{"id":2706,"date":"2022-08-22T20:07:08","date_gmt":"2022-08-22T20:07:08","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=2706"},"modified":"2022-08-23T10:14:19","modified_gmt":"2022-08-23T10:14:19","slug":"determinacao-da-longitude-pela-distancia-lunar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=2706","title":{"rendered":"Determina\u00e7\u00e3o da longitude pela dist\u00e2ncia lunar"},"content":{"rendered":"<p>Na circunavega\u00e7\u00e3o de Magalh\u00e3es era importante saber a longitude. Parece que ele teria tentado determin\u00e1-la usando o <em>m\u00e9todo da dist\u00e2ncia lunar<\/em>. N\u00e3o que ele tivesse \u00eaxito, pois sabemos que lhe faltavam os recursos m\u00ednimos. A men\u00e7\u00e3o aqui vale pelo pioneirismo de Magalh\u00e3es, como tamb\u00e9m porque d\u00e1 oportunidade para elucidar no que consistia esse m\u00e9todo. Ele havia sido proposto poucos anos antes, em 1514 por Johann Werner (1468-1522), um matem\u00e1tico de Nurembergue e tamb\u00e9m pelo astr\u00f4nomo e navegador portugu\u00eas Rui Falero (1455-1523), que tinha ajudado Magalh\u00e3es a preparar sua circunavega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno astron\u00f4mico envolvido neste m\u00e9todo \u00e9 o movimento da Lua em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s estrelas de fundo. Sem um rigor aqui desnecess\u00e1rio, estrelas de fundo s\u00e3o as estrelas noturnas que, pelas grandes dist\u00e2ncias em que se encontram, podem ser consideradas fixas. Grandes dist\u00e2ncias s\u00e3o aquelas bem maiores que as dos nossos deslocamentos naturais. O maior dos nossos deslocamentos naturais numa escala de tempo relevante para as nossas observa\u00e7\u00f5es \u00e9 o do movimento orbital da Terra em volta do Sol, que nos leva de um ponto dessa \u00f3rbita ao ponto diametralmente oposto em um ano. A dist\u00e2ncia entre esses dois pontos \u00e9 duas vezes a dist\u00e2ncia da Terra ao Sol. Ora, mesmo a estrela mais pr\u00f3xima se encontra a mais de 130 mil vezes essa dist\u00e2ncia. Nessas condi\u00e7\u00f5es, os movimentos das estrelas noturnas tornam-se praticamente impercept\u00edveis e, numa primeira aproxima\u00e7\u00e3o podemos dizer que s\u00e3o fixas. \u00c9 o que explica a quase imutabilidade do padr\u00e3o das constela\u00e7\u00f5es em escalas de tempo milenares. Ent\u00e3o as estrelas de fundo atuam como referencial fixo em que o movimento da Lua, um objeto bastante pr\u00f3ximo em termos astron\u00f4micos, pode ser facilmente percebido. Dando voltas ao redor da Terra, pois \u00e9 seu sat\u00e9lite natural, a Lua d\u00e1 uma volta de 360\u00ba na esfera celeste em 27,3 dias, per\u00edodo esse chamado <em>m\u00eas sideral<\/em>, que difere do m\u00eas das fases da Lua, ou <em>m\u00eas sin\u00f3dico<\/em> de 29,5 dias. Trata-se de um deslocamento r\u00e1pido entre as estrelas fixas, de cerca de 0,5\u00ba\/h (aproximadamente o di\u00e2metro da Lua em 1 h).<\/p>\n<p>Na observa\u00e7\u00e3o deste fen\u00f4meno, um evento instant\u00e2neo \u00e9, por exemplo, quando a dist\u00e2ncia de uma estrela espec\u00edfica at\u00e9 o centro do disco lunar tem um valor espec\u00edfico. Atrav\u00e9s de bons c\u00e1lculos de efem\u00e9rides a data e o hor\u00e1rio desse evento podem ser preditos com anteced\u00eancia para o local de refer\u00eancia, por exemplo Greenwich que \u00e9 origem convencional atual para a contagem da longitude. Essas efem\u00e9rides s\u00e3o calculadas e publicadas em almanaques. Resta ao observador flagrar esse evento onde ele estiver e saber com precis\u00e3o o instante da ocorr\u00eancia em hora local. A diferen\u00e7a entre essa hora local e a hora local do ponto de refer\u00eancia pode ser facilmente convertida em longitude, considerando que a Terra gira com razo\u00e1vel regularidade e d\u00e1 uma volta de 360\u00ba a cada dia sideral, cuja dura\u00e7\u00e3o \u00e9 de aproximadamente 23h 56m, n\u00e3o a cada 24 h que \u00e9 a dura\u00e7\u00e3o do <em>dia solar m\u00e9dio<\/em>.<\/p>\n<p>As primeiras efem\u00e9rides remontam aos babil\u00f4nios, entre 1900 e 1600 AEC, e eram calculadas para fins astrol\u00f3gicos at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo 18. Mas os c\u00e1lculos, quanto mais no passado, dependiam de teorias e par\u00e2metros menos precisos, que s\u00f3 foram melhorando paulatinamente ao longo do tempo. No passado o maior gargalo do m\u00e9todo da dist\u00e2ncia lunar era dispor de efem\u00e9rides confi\u00e1veis. Sem elas, o pr\u00f3prio observador teria que fazer c\u00e1lculos tediosos e demorados. O movimento da Lua \u00e9 especialmente complexo. S\u00e3o centenas de varia\u00e7\u00f5es em seu movimento com diferentes amplitudes e per\u00edodos devido \u00e0 influ\u00eancia gravitacional de v\u00e1rios corpos do Sistema Solar. Seu plano orbital em redor da Terra n\u00e3o tem inclina\u00e7\u00e3o fixa, mas oscila. Por causa das mar\u00e9s na Terra, o movimento orbital da Lua \u00e9 acelerado e, consequentemente, ela se afasta secularmente do nosso Planeta.<\/p>\n<p>Boas efem\u00e9rides passaram a ser publicadas em almanaques de importantes observat\u00f3rios a partir de 1767. Melhores instrumentos, por exemplo, com oculares especialmente desenhadas para medir pequenas dist\u00e2ncias angulares tamb\u00e9m tornaram-se acess\u00edveis nessa \u00e9poca.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Na circunavega\u00e7\u00e3o de Magalh\u00e3es era importante saber a longitude. Parece que ele&hellip;\n","protected":false},"author":44,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[144],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2706"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/44"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2706"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2706\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2987,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2706\/revisions\/2987"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2706"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2706"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2706"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}