{"id":3105,"date":"2022-09-19T08:00:03","date_gmt":"2022-09-19T08:00:03","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=3105"},"modified":"2023-09-01T10:36:23","modified_gmt":"2023-09-01T10:36:23","slug":"as-contribuicoes-dos-povos-indigenas-para-o-desenvolvimento-da-ciencia-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=3105","title":{"rendered":"As contribui\u00e7\u00f5es dos povos ind\u00edgenas para o desenvolvimento da ci\u00eancia no Brasil"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"os-povos-originarios-colaboram-de-diversas-formas-com-a-sociedade-brasileira-desde-a-chegada-dos-portugueses-ate-os-dias-de-hoje\"><span style=\"color: #808080;\">Os povos origin\u00e1rios colaboram de diversas formas com a sociedade brasileira desde a chegada dos portugueses at\u00e9 os dias de hoje.<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 id=\"introducao\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>No territ\u00f3rio hoje conhecido como Brasil estima-se que viviam mais de 12 milh\u00f5es de ind\u00edgenas, de mais de 1600 povos ou etnias e mais de 1400 l\u00ednguas faladas. S\u00e3o sociedades aut\u00f3ctones das Am\u00e9ricas que desenvolveram e continuam desenvolvendo civiliza\u00e7\u00f5es complexas, aut\u00f4nomas e altamente sustent\u00e1veis, cujas hist\u00f3rias n\u00e3o acabaram, porque continuam vivas e cada vez mais enraizadas na sociedade de hoje.<\/p>\n<p>As identidades e culturas ind\u00edgenas t\u00eam conservado suas singularidades em meio ao mundo globalizado, sem isolamento. Conservam o papel socializador e educador da fam\u00edlia, da comunidade, do povo, dos anci\u00e3os. Valorizam, transmitem e aplicam suas sabedorias e valores ancestrais, respeitando a natureza. As culturas ind\u00edgenas tamb\u00e9m expressam os grandes valores universais. Nas solenidades das festas e dos rituais, no refinamento e beleza das vestimentas, na pintura corporal, na educa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria dos filhos, na concep\u00e7\u00e3o sagrada do territ\u00f3rio, da natureza e do cosmos, elas manifestam a consci\u00eancia ancestral, hist\u00f3rica, moral, est\u00e9tica, \u00e9tica, religiosa e social. A diversidade de vis\u00f5es de mundo e dos modos de organiza\u00e7\u00e3o da vida s\u00e3o transmitidos de pais para filhos e de gera\u00e7\u00e3o para gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Da perspectiva dos povos origin\u00e1rios da Am\u00e9rica, a hist\u00f3ria contada oficialmente sobre os 522 anos de Brasil est\u00e1 baseada em muitas inverdades criadas pelos colonizadores para atender seus interesses geopol\u00edticos e de acordo com suas cosmovis\u00f5es. Para os povos origin\u00e1rios, o que aconteceu em 22 de abril de 1500 na regi\u00e3o de Porto Seguro na Bahia foi uma invas\u00e3o portuguesa aos seus territ\u00f3rios, seguido de declara\u00e7\u00e3o de guerra com fins de exterm\u00ednio que ainda n\u00e3o acabou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"para-os-povos-originarios-o-que-aconteceu-em-22-de-abril-de-1500-na-regiao-de-porto-seguro-na-bahia-foi-uma-invasao-portuguesa-aos-seus-territorios-seguido-de-declaracao-de-guerra-com-fins\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\">\u201cPara os povos origin\u00e1rios, o que aconteceu em 22 de abril de 1500 na regi\u00e3o de Porto Seguro na Bahia foi uma invas\u00e3o portuguesa aos seus territ\u00f3rios, seguido de declara\u00e7\u00e3o de guerra com fins de exterm\u00ednio que ainda n\u00e3o acabou.