{"id":2338,"date":"2022-06-20T08:00:21","date_gmt":"2022-06-20T08:00:21","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=2338"},"modified":"2023-09-01T10:53:24","modified_gmt":"2023-09-01T10:53:24","slug":"o-modernismo-paulista-nao-e-a-totalidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=2338","title":{"rendered":"O modernismo paulista n\u00e3o \u00e9 a totalidade"},"content":{"rendered":"<p>Comecemos por uma generalidade, uma pergunta que abra as portas do assunto: como se pode contar a hist\u00f3ria, no campo da cultura? Se houver mais de uma maneira de contar, que consequ\u00eancias h\u00e1 na escolha de cada um desses caminhos?<\/p>\n<p>Naturalmente h\u00e1 muitas maneiras de contar, qualquer hist\u00f3ria, em qualquer campo. A hist\u00f3ria pol\u00edtica de um pa\u00eds, por exemplo: embora haja refer\u00eancias temporais n\u00edtidas (independ\u00eancia, mudan\u00e7a de regime, guerras, etc.), o historiador poder\u00e1 enfatizar mais a presen\u00e7a de \u201cgrandes homens\u201d, ou mais as rela\u00e7\u00f5es internacionais, ou mais os processos internos, as correntes pol\u00edticas, as lutas sociais, etc. (Certo, pode haver uma tentativa de equil\u00edbrio entre tudo isso, mas o ponto aqui \u00e9 pensar na domin\u00e2ncia, na diretriz mais forte).<\/p>\n<p>E na hist\u00f3ria da cultura, por exemplo, no campo da literatura? Da mesma forma haver\u00e1 datas de refer\u00eancia \u2014 o come\u00e7o da atua\u00e7\u00e3o da imprensa, as primeiras livrarias e editoras, as datas de lan\u00e7amento de livros decisivos \u2014 mas o relato poder\u00e1 pender para outras for\u00e7as, como os \u201cgrandes homens\u201d em atua\u00e7\u00e3o, as modas ou estilos marcantes em cada \u00e9poca, os g\u00eaneros mais praticados em cada quadra hist\u00f3rica. Sim, h\u00e1 mais de um jeito de contar a hist\u00f3ria da literatura.<\/p>\n<p>Pensemos a partir de outra disjun\u00e7\u00e3o. A hist\u00f3ria da literatura num pa\u00eds como o Brasil, que por 300 anos foi n\u00e3o um pa\u00eds e sim uma col\u00f4nia dentro de um imp\u00e9rio mundial, pode ser articulada pelo vi\u00e9s nacionalista, ou pelo vi\u00e9s internacionalista. No primeiro caso, ganhar\u00e3o destaque autores e obras que correspondam ao ideal nacionalista a cada tanto, quer dizer que abordem as cores e sotaques do pa\u00eds; no segundo, a \u00eanfase recair\u00e1 sobre os di\u00e1logos entre local e internacional, entre o que se praticava no Brasil e o que ocorria nos grandes centros europeus.<\/p>\n<p>Sem ir mais longe nesta especula\u00e7\u00e3o, vamos ao ch\u00e3o da coisa: a hist\u00f3ria da literatura brasileira tem tido, ao longo dos tempos, um acentuado vi\u00e9s nacionalista. Ali\u00e1s, qualquer hist\u00f3ria da literatura tem esse vi\u00e9s: como objeto espec\u00edfico de uma visada historiadora, a literatura adquiriu autonomia no momento em que se organizavam os pa\u00edses em na\u00e7\u00f5es modernas, na altura da Revolu\u00e7\u00e3o Americana e da Francesa, assim como no ciclo das independ\u00eancias na Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>A literatura produzida no Brasil passou a ser objeto de trabalhos historiogr\u00e1ficos nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo 19, duzentos anos atr\u00e1s. E o ponto central em causa era exatamente organizar a leitura das novas gera\u00e7\u00f5es de forma a demonstrar a exist\u00eancia de um pa\u00eds, este que estava se tornando aut\u00f4nomo, com governo, moeda, fronteira, ex\u00e9rcito e povo espec\u00edficos. Era literatura reconhecida como brasileira porque oferecia uma imagem de ser brasileiro.<\/p>\n<p>(Ocorre que podem n\u00e3o coincidir exatamente as categorias \u201cliteratura feita no Brasil\u201d com o que se costuma pensar como \u201cliteratura brasileira\u201d. A primeira engloba, por exemplo, os trabalhos de tradu\u00e7\u00e3o, centrais para o leitor de pa\u00edses perif\u00e9ricos. Da mesma forma engloba a produ\u00e7\u00e3o de textos que n\u00e3o tenham em vista a dimens\u00e3o construtiva do nacional).