{"id":2696,"date":"2022-08-22T19:59:53","date_gmt":"2022-08-22T19:59:53","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=2696"},"modified":"2022-08-23T10:15:34","modified_gmt":"2022-08-23T10:15:34","slug":"o-injusticado-p-ignacio-szentmartonyi-1718-1793","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=2696","title":{"rendered":"O injusti\u00e7ado P. Ign\u00e1cio Szentm\u00e1rtonyi (1718-1793)"},"content":{"rendered":"<p>Al\u00e9m da forma\u00e7\u00e3o religiosa, o jesu\u00edta croata Szentm\u00e1rtonyi recebeu conhecimentos em Matem\u00e1tica quando estudou em Viena e foi professor dessa disciplina em liceus dos jesu\u00edtas na Cro\u00e1cia. A pedido de D. Jos\u00e9 I teria ido a Lisboa para realizar no Brasil a miss\u00e3o cartogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>Quando Szentm\u00e1rtonyi partiu de Lisboa, o rei de Portugal D. Jos\u00e9 I o condecorou com o t\u00edtulo de matem\u00e1tico e astr\u00f4nomo real, prometendo remuner\u00e1-lo com um sal\u00e1rio regular para o seu trabalho cient\u00edfico no Brasil. Como recompensa especial teria direito a regressar \u00e0 sua p\u00e1tria uma vez que a tarefa fosse realizada. Ele e seu companheiro, o padre bolonh\u00eas Giovanni Angelo Brunelli, tamb\u00e9m astr\u00f4nomo, trouxeram os instrumentos mais modernos da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Tendo chegado a Bel\u00e9m em 1753, n\u00e3o tiveram outra escolha sen\u00e3o esperar cerca de dezoito meses at\u00e9 que a expedi\u00e7\u00e3o do governador Furtado partisse em dire\u00e7\u00e3o ao rio Negro. Szentm\u00e1rtonyi aproveitou o tempo entre 1753 e 1754 conhecendo o Baixo Amazonas medindo a longitude e a latitude de diferentes localidades, antes mesmo que a expedi\u00e7\u00e3o oficial tivesse come\u00e7ado. \u00c9 dele o estabelecimento da longitude de Bel\u00e9m e a diferen\u00e7a de longitude entre Bel\u00e9m, Macap\u00e1 e Mariu\u00e1 (atual Barcelos, no rio Negro), com base em observa\u00e7\u00e3o de eclipse lunar e de sat\u00e9lites de J\u00fapiter. Nessa \u00e9poca esse \u00faltimo m\u00e9todo j\u00e1 era bastante utilizado.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 medi\u00e7\u00e3o do tempo, o cron\u00f4metro n\u00e1utico H4 do relojoeiro ingl\u00eas John Harrison (1693-1776), com erro de apenas 0,2 s por dia, ainda estava por vir, mas Szentm\u00e1rtonyi e Brunelli utilizaram o m\u00e9todo de conserva\u00e7\u00e3o do tempo em que a hora local medida de dia com o Sol, era mantida para observa\u00e7\u00f5es astron\u00f4micas noturnas com rel\u00f3gio de p\u00eandulo cujo desvio era da ordem de 1 s por dia.<\/p>\n<p>Em 1754 Szenm\u00e1rtonyi fixou a longitude geogr\u00e1fica da localidade em que o rio Madeira des\u00e1gua no Amazonas e realizou a observa\u00e7\u00e3o de um eclipse lunar em Macap\u00e1, na embocadura do Amazonas, para determinar a longitude, antes de seguir na expedi\u00e7\u00e3o para o rio Negro.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 1754, antes da partida rumo ao rio Negro, um grande n\u00famero de soldados tinha se insurgido contra a expedi\u00e7\u00e3o, da forma como estava sendo organizada. N\u00e3o era necess\u00e1rio que participassem tantos soldados a fim de fixar fronteiras. O governador falseava propositalmente o objetivo da comiss\u00e3o, pois na Am\u00e9rica ningu\u00e9m tinha assumido nenhuma responsabilidade de levar a efeito o Tratado de Madri, nem havia qualquer indica\u00e7\u00e3o de que os espanhois se aproximavam perigosamente do rio Negro.