{"id":2348,"date":"2022-06-20T07:57:21","date_gmt":"2022-06-20T07:57:21","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=2348"},"modified":"2023-09-01T10:58:41","modified_gmt":"2023-09-01T10:58:41","slug":"o-mundo-e-moderno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=2348","title":{"rendered":"O mundo \u00e9 moderno"},"content":{"rendered":"<p>\u201cO que eu penso da Semana de 22? Foi alguma coisa de inesquec\u00edvel, que sacudiu os meios art\u00edsticos de todo o pa\u00eds. E mais do que justo, porque era realmente imposs\u00edvel tolerar-se o academicismo, a in\u00e9rcia, o mau gosto da \u00e9poca. Alguma coisa tinha que ser feita\u201d. Foi desta forma que, em entrevista \u00e0 <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-100-anos\/2022\/02\/alguma-coisa-tinha-de-ser-feita-disse-anita-malfatti-a-folha-sobre-semana-de-1922.shtml\">Folha de S. Paulo em 8 de fevereiro de 1962<\/a><\/span> \u2014 ou seja, 40 anos depois do evento que mudou o cen\u00e1rio art\u00edstico do pa\u00eds \u2014 Anita Malfatti expressou o sentimento que dominava os artistas respons\u00e1veis pela Semana de Arte Moderna de 1922.<\/p>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o de que a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e art\u00edstica estava em atraso em um pa\u00eds que se modernizava n\u00e3o era um sentimento novo entre esses revolucion\u00e1rios. A cr\u00edtica aos \u201cpassadistas\u201d j\u00e1 tinha sido exposta por M\u00e1rio de Andrade na s\u00e9rie de artigos \u201cMestres do Passado\u201d, publicada em agosto de 1921 no\u00a0<em>Jornal do Com\u00e9rcio<\/em>, de S\u00e3o Paulo. O poeta Menotti del Picchia, em sua confer\u00eancia durante a Semana de 22, proclamava: \u201cQueremos luz, ar, ventiladores, aeroplanos, reivindica\u00e7\u00f5es obreiras, idealismos, motores, chamin\u00e9 de f\u00e1bricas, sangue, velocidade, sonho, na nossa Arte!\u201d. Ou seja, tudo aquilo que expressasse a modernidade.<\/p>\n<p>\u201cA no\u00e7\u00e3o de que a literatura e as artes devem copiar a realidade \u00e9 uma no\u00e7\u00e3o que prevaleceu durante muito tempo na hist\u00f3ria das culturas ocidentais, mas \u00e9 uma no\u00e7\u00e3o que os modernismos, cada \u00e0 sua maneira, v\u00eam para chacoalhar\u201d, explica Pedro Meira Monteiro, professor de Espanhol e Portugu\u00eas na <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.princeton.edu\/\">Princeton University<\/a><\/span>. Segundo o pesquisador, a literatura, a pintura, a m\u00fasica, e at\u00e9 a psican\u00e1lise convergem para fazer compreender que as artes n\u00e3o s\u00e3o um reflexo, mas uma interven\u00e7\u00e3o. \u201cA arte \u00e9 realidade tamb\u00e9m, e isso \u00e9 muito moderno\u201d diz.<\/p>\n<p>Mas esse anseio pelo moderno \u2014 ou pela ruptura com o passado \u2014 n\u00e3o \u00e9 algo exclusivamente nacional, nem originariamente brasileiro. O modernismo \u00e9 um movimento internacional que desde as primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20 buscou um novo alinhamento com a experi\u00eancia e os valores da vida industrial moderna. Ansiando por revitalizar a maneira como a civiliza\u00e7\u00e3o moderna via a vida, a arte, a pol\u00edtica e a ci\u00eancia, artistas de todo o mundo usaram novas imagens, materiais e t\u00e9cnicas para criar obras que refletiam melhor as realidades e esperan\u00e7as das sociedades modernas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-2351\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-reportagem-modernismo-no-mundo-figura1.jpg\" alt=\"\" width=\"346\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-reportagem-modernismo-no-mundo-figura1.jpg 1260w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-reportagem-modernismo-no-mundo-figura1-207x300.jpg 207w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-reportagem-modernismo-no-mundo-figura1-708x1024.jpg 708w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-reportagem-modernismo-no-mundo-figura1-768x1111.