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>Vamos pular algumas casas para chegar ao s\u00e9culo 20, no contexto de cem anos atr\u00e1s. Em 1922 j\u00e1 havia suficiente clareza sobre a exist\u00eancia de uma literatura brasileira. J\u00e1 havia livros de hist\u00f3ria dessa literatura, j\u00e1 havia programas de ensino organizados, j\u00e1 havia circuitos de produ\u00e7\u00e3o, edi\u00e7\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o e leitura para a literatura produzida por aqui.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-2342\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-opiniao-O-modernismo-paulista-figura1.jpg\" alt=\"\" width=\"399\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-opiniao-O-modernismo-paulista-figura1.jpg 1350w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-opiniao-O-modernismo-paulista-figura1-240x300.jpg 240w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-opiniao-O-modernismo-paulista-figura1-818x1024.jpg 818w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-opiniao-O-modernismo-paulista-figura1-768x962.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-opiniao-O-modernismo-paulista-figura1-1226x1536.jpg 1226w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-opiniao-O-modernismo-paulista-figura1-10x12.jpg 10w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-opiniao-O-modernismo-paulista-figura1-800x1002.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-opiniao-O-modernismo-paulista-figura1-1160x1453.jpg 1160w\" sizes=\"(max-width: 399px) 100vw, 399px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-1-obras-anteriores-a-1922-ja-traziam-inovacao-radical-na-linguagem-e-na-estrutura-do-romance-assim-como-outros-atributos-considerados-modernoso-escritor-joao-do-rio-em-19\"><strong>Figura 1. Obras anteriores a 1922 j\u00e1 traziam inova\u00e7\u00e3o radical na linguagem e na estrutura do romance, assim como outros atributos considerados \u201cmodernos\u201d<br \/>\n<\/strong>(O escritor Jo\u00e3o do Rio, em 1921, nas p\u00e1ginas da revista \u201cBahia Ilustrada\u201d. Reprodu\u00e7\u00e3o).<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Naturalmente, a maior for\u00e7a residia no Rio de Janeiro, a capital, que desde a d\u00e9cada de 1760 era a principal cidade brasileira, ultrapassando Salvador em import\u00e2ncia estrat\u00e9gica. Sede de toda a vida imperial, no Rio se localizavam as institui\u00e7\u00f5es culturais mais s\u00f3lidas, num pa\u00eds em que elas escasseavam na mesma medida em que se mantiveram os crimes da escravid\u00e3o e da omiss\u00e3o na oferta de escolas e cursos superiores antes de 1889.<\/p>\n<p>A Primeira Rep\u00fablica conheceu inova\u00e7\u00f5es importantes, entre as quais uma forte onda de cria\u00e7\u00e3o de escolas, em todos os n\u00edveis, e um esfor\u00e7o de nacionaliza\u00e7\u00e3o dos livros did\u00e1ticos, agora produzidos por gente daqui. Tudo isso ia de par com a revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica do tempo: o uso de prensas rotativas, que multiplicou a oferta de impressos, o emprego da energia el\u00e9trica em todos os \u00e2mbitos da vida, que estendeu a dura\u00e7\u00e3o dos dias para a leitura, e a s\u00e9rie infinita de m\u00e1quinas que mudaram a face do mundo \u2014 telefone, autom\u00f3vel, m\u00e1quinas gravadoras, etc.<\/p>\n<p>No Rio, ent\u00e3o, mais que em outras cidades brasileiras, mas tamb\u00e9m nelas, ia-se dando o fen\u00f4meno que, para simplificar, se chama de moderniza\u00e7\u00e3o \u2014 mas, aten\u00e7\u00e3o, essa palavra \u00e9 trai\u00e7oeira, porque vinha sendo empregada desde o s\u00e9culo 4, em latim, sempre para diferenciar o presente do passado, para dizer que o presente era outro, que a velocidade era maior agora do que antes. A moderniza\u00e7\u00e3o, em certo sentido, era j\u00e1 uma velharia, como se pode detectar aqui: \u201cMudam-se os tempos, mudam-se as vontades\u201d, diz a primeira linha de um soneto \u2014 n\u00e3o de Olavo Bilac (1865-1916), mas de Lu\u00eds de Cam\u00f5es (1524-1580).