{"id":3263,"date":"2022-10-05T10:42:26","date_gmt":"2022-10-05T10:42:26","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=3263"},"modified":"2022-10-05T10:42:26","modified_gmt":"2022-10-05T10:42:26","slug":"as-consequencias-da-desindustrializacao-para-o-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=3263","title":{"rendered":"As consequ\u00eancias da desindustrializa\u00e7\u00e3o para o trabalho"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"artigo-de-jose-dari-krein-professor-do-instituto-de-economia-da-unicamp-e-diretor-do-centro-de-estudos-sindicais-e-economia-do-trabalho\"><span style=\"color: #808080;\">Artigo de Jos\u00e9 Dari Krein, professor do Instituto de Economia da Unicamp e diretor do Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O trabalho ganhou maior visibilidade na pandemia, tanto pela sua import\u00e2ncia social quanto pela situa\u00e7\u00e3o de precariedade de muitas ocupa\u00e7\u00f5es. \u00c9 uma express\u00e3o do desenvolvimento brasileiro, que foi incapaz de incorporar todas as pessoas dispon\u00edveis em ocupa\u00e7\u00f5es decentes, especialmente depois da crise dos anos 1980, a partir de quando o Pa\u00eds interrompeu o processo de industrializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No per\u00edodo entre 1940 e 1980, houve avan\u00e7o do assalariamento com uma economia crescendo, em m\u00e9dia, a 7% ao ano, que culmina na\u00a0 internaliza\u00e7\u00e3o do ciclo de 2\u00aa Revolu\u00e7\u00e3o industrial e o Pa\u00eds se torna a 8\u00aa economia mundial. Apesar da exist\u00eancia de uma legisla\u00e7\u00e3o trabalhista ampla e da din\u00e2mica econ\u00f4mica proporcionar mobilidade social ascendente para a maioria, o Pa\u00eds n\u00e3o conseguiu organizar o mercado de trabalho, pois, dada a grande migra\u00e7\u00e3o do campo para cidade, manteve-se um excedente estrutural de for\u00e7a de trabalho. O que gerou uma concorr\u00eancia predat\u00f3ria pela ocupa\u00e7\u00e3o das melhores oportunidades, com a reafirmac\u00e3o das discrimina\u00e7\u00f5es contra mulheres e pessoas negras, a perman\u00eancia de uma alta informalidade e de baixos e desiguais rendimentos do trabalho.<\/p>\n<p>A partir da crise da d\u00edvida nos 1980, as op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas prevalecentes levaram o pa\u00eds para uma regress\u00e3o da estrutura produtiva, especialmente com a forma como o Brasil fez a abertura econ\u00f4mica e sua inser\u00e7\u00e3o na globaliza\u00e7\u00e3o financeira nos anos 1990. A partir de ent\u00e3o, o Pa\u00eds n\u00e3o conseguiu manter o desenvolvimento industrial e nem competir com os pa\u00edses com maior capacidade de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, o que levou a uma posi\u00e7\u00e3o subordinada nas cadeias globais de valor e uma reprimariza\u00e7\u00e3o da pauta exportadora. A desindustrializa\u00e7\u00e3o ocorreu de forma prematura, sem que o pa\u00eds incorporasse as pessoas no mercado de trabalho. Al\u00e9m de perder o bonde do desenvolvimento, desde ent\u00e3o o pa\u00eds praticante andou de lado. Com exce\u00e7\u00e3o da primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI, o desempenho do produto interno per capita foi muito baixo, sendo negativo em duas delas (anos 1980 e 2010).