas e desconstru\u00e7\u00f5es que v\u00eam marcado o centen\u00e1rio.[1]\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>A linha do tempo \u00e9 sinuosa e tem pontos de parada. Antes do Centen\u00e1rio, houve o Cinquenten\u00e1rio. Se mencionamos os anos 1970 na constru\u00e7\u00e3o da sem\u00e2ntica do Modernismo, cabe lembrar que 1972 foi o ano do Cinquenten\u00e1rio, em celebra\u00e7\u00e3o casada com o Sesquicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia. Um momento plenamente manipulado pela propaganda da ditadura militar, na tentativa de legitimar-se minimamente frente ao universo da cultura e dos valores, diante dos abusos de censura e tortura, denunciados no mundo todo, omitidos no Brasil. A celebra\u00e7\u00e3o da Semana e do modernismo foi assumida com for\u00e7a pelo Governo, patrocinando exposi\u00e7\u00f5es no Brasil e no exterior e coalhando as mensagens oficiais de simbologias modernistas. Em meio a toda censura e repress\u00e3o, os c\u00e2nones da cultura brasileira s\u00e3o reafirmados pela pol\u00edtica cultural do regime. Poucos anos depois, j\u00e1 nos tempos da \u201cabertura\u201d de Geisel, as institui\u00e7\u00f5es de financiamento da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o apoiar\u00e3o o imenso n\u00famero de projetos de estudos e pesquisas sobre o Modernismo, seus protagonistas, seus autores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"do-ponto-de-vista-conceitual-tornou-se-importante-a-consciencia-de-que-o-modernismo-referido-a-semana-de-arte-moderna-e-apenas-um-numa-pluralidade-de-modernismos-ha-modernismos-no-plural\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\">\u201cDo ponto de vista conceitual, tornou-se importante a consci\u00eancia de que o Modernismo referido \u00e0 Semana de Arte Moderna \u00e9 apenas um, numa pluralidade de modernismos. H\u00e1 modernismos, no plural.\u201d<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A marca deixada pela visibilidade trazida pelo Cinquenten\u00e1rio foi a pedagogiza\u00e7\u00e3o, a definitiva incorpora\u00e7\u00e3o da narrativa modernista como cap\u00edtulo essencial de uma forma\u00e7\u00e3o existencial e disciplinar em assuntos brasileiros. De um lado, a partir dos anos 1970, o modernismo tornou-se t\u00f3pico de estudo nos manuais escolares, compondo o curr\u00edculo do ensino fundamental e m\u00e9dio. De outro lado, assistimos \u00e0 mencionada explos\u00e3o de pesquisas e teses sobre Modernismo na Universidade. A Universidade debru\u00e7ou-se sobre o legado modernista como objeto privilegiado da historiografia cultural brasileira, nas \u00e1reas de Letras e Artes e tamb\u00e9m nas Ci\u00eancias Sociais. Nesse sentido, os anos 1980 assistir\u00e3o a um novo ciclo de institucionaliza\u00e7\u00e3o do Modernismo, a institucionaliza\u00e7\u00e3o acad\u00eamica.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>Esta se d\u00e1 em v\u00e1rios sentidos e traz consequ\u00eancias duradouras, que impactam e moldam aspectos dos debates subsequentes. De sa\u00edda, engendra uma forte reabilita\u00e7\u00e3o da figura de M\u00e1rio de Andrade como objeto de interesse, particularmente biogr\u00e1fico, tendo em vista a paulatina publica\u00e7\u00e3o de sua monumental correspond\u00eancia. Tal publica\u00e7\u00e3o \u00e9 paralela \u00e0 cria\u00e7\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, cuja motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 a guarda dos documentos do modernista. A biografia mostra que M\u00e1rio esteve presente e empenhado no projeto de constru\u00e7\u00e3o da grande universidade paulista e teve sua mem\u00f3ria cultivada na institui\u00e7\u00e3o pelos professores oriundos da gera\u00e7\u00e3o Clima dos anos 1940, como Antonio Candido.