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>Em 1881, Machado de Assis, escritor j\u00e1 com nome na pra\u00e7a, inteligente, mas relativamente conservador em sua escrita, lan\u00e7a as \u201cMem\u00f3rias p\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas\u201d, em que um morto, este Br\u00e1s, conta suas mem\u00f3rias de um modo debochado, embora simp\u00e1tico, oferecendo ao mesmo tempo um agudo coment\u00e1rio filos\u00f3fico sobre a vida e um retrato sarc\u00e1stico da brutalidade cotidiana brasileira.<\/p>\n<p>Em 1897, J\u00falia Lopes de Almeida assiste desolada \u00e0 funda\u00e7\u00e3o da Academia Brasileira de Letras, agremia\u00e7\u00e3o que ela ajudou a conceber. Os fundadores eram patriarcais e a deixaram de fora, mesmo sabendo de sua qualidade e relev\u00e2ncia. Sua carreira de escritora j\u00e1 tinha for\u00e7a junto ao p\u00fablico, especialmente o feminino, que ela abordava numa perspectiva de emancipa\u00e7\u00e3o, postulando o direito ao estudo e ao protagonismo de mulheres, em livros tanto de fic\u00e7\u00e3o quanto de outros g\u00eaneros.<\/p>\n<p>Em 1893, Cruz e Sousa, um filho de escravos alforriados que contou com a sorte de estudar o que a elite estudava, tendo desde a juventude combatido a escravid\u00e3o e o preconceito, lan\u00e7a um livro de excelente poesia simbolista, aquela que for\u00e7ava os limites do conhecido em dire\u00e7\u00e3o ao absoluto, querendo vizinhar com a m\u00fasica.<\/p>\n<p>Em 1902, Euclides da Cunha publica \u201cOs Sert\u00f5es\u201d, um ensaio que mescla um relato geol\u00f3gico com uma descri\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica \u2014 naturalmente, a geologia e a antropologia poss\u00edveis na \u00e9poca \u2014 e, mais ainda, uma hist\u00f3ria cr\u00edtica do massacre de popula\u00e7\u00f5es civis pelo Ex\u00e9rcito brasileiro (institui\u00e7\u00e3o a que o autor pertencera na juventude) no interior da Bahia.<\/p>\n<p>No mesmo ano, come\u00e7am a ser vendidas as grava\u00e7\u00f5es em disco da Casa Edison, tamb\u00e9m no Rio de Janeiro. A primeira delas se chama \u201cIsto \u00e9 bom\u201d, um lundu, de Xisto Bahia, povoado de erotismo popular e algum deboche para com institui\u00e7\u00f5es como a Igreja. Pouco antes, 1899, Chiquinha Gonzaga tinha inventando a primeira marcha-rancho, inaugurando toda uma vertente forte no cancioneiro brasileiro.<\/p>\n<p>Em 1908, superando uma recusa a seu ingresso no servi\u00e7o diplom\u00e1tico brasileiro pelo bar\u00e3o do Rio Branco, por ser gordo, amulatado e gay, Jo\u00e3o do Rio lan\u00e7a \u201cA alma encantadora das ruas\u201d, uma esp\u00e9cie de reportagem em tom confessional que mira nas virtudes da cidade grande, que permite imensas liberdades para o sujeito moderno.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"inovacao-radical-na-linguagem-e-na-estrutura-do-romance-ataque-ao-machismo-e-ao-preconceito-social-critica-radical-as-instituicoes-perspectiva-cosmopolita-erotismo-popular-em-forma-de-gra\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\">\u201cInova\u00e7\u00e3o radical na linguagem e na estrutura do romance, ataque ao machismo e ao preconceito social, cr\u00edtica radical \u00e0s institui\u00e7\u00f5es, perspectiva cosmopolita, erotismo popular em forma de grande repercuss\u00e3o e futuro (a can\u00e7\u00e3o), ades\u00e3o ao mundo moderno da cidade grande, reivindica\u00e7\u00e3o do valor da cultura popular, gente do povo contando por si mesma a hist\u00f3ria. Tudo isso antes de 1922.\u201d<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 1911, Lima Barreto lan\u00e7a seu \u201cTriste fim de Policarpo Quaresma\u201d, esp\u00e9cie de Dom Quixote brasileiro, uma medita\u00e7\u00e3o em forma algo aleg\u00f3rica sobre o pertencimento a esse pa\u00eds ingrato para com a cultura popular, de origem negra ou ind\u00edgena.