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-reportagem-modernismo-no-mundo-figura1-1062x1536.jpg 1062w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-reportagem-modernismo-no-mundo-figura1-8x12.jpg 8w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-reportagem-modernismo-no-mundo-figura1-800x1157.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-reportagem-modernismo-no-mundo-figura1-1160x1677.jpg 1160w\" sizes=\"(max-width: 346px) 100vw, 346px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-1-a-pianista-guiomar-novaes-foi-uma-das-primeiras-modernistas-brasileiras-consagradas-internacionalmenteguiomar-novaes-reproducao\"><strong>Figura 1. A pianista Guiomar Novaes foi uma das primeiras modernistas brasileiras consagradas internacionalmente<br \/>\n<\/strong>(\u201cGuiomar Novaes\u201d. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Do mesmo modo, o modernismo brasileiro \u00e9 um amplo e complexo movimento, muito al\u00e9m da Semana de Arte Moderna. Ele come\u00e7a a dar seus primeiros sinais nos anos de 1912 e 1917, fruto do interc\u00e2mbio de artistas brasileiros que trazem para o pa\u00eds suas experi\u00eancias vividas na Europa \u2014 especialmente na Fran\u00e7a. A \u201cI Exposi\u00e7\u00e3o de Arte Moderna\u201d de Anita Malfatti, realizada em S\u00e3o Paulo entre 12 de dezembro de 1917 e 11 de janeiro de 1918, \u00e9 considerada um marco na hist\u00f3ria da arte moderna\u00a0no Brasil e o \u201cestopim\u201d da Semana 22. A mostra era fruto das pesquisas art\u00edsticas europeias da pintora e uma aproxima\u00e7\u00e3o com aquilo que existia de mais moderno no mundo. Contudo, Anita n\u00e3o foi a primeira a realizar uma mostra modernista no pa\u00eds: em 1913, Lasar Segall (pintor lituano radicado no Brasil) realizou duas exposi\u00e7\u00f5es, uma em S\u00e3o Paulo e outra em Campinas (SP). Esses primeiros movimentos n\u00e3o apenas traziam o modernismo para o pa\u00eds, como tamb\u00e9m colocava o Brasil no mapa da modernidade.<\/p>\n<h3 id=\"encontros\"><strong>Encontros<\/strong><\/h3>\n<p>Desta forma, o modernismo no Brasil nasce de uma intensa troca de experi\u00eancias entre artistas brasileiros e europeus. Al\u00e9m da exposi\u00e7\u00e3o de Lasar Segall, a core\u00f3grafa e bailarina norte-americana Isadora Duncan fez uma excurs\u00e3o pela Am\u00e9rica do Sul em 1916, passando por Bahia, S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro. O compositor franc\u00eas Darius\u00a0Milhaud passou dois anos no Rio de Janeiro (de 1917 at\u00e9 1919). \u201cMilhaud fazia parte de um grupo de compositores franceses muito importante chamado <em>Des Six<\/em>, que levou influ\u00eancias brasileiras e comp\u00f4s mais tarde \u2018Saudades do Brasil\u2019 e alguns ballets com motiva\u00e7\u00e3o brasileira\u201d, explica Kenneth David Jackson, diretor de Estudos de Portugu\u00eas na <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.yale.edu\/\">Yale University<\/a><\/span>.<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador, outra figura importante \u00e9 o pianista polon\u00eas naturalizado estadunidense Arthur Rubinstein. O artista fez sua estreia nos palcos cariocas em 1918 e seu sucesso foi t\u00e3o grande que acabou tocando 12 recitais no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Amigo de Heitor Villa-Lobos, o pianista levou as obras do m\u00fasico brasileiro para a Europa, tocando suas composi\u00e7\u00f5es em Paris e sendo o grande respons\u00e1vel pela divulga\u00e7\u00e3o internacional de sua m\u00fasica \u2014 e, mais tarde, por sua ida \u00e0 Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Nesse contexto, o escritor