<\/p>\n<p>O governador Furtado, que dirigia a expedi\u00e7\u00e3o com cerca de 1.000 soldados e \u00edndios, al\u00e9m de 20 canh\u00f5es, come\u00e7ou a subida ao rio Negro em outubro de 1754 e, somente no fim daquele ano alcan\u00e7ou o destino final, a aldeia de Mariu\u00e1. Instalou-se naquela cidade com seu ex\u00e9rcito, por quase dois anos, \u00e0 espera dos espanh\u00f3is que tinham sido retidos pelos \u00edndios no rio Orinoco e, de fato, nunca apareceram.[1]\u00a0\u00c9 que simetricamente seria formado tamb\u00e9m o lado espanhol da comiss\u00e3o demarcadora. Ambas deveriam se encontrar em Mariu\u00e1. N\u00e3o ocorrendo esse encontro, os trabalhos n\u00e3o foram realizados em conjunto. Por\u00e9m, gra\u00e7as a membros empenhados da comiss\u00e3o portuguesa, o trabalho de reconhecimento geogr\u00e1fico nas margens do rio Negro foi levado adiante, deixando uma produ\u00e7\u00e3o cartogr\u00e1fica apreci\u00e1vel.<\/p>\n<p>Szentm\u00e1rtonyi n\u00e3o se ocupou somente dos trabalhos cient\u00edficos, mas tamb\u00e9m se dedicou ao ensino da Matem\u00e1tica e Astronomia a alguns dos seus assistentes. Talvez a\u00ed tenha come\u00e7ado um estremecimento nas rela\u00e7\u00f5es pessoais entre ele e Furtado, o que ia progressivamente degenerando num conflito aberto. O problema come\u00e7ou mesmo quando um amigo de Szentm\u00e1rtonyi declarou estar ocorrendo uma epidemia numa aldeia da Amaz\u00f4nia, que estava provocando a morte de muitas pessoas. Szentm\u00e1rtonyi demorou alguns meses ocupando-se de todos os pacientes e ministrando os sacramentos aos que morriam. Mas Furtado viu nisso um ato de sabotagem de um membro da sua comiss\u00e3o, que punha em perigo a atua\u00e7\u00e3o da expedi\u00e7\u00e3o. Desde ent\u00e3o, n\u00e3o parou de denunciar o jesu\u00edta junto \u00e0s autoridades religiosas e governamentais (em especial junto ao Marqu\u00eas de Pombal, seu meio-irm\u00e3o). Da\u00ed em diante, Szentm\u00e1rtonyi foi abandonando cada vez mais o seu trabalho cient\u00edfico de matem\u00e1tico-astr\u00f4nomo para consagrar-se quase exclusivamente \u00e0s a\u00e7\u00f5es caritativas entre os \u00edndios. Interrompeu seus trabalhos de Astronomia na Amaz\u00f4nia a partir do ver\u00e3o 1756 por raz\u00f5es de sa\u00fade e por discordar da pol\u00edtica de Furtado. Retirou-se em uma resid\u00eancia de jesu\u00edtas em Ibyrajuba, perto de Bel\u00e9m.<\/p>\n<p>Enquanto isso, Furtado redobrou a vigil\u00e2ncia para obter argumentos que pudessem acusar Szenm\u00e1rtonyi junto aos oficiais. Mas a raz\u00e3o principal desse conflito foi atribu\u00edda aos m\u00e9todos empregados por Furtado com os membros da expedi\u00e7\u00e3o e mais particularmente com os \u00edndios. Ele era um autocrata doentiamente amedrontado com conspira\u00e7\u00f5es. Em 1755, j\u00e1 em Mariu\u00e1 tinha percebido que a expedi\u00e7\u00e3o fracassaria por causa dos \u00edndios. Para se defender, acusou os jesu\u00edtas de incitarem os \u00edndios a fugir e a levantarem-se contra os soldados.<\/p>\n<p>Mas no dia 18 de outubro de 1760, naquela resid\u00eancia dos jesu\u00edtas onde estava recolhido, Szentm\u00e1rtonyi foi condenado a ser expulso com os outros membros da Companhia de Jesus. Foram todos embarcados em um navio que seguiu para Portugal e que chegou a Lisboa em 2 de dezembro do mesmo ano. Szentm\u00e1rtonyi ficou preso nas pris\u00f5es do Forte de S\u00e3o Juli\u00e3o da Barra (foz do Tejo) e de Azeit\u00e3o (Set\u00fabal) durante 17 anos, at\u00e9 ser libertado depois da morte do rei D. Jos\u00e9 I e da queda de Pombal. Seus c\u00e1lculos matem\u00e1ticos e registros astron\u00f4micos foram confiscados. Acham-se dispersos nos arquivos portugueses. Ap\u00f3s ser libertado, seguiu para Viena em setembro de 1777, voltando \u00e0 Cro\u00e1cia em 1780. N\u00e3o se sabe ao certo do ano da sua morte. Apontam-se datas t\u00e3o d\u00edspares como 1793 ou 1806.