<\/p>\n<p>Em 1912, Sim\u00f5es Lopes Neto publica um livro de contos que pela primeira vez na hist\u00f3ria brasileira passa integralmente a palavra a um caboclo, um homem do povo, Blau Nunes, neto de ind\u00edgena, que conta o que viveu desde sua perspectiva e que l\u00ea a hist\u00f3ria a partir das posi\u00e7\u00f5es sociais inferiores, numa linguagem que trouxe para a superf\u00edcie de l\u00edngua portuguesa uma consistente dic\u00e7\u00e3o dialetal.<\/p>\n<p>Inova\u00e7\u00e3o radical na linguagem e na estrutura do romance, ataque ao machismo e ao preconceito social, cr\u00edtica radical \u00e0s institui\u00e7\u00f5es, perspectiva cosmopolita, erotismo popular em forma de grande repercuss\u00e3o e futuro (a can\u00e7\u00e3o), ades\u00e3o ao mundo moderno da cidade grande, reivindica\u00e7\u00e3o do valor da cultura popular, gente do povo contando por si mesma a hist\u00f3ria. Entre os autores citados, seis afrodescendentes e duas mulheres.[1] Tudo isso em livros (e discos) que circularam muito. Tudo isso antes de 1922.<\/p>\n<p>Tudo isso era, evidentemente, moderno. Mas nada disso tem a ver com o Modernismo paulista. O que ocorreu em S\u00e3o Paulo?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>Como sabe todo brasileiro que passou pela escola, e que, portanto, teve acesso a essa mat\u00e9ria chamada literatura (e cultura, em geral) mediante o filtro de uma certa narrativa historiadora (logo falaremos dela), em fevereiro de 1922 aconteceu a Semana de Arte Moderna na capital paulista.<\/p>\n<p>Foram tr\u00eas tardes\/noites com gente local (M\u00e1rio e Oswald de Andrade e Anita Malfatti, com o tempo elevados \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de \u00edcones, mas tamb\u00e9m gente depois defenestrada do pante\u00e3o modernista, como Pl\u00ednio Salgado e Guilherme de Almeida) e convidados cariocas (Villa-Lobos, Ronald de Carvalho e Gra\u00e7a Aranha, estes dois \u00faltimos igualmente defenestrados, no correr do tempo). Tudo patrocinado pela nata da aristocracia da terra e do capital cafeicultor e sob a orienta\u00e7\u00e3o de um intelectual sofisticado nascido nesse meio rico, Paulo Prado.<\/p>\n<p>Muita inova\u00e7\u00e3o proposta e sugerida, ousadias em forma de provoca\u00e7\u00e3o ao p\u00fablico conservador. Muita intera\u00e7\u00e3o com as for\u00e7as inventivas europeias (ou melhor, francesas, quer dizer, parisienses) que haviam ganho express\u00e3o com as vanguardas daqueles anos iniciais do s\u00e9culo 20. Obra mesmo, havia pouca coisa ainda, mas com o passar dos anos aquela turma \u2014 os eleitos da turma, como o que se chama de \u201cGrupo dos Cinco\u201d, a saber, Anita, Oswald, M\u00e1rio, Menotti e Tarsila \u2014 agregando alguns chegantes, veio a produzir obra de fato relevante, em literatura, pintura e algo mais.<\/p>\n<p>Esse processo, nos anos 1920 ainda, foi largamente subsidiado pela mesma aristocracia cafeeira, que nesta altura era a for\u00e7a econ\u00f4mica dominante na economia brasileira e havia j\u00e1 transitado para outras esferas, a ind\u00fastria, o com\u00e9rcio, as finan\u00e7as e naturalmente a pol\u00edtica. M\u00e1rio de Andrade lembra, num famoso texto de mem\u00f3rias produzido em 1942, a farra que foi o per\u00edodo para eles, os jovens modernistas acolhidos nos sal\u00f5es daquela elite. Nos anos 1930, muitas das teses dos anos iniciais viraram pol\u00edtica de estado, seja na prefeitura de S\u00e3o Paulo, onde M\u00e1rio desempenhou fun\u00e7\u00f5es parecidas com a de um secret\u00e1rio de cultura de nossos dias, seja no governo federal sob Vargas, que criou institui\u00e7\u00f5es culturais sob orienta\u00e7\u00e3o de gente afinada com essas ideias.