{"id":3159,"date":"2022-09-19T07:58:00","date_gmt":"2022-09-19T07:58:00","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=3159"},"modified":"2023-09-01T10:33:45","modified_gmt":"2023-09-01T10:33:45","slug":"mais-de-200-anos-de-comunicacao-da-ciencia-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=3159","title":{"rendered":"Mais de 200 anos de comunica\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia no Brasil"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"falta-de-letramento-cientifico-e-determinante-para-brecar-o-crescimento-da-divulgacao-cientifica\"><span style=\"color: #808080;\">Falta de letramento cient\u00edfico \u00e9 determinante para brecar o crescimento da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia e a necessidade da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no Brasil e no mundo tornou-se consenso a partir da pandemia de covid-19. A grande imprensa passou a dedicar mais tempo \u00e0s pautas de ci\u00eancia, consequentemente o alcance das informa\u00e7\u00f5es foi ampliado e um novo cen\u00e1rio se configurou nesta \u00e1rea. Mas, a despeito de grande parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira ter conhecido somente nesta ocasi\u00e3o deste universo, a divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no Brasil come\u00e7ou antes da sua independ\u00eancia. Com a cria\u00e7\u00e3o da <em>Imprensa R\u00e9gia<\/em> em 1810, os primeiros textos de educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica foram publicados. Os mais de 200 anos de comunica\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, no entanto, n\u00e3o foram suficientes para formar uma popula\u00e7\u00e3o bem informada sobre estas quest\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cA informa\u00e7\u00e3o sobre ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 popularizada no Brasil\u201d, afirma Wilson Bueno, professor da Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes (ECA) da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www5.usp.br\/\">Universidade de S\u00e3o Paulo<\/a><\/strong><\/span> (USP), que h\u00e1 40 anos fez o primeiro doutorado em Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica no Pa\u00eds. \u201cQuase sempre as publica\u00e7\u00f5es s\u00e3o voltadas para as pessoas letradas, e n\u00e3o h\u00e1 esfor\u00e7o ainda de incorporar a maior parte dos cidad\u00e3os. O problema come\u00e7a na raiz, ou seja, est\u00e1 no ensino b\u00e1sico, onde h\u00e1 uma defasagem enorme em termos de forma\u00e7\u00e3o na \u00e1rea de ci\u00eancias.\u201d<\/p>\n<p>Segundo a jornalista e artista Alicia Ivanissevich, editora no<strong><span style=\"color: #800000;\"> <a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/cienciahoje.org.br\/instituto\/sobre\/\">Instituto Ci\u00eancia Hoje<\/a><\/span><\/strong>, a ci\u00eancia e a tecnologia s\u00e3o ferramentas cada vez mais indispens\u00e1veis nas tarefas cotidianas, por\u00e9m a maioria dos cidad\u00e3os ainda n\u00e3o consegue conect\u00e1-los com seu dia a dia. \u201cOs instrumentos, processos e pr\u00e1ticas que utilizamos na sociedade moderna \u2013 tarefas como atender ao telefone, usar o computador, sacar dinheiro com cart\u00e3o magn\u00e9tico ou ouvir o progn\u00f3stico do tempo pelo r\u00e1dio \u2013 baseiam-se em teorias e conceitos cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos. Entretanto, grande parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o sabe apreciar o alcance desse conhecimento\u201d, afirma em seu artigo \u201c<strong><span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"http:\/\/cienciaecultura.bvs.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252009000100002\">A miss\u00e3o de divulgar ci\u00eancia no Brasil<\/a><\/span><\/strong>\u201d, publicado na <strong><span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a>.