<\/p>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o das correspond\u00eancias dos grandes escritores modernistas associa-se ao surgimento de uma nova consci\u00eancia arquiv\u00edstica no Brasil, ligada ao crescimento das p\u00f3s-gradua\u00e7\u00f5es em Humanas. A pesquisa modernista s\u00f3 pode prosperar \u00e0 medida que se organizam e disponibilizam seus documentos e fontes prim\u00e1rias. Aproximando-se o final do s\u00e9culo 20, o estatuto intelectual da quest\u00e3o modernista deixa o lugar da cr\u00f4nica vivida e passa a ocupar o da Hist\u00f3ria a ser cientificamente reconstru\u00edda. O poeta Carlos Drummond de Andrade morre em 1987. \u00c0 medida que os grandes protagonistas das gera\u00e7\u00f5es modernistas v\u00e3o desaparecendo fisicamente, torna-se imperioso o processo de constitui\u00e7\u00e3o de seus acervos<\/p>\n<p>Os ba\u00fas de pap\u00e9is do Modernismo s\u00e3o inesgot\u00e1veis. Abri-los e pesquis\u00e1-los tem se mostrado essencial para tra\u00e7ar e reinterpretar nossa hist\u00f3ria intelectual. Diversas s\u00e3o as universidades que seguiram o exemplo da USP e criaram seus arquivos e acervos com documenta\u00e7\u00e3o crescente sobre nosso s\u00e9culo 20 cultural, sugerindo mir\u00edades de novas quest\u00f5es e impondo releituras, ao resgatar e jogar nova luz sobre personagens e epis\u00f3dios at\u00e9 ent\u00e3o obscurecidos. Surge um contradiscurso cr\u00edtico paralelo que leva \u00e0 relativiza\u00e7\u00e3o dos mitos dados como autoevidentes. Esse lento processo hist\u00f3rico de desconstru\u00e7\u00e3o de alguns pilares do Modernismo can\u00f4nico \u00e9 favorecido e adquire densidade com os intensos debates sobre modernidade e p\u00f3s-modernidade que marcaram as disciplinas human\u00edsticas nos anos 1980\/90.<\/p>\n<p>Do ponto de vista conceitual, tornou-se importante a consci\u00eancia de que o Modernismo referido \u00e0 Semana de Arte Moderna \u00e9 apenas um, numa pluralidade de modernismos. H\u00e1 modernismos, no plural. O Modernismo brasileiro de 22 \u00e9 uma modalidade, uma manifesta\u00e7\u00e3o espec\u00edfica do modernismo em geral, enquanto categoria de Teoria e Hist\u00f3ria da Arte e Cultura. Modernismos diversos s\u00e3o modos diferentes de querer ser moderno.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"em-contraste-com-o-clima-intelectual-de-cem-anos-atras-hoje-o-que-move-o-progresso-do-pensamento-e-da-criacao-no-brasil-e-a-necessidade-de-redefinir-a-identidade-nacional-a-partir-de-um-repu\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\">\u201cEm contraste com o clima intelectual de cem anos atr\u00e1s, hoje o que move o progresso do pensamento e da cria\u00e7\u00e3o no Brasil \u00e9 a necessidade de redefinir a identidade nacional a partir de um rep\u00fadio a suas exclus\u00f5es hist\u00f3ricas.\u201d<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O processo de relativiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do Modernismo (que n\u00e3o elimina seu lugar de refer\u00eancia, muito menos seu potencial inspirador) ocorre concomitante ao impulso de repensar a tem\u00e1tica da modernidade no Brasil de maneira mais ampla. Se em termos gerais, modernismo significa movimento de moderniza\u00e7\u00e3o cultural, os estudos hist\u00f3ricos a partir dos anos 1980\/90 v\u00e3o buscar os epis\u00f3dios de modernidade cultural anteriores ou exteriores \u00e0queles que marcaram a S\u00e3o Paulo da Semana. Critica-se o \u201cpaulistocentrismo\u201d de toda uma mitologia do Modernismo. Surge o tema do modernismo carioca. Este se desdobra na prolifera\u00e7\u00e3o de pesquisas sobre os muitos modernismos espalhados pelo Brasil.