\u201d<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando Pedro \u00c1lvares Cabral desembarcou nas Terras dos Tupi e dos Guarani, estes estavam habitando o litoral e se beneficiando de um nicho ecol\u00f3gico abundante de peixes, tartarugas, moluscos, crust\u00e1ceos e sal, prote\u00ednas imprescind\u00edveis para a alimenta\u00e7\u00e3o. Em 1500, os Tupi ocupavam uma parte importante da zona costeira compreendida atualmente entre o Cear\u00e1 e a Cananeia (S\u00e3o Paulo) e os Guarani dominavam a faixa litor\u00e2nea entre a ilha de Cananeia e a Lagoa dos Patos no Rio Grande do Sul, al\u00e9m de importantes regi\u00f5es no interior [1].<\/p>\n<p>A necessidade de encontrar justificativas civilizat\u00f3rias, morais e religiosas para exterminar os nativos levou os colonizadores a instrumentalizarem fundamentos crist\u00e3os etnoc\u00eantricos, ora os desumanizando, ora inferiorizando suas culturas, l\u00ednguas e saberes, propagando ideias preconceituosas de pr\u00e1ticas que seriam b\u00e1rbaras e anticrist\u00e3s, tais como pag\u00e3os, antrop\u00f3fagos, canibais, degredados, degenerados e outras. Tais estere\u00f3tipos passaram a justificar a escravid\u00e3o, as \u201cguerras justas\u201d, os massacres, o genoc\u00eddio de milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>Com a Independ\u00eancia do Brasil em 1822, as elites iniciaram a constru\u00e7\u00e3o das bases de um Estado Nacional, marcado pelo nacionalismo e pela afirma\u00e7\u00e3o da soberania pol\u00edtica nacional. O ind\u00edgena, filho origin\u00e1rio da terra, tornou-se leg\u00edtimo representante simb\u00f3lico da nacionalidade, pelo menos no plano liter\u00e1rio rom\u00e2ntico. Eleito como s\u00edmbolo da nacionalidade, express\u00e3o do patriotismo, o ind\u00edgena foi representado na Literatura, nas Artes Pl\u00e1sticas, nos discursos pol\u00edticos e de intelectuais.[2] Cantados e exaltados, os ind\u00edgenas tiveram suas l\u00ednguas estudadas at\u00e9 pelo Imperador D. Pedro II. O pr\u00f3prio manto do Imperador era um trabalho ind\u00edgena, confeccionado com penas de papos de tucanos,[3] exaltando a bravura ind\u00edgena, a resist\u00eancia e a morte heroica.<\/p>\n<p>Nos s\u00e9culos XVIII e XIX duas imagens contradit\u00f3rias sobre os ind\u00edgenas\u00a0\u00a0 predominavam no imagin\u00e1rio da sociedade brasileira. Por um lado, uma imagem positiva e rom\u00e2ntica que considerava o ind\u00edgena como \u201cbom selvagem\u201d, s\u00edmbolo de pureza ou de ingenuidade e protetor da natureza, e, por outro lado, uma vis\u00e3o negativa que considerava o ind\u00edgena como \u201cmau selvagem\u201d, \u201catrasado\u201d, \u201cb\u00e1rbaro\u201d que deveria progredir aos padr\u00f5es da civiliza\u00e7\u00e3o europeia ou deveria ser eliminado.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-3106\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/CC-3-edicao-opiniao-As-Contribuic\u0327o\u0303es-dos-povos-indi\u0301genas-figura-1-300x194.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"323\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/CC-3-edicao-opiniao-As-Contribuic\u0327o\u0303es-dos-povos-indi\u0301genas-figura-1-300x194.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/CC-3-edicao-opiniao-As-Contribuic\u0327o\u0303es-dos-povos-indi\u0301genas-figura-1-1024x662.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/CC-3-edicao-opiniao-As-Contribuic\u0327o\u0303es-dos-povos-indi\u0301genas-figura-1-768x496.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/CC-3-edicao-opiniao-As-Contribuic\u0327o\u0303es-dos-povos-indi\u0301genas-figura-1-1536x993.