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-2343\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-opiniao-O-modernismo-paulista-figura2.jpg\" alt=\"\" width=\"334\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-opiniao-O-modernismo-paulista-figura2.jpg 1012w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-opiniao-O-modernismo-paulista-figura2-200x300.jpg 200w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-opiniao-O-modernismo-paulista-figura2-684x1024.jpg 684w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-opiniao-O-modernismo-paulista-figura2-768x1150.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-opiniao-O-modernismo-paulista-figura2-8x12.jpg 8w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-opiniao-O-modernismo-paulista-figura2-800x1198.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 334px) 100vw, 334px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-2-o-escritor-pre-modernista-lima-barreto-trazia-em-suas-obras-de-cunho-realista-e-nacionalista-um-olhar-critico-sobre-a-sociedade-brasileira-do-inicio-do-seculo-20-o-escritor-lima-barreto\"><strong>Figura 2. O escritor pr\u00e9-modernista Lima Barreto trazia em suas obras, de cunho realista e nacionalista, um olhar cr\u00edtico sobre a sociedade brasileira do in\u00edcio do s\u00e9culo 20.<br \/>\n<\/strong>(O escritor Lima Barreto. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em menos e mais claras palavras, o Modernismo paulista, que se apresenta, nos enunciados e nos elogios que costuma receber, como um rompimento, uma revolu\u00e7\u00e3o, a funda\u00e7\u00e3o de um mundo novo, foi concebido entre as elites superiores de S\u00e3o Paulo, foi por elas cevado e chegou cedo ao poder pol\u00edtico. Tudo isso se propondo \u2014 e com o tempo sendo reconhecido pela cr\u00edtica e pela universidade paulistas \u2014 como o verdadeiro marco-zero da modernidade brasileira, como o big-bang da intelig\u00eancia livre no pa\u00eds, como a matriz de tudo que bom, interessante, inventivo que merecesse aten\u00e7\u00e3o, dali por diante.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o foi s\u00f3 o futuro que foi colonizado pelo Modernismo paulista. Tamb\u00e9m o passado foi reorganizado por ele: foi na USP, a primeira universidade realmente moderna brasileira, financiada como o mesmo dinheiro que o estado paulista concentra desde ent\u00e3o, que se gerou a interpreta\u00e7\u00e3o agora dominante em todo o pa\u00eds, a partir dos anos 1940 e 50.<\/p>\n<p>Incluindo um enviesamento criminoso, que empurrou todos aqueles autores antes citados, entre outros, para um desconfort\u00e1vel asilo chamado \u201cpr\u00e9-modernismo\u201d. Foi na virada dos anos 1960 para a d\u00e9cada seguinte que se entronizou esta categoria, que com um golpe de prefixo envelhece subitamente uma vasta quantidade de inven\u00e7\u00f5es formais e conteud\u00edsticas, como as que acima foram lembradas, pela mera sugest\u00e3o de que, sendo \u201cpr\u00e9\u201d, n\u00e3o chegaram a ser o que realmente importava, isto \u00e9, modernistas ao modo paulista.[2]\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>Agora reatemos a conversa desde o come\u00e7o. A l\u00f3gica dessa maneira de contar a hist\u00f3ria, amplamente vitoriosa desde h\u00e1 pelo menos 50 anos, d\u00e1 como certo e autoevidente que, n\u00e3o fosse a Semana de 22, a literatura brasileira (na qual eu incluo a can\u00e7\u00e3o, a arte da palavra mais bem sucedida entre n\u00f3s) n\u00e3o teria encontrado o moderno \u2014 seja l\u00e1 o que isso signifique. O que est\u00e1 longe de ser verdade, como insinuado com aqueles exemplos.<\/p>\n<p>Mas para al\u00e9m dessa opera\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica que entronizou a Semana paulista e a obra de alguns dos paulistas participantes, especialmente M\u00e1rio de Andrade, basta soprar um pouco mais a fuma\u00e7a do incenso autocongratulat\u00f3rio para ver com clareza o vi\u00e9s nacionalista implicado. \u201cMacuna\u00edma\u201d talvez seja o mais n\u00edtido desses casos.