{"id":2945,"date":"2022-08-04T10:44:18","date_gmt":"2022-08-04T10:44:18","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=2945"},"modified":"2022-08-04T10:44:18","modified_gmt":"2022-08-04T10:44:18","slug":"guardando-a-memoria-e-escrevendo-a-historia-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=2945","title":{"rendered":"Guardando a mem\u00f3ria e escrevendo a hist\u00f3ria do Brasil"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"em-atividade-ininterrupta-ha-184-anos-o-instituto-historico-geografico-brasileiro-nasceu-para-pensar-o-pais-e-sua-unidade-nacional-no-pos-independencia\"><span style=\"color: #808080;\">Em atividade ininterrupta h\u00e1 184 anos, o Instituto Hist\u00f3rico Geogr\u00e1fico Brasileiro nasceu para pensar o Pa\u00eds e sua unidade nacional no p\u00f3s-Independ\u00eancia<\/span><\/h4>\n<p>Na cerim\u00f4nia de inaugura\u00e7\u00e3o do Instituto Hist\u00f3rico Geogr\u00e1fico Brasileiro (IHGB), em 1838, no Rio de Janeiro, o c\u00f4nego Janu\u00e1rio da Cunha Barbosa (1780-1846) lamentou em discurso que os estudos hist\u00f3ricos sobre o Brasil estivessem nas m\u00e3os de autores estrangeiros. Segundo o religioso, um dos idealizadores da institui\u00e7\u00e3o ao lado do marechal Raimundo da Cunha Mattos (1776-1839), era necess\u00e1rio \u201cpurificar\u201d essa produ\u00e7\u00e3o, repleta de tantas \u201cinexatid\u00f5es\u201d que deveriam ser \u201cimediatamente corrigidas\u201d, inclusive aquelas acerca dos \u201cmodernos fatos de nossa gloriosa Independ\u00eancia\u201d, ocorridos \u201c16 anos atr\u00e1s\u201d. Meses mais tarde, Eus\u00e9bio de Queir\u00f3s (1812-1868), outro integrante da institui\u00e7\u00e3o, que seria ministro da Justi\u00e7a do Imp\u00e9rio, prop\u00f4s que a dire\u00e7\u00e3o da casa convocasse n\u00e3o apenas Barbosa, mas tamb\u00e9m outros dois s\u00f3cios do instituto, o jornalista Joaquim Gon\u00e7alves Ledo (1781-1847) e o pol\u00edtico Jos\u00e9 Clemente Pereira (1787-1854), para formarem uma comiss\u00e3o que se debru\u00e7aria sobre o processo de Independ\u00eancia do Brasil. Entretanto, o trio jamais se reuniu com tal prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>\u201cO absente\u00edsmo desses tr\u00eas ativos participantes das jornadas de 1822 \u00e9 compreens\u00edvel. Como existiram v\u00e1rios projetos de Independ\u00eancia do Brasil, que geraram muitos conflitos entre os participantes do processo, a comiss\u00e3o precisaria lidar com assuntos espinhosos tanto para os s\u00f3cios do IHGB quanto para o governo imperial\u201d, diz a historiadora Lucia Maria Paschoal Guimar\u00e3es, professora aposentada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). \u201cEm 1838, quando o regime mon\u00e1rquico e a unidade do Brasil n\u00e3o estavam plenamente consolidados, parecia mais prudente n\u00e3o revolver fatos do passado recente que pudessem tumultuar ainda mais aquele cen\u00e1rio pol\u00edtico\u201d, prossegue Guimar\u00e3es, atual primeira secret\u00e1ria da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Escrever a hist\u00f3ria do Brasil era uma das metas do IHGB. Para tanto, os s\u00f3cios se propunham a reunir, publicar ou arquivar documentos relacionados \u00e0 trajet\u00f3ria da Col\u00f4nia que se transformara em Imp\u00e9rio. Outro objetivo era promover a abertura de filiais por todas as prov\u00edncias do territ\u00f3rio, o que logo come\u00e7ou a acontecer (<span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/guardioes-da-historia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ver\u00a0Pesquisa FAPESP\u00a0n\u00ba 219<\/a><\/span>), bem como manter interc\u00e2mbio cient\u00edfico com associa\u00e7\u00f5es estrangeiras similares. \u201cO IHGB nasceu para ajudar a construir a identidade nacional e a consolidar entre n\u00f3s o perfil do Estado-na\u00e7\u00e3o, tend\u00eancia ideol\u00f3gica predominante no mundo ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa [1789-1799]\u201d, conta o historiador Arno Wehling, professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que presidiu a institui\u00e7\u00e3o entre 1995 e 2019.