<\/p>\n<p>Uma correspond\u00eancia do pr\u00f3prio Szentm\u00e1rtonyi ao Marqu\u00eas de Pombal, de tr\u00eas p\u00e1ginas, d\u00e1 conta das atividades cient\u00edficas que ele realizou no Brasil: observa\u00e7\u00f5es de latitudes e determina\u00e7\u00e3o astron\u00f4mica de longitudes; varia\u00e7\u00f5es da agulha magn\u00e9tica e medi\u00e7\u00f5es com term\u00f4metros e bar\u00f4metros.<\/p>\n<p>Foi com base nos c\u00e1lculos precisos realizados por Szentm\u00e1rtonyi, relativos \u00e0s longitudes e a latitudes geogr\u00e1ficas que foi elaborado um grande mapa que reconstituiu o percurso da expedi\u00e7\u00e3o desde Bel\u00e9m at\u00e9 Mariu\u00e1. De acordo com os especialistas, trata-se de um dos melhores desempenhos da cartografia daquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>Certamente pela compet\u00eancia como cart\u00f3grafo, Szentm\u00e1rtonyi tinha sido designado para a demarca\u00e7\u00e3o do trecho de maior responsabilidade na Amaz\u00f4nia, ao longo dos rios Guapor\u00e9 e Madeira.[2]\n<hr \/>\n<h5 id=\"notas\">Notas<\/h5>\n<h6 id=\"1-rodrigues-luiz-fernando-medeiros-o-matematico-e-astronomo-jesuita-ignacije-szentmartonyi-e-o-tratado-de-limites-no-norte-do-brasil-in-anais-do-iv-encontro-internacional-de-historia-colonial-je\">[1] Rodrigues, Luiz Fernando Medeiros, O matem\u00e1tico e astr\u00f4nomo jesu\u00edta Ignacije Szentm\u00e1rtonyi e o Tratado de Limites no Norte do Brasil, <em>in Anais do IV Encontro Internacional de Hist\u00f3ria Colonial. Jesu\u00edtas, expans\u00e3o planet\u00e1ria e formas de cultura<\/em>, Rafael Chambouleyron e Karl Heinz Arenz (Orgs.), Vol. 4, 164-178, Bel\u00e9m, Editora A\u00e7a\u00ed, 2014.<\/h6>\n<h6 id=\"file-c-users-oscar-documents-arquivos%202022-astronomianaindepend%c3%aanciadobrasil-anaisbel%c3%a9m_jesu%c3%adtas%20expans%c3%a3o%20planet%c3%a1ria%20e%20formas%20de%20culturavol4-pdf\">file:\/\/\/C:\/Users\/Oscar\/Documents\/ARQUIVOS%202022\/AstronomiaNaIndepend%C3%AAnciaDoBrasil\/AnaisBel%C3%A9m_Jesu%C3%ADtas,%20expans%C3%A3o%20planet%C3%A1ria%20e%20formas%20de%20culturaVol4.pdf<\/h6>\n<h6 id=\"2-moura-carlos-francisco-astronomia-na-amazonia-no-seculo-xviii-tratado-de-madri-os-astronomos-szentmartonyi-e-brunelli-instrumentos-astronomicos-e-livros-cientifico-rio-de-janeiro-real-gabi\">[2] Moura, Carlos Francisco, Astronomia na Amaz\u00f4nia no s\u00e9culo XVIII (Tratado de Madri): os astr\u00f4nomos Szentm\u00e1rtonyi e Brunelli, instrumentos astron\u00f4micos e livros cient\u00edfico, Rio de Janeiro, Real Gabinete Portugu\u00eas de Leitura, 2008.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Al\u00e9m da forma\u00e7\u00e3o religiosa, o jesu\u00edta croata Szentm\u00e1rtonyi recebeu conhecimentos em Matem\u00e1tica&hellip;\n","protected":false},"author":44,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[144],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2696"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/44"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2696"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2696\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2985,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2696\/revisions\/2985"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2696"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2696"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2696"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}