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/CC-3-edicao-opiniao-As-Contribuic\u0327o\u0303es-dos-povos-indi\u0301genas-figura-1-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/CC-3-edicao-opiniao-As-Contribuic\u0327o\u0303es-dos-povos-indi\u0301genas-figura-1-800x517.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/CC-3-edicao-opiniao-As-Contribuic\u0327o\u0303es-dos-povos-indi\u0301genas-figura-1-1160x750.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/CC-3-edicao-opiniao-As-Contribuic\u0327o\u0303es-dos-povos-indi\u0301genas-figura-1.jpg 1691w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-1-as-contribuicoes-dos-povos-indigenas-a-sociedade-brasileira-tiveram-inicio-logo-apos-a-chegada-dos-portuguesesdesembarque-de-cabral-em-porto-seguro-por-oscar-pereira-da\"><strong>Figura 1. As contribui\u00e7\u00f5es dos povos ind\u00edgenas \u00e0 sociedade brasileira tiveram in\u00edcio logo ap\u00f3s a chegada dos portugueses<br \/>\n<\/strong>(\u201cDesembarque de Cabral em Porto Seguro\u201d, por Oscar Pereira da Silva, 1904. Acervo do Museu Hist\u00f3rico Nacional, Rio de Janeiro. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O modelo de pol\u00edtica indigenista no Brasil sofre desde sua origem profundas contradi\u00e7\u00f5es: enquanto se propunha a respeitar as terras e a cultura ind\u00edgena, agia buscando integrar e assimilar os ind\u00edgenas, transferindo e liberando seus territ\u00f3rios para coloniza\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo em que reprimia pr\u00e1ticas tradicionais, as l\u00ednguas ind\u00edgenas e impunha uma pedagogia racista que devorou saberes, culturas e valores ind\u00edgenas. Em 1973 foi criado o Estatuto do \u00cdndio atrav\u00e9s da Lei 6.001 que passou a regular a situa\u00e7\u00e3o jur\u00eddica dos ind\u00edgenas, reafirmando a ideologia civilizacionalista e assimilacionista. As pol\u00edticas adotadas pelo Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios (SPI) e pela Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai) foram fortemente marcadas pela ideia de incapacidade dos \u00edndios.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que o Estado reafirmava a incapacidade ind\u00edgena, surgiam tentativas de extin\u00e7\u00e3o dos \u00edndios para fins de apropria\u00e7\u00e3o de suas terras. O Estado brasileiro buscou v\u00e1rias artimanhas para perseguir este objetivo. Uma das mais conhecidas foi a tentativa de defini\u00e7\u00e3o de crit\u00e9rios de indianidade para estabelecer quem era \u00edndio e quem deveria deixar de ser \u00edndio atrav\u00e9s de um procedimento administrativo. Houve agentes p\u00fablicos e intelectuais que tentaram realizar exames de sangue para definirem o grau de acultura\u00e7\u00e3o ou integra\u00e7\u00e3o dos \u00edndios.<\/p>\n<p>As d\u00e9cadas de 1960 e 1970 ficaram marcadas pela amea\u00e7a eminente de desaparecimento dos povos ind\u00edgenas no Brasil, quando a popula\u00e7\u00e3o chegou a menos de 70 mil pessoas, dos mais de 12 milh\u00f5es encontrados pelos portugueses em 1500. O primeiro contato dos ind\u00edgenas com os europeus ocasionou imensa mortalidade por ser a barreira imunol\u00f3gica desfavor\u00e1vel aos \u00edndios. As epidemias trazidas e propagadas pelos europeus entre os nativos foram mortais, associadas \u00e0 fome nas populosas aldeias jesu\u00edticas.[4] Outros milhares de ind\u00edgenas foram dizimados pelas guerras. (Figura 1)<\/p>\n<p>A partir dos anos 1970 os povos ind\u00edgenas come\u00e7am a ser vistos por outra perspectiva, como sujeitos e protagonistas de suas hist\u00f3rias, destinos e direitos. Em 2000, dados do Censo Demogr\u00e1fico surpreenderam a todos, revelando uma popula\u00e7\u00e3o de 734.127 autodeclarados ind\u00edgenas, mais do que o dobro identificado em 1991, de 294.131.