su\u00ed\u00e7o Blaise Cendrars n\u00e3o pode ficar de fora. Amigo de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, Cendrars veio ao Brasil pela primeira vez em 1924. Sua viagem rendeu o\u00a0\u201c<em>Feuilles de Route\u201d,\u00a0<\/em>um di\u00e1rio em que narra o impacto de sua chegada ao pa\u00eds e que foi ilustrado por Tarsila. Quando volta a Paris, o escritor publica os poemas de\u00a0\u201cPau Brasil<em>\u201d, <\/em>de Oswald de Andrade. O Brasil inspirou os poemas de Cendrars, e tamb\u00e9m v\u00e1rios contos, cr\u00f4nicas e reportagens (\u201c<em>M\u00e9taphysique du caf\u00e9<\/em>\u201d, 1931;\u00a0\u201c<em>Histoires vraies\u201d<\/em>, 1937; \u201c<em>F\u00e9bronio (Magia Sexualis)<\/em>\u201d, 1938;\u00a0\u201c<em>D\u2019Oultremer \u00e0 Indigo\u201d<\/em>, 1940;\u00a0\u201c<em>Trop c\u2019est trop\u201d<\/em>, 1957, para citar alguns).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-modernismo-no-brasil-nasce-de-uma-intensa-troca-de-experiencias-entre-artistas-brasileiros-e-europeus\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\">\u201cO modernismo no Brasil nasce de uma intensa troca de experi\u00eancias entre artistas brasileiros e europeus.\u201d<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas o caminho inverso tamb\u00e9m foi feito. \u201cMuitos expoentes brasileiros foram estudar na Europa, conviveram com as transforma\u00e7\u00f5es art\u00edsticas que estavam acontecendo por l\u00e1 e trouxeram essas informa\u00e7\u00f5es para c\u00e1\u201d, explica Paulo Celso Moura, professor do Instituto de Artes da <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.unesp.br\/\">Universidade Estadual Paulista (Unesp)<\/a><\/span>.<\/p>\n<p>Anita Malfatti viajou para a Alemanha em 1910, onde estudou no Museu Real de Artes e Of\u00edcios e teve contato com o expressionismo alem\u00e3o. Victor Brecheret,\u00a0considerado o introdutor da arte moderna na escultura brasileira, viveu de 1912 a 1919 na It\u00e1lia, incorporando elementos de expressividade n\u00e3o acad\u00eamicos em suas obras. Oswald de Andrade faz sua primeira viagem a Europa em 1912, onde teve contato com a boemia estudantil parisiense e com o futurismo \u00edtalo-franc\u00eas. Tarsila do Amaral foi para Fran\u00e7a em 1920, onde estudou na Academia Julian, escola de pintura e escultura, retornando para l\u00e1 em 1923, quando se relacionou com os modernistas de Paris. Villa-Lobos viajou para Fran\u00e7a em 1923, retornando em 1924.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o podemos nos esquecer que as duas primeiras talvez modernistas que foram estudar na Europa foram as pianistas Magda Tagliaferro, que ganhou o primeiro pr\u00eamio do conservat\u00f3rio de Paris em 1904, e Guiomar Novaes, que recebeu o mesmo pr\u00eamio em 1911 e foi uma das grandes estrelas da Semana de Arte Moderna\u201d, lembra Jackson.<\/p>\n<h3 id=\"modernismos-la-e-aqui\"><strong>Modernismos \u2013 l\u00e1 e aqui<\/strong><\/h3>\n<p>Para o pesquisador, o modernismo tinha um objetivo essencial de colocar as artes brasileiras no n\u00edvel internacional. Para tanto os artistas nacionais deviam se desenvolver atrav\u00e9s de estudo, principalmente em Paris, al\u00e9m de ter a incumb\u00eancia de produzir obras brasileiras. \u201cCom isso, esses artistas se relacionaram, \u00e0s vezes intimamente, com artistas das vanguardas europeias. Realmente foi uma simbiose, um encontro de artistas brasileiros que foram estudar n\u00e3o s\u00f3 em Paris, mas na Europa toda para, para, atrav\u00e9s de suas obras, colocar a ideia da produ\u00e7\u00e3o e do conte\u00fado brasileiro ao n\u00edvel das outras produ\u00e7\u00f5es internacionais\u201d, diz. \u201cNo caso dos artistas brasileiros h\u00e1 um grande peso do nacionalismo, a necessidade de representar o pa\u00eds e de descobrir de que maneira isso deveria ser feito ou como melhor poderia se fazer\u201d, conclui.