{"id":2643,"date":"2022-08-22T14:53:07","date_gmt":"2022-08-22T14:53:07","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=2643"},"modified":"2022-08-23T10:20:46","modified_gmt":"2022-08-23T10:20:46","slug":"disputas-sobre-a-natureza-da-cauda-dos-cometas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=2643","title":{"rendered":"Disputas sobre a natureza da cauda dos cometas"},"content":{"rendered":"<p>Em 1572 Tycho Brahe flagou numa tarde, ainda \u00e0 luz do dia, uma estrela <em>supernova<\/em> que surgiu de repente numa posi\u00e7\u00e3o celeste em que nada havia antes. Assim Brahe derrubou um ensinamento aristot\u00e9lico bimilenar, que os objetos supralunares eram feitos de mat\u00e9ria incorrupt\u00edvel (\u00c9ter) e que as estrelas eram eternas. Os corpos sublunares, inclusive os da Terra, eram corrupt\u00edveis, feitos dos quatro elementos Terra, \u00c1gua, Ar e Fogo.<\/p>\n<p>Em 1577 surgiu um cometa e observando-o, Brahe estabeleceu de forma irrefut\u00e1vel que esse cometa era supralunar. Estava al\u00e9m da \u00f3rbita de V\u00eanus. A essa conclus\u00e3o Brahe chegou por medi\u00e7\u00f5es de <em>paralaxe<\/em> (m\u00e9todo da triangula\u00e7\u00e3o aplicada a astros). Assim ele derrubou um outro ensinamento de Arist\u00f3teles, que cometas eram exala\u00e7\u00f5es terrestres suspensas na atmosfera, portanto objetos meteorol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>Arist\u00f3teles tinha ensinado tamb\u00e9m que cada planeta descrevia sua \u00f3rbita na sua esfera cristalina. Mas, analisando a \u00f3rbita do cometa de 1577, Brahe concluiu que ela ia al\u00e9m da \u00f3rbita de V\u00eanus, portanto deveria cruzar v\u00e1rias esferas cristalinas, o que ele n\u00e3o podia admitir. Do contr\u00e1rio, as esferas se quebrariam! Ca\u00eda tamb\u00e9m por terra a ideia de esferas cristalinas para cada planeta. Isso suscitou descr\u00e9dito tamb\u00e9m na separa\u00e7\u00e3o entre mundo sublunar e supralunar. Por tudo isso, houve influ\u00eancia importante dos estudos de cometas naquela \u00e9poca, para a aceita\u00e7\u00e3o da Teoria Helioc\u00eantrica de Cop\u00e9rnico. Este importante nexo \u00e9 historicamente ignorado.[1]\n<p>Voltando aos cometas, o pol\u00edmata italiano Girolamo Cardano (1501-1576), matem\u00e1tico interessado tamb\u00e9m em Astronomia, impressionado com o experimento de \u00f3ptica em que um feixe de luz, ap\u00f3s passar por uma lente (ou por uma garrafa com \u00e1gua) converge num foco e depois diverge e se faz vis\u00edvel no escuro, pela reflex\u00e3o em min\u00fasculas part\u00edculas de poeira e at\u00e9 mesmo em mol\u00e9culas, prop\u00f4s que tal mecanismo produzia a cauda dos cometas. Haveria um n\u00facleo aproximadamente esf\u00e9rico que seria atravessado pelos raios solares. Nessa explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o haveria na cauda, mat\u00e9ria origin\u00e1ria do cometa. As part\u00edculas de poeira e mol\u00e9culas acima mencionadas seriam preexistentes no meio.<\/p>\n<p>Essa hip\u00f3tese foi endossada por algum tempo por grandes nomes da \u00e9poca como Tycho Brahe, Kepler e Galileu.[2]\u00a0Por\u00e9m, Kepler foi um dos primeiros a perceber a impossibilidade dessa explica\u00e7\u00e3o, pois as caudas frequentemente apresentavam curvatura e, em 1607 se convenceu de que as caudas eram constitu\u00eddas de mat\u00e9ria do pr\u00f3prio cometa que sofria repuls\u00e3o pela luz solar (correto na compreens\u00e3o atual, para pequenos gr\u00e3os de poeira que formam a cauda de poeira, mas n\u00e3o para \u00e1tomos e mol\u00e9culas <em>ionizados<\/em>, isto \u00e9, n\u00e3o eletricamente neutros, que formam a cauda gasosa). Mas \u00e9 dif\u00edcil crer que Newton tivesse mencionado a observa\u00e7\u00e3o de Stansel em <em>Principia<\/em> para refutar a tese da refra\u00e7\u00e3o proposta por Cardano, que n\u00e3o era jesu\u00edta. Stansel, por sua vez, n\u00e3o defendeu tal tese e publicou que a cauda dos cometas era constitu\u00edda da mat\u00e9ria que comp\u00f5e os planetas, mat\u00e9ria que ele explicita como sendo corrupt\u00edvel, e que ela se torna brilhante, n\u00e3o por luz pr\u00f3pria, mas pela ilumina\u00e7\u00e3o do Sol.[3]\n<hr \/>\n<h5 id=\"notas\">Notas<\/h5>\n<h6 id=\"1-fernandes-mario-simoes-a-companhia-de-jesus-e-o-saber-astronomico-em-portugal-nos-seculos-xvi-e-xvii-as-teorias-dos-cometas-tese-de-doutorado-faculdade-de-letras-universidade-de-lisboa-2017\">[1] Fernandes, M\u00e1rio Sim\u00f5es, A Companhia de Jesus e o Saber Astron\u00f3mico em Portugal nos S\u00e9culos XVI e XVII. As Teorias dos Cometas, Tese de Doutorado, Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa, 2017.<\/h6>\n<h6 id=\"http-hdl-handle-net-10451-28718\">http:\/\/hdl.handle.net\/10451\/28718<\/h6>\n<h6 id=\"2-arago-francois-a-popular-treatise-on-comets-reprinted-from-popular-astronomy-london-longman-green-and-co-1861\">[2] Arago, Fran\u00e7ois, <em>A Popular Treatise on Comets<\/em>. Reprinted from Popular Astronomy, London, Longman, Green, and Co., 1861.<\/h6>\n<h6 id=\"3-camenietzki-carlos-ziller-o-cometa-o-pregador-e-o-cientista-antonio-vieira-e-valentin-stansel-observam-o-ceu-da-bahia-no-seculo-xvii-revista-da-sbhc-14-37-92-1995\">[3] Camenietzki, Carlos Ziller, O cometa, o pregador e o cientista. Antonio Vieira e Valentin Stansel observam o c\u00e9u da Bahia no s\u00e9culo XVII, <em>Revista da SBHC<\/em>, 14, 37-92, 1995.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em 1572 Tycho Brahe flagou numa tarde, ainda \u00e0 luz do dia,&hellip;\n","protected":false},"author":44,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[144],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2643"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/44"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2643"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2643\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2644,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2643\/revisions\/2644"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2643"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2643"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2643"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}