<\/p>\n<p>Instituto Hist\u00f3rico de Paris, fundado em 1834, inspirou a cria\u00e7\u00e3o do IHGB. \u201cA rela\u00e7\u00e3o dos 27 fundadores mescla tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es de homens p\u00fablicos, cujo denominador comum era a proximidade com o Imp\u00e9rio\u201d, diz Guimar\u00e3es, autora do livro\u00a0Debaixo da imediata prote\u00e7\u00e3o imperial. Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico Brasileiro\u00a0(1838-1889)\u00a0(Annablume, 2011), resultado da tese de doutorado que defendeu na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). Era o caso do pr\u00f3prio c\u00f4nego Barbosa, primeiro secret\u00e1rio do IHGB. \u201cEle foi o primeiro pregador real, fun\u00e7\u00e3o religiosa tamb\u00e9m conhecida como sermonista, ainda na \u00e9poca de dom Jo\u00e3o VI [1767-1826]. Com Gon\u00e7alves Ledo, esteve \u00e0 frente do jornal\u00a0Rev\u00e9rbero Constitucional Fluminense\u00a0[1821-1822], que defendia ideias liberais e a perman\u00eancia da monarquia\u201d, conta Wehling, autor de livros como\u00a0De formigas, aranhas e abelhas \u2013 Reflex\u00f5es sobre o IHGB, editado pela pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o em 2016.<\/p>\n<h4 id=\"canone-literario\"><strong>C\u00e2none liter\u00e1rio<\/strong><\/h4>\n<p>Em 1840, com a declara\u00e7\u00e3o de sua maioridade, dom Pedro II (1825-1891) ordenou que a sede do instituto fosse transferida do Museu Nacional para o Pa\u00e7o Imperial, onde ficou at\u00e9 1849, quando ent\u00e3o se mudou para o edif\u00edcio vizinho, o Convento do Carmo. \u201cDom Pedro II foi patrono do IHGB por 50 anos, at\u00e9 ser deposto do cargo de imperador em 15 de novembro de 1889. Ele presidiu 506 sess\u00f5es e, entre outras coisas, financiou as atividades do instituto, o que inclu\u00eda viagens dos s\u00f3cios ao exterior em busca de documentos relativos ao Brasil\u201d, relata Wehling.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o dos s\u00f3cios nos prim\u00f3rdios do IHGB sinalizou o surgimento de uma nova especialidade intelectual no Brasil: a figura do historiador que organiza a narrativa do passado valendo-se de metodologia. \u201cO IHGB \u00e9 um marco da institucionaliza\u00e7\u00e3o da pesquisa e da escrita da hist\u00f3ria no Brasil. Os s\u00f3cios se propunham a fazer ci\u00eancia, mas em nenhum momento essa preocupa\u00e7\u00e3o deixava de ter uma dimens\u00e3o pol\u00edtica. Era a hist\u00f3ria oficial escrita por quem estava no poder\u201d, observa a historiadora Maria da Gloria de Oliveira, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).<\/p>\n<p>A\u00a0Revista IHGB, criada em 1839, era o escoadouro dessa produ\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 uma das publica\u00e7\u00f5es mais antigas em circula\u00e7\u00e3o no mundo\u201d, diz a historiadora Lucia Maria Bastos Pereira das Neves, da Uerj, e editora do peri\u00f3dico entre 2017 e 2021. A pauta era diversa: trazia artigos sobre o territ\u00f3rio nacional, acidentes geogr\u00e1ficos, rela\u00e7\u00f5es internacionais, entre outros assuntos. \u201cAlguns desses artigos eram assinados por escritores do romantismo, como Gon\u00e7alves Dias [1823-1864], membro do IHGB. Embora o vi\u00e9s fosse pol\u00edtico, hist\u00f3rico e geogr\u00e1fico, a publica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m contribuiu para a historiografia liter\u00e1ria\u201d, constata Ana Beatriz Demarchi Barel, da Universidade Estadual de Goi\u00e1s (UEG).<\/p>\n<p>Durante pesquisa de p\u00f3s-doutorado na Funda\u00e7\u00e3o Casa de Rui Barbosa (FCRB), a especialista em literatura brasileira analisou, entre as d\u00e9cadas de 1830 e 1850, dois peri\u00f3dicos: o do IHGB e\u00a0Nitheroy:\u00a0Revista Brasiliense, lan\u00e7ada em 1836. Depois de um semin\u00e1rio internacional na FCRB, em 2014, o estudo resultou no livro\u00a0Cultura e poder entre o Imp\u00e9rio e a Rep\u00fablica \u2013 Estudos sobre os imagin\u00e1rios brasileiros (1822-1930)\u00a0(Alameda, 2018). \u201cPara salvaguardar a mem\u00f3ria liter\u00e1ria do Brasil, a\u00a0Revista IHGB\u00a0estabeleceu um c\u00e2none liter\u00e1rio ao definir uma lista de autores que inclu\u00eda Greg\u00f3rio de Matos [1636-1696], padre Ant\u00f4nio Vieira [1608-1697] e Claudio Manuel da Costa [1729-1789]\u201d, explica.