<\/p>\n<p>Sua pretens\u00e3o n\u00e3o \u00e9 pequena: quer ser uma s\u00edntese simb\u00f3lica ou aleg\u00f3rica da forma\u00e7\u00e3o do Brasil: Macuna\u00edma, o personagem, nasceu negro entre os ind\u00edgenas, tornando-se branco ao chegar a S\u00e3o Paulo, onde vai tentar recuperar a muiraquit\u00e3, que est\u00e1 nas m\u00e3os de um italiano imigrante. Como entender essa trama?<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que o eixo de sentido realmente significativo est\u00e1 entre a Amaz\u00f4nia e S\u00e3o Paulo; o resto \u00e9 paisagem circunstancial. Claro que uma obra de fic\u00e7\u00e3o tem todo o direito de postular o mundo que melhor lhe parecer, mas \u00e9 tamb\u00e9m certo que qualquer fantasia pode ser interpretada em confronto com a experi\u00eancia real. O caso aqui \u00e9 que estamos diante de uma interpreta\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, no contexto de um movimento vitorioso \u2014 movimento mais que liter\u00e1rio, pol\u00edtico em sentido pr\u00f3prio, com o Modernismo paulista funcionando como o <em>soft power<\/em> discursivo e imag\u00e9tico da ascens\u00e3o da economia paulista ao primeiro posto no conjunto do Brasil.<\/p>\n<p>\u00c9 de perguntar: e o resto? E aqueles \u201cpr\u00e9\u201d? V\u00e3o ser figurantes apenas? V\u00e3o servir apenas de cen\u00e1rio? E \u00e9 de constatar: toda a hist\u00f3ria brasileira at\u00e9 ent\u00e3o, forjada no espa\u00e7o da <em>plantation<\/em> baiana, nordestina e fluminense, para nem falar do centro-oeste e o sul, toda ela \u00e9 igualmente empurrada para um imenso ex\u00edlio, outra forma de \u201cpr\u00e9\u201d, como se sua exist\u00eancia tivesse sido apenas a prepara\u00e7\u00e3o para esse devir supostamente radiante e libertador.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-debate-agora-estabelecido-no-pais-quando-finalmente-a-luta-antirracista-e-antimachista-tomou-o-primeiro-plano-tem-proporcionado-momentos-de-revisao-importantes\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\">\u201cO debate agora estabelecido no pa\u00eds, quando finalmente a luta antirracista e antimachista tomou o primeiro plano tem proporcionado momentos de revis\u00e3o importantes.\u201d<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por acaso num\u00e9rico ou n\u00e3o, depois de 1822 o Brasil foi narrado e pensado a partir do Rio de Janeiro, tanto quanto depois de 1922 a sede foi S\u00e3o Paulo. Sim, o nome disso \u00e9 hist\u00f3ria, pura e dura, poder\u00e1 dizer um pragm\u00e1tico; mas nem por ser pura e dura a narrativa dessa hist\u00f3ria tem de ser \u00fanica, porque se trata de uma forma de domina\u00e7\u00e3o, no sentido de Bourdieu \u2014 \u201caquilo que permite a uma ordem social reproduzir-se no reconhecimento e no desconhecimento da arbitrariedade que a institui\u201d, algo que n\u00e3o se d\u00e1 apenas no plano da \u201cperpetua\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, mas, sobretudo, no \u00e2mbito de sua reprodu\u00e7\u00e3o cultural\u201d.[3]\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>Examinar esse processo pode nos levar a uma perspectiva mais ampla e aberta, que certamente reconhecer\u00e1 valor moderno em uma s\u00e9rie de autores e obras anteriores \u00e0 Semana e sem qualquer rela\u00e7\u00e3o com ela, assim como, obviamente, reconhecer\u00e1 na vanguarda paulista um movimento de interesse, capaz de propor uma s\u00e9rie de ideias interessantes, assim como de forjar obras de valor que, por\u00e9m, pertencem, como tudo o mais, ao dom\u00ednio emp\u00edrico da hist\u00f3ria, este ch\u00e3o em que se disputam interesses e valores.<\/p>\n<p>O debate agora estabelecido no pa\u00eds, quando finalmente a luta antirracista e antimachista tomou o primeiro plano (faltando ainda ganhar protagonismo o debate antiecocida), tem proporcionado momentos de revis\u00e3o importantes. Boa hora para rever o valor do trabalho de brasileiros afrodescendentes, assim como de mulheres, em sua luta para encontrar jeitos, modernos ou n\u00e3o, de expressar as coisas, antes e\/ou fora da Semana paulista, que, malgrado suas inten\u00e7\u00f5es de reinventar o Brasil, reuniu quase exclusivamente brancos de elite.