[5] Em 2020 a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena havia alcan\u00e7ado 1.100 mil pessoas. Mas quanto a isso, Carneiro da Cunha afirma que nunca se voltar\u00e1 \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de 1500, quando a densidade demogr\u00e1fica da v\u00e1rzea amaz\u00f4nica era compar\u00e1vel \u00e0 da pen\u00ednsula ib\u00e9rica: 14,6 habitantes por km\u00b2 na v\u00e1rzea amaz\u00f4nica [6] contra 17 habitantes por km\u00b2 na Espanha e Portugal.[7]\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-concepcao-desenvolvimentista-que-ve-os-indios-como-estorvo-empecilho-e-obstaculo-permanece-viva\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\">\u201cA concep\u00e7\u00e3o desenvolvimentista que v\u00ea os \u00edndios como estorvo, empecilho e obst\u00e1culo permanece viva.\u201d<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas a concep\u00e7\u00e3o desenvolvimentista que v\u00ea os \u00edndios como estorvo, empecilho e obst\u00e1culo permanece viva. Os argumentos praticamente s\u00e3o os mesmos: a necessidade de garantir o dom\u00ednio sobre as terras e suas riquezas e levar o progresso e a civiliza\u00e7\u00e3o aos povos ind\u00edgenas considerados sem civiliza\u00e7\u00e3o e sem cultura. Aqueles que resistem em abandonar suas terras ou que contrap\u00f5em aos interesses do governo devem ser removidos, porque os interesses da na\u00e7\u00e3o est\u00e3o acima de todos.[8]\n<p>Crescem amea\u00e7as institucionais no Congresso Nacional, por meio de projetos de leis denominados de \u201cpacote da morte\u201d. S\u00e3o dois projetos de leis, um que trata do Marco Temporal paras as demarca\u00e7\u00f5es de terras ind\u00edgenas e outro que trata da abertura de terras ind\u00edgenas para a explora\u00e7\u00e3o mineral. O marco temporal p\u00f5e em jogo o reconhecimento do mais fundamental dos direitos humanos dos povos ind\u00edgenas: o direito \u00e0 terra. De um lado, a chamada tese do Indigenato, uma tradi\u00e7\u00e3o legislativa que vem desde o per\u00edodo colonial, reconhece o direito dos povos ind\u00edgenas sobre suas terras como um direito origin\u00e1rio, ou seja, anterior ao pr\u00f3prio Estado. A Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988 segue essa tradi\u00e7\u00e3o e garante aos ind\u00edgenas \u201cos direitos origin\u00e1rios sobre as terras que tradicionalmente ocupam\u201d. Do outro lado, h\u00e1 uma proposta restritiva que pretende limitar os direitos dos povos ind\u00edgenas \u00e0s suas terras ao reinterpretar a Constitui\u00e7\u00e3o com base na tese do \u201cmarco temporal\u201d, afirmando que os povos ind\u00edgenas s\u00f3 teriam direito \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o das terras que estivessem sob suas posses no dia 05 de outubro de 1988 (dia da promulga\u00e7\u00e3o da atual Constitui\u00e7\u00e3o Federal), ou que naquela data estivessem sob disputa f\u00edsica ou judicial comprovada.<\/p>\n<p>Os povos ind\u00edgenas consideram a tese injusta e perversa, pois legaliza e legitima as viol\u00eancias a que foram submetidos at\u00e9 a promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988, em especial durante a ditadura militar e que suas hist\u00f3rias, vidas e exist\u00eancias n\u00e3o come\u00e7am em 1988. A tese ignora o fato que at\u00e9 1988 os povos ind\u00edgenas eram tutelados do Estado e n\u00e3o tinham autonomia para lutar juridicamente por seus direitos. O pr\u00f3prio Estado aplicou artimanhas de press\u00e3o, opress\u00e3o e viol\u00eancia para expulsar e deslocar povos ind\u00edgenas de suas terras tradicionais.