[2]\n<p>Menos importante que a disputa tipo fla-flu em torno de quem teria a preced\u00eancia na moderniza\u00e7\u00e3o cultural do Brasil, a no\u00e7\u00e3o de modernismo carioca foi relevante por ampliar, nas ci\u00eancias sociais e humanas, a vis\u00e3o sobre a quest\u00e3o da modernidade no Brasil em geral. Superou-se completamente o clich\u00ea de origem modernista de 22 de que a cultura brasileira centrada na ent\u00e3o capital federal era algo arcaico, pr\u00e9-moderno, passadista. Gra\u00e7as \u00e0 sofistica\u00e7\u00e3o do debate internacional sobre moderno\/p\u00f3s-moderno, foi poss\u00edvel ver com clareza os processos de moderniza\u00e7\u00e3o cultural que marcavam a cena na cidade do Rio de Janeiro desde a \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo 19. Um primeiro grande autor moderno no Brasil foi Machado de Assis. E o que dizer de Sous\u00e2ndrade? Muda a perspectiva. De tal modo que, neste ano do centen\u00e1rio da Semana, passam a fazer parte do c\u00e2none liter\u00e1rio modernista os autores destacados do per\u00edodo anterior \u00e0 Semana e que nada tiveram com ela. Por paradoxal que possa parecer, um dos consensos que marca este nosso centen\u00e1rio da Semana \u00e9 o reconhecimento da modernidade de autores como Lima Barreto, Jo\u00e3o do Rio, Euclides da Cunha.<\/p>\n<p>Observamos assim uma dilui\u00e7\u00e3o do sentido m\u00edtico original do Modernismo referido unicamente \u00e0 Semana. Algu\u00e9m poderia argumentar provocativamente que o ano do centen\u00e1rio da Semana \u00e9 o ano da morte dessa vis\u00e3o estreita e exclusivista do Modernismo. Por\u00e9m, como sempre ocorre com os fatos da cultura e dos valores, a morte ou decl\u00ednio de um referente pode significar sua ressurrei\u00e7\u00e3o, no sentido de uma <em>refuncionaliza\u00e7\u00e3o<\/em>. \u00c9 certo que os manuais de hist\u00f3ria do Brasil passar\u00e3o a contar a hist\u00f3ria do moderno no Brasil, de maneira diferente, descentrada, pluralizada. O modernismo carioca, os modernismos pelo Brasil, a import\u00e2ncia das protagonistas mulheres nos movimentos de renova\u00e7\u00e3o e revolu\u00e7\u00e3o cultural em nosso pa\u00eds: esses alguns dos elementos que comp\u00f5em a ideia de um modernismo refuncionalizado, disseminado por manifesta\u00e7\u00f5es culturais diversificadas. De centro tot\u00eamico do discurso, espalha-se sugestivamente por todo o tecido de narrativas.<\/p>\n<p>Est\u00e1 em quest\u00e3o no momento atual o n\u00facleo mesmo sobre o qual se sustenta o Modernismo: a pr\u00f3pria vis\u00e3o que se tem de identidade nacional. Delineado h\u00e1 cem anos como certeza e confian\u00e7a num futuro a construir, o sucesso do projeto de nacionalidade (brasilidade) encontra-se envolto pelo contexto de incerteza mencionado anteriormente. N\u00e3o h\u00e1 apenas um Brasil poss\u00edvel. Mas a incerteza \u00e9 tamb\u00e9m abertura de horizonte, como vimos. Se em 1928 o Macuna\u00edma de M\u00e1rio de Andrade era \u201cher\u00f3i sem nenhum car\u00e1ter\u201d (sem tra\u00e7o \u00fanico definidor), as hero\u00ednas e her\u00f3is de nosso tempo falam a partir de distintos poss\u00edveis lugares de nacionalidade. Mesmo a no\u00e7\u00e3o de \u201chero\u00edsmo\u201d \u00e9 dilu\u00edda e fortalecida, por ser valorizada e vivida coletivamente, nos coletivos e comunidades, identit\u00e1rios, locais, econ\u00f4micos, afetivos. De ponto de interroga\u00e7\u00e3o especulativo na obra de M\u00e1rio, o vazio civilizat\u00f3rio brasileiro passou a ser condi\u00e7\u00e3o de ser, ocupado pelos atores sociais reais.<\/p>\n<p>Em contraste com o clima intelectual de cem anos atr\u00e1s, hoje o que move o progresso do pensamento e da cria\u00e7\u00e3o no Brasil \u00e9 a necessidade de redefinir a identidade nacional a partir de um rep\u00fadio a suas exclus\u00f5es hist\u00f3ricas. A diversifica\u00e7\u00e3o das narrativas mestras pela presen\u00e7a das vozes exclu\u00eddas ao longo de nossa hist\u00f3ria \u00e9 o crit\u00e9rio pelo qual se pode aquilatar o que fica e o que sai de cena na maneira pela qual a sociedade define o \u201cser brasileiro\u201d. Nesse sentido, a multirracialidade celebrada pela narrativa modernista j\u00e1 n\u00e3o pode mais ser encarada de maneira apenas est\u00e9tica ou conceitual.