<\/p>\n<p>Isso acontecia por meio da se\u00e7\u00e3o \u201cBiographia dos brasileiros distinctos por letras, armas, virtudes, etc\u201d. \u201cA primeira gera\u00e7\u00e3o de s\u00f3cios incorporou a biografia ao projeto de escrita da hist\u00f3ria nacional: at\u00e9 1899 podem ser contabilizados 154 trabalhos sob a rubrica de biografia ou de apontamentos biogr\u00e1ficos na revista\u201d, informa Oliveira, da UFRRJ. \u201cO objetivo era compor um grande mosaico de figuras representativas da na\u00e7\u00e3o por meio de textos laudat\u00f3rios. A grande maioria dessas personagens \u00e9 do per\u00edodo colonial, pois os s\u00f3cios tinham como princ\u00edpio metodol\u00f3gico escrever com distanciamento hist\u00f3rico, mas tamb\u00e9m n\u00e3o queriam correr o risco de retratar figuras contempor\u00e2neas que pudessem desagradar ao Imp\u00e9rio.\u201d<\/p>\n<p>O olhar idealizado de autores rom\u00e2nticos sobre a quest\u00e3o ind\u00edgena, presente em obras como\u00a0O guarani\u00a0(1851), de Jos\u00e9 de Alencar (1829-1877), reverberava em estudos com ambi\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do IHGB, como aponta a historiadora da ci\u00eancia Kaori Kodama, da Casa de Oswaldo Cruz da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (COC-Fiocruz). \u201cOs povos ind\u00edgenas eram vistos como emblemas nacionais, um equivalente ao passado greco-romano para as na\u00e7\u00f5es europeias, muito embora seu exterm\u00ednio tivesse como causa a pr\u00f3pria coloniza\u00e7\u00e3o\u201d, diz Kodama, autora de\u00a0Os \u00edndios no Imp\u00e9rio do Brasil: A etnografia do IHGB entre as d\u00e9cadas de 1840 e 1860\u00a0(Fiocruz e Edusp, 2009), resultado de sua tese de doutorado, defendida na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). \u201cMas era uma vis\u00e3o amb\u00edgua, que entendia essas etnias em determinados momentos como pac\u00edficas e extintas e em outros como selvagens que precisavam ser aldeadas e catequizadas. Havia tamb\u00e9m a cren\u00e7a de que os ind\u00edgenas deveriam ser incorporados \u00e0 \u2018civiliza\u00e7\u00e3o\u2019 e assim desapareceriam para formar a grande na\u00e7\u00e3o brasileira.\u201d<\/p>\n<p>O conte\u00fado, de maneira geral, n\u00e3o podia escapar de controle. \u201cEm vez de uma junta de censores, como acontecia nas academias de letrados, existiam comiss\u00f5es no IHGB\u201d, observa a historiadora Isadora Tavares Maleval, da Universidade Federal Fluminense (UFF). Em 1847 um dos s\u00f3cios, Francisco Freire Allem\u00e3o e Cysneiro (1797-1874), m\u00e9dico de dom Pedro II, prop\u00f4s que a entidade criasse uma esp\u00e9cie de arca do sigilo. \u201cO objetivo era fazer um dep\u00f3sito tempor\u00e1rio para escritos que pudessem comprometer a tranquilidade do Imp\u00e9rio, mas a coisa n\u00e3o foi adiante\u201d, diz Maleval, autora de tese sobre o tema, defendida na Uerj em 2015. \u201cEsse objeto em si nunca existiu, por\u00e9m o projeto de criar uma arca voltaria um pouco mais tarde, no final do s\u00e9culo XIX, durante a Rep\u00fablica, para resguardar a integridade do IHGB, visto como entidade monarquista. Mas, de novo, a ideia n\u00e3o vingou, pelo menos n\u00e3o enquanto um cofre-forte. De qualquer forma, o instituto n\u00e3o destru\u00eda esse material; deixava guardado de maneira reservada para os historiadores do futuro.