<\/span><\/strong><\/p>\n<h3 id=\"ha-mais-de-200-anos\"><strong>H\u00e1 mais de 200 anos<\/strong><\/h3>\n<p>As primeiras divulga\u00e7\u00f5es voltadas para educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no Brasil foram publicadas pela <em>Imprensa R\u00e9gia<\/em> a partir de 1810. Eram manuais para o ensino de engenharia e medicina, quase sempre traduzidos do franc\u00eas para o portugu\u00eas, segundo Ildeu de Castro Moreira,\u00a0professor do Instituto de F\u00edsica da <strong><span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/ufrj.br\/\">Universidade Federal do Rio de Janeiro<\/a><\/span><\/strong> (UFRJ) e presidente de honra da SBPC, e Lu\u00edsa Massarani, coordenadora do Instituto Nacional de Comunica\u00e7\u00e3o P\u00fablica em Ci\u00eancia e Tecnologia <a href=\"https:\/\/portal.fiocruz.br\/\">da <span style=\"color: #800000;\"><strong>Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz<\/strong><\/span><\/a> (Fiocruz),\u00a0no artigo \u201c<span style=\"color: #800000;\"><strong><em><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/edisciplinas.usp.br\/pluginfile.php\/3953920\/mod_resource\/content\/1\/ASPECTOS%20HIST%C3%93RICOS%20DA%20DIVULGA%C3%87%C3%83O%20CIENT%C3%8DFICA%20NO%20BRASIL.pdf#:~:text=Com%20a%20cria%C3%A7%C3%A3o%20da%20Imprensa,geral%20traduzidos%20de%20autores%20franceses.\">Aspectos Hist\u00f3ricos da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no Brasil<\/a><\/em><\/strong><\/span>\u201d, publicado no livro \u201cCi\u00eancia e p\u00fablico: caminhos da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no Brasil\u201d (Casa da Ci\u00eancia\/UFRJ em parceria com o Museu da Vida\/Casa de Oswaldo Cruz\/Fiocruz, 2002). &#8220;No caso do Brasil, muito pouco se conhece sobre a hist\u00f3ria das atividades de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica aqui realizadas. Chega-se mesmo a imaginar que elas n\u00e3o existiram ou que foram insignificantes durante quase todo o per\u00edodo hist\u00f3rico brasileiro e que s\u00f3 ap\u00f3s a d\u00e9cada de 80 se poderia falar em uma divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica digna desse nome&#8221;, afirmam os autores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-ciencia-e-a-tecnologia-sao-ferramentas-cada-vez-mais-indispensaveis-nas-tarefas-cotidianas-porem-a-maioria-dos-cidadaos-ainda-nao-consegue-conecta-los-com-seu-dia-a-dia\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\">\u201cA ci\u00eancia e a tecnologia s\u00e3o ferramentas cada vez mais indispens\u00e1veis nas tarefas cotidianas, por\u00e9m a maioria dos cidad\u00e3os ainda n\u00e3o consegue conect\u00e1-los com seu dia a dia.\u201d<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esta hist\u00f3ria teve v\u00e1rios momentos, pontua Bueno. Inicialmente, era a pr\u00f3pria comunidade cient\u00edfica divulgando para os pares. Com a <em>Imprensa R\u00e9gia<\/em> e o surgimento dos primeiros jornais, como a <em>Gazeta do Rio de Janeiro<\/em> e <em>O Patriota<\/em>, esta divulga\u00e7\u00e3o se expande. Na segunda metade do s\u00e9culo 19, havia no cat\u00e1logo da <strong><span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.gov.br\/bn\/pt-br\">Biblioteca Nacional<\/a><\/span><\/strong> cerca de 300 peri\u00f3dicos voltados para divulga\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, de \u00e1reas como engenharia, ci\u00eancias naturais e sa\u00fade. Do s\u00e9culo 19 para c\u00e1, surgem algumas iniciativas relevantes de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, incluindo as exposi\u00e7\u00f5es, os museus (como <a href=\"https:\/\/www.museunacional.ufrj.br\/\"><span style=\"color: #800000;\"><strong>Museu Nacional<\/strong><\/span><\/a>, no Rio de Janeiro; e <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.gov.br\/museugoeldi\/pt-br\">Museu Em\u00edlio Goeldi<\/a><\/strong><\/span>, no Par\u00e1), as confer\u00eancias e as funda\u00e7\u00f5es de fomento \u00e0 pesquisa. \u201cA partir da\u00ed podemos chamar efetivamente de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica voltada para o cidad\u00e3o comum\u201d, aponta Bueno.