<\/p>\n<p>Particularmente criticada \u00e9 a valoriza\u00e7\u00e3o da <em>mesti\u00e7agem<\/em> em contraste com a contempor\u00e2nea pol\u00edtica das identidades. Elemento crucial a refuncionaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 a entrada em cena de vozes pretas, recolocando a quest\u00e3o como quest\u00e3o de efetiva conquista de espa\u00e7o, de efetiva presen\u00e7a f\u00edsica.[3] Analogamente, j\u00e1 n\u00e3o se trata de ver, por exemplo, no ind\u00edgena a figura de um conceito abstrato de brasilidade e sim o personagem de etnia diferente com quem se convive no trabalho e na universidade. Trata-se de encarar o fato de que o Brasil \u00e9 uma plurina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas internamente, na diversidade de suas comunidades, mas tamb\u00e9m na interpenetra\u00e7\u00e3o das fronteiras continentais, com seus fen\u00f4menos de bi e multilinguismo. Por todos esses vetores, se h\u00e1 uma arte modernista\/2022, ela tem se mostrado fortemente ativista. A cena de agora responde ao apelo de cem anos atr\u00e1s com o <em>artivismo<\/em> das m\u00faltiplas vozes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-o-modernismo-referido-a-semana-de-arte-moderna-e-apenas-um-dentro-de-uma-pluralidade-de-modernismosreantropofagia-de-denilson-baniwa-reproducao\"><strong>Capa. O Modernismo referido \u00e0 Semana de Arte Moderna \u00e9 apenas um, dentro de uma pluralidade de modernismos<br \/>\n<\/strong>(\u201cReAntropofagia\u201d, de Denilson Baniwa. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<hr \/>\n<h5 id=\"referencias\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h5>\n<ol>\n<li><span style=\"color: #808080;\">Ana Paula Cavalcanti SIMIONI, <em>Mulheres modernistas \u2013 Estrat\u00e9gias de consagra\u00e7\u00e3o na arte brasileira<\/em>. S.Paulo, EdUSP, 2022.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #808080;\">Monica\u00a0Pimenta VELLOSO,\u00a0<em>Modernismo no Rio de Janeiro \u2013 turunas e quixotes<\/em>. Rj, Ed. FGV, 1996. Ver tb. Ruy Castro, <i>Metr\u00f3pole \u00e0 beira-mar\u00a0 &#8211; O Rio moderno nos\u00a0<\/i><i>anos 20<\/i>. S. Paulo, Cia Ed. das Letras, 2019.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #808080;\">Ver <em>100 Anos de Modernismo Negro<\/em>, flup.net.br\/a-flup 2022. Cf. tb. Rafael Cardoso, Modernidade em preto e branco. SP, Ed. Cia das Letras, 2022.<\/span><\/li>\n<\/ol>\n<hr \/>\n<h6 id=\"moriconi-italo-a-semana-o-modernismo-linha-do-tempo-modernismo-e-o-seculo-20-em-materia-de-cultura-brasileira-confira-editorial-da-segunda-edicao-da-revista-ciencia-cultura\"><span style=\"color: #808080;\"><em>MORICONI, Italo.<span class=\"article-title\">\u00a0A semana, o modernismo &#8211; linha do tempo. Modernismo \u00e9 o s\u00e9culo 20 em mat\u00e9ria de cultura brasileira. Confira editorial da segunda edi\u00e7\u00e3o da Revista Ci\u00eancia &amp; Cultura.<\/span>\u00a0Cienc. Cult.\u00a0[online]. 2022, vol.74, n.2 [citado\u00a0 2023-09-01], pp.1-6. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/cienciaecultura.bvs.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252022000200001&amp;lng=pt&amp;nrm=iso&gt;. ISSN 0009-6725.\u00a0 http:\/\/dx.doi.org\/10.5935\/2317-6660.20220027.<\/em><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"No ano do centen\u00e1rio da Semana de Arte Moderna, seu produto direto,&hellip;\n","protected":false},"author":41,"featured_media":2241,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[52,21],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2289"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/41"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2289"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2289\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4662,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2289\/revisions\/4662"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2241"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2289"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2289"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2289"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}