{"id":2645,"date":"2022-08-22T14:54:53","date_gmt":"2022-08-22T14:54:53","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=2645"},"modified":"2022-10-07T11:27:29","modified_gmt":"2022-10-07T11:27:29","slug":"p-antonio-vieira-1608-1697-e-a-defesa-da-liberdade-dos-indigenas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=2645","title":{"rendered":"P. Ant\u00f3nio Vieira (1608-1697) e a defesa da liberdade dos ind\u00edgenas"},"content":{"rendered":"<p>O portugu\u00eas Ant\u00f3nio Vieira veio menino para o Brasil. Foi ordenado na Bahia em 1634 e, como pregador na igreja de Nossa Senhora da Ajuda, em Salvador, defendeu a col\u00f4nia, a expuls\u00e3o dos holandeses da Bahia e de Pernambuco. Em 1641, ao fim da Uni\u00e3o Ib\u00e9rica, retornou a Lisboa. Nessa volta, D. Jo\u00e3o IV restaurava o reino de Portugal em nome da casa de Bragan\u00e7a. Vieira ficou muito pr\u00f3ximo do rei tornando-se seu conselheiro, pregador r\u00e9gio e representante de Portugal em quest\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas em Paris, Amsterd\u00e3 e Roma. Na Restaura\u00e7\u00e3o Pernambucana foi contemporizador, propondo ao rei que entregasse Pernambuco aos holandeses para trazer paz \u00e0 col\u00f4nia. N\u00e3o foi isso que aconteceu, mas no fim das negocia\u00e7\u00f5es a coroa portuguesa pagou uma indeniza\u00e7\u00e3o proposta pelos holandeses, pelo calote dos senhores de engenho de Pernambuco. D. Jo\u00e3o IV tamb\u00e9m ouvia queixas de que os bandeirantes estavam escravizando os ind\u00edgenas, e que estes tamb\u00e9m eram escravizados pelos colonizadores do Par\u00e1 e Maranh\u00e3o. A pedido de Vieira, em 1655 o rei concedeu aos jesu\u00edtas o direito de serem os administradores temporais dos aldeamentos.<\/p>\n<p>De volta ao Brasil, Vieira trabalhou nas miss\u00f5es no Par\u00e1 e no Maranh\u00e3o entre 1653 e 1661. Nessa \u00e9poca os padres jesu\u00edtas tinham ganhado amplo controle sobre os trabalhadores nativos, com poder de determinar se estavam sendo escravizados, ou n\u00e3o. Tamb\u00e9m lhes cabia gerenciar o uso de trabalhadores ind\u00edgenas livres que viviam nos aldeamentos mission\u00e1rios para servirem os moradores.<\/p>\n<p>Diferentemente de outras regi\u00f5es da Am\u00e9rica portuguesa, o ent\u00e3o Estado do Maranh\u00e3o e Par\u00e1 se estabeleceu com base principalmente no uso de trabalhadores ind\u00edgenas. Os \u00edndios eram empregados tanto nas lavouras, como na extra\u00e7\u00e3o dos produtos da floresta, as drogas do sert\u00e3o. Por muito tempo, a principal for\u00e7a de trabalho na regi\u00e3o continuou sendo a m\u00e3o de obra ind\u00edgena escravizada pelos colonizadores.<\/p>\n<p>Atendendo ao desejo de D. Jo\u00e3o IV, Vieira lutou contra os colonos portugueses que desejavam escravizar \u00edndios no Maranh\u00e3o. Os jesu\u00edtas tinham um projeto de acultura\u00e7\u00e3o e controle dos ind\u00edgenas, executado atrav\u00e9s dos aldeamentos, que contrariava os interesses dos colonizadores. Mas, como as coisas estavam, os \u00edndios escravizados pelos colonizadores sentiam-se violentados; os colonizadores sem escravos ind\u00edgenas sentiam-se prejudicados porque tamb\u00e9m n\u00e3o recebiam, como os religiosos, os bens cedidos pelos reis, nem doa\u00e7\u00f5es ou heran\u00e7as legadas pelos fieis. No entanto, eram eles que administravam extensas fazendas de gado, planta\u00e7\u00f5es de algod\u00e3o, engenhos e participavam ativamente do com\u00e9rcio das drogas do sert\u00e3o, sobre cujas atividades, no regime do padroado, a coroa recolhia o d\u00edzimo.<\/p>\n<p>Pela revolta dos colonizadores, em 1661 Vieira foi expulso do Maranh\u00e3o com os companheiros da ordem. Vieira foi pessoalmente atacado porque, sendo pr\u00f3ximo de D. Jo\u00e3o IV, como vimos, foi um dos articuladores dessa pol\u00edtica indigenista adotada por esse monarca, que definiu as principais diretrizes em rela\u00e7\u00e3o aos \u00edndios do Maranh\u00e3o e Par\u00e1, que passaram a vigorar no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1650. Em dois meses, a revolta se espalhou para a vizinha capitania do Par\u00e1. A popula\u00e7\u00e3o de Bel\u00e9m se dirigiu ao col\u00e9gio jesu\u00edta de Santo Alexandre e deteve o padre Vieira que a\u00ed tinha vindo. Imediatamente enviado a S\u00e3o Lu\u00eds, da\u00ed foi enviado para Lisboa, de onde nunca mais voltaria ao Maranh\u00e3o e Par\u00e1.