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia era pauta nos primeiros jornais, como <em>A Gazeta do Rio de Janeiro<\/em>, <em>O Patriota<\/em> e o <em>Correio Braziliense<\/em> (editado na Inglaterra). Em meados do s\u00e9culo 19, com a revolu\u00e7\u00e3o industrial na Europa, houve uma intensifica\u00e7\u00e3o na divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, refletindo uma fase de muita credibilidade em rela\u00e7\u00e3o ao progresso cient\u00edfico e t\u00e9cnico. Mas desde aquela \u00e9poca a pesquisa cient\u00edfica j\u00e1 era muito restrita a pessoas de elite ou a estrangeiros. As \u00e1reas de maior destaque eram astronomia, ci\u00eancias naturais e doen\u00e7as tropicais.<\/p>\n<p>Em 1857, foi criada a <em>Revista Brazileira \u2013 Jornal de Sciencias, Letras e Artes<\/em>, que tinha apar\u00eancia de livro. Com a liga\u00e7\u00e3o telegr\u00e1fica do Brasil com a Europa por cabo submarino, em 1874, as informa\u00e7\u00f5es passaram a chegar mais rapidamente, e as novas descobertas cient\u00edficas se transformavam em not\u00edcia. Em 1876, foi lan\u00e7ada a <em>Revista do Rio de Janeiro<\/em>, tamb\u00e9m em formato de livro, onde 21% dos artigos publicados eram de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, de acordo com Moreira e Massarani. Anos depois, em 1881, foi lan\u00e7ada a revista semanal <em>Ci\u00eancia para o Povo<\/em>, onde mais da metade dos artigos eram sobre ci\u00eancia, especialmente sa\u00fade e comportamento.<\/p>\n<p>Entre 1886 e 1891, a <em>Revista do Observat\u00f3rio<\/em>, editada mensalmente pelo Imperial Observat\u00f3rio do Rio de Janeiro, inaugurou aqui uma apresenta\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica mais moderna, com textos em colunas. Em 1873, surgiram as Confer\u00eancias Populares da Gl\u00f3ria, voltadas para divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica com ampla diversidade de assuntos, entre eles o papel da mulher na sociedade. As confer\u00eancias eram anunciadas nos grandes jornais. Duraram quase 20 anos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-3162\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/CC-3-edicao-reportagem-Mais-de-200-anos-de-difusa\u0303o-da-cie\u0302ncia-no-Brasil-figura-1-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/CC-3-edicao-reportagem-Mais-de-200-anos-de-difusa\u0303o-da-cie\u0302ncia-no-Brasil-figura-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/CC-3-edicao-reportagem-Mais-de-200-anos-de-difusa\u0303o-da-cie\u0302ncia-no-Brasil-figura-1-1024x681.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/CC-3-edicao-reportagem-Mais-de-200-anos-de-difusa\u0303o-da-cie\u0302ncia-no-Brasil-figura-1-768x511.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/CC-3-edicao-reportagem-Mais-de-200-anos-de-difusa\u0303o-da-cie\u0302ncia-no-Brasil-figura-1-1536x1022.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/CC-3-edicao-reportagem-Mais-de-200-anos-de-difusa\u0303o-da-cie\u0302ncia-no-Brasil-figura-1-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/CC-3-edicao-reportagem-Mais-de-200-anos-de-difusa\u0303o-da-cie\u0302ncia-no-Brasil-figura-1-800x532.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/CC-3-edicao-reportagem-Mais-de-200-anos-de-difusa\u0303o-da-cie\u0302ncia-no-Brasil-figura-1-1160x772.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/CC-3-edicao-reportagem-Mais-de-200-anos-de-difusa\u0303o-da-cie\u0302ncia-no-Brasil-figura-1.jpg 1691w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-1-para-melhorar-a-divulgacao-cientifica-no-brasil-e-preciso-investir-na-base-da-educacaosbpc-vai-a-escola-reune-alunos-do-ensino-basico-nos-campi-da-unb-foto-sbpc-reproducao\"><strong>Figura 1. Para melhorar a divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no Brasil \u00e9 preciso investir na base da educa\u00e7\u00e3o<br \/>\n<\/strong>(SBPC Vai \u00e0 Escola re\u00fane alunos do ensino b\u00e1sico nos campi da UnB. Foto: SBPC. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c0 medida que os jornais e revistas foram ganhando p\u00fablico, a ci\u00eancia foi ganhando espa\u00e7o nos grandes jornais porque muitas descobertas importantes come\u00e7aram a acontecer. No s\u00e9culo 20, faziam parte dos notici\u00e1rios pautas sobre a corrida espacial, o DNA, Aids, biodiversidade, mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, e temas que permanecem at\u00e9 hoje, lembra Bueno. Em sua tese de doutorado, ele focou na corrida espacial e se aprofundou, por exemplo, nas coberturas da viagem do homem \u00e0 Lua e da primeira mulher enviada ao espa\u00e7o.<\/p>\n<h3 id=\"novas-tecnologias\"><strong>Novas tecnologias<\/strong><\/h3>\n<p>O Museu Nacional e o Museu Paraense tamb\u00e9m exerceram papel importante na divulga\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia no Brasil. Em 1894, ficou institu\u00eddo que deveriam promover o estudo, o desenvolvimento e a vulgariza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Em 1916, foi criada a Sociedade Brasileira de Ci\u00eancias, que seis anos depois passou a ser a <a href=\"https:\/\/www.abc.org.br\/\"><strong><span style=\"color: #800000;\">Academia Brasileira de Ci\u00eancias<\/span><\/strong><\/a> (ABC). Na sede da ABC, foi fundada a R\u00e1dio Sociedade do Rio de Janeiro, onde Albert Einstein proferiu seu discurso em alem\u00e3o, traduzido para o portugu\u00eas, em 1925. Einstein mencionou a import\u00e2ncia da difus\u00e3o cultural e cient\u00edfica pelo r\u00e1dio. Em 1926, a visita de Marie Curie ao Brasil tamb\u00e9m teve ampla cobertura da imprensa. \u201cCresceu muito o interesse do cidad\u00e3o\u201d, diz Bueno. Houve um alargamento dos espa\u00e7os na m\u00eddia e, mesmo com a precariedade do ensino de ci\u00eancia, havia p\u00fablico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"falta-ao-cidadao-comum-o-conhecimento-de-como-a-ciencia-funciona-e-como-sao-os-metodos-cientificos-sem-estes-conhecimentos-basicos-a-interpretacao-sera-sempre-de-causa-e-efeito-por-isso-fi\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\">\u201cFalta ao cidad\u00e3o comum o conhecimento de como a ci\u00eancia funciona e como s\u00e3o os m\u00e9todos cient\u00edficos. Sem estes conhecimentos b\u00e1sicos, a interpreta\u00e7\u00e3o ser\u00e1 sempre de causa e efeito, por isso fica mais f\u00e1cil acreditar em terraplanismos ou em teorias sobre dinossauros e campanhas antivacina.\u201d<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 1929, foi criada a revista\u00a0<em>Sciencia e Educa\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0com objetivo de divulgar ci\u00eancia articulada com a educa\u00e7\u00e3o. Em 1937, nascia o Instituto Nacional do Cinema Educativo (Ince), dirigido por Roquette Pinto, voltado para produ\u00e7\u00e3o de filmes curtos de ci\u00eancia e educa\u00e7\u00e3o. Nos anos 40, um dos pioneiros do jornalismo cient\u00edfico no Brasil, Jos\u00e9 Reis, come\u00e7ou a atuar. Considerado o pai da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no Brasil, Jos\u00e9 Reis\u00a0foi um dos fundadores da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"http:\/\/portal.sbpcnet.org.br\/\">Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia<\/a><\/strong><\/span> (SBPC), em 1948, e participou do grupo que criou a revista\u00a0<span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/\">Ci\u00eancia &amp; Cultura<\/a><\/strong><\/span>, em 1949.