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-2352\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-reportagem-modernismo-no-mundo-figura2.jpg\" alt=\"\" width=\"398\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-reportagem-modernismo-no-mundo-figura2.jpg 868w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-reportagem-modernismo-no-mundo-figura2-239x300.jpg 239w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-reportagem-modernismo-no-mundo-figura2-815x1024.jpg 815w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-reportagem-modernismo-no-mundo-figura2-768x965.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-reportagem-modernismo-no-mundo-figura2-10x12.jpg 10w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/CC-2-edicao-reportagem-modernismo-no-mundo-figura2-800x1006.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 398px) 100vw, 398px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-2-obra-feuilles-de-route-do-escritor-suico-blaise-cendrars-relata-o-impacto-de-sua-chegada-ao-brasil-e-conta-com-ilustracoes-de-tarsila-do-amaralcapa-do-livro-fe\"><strong>Figura 2. Obra \u201c<em>Feuilles de Route\u201d, <\/em>do escritor su\u00ed\u00e7o Blaise Cendrars, relata o impacto de sua chegada ao Brasil e conta com ilustra\u00e7\u00f5es de Tarsila do Amaral<br \/>\n<\/strong>(Capa do livro \u201c<em>Feuilles de Route\u201d, <\/em>por Tarsila do Amaral. Reprodu\u00e7\u00e3o.)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Enquanto as vanguardas europeias se interessavam pelo \u201cpitoresco\u201d ou at\u00e9 mesmo \u201cprimitivo\u201d, os modernistas brasileiros descobriam que o \u201cex\u00f3tico\u201d estava em nosso pr\u00f3prio quintal. \u201cO que os europeus iam buscar em culturas ex\u00f3ticas e \u2018primitivas\u2019 estava no cora\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia cultural brasileira, que \u00e9 feita de muita mistura (algo que os nossos primeiros modernistas souberam valorizar) e muita viol\u00eancia (algo que eles, de um modo geral, n\u00e3o souberam ou n\u00e3o quiseram reconhecer, e que caberia a futuros \u2018modernismos\u2019 explorar devidamente)\u201d, explica Monteiro. \u201cNo caso brasileiro, essa compreens\u00e3o do moderno nas artes se d\u00e1 em paralelo a um desejo de afirma\u00e7\u00e3o nacional, o que n\u00e3o \u00e9 muito comum nos outros modernismos\u201d.<\/p>\n<p>Essa busca por produzir uma arte nacional, marcada por aspectos, tipos, sons, temas, cores e palavras que revelassem a brasilidade, diferencia o modernismo nacional do modernismo feito no resto do mundo. Outra diferen\u00e7a \u00e9 o rompimento com as tradi\u00e7\u00f5es. \u201cOs movimentos de vanguarda no hemisf\u00e9rio norte rapidamente se transformaram em novas tradi\u00e7\u00f5es. Se a forma de express\u00e3o era nova, a ideia de se transformar em um novo caminho a ser trilhado pelos demais era muito presente\u201d, explica Moura. \u201cAqui n\u00f3s n\u00e3o temos tradi\u00e7\u00e3o. Qual \u00e9 a nossa tradi\u00e7\u00e3o? \u00c9 a de quebrar as tradi\u00e7\u00f5es\u201d, conclui.<\/p>\n<p>Para refletir sobre os ideais de projetos nacionais consolidados nestas efem\u00e9rides marcantes para a constru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, a Unesp est\u00e1 realizando o desde maio o \u201c<a href=\"https:\/\/www2.unesp.br\/portal#!