<\/p>\n<p>Em Lisboa, Vieira por sua vez defendeu a liberdade religiosa dos judeus e crist\u00e3os novos, numa \u00e9poca em que as pessoas suspeitas de heresia eram condenadas pela Inquisi\u00e7\u00e3o. Sem o benepl\u00e1cito de D. Afonso VI, rei na \u00e9poca, acabou sendo preso pela Inquisi\u00e7\u00e3o entre 1666 e 1667.<\/p>\n<p>Sendo anistiado em Lisboa, Vieira foi para Roma onde foi absolvido pelo papa em 1668. Retornando \u00e0 Bahia em 1681 j\u00e1 com problemas de sa\u00fade viveu recolhido dedicando-se a escrever seus Serm\u00f5es, falecendo em 1697 com 89 anos.<\/p>\n<p>Com a subida ao trono de D. Afonso VI em 1662, os jesu\u00edtas e, principalmente, o padre Vieira, ca\u00edram em descr\u00e9dito na corte portuguesa. Esta nova situa\u00e7\u00e3o ficou clara com o perd\u00e3o concedido em 1663 aos revoltosos do Maranh\u00e3o e Par\u00e1, e com a proibi\u00e7\u00e3o expl\u00edcita do retorno do padre Vieira \u00e0quela col\u00f4nia.[1] Em 1663 D. Afonso VI retirou dos jesu\u00edtas a administra\u00e7\u00e3o temporal dos povos nativos no Estado do Maranh\u00e3o. Os jesu\u00edtas foram expulsos do Maranh\u00e3o em 1684 na esteira da Revolta de Beckman (1684-1685) quando a revolta n\u00e3o era s\u00f3 pela quest\u00e3o indigenista, mas tamb\u00e9m pela cria\u00e7\u00e3o da monopolista Companhia Geral de Com\u00e9rcio do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, o estabelecimento de miss\u00f5es religiosas cat\u00f3licas no litoral norte da Amaz\u00f4nia Portuguesa era a solu\u00e7\u00e3o para conter tentativas de coopta\u00e7\u00e3o dos povos nativos pelos\u00a0calvinistas\u00a0franceses e reformistas\u00a0ingleses, holandeses e irlandeses que colocavam em perigo os interesses mercantis e pol\u00edticos dos portugueses na regi\u00e3o. Os jesu\u00edtas eram considerados h\u00e1beis para estabelecer alian\u00e7as militares com os povos nativos. Mas se o confronto dos jesu\u00edtas era antes s\u00f3 com os colonizadores portugueses que escravizavam os ind\u00edgenas, agora os mission\u00e1rios e os colonizadores portugueses eram colocados contra os invasores franceses.<\/p>\n<p>Por volta de 1680 havia tens\u00f5es entre os governos da Capitania do Gr\u00e3o-Par\u00e1 (Bel\u00e9m) e da Guiana Francesa (Caiena) pela manuten\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o de seus dom\u00ednios no Cabo do Norte, atual Amap\u00e1. O Cabo do Norte era aquela capitania doada em 1637 por Felipe IV da Espanha ao portugu\u00eas Bento Maciel Parente. Cumprindo determina\u00e7\u00e3o de Lu\u00eds XIV, o marqu\u00eas de Ferroles atacaria o Cabo do Norte em 1681. Em 1680, Pedro II (1648-1706) ainda pr\u00edncipe-regente, fez expedir uma carta r\u00e9gia determinando que os jesu\u00edtas fossem trabalhar no Cabo Norte. O rei n\u00e3o queria que os \u00edndios passassem para o lado dos franceses. Os jesu\u00edtas recuperaram a autoridade que tinham perdido em 1661 e, para viabilizar o plano do rei, eles ganharam tamb\u00e9m o\u00a0poder temporal\u00a0sobre os aldeamentos de povos nativos. Atendendo a um pedido do pr\u00edncipe regente, o padre Vieira que ainda estava em Portugal providenciou a vinda do padre Pfeil a essa regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O Regimento das Miss\u00f5es do Estado do Maranh\u00e3o e Gr\u00e3o-Par\u00e1 decretado por D. Pedro II em 1686 restaurou a autoridade temporal dos jesu\u00edtas para administrar os aldeamentos e permaneceu em vigor at\u00e9 1758. Esse ano o marqu\u00eas de Pombal introduz o <strong><span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=2691\">Diret\u00f3rio dos \u00cdndios<\/a><\/span><\/strong> e, no ano seguinte, ele <strong><span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=2698\">expulsaria os jesu\u00edtas de Portugal e todas as col\u00f4nias<\/a><\/span><\/strong>, de forma definitiva.<\/p>\n<hr \/>\n<h5 id=\"notas\">Notas<\/h5>\n<h6 id=\"1-chambouleyron-antonio-vieira-rafael-padres-fora-revista-de-historia-9-24-27-2013\">[1] Chambouleyron, Ant\u00f4nio Vieira Rafael, Padres fora!, <em>Revista de Hist\u00f3ria<\/em>, 9, 24-27, 2013.<\/h6>\n<h6 id=\"http-www-revistadehistoria-com-br-secao-capa-padresfora\"><a href=\"http:\/\/www.revistadehistoria.com.br\/secao\/capa\/padresfora\">http:\/\/www.revistadehistoria.com.br\/secao\/capa\/padresfora<\/a><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O portugu\u00eas Ant\u00f3nio Vieira veio menino para o Brasil. 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