<\/p>\n<p>O PL 191\/2020 visa regulamentar a explora\u00e7\u00e3o mineral, madeireira, h\u00eddrica e agropecu\u00e1ria em terras ind\u00edgenas. Atualmente, mesmo com a minera\u00e7\u00e3o proibida em terras ind\u00edgenas em muitas delas, h\u00e1 in\u00fameras invas\u00f5es de garimpeiros que praticam atividades de minera\u00e7\u00e3o de forma ilegal, violenta e criminosa, sob a omiss\u00e3o, coniv\u00eancia ou \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0mesmo apoio e incentivo explicito do governo.<\/p>\n<h3 id=\"as-contribuicoes-dos-povos-indigenas-a-sociedade-brasileira\">As contribui\u00e7\u00f5es dos povos ind\u00edgenas \u00e0 sociedade brasileira<\/h3>\n<p>As contribui\u00e7\u00f5es dos povos ind\u00edgenas \u00e0 sociedade brasileira tiveram in\u00edcio logo ap\u00f3s a chegada dos portugueses \u00e0s terras brasileiras. Os \u00edndios ensinaram as t\u00e9cnicas de sobreviv\u00eancia na selva e como lidar com v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es perigosas nas florestas ou como se orientar nas expedi\u00e7\u00f5es realizadas. Em todas as expedi\u00e7\u00f5es empreendidas pelos colonizadores estavam os nativos como guias e prestadores de servi\u00e7os, assim como aliados na expuls\u00e3o de outros invasores estrangeiros ou como m\u00e3o de obra nas frentes de expans\u00e3o agr\u00edcola ou extrativista.[9]\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"os-povos-indigenas-brasileiros-constituem-ainda-uma-riqueza-cultural-invejavel-para-muitos-paises-e-continentes-do-mundo-sao-305-povos-etnicos-falando-275-linguas\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\">\u201cOs povos ind\u00edgenas brasileiros constituem ainda uma riqueza cultural invej\u00e1vel para muitos pa\u00edses e continentes do mundo. S\u00e3o 305 povos \u00e9tnicos falando 275 l\u00ednguas.\u201d<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XVI os ind\u00edgenas j\u00e1 trocavam o pau-brasil, madeira corante valorizada na Europa, por mercadorias com os colonizadores portugueses. Milhares de toras foram transportadas para Portugal. Os ind\u00edgenas tornaram-se tamb\u00e9m a principal m\u00e3o de obra na edifica\u00e7\u00e3o de pr\u00e9dios e igrejas. Mesmo em meados do s\u00e9culo XVII, quando a m\u00e3o de obra negra j\u00e1 predominava nos engenhos, os ind\u00edgenas passaram \u00e0 pr\u00e1tica de cultivo de alimentos nos arredores dos engenhos.<\/p>\n<p>Hoje \u00e9 aceito oficialmente o fato que o povo brasileiro \u00e9 formado pela jun\u00e7\u00e3o de tr\u00eas ra\u00e7as: a ind\u00edgena, a branca e a negra. Mas n\u00e3o foi somente no aspecto biol\u00f3gico que os \u00edndios contribu\u00edram para a forma\u00e7\u00e3o do povo brasileiro, mas principalmente do ponto de vista cultural e epist\u00eamico, come\u00e7ando com a pr\u00f3pria l\u00edngua portuguesa, que acabou incorporando v\u00e1rias palavras, conceitos e express\u00f5es de l\u00ednguas ind\u00edgenas. H\u00e1 centenas de nomes de lugares (Igua\u00e7u, Itaquaquecetuba, Paranapanema), de cidades (Manaus, Curitiba, Cuiab\u00e1) de pessoas (Ubiratan, Tupinamb\u00e1, Raoni), de ruas e at\u00e9 de empresas (Avia\u00e7\u00e3o Xavante, Empresa Xingu).<\/p>\n<p>Os \u00edndios, atrav\u00e9s de sua forte liga\u00e7\u00e3o com a floresta, descobriram nela uma variedade de alimentos, como a mandioca (e suas varia\u00e7\u00f5es como a farinha, o pir\u00e3o, a tapioca, o beiju e o mingau), o caju e o guaran\u00e1, utilizados at\u00e9 hoje na alimenta\u00e7\u00e3o. Esse conhecimento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s esp\u00e9cies nativas \u00e9 fruto de milhares de anos de conhecimento da floresta. Desenvolveram o cultivo de centenas de esp\u00e9cies como o milho, a batata-doce, o car\u00e1, o feij\u00e3o, o tomate, o amendoim, o tabaco, a ab\u00f3bora, o abacaxi, o mam\u00e3o, a erva-mate, o guaran\u00e1 e outros. Os conhecimentos culin\u00e1rios dos povos ind\u00edgenas est\u00e3o presentes na vida dos brasileiros.