\/centenarios\"><span style=\"color: #800000;\">Festival Centen\u00e1rios<\/span><\/a>\u201d em comemora\u00e7\u00e3o ao centen\u00e1rio da Semana de Arte Moderna e ao bicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia do Brasil. \u201cA Semana de 22 foi um movimento de cr\u00edtica num contexto em que o Brasil comemorava 100 anos de independ\u00eancia. Este ano, em que celebramos 100 anos da Semana de Arte Moderna e 200 anos da Independ\u00eancia do Brasil, e nesse contexto de encruzilhada em que estamos, n\u00e3o tem como n\u00e3o tratar de uma comemora\u00e7\u00e3o sem tratar da outra. Precisamos aproveitar para refletir qual o projeto de pa\u00eds que se desenhava ali com os modernistas e o futuro do pa\u00eds que queremos\u201d, afirma Raul Borges Guimar\u00e3es, pr\u00f3-reitor de extens\u00e3o universit\u00e1ria e cultura da Unesp e um dos idealizadores do Festival Centen\u00e1rios.<\/p>\n<h3 id=\"alguma-coisa-tinha-que-ser-feita\"><strong>Alguma coisa tinha que ser feita<\/strong><\/h3>\n<p>A cultura do in\u00edcio do s\u00e9culo 20 estava se reinventando diariamente. Com tantas descobertas cient\u00edficas e inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas acontecendo, o mundo estava mudando t\u00e3o rapidamente que a cultura teve que se redefinir constantemente para acompanhar a modernidade e n\u00e3o parecer retr\u00f3grada.<\/p>\n<p>No Brasil, S\u00e3o Paulo era o palco de toda a efervesc\u00eancia tecnol\u00f3gica. A capital paulista recebia um grande fluxo imigrat\u00f3rio europeu, proveniente da necessidade de cobrir a demanda de m\u00e3o de obra no setor agr\u00edcola, e passava por um acelerado processo de industrializa\u00e7\u00e3o possibilitado pelo ac\u00famulo de capital originado dessa mesma agricultura. A transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica tamb\u00e9m implicava uma transforma\u00e7\u00e3o social, com o advento da burguesia industrial, do proletariado e das classes m\u00e9dias. \u201cNo come\u00e7o do s\u00e9culo 20 n\u00f3s temos a sobreposi\u00e7\u00e3o da modernidade do ponto de vista da tecnicidade, da ci\u00eancia, da m\u00e1quina. E \u00e9 sintom\u00e1tico que a Semana de Arte Moderna aconte\u00e7a em 1922, quando h\u00e1 o in\u00edcio da transposi\u00e7\u00e3o do ciclo cafeeiro para o ciclo industrial em S\u00e3o Paulo\u201d, afirma Moura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"essa-busca-por-uma-arte-tipicamente-brasileira-e-uma-caracteristica-que-diferencia-o-modernismo-nacional-do-modernismo-feito-no-resto-do-mundo\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\">\u201cEssa busca por uma arte tipicamente brasileira \u00e9 uma caracter\u00edstica que diferencia o modernismo nacional do modernismo feito no resto do mundo.\u201d<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Enquanto toda essa efervesc\u00eancia acontecia em S\u00e3o Paulo, \u00e9 importante notar que no mesmo ano acontecia no Rio de Janeiro a Exposi\u00e7\u00e3o Internacional em comemora\u00e7\u00e3o ao centen\u00e1rio da independ\u00eancia do Brasil. De 7 de setembro de 1922 at\u00e9 24 de julho de 1923, a Exposi\u00e7\u00e3o exibiu 25 se\u00e7\u00f5es relacionadas a v\u00e1rias \u00e1reas do conhecimento e da tecnologia. \u201cPretendia-se mostrar o Brasil industrial, o Brasil do s\u00e9culo 20, uma na\u00e7\u00e3o do projeto da modernidade\u201d, aponta Guimar\u00e3es. \u00c9 tamb\u00e9m durante essa exposi\u00e7\u00e3o que \u00e9 realizada a primeira transmiss\u00e3o de r\u00e1dio do Brasil. Evidencia-se a busca da supera\u00e7\u00e3o do passado em detrimento da moderniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. \u201cQuando eu falo moderno, algu\u00e9m \u00e9 o tradicional. Ent\u00e3o, se colocar como moderno, na disputa de narrativas voc\u00ea vai colocar outro conjunto de atores como ultrapassados, tradicionais, ou dignos de serem superados\u201d, conclui.<\/p>\n<p>Nesse contexto, Anita Malfatti estava certa: alguma coisa tinha que ser feita. Apesar de todas as cr\u00edticas que a Semana de Arte Moderna pode receber, o fato \u00e9 que ela foi fundamental para mudar o rumo das artes \u2014 e talvez at\u00e9 da sociedade \u2014 brasileira. \u201cA semana foi necess\u00e1ria como momento para representar a modernidade brasileira, mais importante pelo valor simb\u00f3lico do que pelo evento\u201d, aponta Jackson.