<\/p>\n<p>Na TV, surgiu em 1979 o programa\u00a0<em>Nossa Ci\u00eancia<\/em>, do canal educativo do governo. Na Globo, foi criado o Globo Ci\u00eancia em 1984. Tamb\u00e9m visando divulgar ci\u00eancia, foi criada em 1982 a revista\u00a0<em>Ci\u00eancia Hoje<\/em>, da SBPC, que atingiu 70.000 exemplares por m\u00eas. Em 1986, nascia a revista\u00a0<em>Ci\u00eancia Hoje das Crian\u00e7as<\/em>. No mesmo per\u00edodo, surgia o\u00a0<em>Jornal da Ci\u00eancia<\/em>, um informativo quinzenal. Outras revistas surgiram depois, como\u00a0<em>Globo Ci\u00eancia<\/em>\u00a0(que virou\u00a0<em>Galileu<\/em>) e\u00a0<em>Superinteressante<\/em>.<\/p>\n<h3 id=\"fake-news\"><strong><em>Fake news<\/em><\/strong><\/h3>\n<p>\u201cHoje estamos numa situa\u00e7\u00e3o generosa, com podcasts, m\u00eddias sociais, e uma amplia\u00e7\u00e3o muito grande, mas a falta de ensino de ci\u00eancia na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica n\u00e3o permite o letramento cient\u00edfico, e isso favorece o consumo de <em>fake news<\/em>\u201d, avalia o Bueno. Em bons col\u00e9gios ou em cursos superiores \u00e9 poss\u00edvel promover o despertar para a ci\u00eancia, mas junto \u00e0s classes populares ou na imprensa comunit\u00e1ria isso n\u00e3o acontece, afirma. Segundo Bueno, falta ao cidad\u00e3o comum o conhecimento de como a ci\u00eancia funciona e como s\u00e3o os m\u00e9todos cient\u00edficos. Sem estes conhecimentos b\u00e1sicos, a interpreta\u00e7\u00e3o ser\u00e1 sempre de causa e efeito, por isso fica mais f\u00e1cil acreditar em terraplanismos ou em teorias sobre dinossauros e campanhas antivacina. \u201cA pessoa fica a merc\u00ea da espetaculariza\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Para Gra\u00e7a Caldas, professora do\u00a0<span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.labjor.unicamp.br\/\">Laborat\u00f3rio de Estudos Avan\u00e7ados em Jornalismo<\/a><\/strong><\/span>\u00a0(Labjor) da\u00a0<span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/\">Universidade Estadual de Campinas<\/a><\/strong><\/span>\u00a0(Unicamp), a educa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m determina a forma como se difunde a ci\u00eancia. \u00c9 preciso investir na tr\u00edade educa\u00e7\u00e3o, cultura e ci\u00eancia &amp; tecnologia, diz. \u201cSe n\u00f3s pensarmos em pol\u00edticas p\u00fablicas para estas tr\u00eas \u00e1reas, vamos voltar a melhorar o pa\u00eds.\u201d Caldas tamb\u00e9m defende a democratiza\u00e7\u00e3o e populariza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia. \u201cNesse momento que estamos comemorando o bicenten\u00e1rio da independ\u00eancia do Brasil, acho que retomar esta discuss\u00e3o para al\u00e9m da pandemia \u00e9 fundamental, para que possamos discutir a democratiza\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o, para al\u00e9m da\u00a0\u00a0\u00e1rea de sa\u00fade.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-3163\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/CC-3-edicao-reportagem-Mais-de-200-anos-de-difusa\u0303o-da-cie\u0302ncia-no-Brasil-figura-2-219x300.jpg\" alt=\"\" width=\"365\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/CC-3-edicao-reportagem-Mais-de-200-anos-de-difusa\u0303o-da-cie\u0302ncia-no-Brasil-figura-2-219x300.jpg 219w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/CC-3-edicao-reportagem-Mais-de-200-anos-de-difusa\u0303o-da-cie\u0302ncia-no-Brasil-figura-2-9x12.jpg 9w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/CC-3-edicao-reportagem-Mais-de-200-anos-de-difusa\u0303o-da-cie\u0302ncia-no-Brasil-figura-2.jpg 666w\" sizes=\"(max-width: 365px) 100vw, 365px\" \/><\/p>\n<h6 id=\"figura-2-capa-da-revista-brazileira-jornal-de-sciencias-letras-e-artes-criada-em-1857reproducao\"><strong>Figura 2. Capa da <em>Revista Brazileira \u2013 Jornal de Sciencias, Letras e Artes<\/em>, criada em 1857<br \/>\n<\/strong>(Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fernanda Sobral, professora em\u00e9rita do programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Sociologia da Universidade de Bras\u00edlia (UnB) e vice-presidente da SBPC, pontua que se a divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica j\u00e1 era importante para levar a ci\u00eancia para al\u00e9m das p\u00e1ginas das revistas acad\u00eamicas e dos muros das institui\u00e7\u00f5es de pesquisa, com a pandemia ela se tornou ainda mais essencial para elencar os estudos relevantes e combater a desinforma\u00e7\u00e3o.