<\/p>\n<p>Uma hist\u00f3ria da literatura no Brasil pode perfeitamente prescindir do estilo rupturista, exclusivista e a\u00e7ambarcador do Modernismo paulista, em favor de buscar o desenho de linhas de for\u00e7a variadas, em tens\u00e3o ou em conviv\u00eancia, constat\u00e1veis na ampla geografia cultural do pa\u00eds. N\u00e3o h\u00e1 apenas uma forma de ser moderno (e nem mesmo \u00e9 preciso ser moderno, seja l\u00e1 o que isso signifique), nem h\u00e1 apenas um caminho para contar a hist\u00f3ria das letras num pa\u00eds como o nosso. A totalidade que o construto hist\u00f3rico chamado Modernismo nos faz crer que seja \u00fanica \u00e9 um castelo de cartas, quando submetida ao confronto com os fatos lidos criticamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-modernismo-transcendeu-sao-paulo-e-1922sao-paulo-de-tarsila-do-amaral-oleo-sobre-tela-colecao-da-pinacoteca-do-estado-de-sao-paulo-brasil-adquirido-pelo-govern\"><strong>Capa. Modernismo transcendeu S\u00e3o Paulo \u2013 e 1922<br \/>\n<\/strong>(\u201cS\u00e3o Paulo\u201d, de Tarsila do Amaral. \u00d3leo sobre tela. Cole\u00e7\u00e3o da Pinacoteca do Estado de S\u00e3o Paulo, Brasil, adquirido pelo Governo do Estado de S\u00e3o Paulo, 1929. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<hr \/>\n<h5 id=\"notas\"><span style=\"color: #808080;\"><strong>Notas<\/strong><\/span><\/h5>\n<ol>\n<li><span style=\"color: #808080;\">Muitos outros exemplos de inventividade se podem ler em <em>Metr\u00f3pole \u00e0 beira-mar \u2013 O Rio moderno dos anos 20<\/em> e em <em>As vozes da metr\u00f3pole \u2013 Uma antologia do Rio dos anos 20<\/em>, de CASTRO, R. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2019 e 2021.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #808080;\">Uma demonstra\u00e7\u00e3o longa desse processo se encontra em meu livro: FISCHER, L. A. <em>A ideologia modernista \u2013 A Semana de 22 e sua consagra\u00e7\u00e3o. <\/em>S\u00e3o Paulo: Todavia, 2022.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"color: #808080;\">Verbete \u201cDomina\u00e7\u00e3o\u201d, por HEY, A. P. <em>Vocabul\u00e1rio Bourdieu<\/em>. CATTANI, A. e outros. (org.). Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2017.<\/span><\/li>\n<\/ol>\n<hr \/>\n<h6 id=\"fischer-luis-augusto-o-modernismo-paulista-nao-e-a-totalidade-o-modernismo-paulista-nao-inventou-o-moderno-no-brasil-cienc-cult-online-2022-vol-74-n-2-citado-2023-09-0\"><span style=\"color: #808080;\"><em>FISCHER, Lu\u00eds Augusto.<span class=\"article-title\">\u00a0O Modernismo paulista n\u00e3o \u00e9 a totalidade. O Modernismo paulista n\u00e3o inventou o moderno no Brasil.<\/span>\u00a0Cienc. Cult.\u00a0[online]. 2022, vol.74, n.2 [citado\u00a0 2023-09-01], pp.1-6. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/cienciaecultura.bvs.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252022000200013&amp;lng=pt&amp;nrm=iso&gt;. ISSN 0009-6725.\u00a0 http:\/\/dx.doi.org\/10.5935\/2317-6660.20220031.<\/em><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Comecemos por uma generalidade, uma pergunta que abra as portas do assunto:&hellip;\n","protected":false},"author":27,"featured_media":2397,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[21],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2338"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/27"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2338"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2338\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4664,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2338\/revisions\/4664"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2397"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2338"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2338"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2338"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}