<\/p>\n<p>Outro legado dos povos ind\u00edgenas s\u00e3o os seus milenares conhecimentos medicinais. Alguns estudiosos estimam que os \u00edndios do Brasil j\u00e1 chegaram a dominar uma cifra de mais de 200.000 esp\u00e9cies de plantas medicinais. Foram os ind\u00edgenas da Am\u00e9rica que dominaram, ao longo de s\u00e9culos ou\u00a0\u00a0 mesmo de mil\u00eanios, conhecimentos sobre os produtos anest\u00e9sicos, que hoje s\u00e3o fundamentais para os processos cir\u00fargicos praticados pela medicina moderna. A medicina tradicional possui um valor incalcul\u00e1vel com potenciais para novas descobertas sobre os mist\u00e9rios da natureza e da vida e que podem representar solu\u00e7\u00f5es para muitos males que hoje afligem a humanidade e os homens da ci\u00eancia moderna.<\/p>\n<p>Existem tamb\u00e9m as riquezas estrat\u00e9gicas que se encontram nos territ\u00f3rios ind\u00edgenas, dos quais eles s\u00e3o guardi\u00f5es e defensores. A principal delas \u00e9 a megabiodiversidade existente em suas terras, que representam 13% do territ\u00f3rio brasileiro preservado. Fotos de sat\u00e9lite mostram que as terras ind\u00edgenas s\u00e3o ilhas de florestas verdes rodeadas por pastos e cultivos de monoculturas. Esta \u00a0n\u00e3o \u00e9 apenas uma riqueza dos \u00edndios, mas de todos os brasileiros, na medida em que s\u00e3o florestas que contribuem para amenizar os desequil\u00edbrios ambientais do planeta nos tempos atuais.<\/p>\n<p>Os \u00edndios sempre foram considerados aptos para trabalhos militares, muitos sendo arregimentados pelas For\u00e7as Armadas para participar de in\u00fameros combates, como foi contra o Paraguai. Em algumas regi\u00f5es da fronteira amaz\u00f4nica, jovens ind\u00edgenas formam maioria nas corpora\u00e7\u00f5es militares, elogiados e reconhecidos pelos seus comandantes por suas habilidades diferenciadas nas tarefas e exerc\u00edcios di\u00e1rios. Os povos ind\u00edgenas contribu\u00edram para a conforma\u00e7\u00e3o e defesa das fronteiras do Brasil. \u00c9 o caso dos povos Macuxi e Wapichana, chamados no s\u00e9culo XVIII de \u201cmuralhas do sert\u00e3o\u201d. O Bar\u00e3o de Rio Branco e Joaquim Nabuco fundamentaram na presen\u00e7a destes povos e nas suas rela\u00e7\u00f5es com os portugueses a reivindica\u00e7\u00e3o brasileira \u00a0na disputa de limites com a ent\u00e3o Guiana inglesa. Manuela Carneiro da Cunha reconhece que, da perspectiva da justi\u00e7a hist\u00f3rica, \u00e9 vergonhoso se contestar a conveni\u00eancia de povos ind\u00edgenas povoarem as fronteiras amaz\u00f4nicas que eles ajudaram a conquistar, consolidar e das quais continuam sendo guardi\u00f5es.[4]\n<p>Os povos ind\u00edgenas brasileiros constituem ainda uma riqueza cultural invej\u00e1vel para muitos pa\u00edses e continentes do mundo. S\u00e3o 305 povos \u00e9tnicos falando 275 l\u00ednguas. 305 povos \u00e9 bem mais que as 234 etnias existentes em todo o continente europeu. S\u00e3o poucos os pa\u00edses que possuem tamanha diversidade sociocultural e \u00e9tnica. Os povos ind\u00edgenas, al\u00e9m de herdeiros de hist\u00f3rias e de civiliza\u00e7\u00f5es milenares, ajudaram e continuam ajudando a escrever e a construir a hist\u00f3ria do Brasil.