\u00a0\u201cAgora, estamos em um momento de recupera\u00e7\u00e3o da autoridade cient\u00edfica, e a divulga\u00e7\u00e3o tem um papel importante nisso. Tenho visto pessoas que n\u00e3o s\u00e3o da \u00e1rea cient\u00edfica discutindo sobre a vacina da R\u00fassia, falando que n\u00e3o tem publica\u00e7\u00e3o sobre, por isso n\u00e3o \u00e9 baseada em resultados e evid\u00eancias cient\u00edficas. Pessoas leigas est\u00e3o conhecendo como se faz ci\u00eancia\u201d, apontou em reportagem para o <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/divulgacao-cientifica-ganha-mais-relevancia-diante-da-quantidade-de-pesquisas-sobre-o-coronavirus\/\"><span style=\"color: #800000;\"><strong>Jornal da Universidade \u2013 UFRGS<\/strong><\/span><\/a>.<\/p>\n<h3 id=\"o-que-fazer\"><strong>O que fazer?<\/strong><\/h3>\n<p>\u201cN\u00f3s caminhamos muito pouco, porque a divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica aumentou muito, chegou \u00e0 grande m\u00eddia, mas sempre localizada para pessoas de maior poder aquisitivo e mais letradas. As pessoas pouco letradas continuam desassistidas. O jornalismo cient\u00edfico tem o desafio ainda de chegar ao cidad\u00e3o comum\u201d, afirma Bueno.\u00a0Para aproximar a ci\u00eancia do cotidiano do cidad\u00e3o e fazer chegar a ele as informa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, \u00e9 preciso que haja a\u00e7\u00f5es junto \u00e0s comunidades e aos sindicatos.<\/p>\n<p>Segundo Ma\u00edra Baumgarten, professora do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Sociologia da <strong><span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/ufrgs\/inicial\">Universidade Federal do Rio Grande do Sul<\/a><\/span><\/strong> (UFRGS) e coordenadora do <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/cedcis\/quem_somos.html\">Centro de Estudos e Difus\u00e3o em Conhecimentos, Inova\u00e7\u00e3o e Sustentabilidade<\/a><\/strong><\/span> (CEDCIS), os processos de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica baseados em conhecimento cient\u00edfico viabilizam e incentivam o debate p\u00fablico sobre ci\u00eancia, tecnologia e sa\u00fade constitu\u00eddo por grupos sociais, m\u00eddias e redes sociais \u2013 e s\u00e3o essenciais para a democracia. \u201cA comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u00e9 indicativa da qualidade das democracias, posto que obedecer e responder ao interesse p\u00fablico \u00e9 uma exig\u00eancia normativa a ser cumprida atrav\u00e9s da comunica\u00e7\u00e3o desenvolvida pelos governos e institui\u00e7\u00f5es estatais\u201d, afirma em seu artigo \u201c<span style=\"color: #800000;\"><strong><em><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/revista.ibict.br\/liinc\/article\/view\/5702\/5394\">Ci\u00eancia, informa\u00e7\u00e3o e pol\u00edtica na pandemia brasileira<\/a><\/em>\u201d<\/strong><\/span>.<\/p>\n<p>Caldas defende a democratiza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o para promover o avan\u00e7o da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no Brasil. \u201cH\u00e1 uma s\u00e9rie de frentes poss\u00edveis. Eu acho que a democratiza\u00e7\u00e3o do conhecimento come\u00e7a pelos jovens, mas n\u00e3o apenas\u201d, diz a pesquisadora. \u201cA democratiza\u00e7\u00e3o do conhecimento passa pela percep\u00e7\u00e3o do papel da pol\u00edtica, percep\u00e7\u00e3o da cidadania, percep\u00e7\u00e3o de que a pol\u00edtica cient\u00edfica est\u00e1 junto com o ser pol\u00edtico.