\u201d<\/p>\n<h4 id=\"acervo-incontornavel\"><strong>Acervo incontorn\u00e1vel<\/strong><\/h4>\n<p>Esses documentos podem ser encontrados hoje no IHGB que, ao longo do tempo, amealhou um acervo com milhares de itens distribu\u00eddos entre obras de arte, livros e impressos, documentos manuscritos, cartografia, fotografia, entre outros g\u00eaneros. No museu, com cerca de 7 mil pe\u00e7as, est\u00e1 um cr\u00e2nio pr\u00e9-hist\u00f3rico, encontrado em Lagoa Santa (MG) durante explora\u00e7\u00f5es em cavernas realizadas entre 1835 e 1845 pelo naturalista dinamarqu\u00eas Peter Lund (1801-1880), que se tornou s\u00f3cio honor\u00e1rio do IHGB em 1839. No caso da biblioteca, com cerca de 70 mil t\u00edtulos, o grande doador foi dom Pedro II. No ex\u00edlio ele destinou \u00e0 institui\u00e7\u00e3o parte de sua biblioteca pessoal, que foi batizada de Teresa Cristina, mulher do monarca. Antes dessa doa\u00e7\u00e3o, ele adquiriu para o IHGB a biblioteca americana com mais de 400 volumes do naturalista alem\u00e3o Karl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868), tamb\u00e9m s\u00f3cio do instituto. Al\u00e9m disso, o arquivo da institui\u00e7\u00e3o re\u00fane documentos hist\u00f3ricos significativos. \u201c\u00c9 um acervo rico, variado e incontorn\u00e1vel para quem faz pesquisa hist\u00f3rica\u201d, comenta Lucia Bastos, s\u00f3cia titular do IHGB desde 2018. \u201cH\u00e1 panfletos pol\u00edticos da \u00e9poca da Independ\u00eancia que s\u00f3 se encontram no acervo do IHGB, bem como documentos sobre o tr\u00e1fico de escravizados entre Angola e Brasil\u201d, exemplifica.<\/p>\n<p>Embora o IHGB seja uma institui\u00e7\u00e3o particular, seu acervo pode ser consultado de forma gratuita. Como apenas 5% est\u00e1 digitalizado, as consultas costumam ser presenciais. Entretanto, em virtude da pandemia de Covid-19, h\u00e1 mais de dois anos as visitas est\u00e3o suspensas. A pandemia tamb\u00e9m contribuiu para agravar a sa\u00fade financeira da institui\u00e7\u00e3o, que vinha enfrentando dificuldades de caixa desde 2019. \u201cO IHGB vive praticamente de seu patrim\u00f4nio imobili\u00e1rio\u201d, diz o historiador Paulo Knauss, professor da UFF e vice-presidente do instituto, referindo-se \u00e0 atual sede da institui\u00e7\u00e3o, um pr\u00e9dio de 12 andares situado no centro carioca, cuja constru\u00e7\u00e3o se arrastou entre as d\u00e9cadas de 1950 e 1970. Inaugurado em 1972, o edif\u00edcio foi finalizado gra\u00e7as a empr\u00e9stimo da Caixa Econ\u00f4mica Federal, obtido com apoio do general Em\u00edlio Garrastazu M\u00e9dici (1905-1985), terceiro presidente da ditadura militar (1964-1985). Desde ent\u00e3o, o IHGB ocupa quatro pavimentos e aluga o restante. \u201cCom a opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato e a crise da Petrobr\u00e1s, perdemos inquilinos. Depois veio a pandemia que esvaziou os escrit\u00f3rios com o\u00a0home-office. Sem contar a degrada\u00e7\u00e3o do centro do Rio, que vem se aprofundando nos \u00faltimos anos, e o atual desmantelamento da pol\u00edtica cultural, que penaliza institui\u00e7\u00f5es como a nossa\u201d, conta Knauss.<\/p>\n<p>No momento, o IHGB conta com \u00a0a contribui\u00e7\u00e3o regular dos s\u00f3cios para complementar os custos de manuten\u00e7\u00e3o do pr\u00e9dio e para pagar os sal\u00e1rios de 12 funcion\u00e1rios \u2013 antes da pandemia eram \u00a0cerca de 20. A \u00faltima edi\u00e7\u00e3o da revista, prevista para o in\u00edcio deste ano, ainda n\u00e3o foi publicada. Segundo o atual editor, Gustavo Siqueira, coordenador do programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da Faculdade de Direito da Uerj, o atraso se deve \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o do Open Journal System (OJS), novo sistema de gest\u00e3o on-line da publica\u00e7\u00e3o \u2013 todas as 487 edi\u00e7\u00f5es anteriores est\u00e3o dispon\u00edveis no site do IHGB. Em 2020 um\u00a0crowdfunding\u00a0organizado pela ent\u00e3o editora Lucia Bastos conseguiu levantar R$ 25 mil. Foram esses recursos que custearam as edi\u00e7\u00f5es daquele ano e do seguinte. \u201cA grande maioria que colaborou n\u00e3o era s\u00f3cia do IHGB\u201d, recorda Bastos.