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas mais de 100 mil ind\u00edgenas ingressaram no ensino superior e passaram a contribuir diretamente com a ci\u00eancia acad\u00eamica com suas formas, regimes e sistemas de conhecimento e promovendo a circula\u00e7\u00e3o e a valida\u00e7\u00e3o de outros saberes, pautados em outras bases cosmol\u00f3gicas, ontol\u00f3gicas, filos\u00f3ficas e epistemol\u00f3gicas. Os povos ind\u00edgenas compartilham com o mundo, a partir da universidade, seus saberes, seus valores comunit\u00e1rios, suas cosmologias, suas vis\u00f5es de mundo e seus modos de ser, viver e estar no mundo. Assim, os povos ind\u00edgenas est\u00e3o contribuindo na constru\u00e7\u00e3o de uma universidade que cada vez mais acolhe, agrega, soma, promove e expressa o universo ilimitado e plural de saberes, valores e sujeitos de conhecimentos. Uma universidade capaz de construir pontes, trilhas e horizontes civilizat\u00f3rios que nos entrela\u00e7am com as nossas diferen\u00e7as e diversidades de exist\u00eancias.<\/p>\n<p>Durante s\u00e9culos de contato com os povos europeus, os povos ind\u00edgenas n\u00e3o foram apenas v\u00edtimas da coloniza\u00e7\u00e3o. Eles tamb\u00e9m colonizaram os colonizadores com suas l\u00ednguas, culturas, valores, saberes e fazeres e protagonizaram intercasamentos com n\u00e3o ind\u00edgenas. H\u00e1 quem acredita (eu acredito) que os povos ind\u00edgenas inspiraram os ideais da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa com seus modos solid\u00e1rios, igualit\u00e1rios, comunit\u00e1rios, livres e autodeterminados de vida. Os povos ind\u00edgenas s\u00e3o povos com suas hist\u00f3rias e da Hist\u00f3ria que permanentemente (re)afirmam suas contemporaneidades e suas autoctonias em seus territ\u00f3rios e na vida nacional e global.<\/p>\n<hr \/>\n<h5 id=\"bibliografia\"><span style=\"color: #808080;\">Bibliografia<\/span><\/h5>\n<h6 id=\"1-couto-1998-j-couto-a-construcao-do-brasil-lisboa-editora-cosmos-1998\"><span style=\"color: #808080;\">[1] Couto 1998: J. Couto, <em>A Constru\u00e7\u00e3o do Brasil<\/em>. Lisboa: Editora Cosmos, 1998.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"2-silva-e-penha-da-silva-21013-e-silva-e-m-da-penha-da-silva-orgs-a-tematica-indigena-na-sala-de-aula-reflexoes-para-o-ensino-a-partir-da-lei-11-645-2008-recife-ed-universitaria-da-ufpe\"><span style=\"color: #808080;\">[2] Silva e Penha da Silva 21013: E. Silva e M. da Penha da Silva (orgs.), <em>A tem\u00e1tica ind\u00edgena na sala de aula: reflex\u00f5es para o ensino a partir da Lei 11.645\/2008<\/em>. Recife: Ed. Universit\u00e1ria da UFPE, 2013.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"3-amoroso-saez-1995-o-c-amoroso-saez-filhos-do-norte-o-indigenismo-em-goncalves-dias-e-capistrano-de-abreu\"><span style=\"color: #808080;\">[3] Amoroso &amp; Saez 1995: O. C. Amoroso &amp; Saez, \u201cFilhos do norte: o indigenismo em Gon\u00e7alves Dias e Capistrano de Abreu\u201d.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"4-cunha-1994-m-c-da-cunha-o-futuro-da-questao-indigena-estudos-avancados-820-1994\"><span style=\"color: #808080;\">[4] Cunha 1994: M. C. da Cunha, <em>O futuro da quest\u00e3o ind\u00edgena<\/em>. Estudos Avan\u00e7ados 8(20), 1994.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"5-ibge-2005-ibge-2002-coordenacao-de-populacao-e-indicadores-sociais-tendencias-demograficas-uma-analise-dos-indigenas-com-base-nos-resultados-da-amostra-dos-censos-demograficos-1991-e-2000-rio\"><span style=\"color: #808080;\">[5] IBGE 2005: IBGE 2002, Coordena\u00e7\u00e3o de Popula\u00e7\u00e3o e Indicadores Sociais. <em>Tend\u00eancias demogr\u00e1ficas: uma an\u00e1lise dos ind\u00edgenas com base nos resultados da amostra dos censos demogr\u00e1ficos 1991 e 2000<\/em>. Rio de Janeiro: IBGE, 2005.