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, foi preciso um longo caminho para que seu valor fosse reconhecido. Tarsila do Amaral praticamente parou de expor por 50 anos depois de 1930. O \u201cManifesto Antropof\u00e1gico\u201d n\u00e3o tinha tradu\u00e7\u00e3o at\u00e9 os anos 1970. A pr\u00f3pria celebra\u00e7\u00e3o dos 50 anos da Semana de 22 foi \u201ct\u00edmida\u201d. Contudo, esse cen\u00e1rio foi mudando ao longo do tempo. Jackson cita grandes exposi\u00e7\u00f5es em Nova Iorque de H\u00e9lio Oiticica, Lygia Clark, Lygia Pape, Burle Marx, entre outros, realizadas recentemente. \u201c\u00c9 uma presen\u00e7a mundial de artistas brasileiros que n\u00e3o existia antes e acredito que isso \u00e9 devido \u00e0 exist\u00eancia da Semana de 22, aos esfor\u00e7os ligados a esses artistas para quem a Semana era o momento simb\u00f3lico de moderniza\u00e7\u00e3o\u201d, aponta. O pesquisador exemplifica essa valoriza\u00e7\u00e3o da arte brasileira com o famoso quadro Abaporu, de Tarsila do Amaral, que hoje se encontra no Museu de Arte Latino-Americano de Buenos Aires (MALBA). \u201cSe pensarmos s\u00f3 em termos de valor, esse quadro, quando foi comprado pelo museu argentino, foi avaliado em R$ 1,5 milh\u00f5es. Agora dizem que o valor \u00e9 incalcul\u00e1vel, acima de R$ 75 milh\u00f5es. Ent\u00e3o isso \u00e9 reconhecimento em termos do valor mundial atribu\u00eddo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o modernista brasileira. E levou 100 anos\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-troca-de-experiencias-entre-artistas-brasileiros-e-europeus-ajudou-a-construir-o-modernismo-nacionaltropical-de-anita-malfatti-reproducao\"><strong>Capa. Troca de experi\u00eancias entre artistas brasileiros e europeus ajudou a construir o modernismo nacional<br \/>\n<\/strong>(\u201cTropical\u201d, de Anita Malfatti. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h5 id=\"leia-mais\"><strong>Leia mais:<\/strong><\/h5>\n<p><span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cdrom\/oandrade\/oandrade.pdf\">Manifesto Antrop\u00f3fago e Manifesto da Poesia Pau-Brasil (Oswald de Andrade)<\/a><\/span><\/p>\n<hr \/>\n<h6 id=\"bueno-chris-o-mundo-e-moderno-experiencias-internacionais-e-busca-pelo-nacional-construiram-o-modernismo-brasileiro-cienc-cult-online-2022-vol-74-n-2-citado-2023-09-01\"><span style=\"color: #808080;\"><em>BUENO, Chris.<span class=\"article-title\">\u00a0O mundo \u00e9 moderno. Experi\u00eancias internacionais e busca pelo nacional constru\u00edram o modernismo brasileiro.<\/span>\u00a0Cienc. Cult.\u00a0[online]. 2022, vol.74, n.2 [citado\u00a0 2023-09-01], pp.1-5. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/cienciaecultura.bvs.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252022000200019&amp;lng=pt&amp;nrm=iso&gt;. ISSN 0009-6725.\u00a0 http:\/\/dx.doi.org\/10.5935\/2317-6660.20220034.<\/em><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cO que eu penso da Semana de 22? Foi alguma coisa de&hellip;\n","protected":false},"author":11,"featured_media":2353,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2348"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2348"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2348\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4670,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2348\/revisions\/4670"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2353"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2348"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2348"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2348"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}