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"para-aproximar-a-ciencia-do-cotidiano-do-cidadao-e-fazer-chegar-a-ele-as-informacoes-cientificas-e-preciso-que-haja-acoes-junto-as-comunidades-e-aos-sindicatos\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\">\u201cPara aproximar a ci\u00eancia do cotidiano do cidad\u00e3o e fazer chegar a ele as informa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, \u00e9 preciso que haja a\u00e7\u00f5es junto \u00e0s comunidades e aos sindicatos.\u201d<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para a jornalista de ci\u00eancia e professora, as pol\u00edticas p\u00fablicas s\u00e3o uma das quest\u00f5es mais importantes quando se trata de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. \u201cPrecisamos retomar as pol\u00edticas de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, e os governos precisam retomar as pol\u00edticas para C&amp;T, porque s\u00e3o fundamentais, mas n\u00e3o apenas nas \u00e1reas priorit\u00e1rias\u201d, afirma. Segundo Caldas, para entender uma sociedade \u00e9 preciso que haja acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia, tecnologia, cultura e inova\u00e7\u00e3o, \u201cinclusive para voc\u00ea se posicionar e participar de decis\u00f5es nas quest\u00f5es cient\u00edficas fundamentais, como as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e as energias renov\u00e1veis. Esta rela\u00e7\u00e3o d\u00e1 a real dimens\u00e3o da import\u00e2ncia da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-a-divulgacao-cientifica-e-fundamental-para-a-insercao-da-populacao-nas-decisoes-sobre-ciencia-no-paisjovens-participam-da-74a-reuniao-anual-da-sbpc-em-brasilia-imagem-sbpc-reproducao\"><strong>Capa: A divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 fundamental para a inser\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o nas decis\u00f5es sobre ci\u00eancia no pa\u00eds<br \/>\n<\/strong>(Jovens participam da 74<sup>a<\/sup> Reuni\u00e3o Anual da SBPC em Bras\u00edlia. Imagem: SBPC. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 id=\"menezes-adriana-vilar-de-mais-de-200-anos-de-comunicacao-da-ciencia-no-brasil-falta-de-letramento-cientifico-e-determinante-para-brecar-o-crescimento-da-divulgacao-cientifica-cienc-cult\"><span style=\"color: #808080;\"><em>MENEZES, Adriana Vilar de.<span class=\"article-title\">\u00a0Mais de 200 anos de comunica\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia no Brasil: falta de letramento cient\u00edfico \u00e9 determinante para brecar o crescimento da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/span>\u00a0Cienc. Cult.\u00a0[online]. 2022, vol.74, n.3 [citado\u00a0 2023-09-01], pp.1-5. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/cienciaecultura.bvs.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252022000300016&amp;lng=pt&amp;nrm=iso&gt;. ISSN 0009-6725.\u00a0 http:\/\/dx.doi.org\/10.5935\/2317-6660.20220053.<\/em><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Falta de letramento cient\u00edfico \u00e9 determinante para brecar o crescimento da divulga\u00e7\u00e3o&hellip;\n","protected":false},"author":22,"featured_media":3164,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3159"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/22"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3159"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3159\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4658,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3159\/revisions\/4658"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3164"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3159"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3159"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3159"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}