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"6-denevan-1976-w-denevan-the-aboriginal-population-of-amazonia-in-w-denevan-ed-the-native-population-of-the-americas-the-university-of-wisconsin-press-1976-p-205-235\"><span style=\"color: #808080;\">[6] Denevan 1976: W. Denevan, \u201cThe aboriginal population of Amazonia\u201d. In: W. Denevan (ed.) <em>The native population of the Americas<\/em>. The University of Wisconsin Press, 1976, p. 205-235.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"7-braudel-1979-f-brudel-civilization-materiele-economic-et-capitalisme-xv-e-xviii-e-siecle-tome-i-paris-armand-colin-1979\"><span style=\"color: #808080;\">[7] Braudel 1979: F. Brudel, <em>Civilization materi\u00e9le, \u00e9conomic et capitalisme XV <\/em><em>e XVIII e si\u00e9cle<\/em>. Tome I. Paris, Armand Colin, 1979.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"8-baniwa-2019-g-baniwa-educacao-escolar-indigena-no-seculo-xxi-encantos-e-desencantos-rio-de-janeiro-morula-laced-2019\"><span style=\"color: #808080;\">[8] Baniwa 2019: G. Baniwa, <em>Educa\u00e7\u00e3o escolar ind\u00edgena no s\u00e9culo XXI: encantos e desencantos<\/em>. Rio de Janeiro: M\u00f3rula, Laced, 2019.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"9-luciano-2006-g-j-s-luciano-o-indio-brasileiro-o-que-voce-precisa-saber-sobre-os-povos-indigenas-no-brasil-de-hoje-brasilia-secad-mec-laced-museu-nacional-2006\"><span style=\"color: #808080;\">[9] Luciano 2006: G. J. S. Luciano, <em>O \u00edndio brasileiro: o que voc\u00ea precisa saber sobre os povos ind\u00edgenas no Brasil de hoje<\/em>. Bras\u00edlia: SECAD\/MEC; LACED\/Museu Nacional, 2006.<\/span><\/h6>\n<hr \/>\n<h6 id=\"baniwa-gersem-as-contribuicoes-dos-povos-indigenas-para-o-desenvolvimento-da-ciencia-no-brasil-os-povos-originarios-colaboram-de-diversas-formas-com-a-sociedade-brasileira-desde-a-chegada-dos\"><span style=\"color: #808080;\"><em>BANIWA, Gersem.<span class=\"article-title\">\u00a0As contribui\u00e7\u00f5es dos povos ind\u00edgenas para o desenvolvimento da ci\u00eancia no Brasil: os povos origin\u00e1rios colaboram de diversas formas com a sociedade brasileira desde a chegada dos portugueses at\u00e9 os dias de hoje.<\/span>\u00a0Cienc. Cult.\u00a0[online]. 2022, vol.74, n.3 [citado\u00a0 2023-09-01], pp.1-6. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/cienciaecultura.bvs.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252022000300011&amp;lng=pt&amp;nrm=iso&gt;. ISSN 0009-6725.\u00a0 http:\/\/dx.doi.org\/10.5935\/2317-6660.20220048.<\/em><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Os povos origin\u00e1rios colaboram de diversas formas com a sociedade brasileira desde&hellip;\n","protected":false},"author":53,"featured_media":3109,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[21],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3105"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/53"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3105"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3105\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4661,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3105\/revisions\/4661"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3109"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3105"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3105"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3105"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}