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata da primeira crise financeira sofrida pela institui\u00e7\u00e3o, em atividade ininterrupta h\u00e1 184 anos. O IHGB foi muito afetado, em seus cofres e prest\u00edgio, pelo fim da monarquia, analisa a historiadora Angela de Castro Gomes no livro\u00a0A Rep\u00fablica, a hist\u00f3ria e o IHGB\u00a0(Fino Tra\u00e7o, 2009). Embora \u201cintegrado por muitas personalidades francamente cr\u00edticas \u00e0 Rep\u00fablica, quando n\u00e3o \u2018monarquistas\u2019 militantes, o IHGB entendeu, com alguma rapidez, que precisaria se adaptar a esse novo tempo, partindo para uma recomposi\u00e7\u00e3o, tanto organizacional quanto acad\u00eamica de sua pr\u00e1tica e de seu discurso\u201d, escreve a historiadora. Esse processo de recupera\u00e7\u00e3o ganhou f\u00f4lego entre 1907 e 1912 quando Jos\u00e9 Maria da Silva Paranhos, o Bar\u00e3o do Rio Branco (1845-1912), ent\u00e3o ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, presidiu a institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h4 id=\"mudanca-de-perfil\"><strong>Mudan\u00e7a de perfil<\/strong><\/h4>\n<p>Nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas o perfil dos s\u00f3cios do IHGB vem mudando gra\u00e7as a uma progressiva aproxima\u00e7\u00e3o com a academia. \u201cN\u00e3o era uma rela\u00e7\u00e3o pac\u00edfica. O surgimento no Brasil de cursos universit\u00e1rios de hist\u00f3ria a partir da d\u00e9cada de 1930, com a USP, e, mais tarde, na d\u00e9cada de 1970, com os cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, tiraram o protagonismo do IHGB\u201d, diz Wehling. Hoje, de acordo com Guimar\u00e3es, a maioria dos s\u00f3cios \u00e9 de historiadores ligados \u00e0s universidades p\u00fablicas. \u201cMas o IHGB est\u00e1 aberto para outras vertentes do conhecimento\u201d, afirma. H\u00e1 tamb\u00e9m, diz, diplomatas, engenheiros, m\u00e9dicos, militares e advogados, caso de Nei Lopes, pesquisador da cultura afro-brasileira\u00a0<a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/nei-braz-lopes-o-dicionarista-heterodoxo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">(ver\u00a0Pesquisa FAPESP\u00a0n\u00b0 275)<\/a>. Essa mudan\u00e7a de perfil reflete-se na\u00a0Revista IHGB, cuja periodicidade \u00e9 trimestral. \u201cAo contr\u00e1rio do que acontecia no passado, hoje a revista publica, a cada edi\u00e7\u00e3o, apenas dois artigos de s\u00f3cios, previamente submetidos \u00e0 an\u00e1lise de pares. Os pesquisadores precisam ser doutores, embora sejam aceitos textos de mestrandos, desde que assinados com o orientador\u201d, conta Lucia Bastos. O que n\u00e3o muda \u00e9 a forma de ingressar no IHGB: com apresenta\u00e7\u00e3o de candidatura e elei\u00e7\u00e3o pela assembleia de s\u00f3cios titulares, como acontece na Academia Brasileira de Letras. \u201cMas, se antes era preciso ser amigo de dom Pedro II, hoje o crit\u00e9rio \u00e9 muito mais acad\u00eamico\u201d, afirma Guimar\u00e3es.<\/p>\n<p><span style=\"color: #800000;\"><em><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/guardando-a-memoria-e-escrevendo-a-historia-do-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pesquisa Fapesp<\/a><\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-acervo-ihgb\">Capa: Acervo IHGB<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em atividade ininterrupta h\u00e1 184 anos, o Instituto Hist\u00f3rico Geogr\u00e1fico Brasileiro nasceu&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":2946,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2945"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2945"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2945\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2947,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2945\/revisions\/2947"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2946"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2945"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2945"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2945"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}