<\/p>\n<p>Como consequ\u00eancia, ocorreu um deslocamento para uma economia de servi\u00e7os, o que se reflete em uma queda muito expressiva nas ocupa\u00e7\u00f5es industriais e na agricultura. Em 2022, mais de 70% do total dos ocupados se encontrava no setor de servi\u00e7os, sendo boa parte no com\u00e9rcio. A participa\u00e7\u00e3o do emprego industrial caiu de 28% nos anos 1980 para 13% em 2020. A queda foi maior em setores com maior complexidade tecnol\u00f3gica. Novas tecnologias, poupadores de for\u00e7a de trabalho, foram sendo incorporadas, mas, com raras exce\u00e7\u00f5es, nossa capacidade de competir nos setores de ponta, de criar inova\u00e7\u00f5es, foi t\u00edmida e insuficiente. Al\u00e9m disso, uma parte do encolhimento do emprego industrial se explica tamb\u00e9m pela terceirizac\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste contexto, sob a hegemonia do neoliberalismo, avan\u00e7ou a desorganiza\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho, especialmente ap\u00f3s a crise econ\u00f4mica de 2015 e a reforma trabalhista de 2017. Para exemplificar, vale observar alguns poucos indicadores: a informalidade passou de 24% para 40%, entre os anos 1980 e 2022. O trabalho por conta pr\u00f3pria chega a 25% dos ocupados em 2022, sendo que cerca de 80% seguiram por esse caminho por falta de op\u00e7\u00e3o. Ainda de acordo com a PNADC\/IBGE, a taxa de subutiliza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho alcan\u00e7ou 23,2%, sendo que entre as mulheres negras chegou a 34%. Talvez o n\u00famero mais expressivo seja que mais de 60 milh\u00f5es de brasilieros(as) se encontram desocupados, na for\u00e7a de trabalho potencial e na informalidade, express\u00e3o de extrema vulnerabilidade. A aus\u00eancia de oportunidades atinge tamb\u00e9m segmentos qualificados da for\u00e7a de trabalho. Por exemplo, 15% dos doutores estavam desempregados em 2019.<\/p>\n<p>O setor de servi\u00e7os tende a gerar postos de trabalho que exigem menos qualifica\u00e7\u00e3o, o que se expressa na queda do poder dos sal\u00e1rios, afetando negativamente a demanda e, portanto, o n\u00edvel de atividade da economia, especialmente no momento em que \u00e9 abandonada a pol\u00edtica de valoriza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio-m\u00ednimo. Nesse sentido, por um lado, as pol\u00edticas p\u00fablicas, foram adaptativas a uma realidade de aus\u00eancia de emprego decente, especialmente gerindo a pobreza. Por outro lado, prevaleceram, especialmente nos anos 1990 e depois de 2017, as reformas laborais, de retirada de direitos e redu\u00e7\u00e3o da prote\u00e7\u00e3o social. Op\u00e7\u00f5es ineficazes para resolver os problemas do trabalho, mas eficazes para ampliar a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho.<\/p>\n<p>Pol\u00edticas buscavam responsabilizar as pessoas pela sua situa\u00e7\u00e3o no mercado, deixando transparecer a falsa impress\u00e3o de que n\u00e3o h\u00e1 alternativa. No entanto, o trabalho existente na sociedade \u00e9 resultante da estrutura t\u00e9cnica-produtiva, do padr\u00e3o de desenvolvimento e da din\u00e2mica econ\u00f4mica, que s\u00e3o socialmente determinadas. Portanto, o desafio atual \u00e9 mudar o padr\u00e3o de desenvolvimento para enfrentar os problemas sociais, ambientais e de soberania nacional, o que implica em fortes investimentos em educa\u00e7\u00e3o, ci\u00eancia e tecnologia. O Estado tamb\u00e9m deve assumir a fun\u00e7\u00e3o de garantir ocupa\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o para todos que queiram\u00a0 trabalhar. Enfim, pensar uma sociedade mais inclusiva n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel sem enfrentar os problemas do trabalho.<\/p>\n<h6 id=\"sobre-o-autor\"><strong><em>Sobre o autor:<\/em><\/strong><\/h6>\n<h6 id=\"jose-dari-krein-e-professor-do-instituto-de-economia-da-universidade-estadual-de-campinas-unicamp-diretor-do-cesit-centro-de-estudos-sindicais-e-economia-do-trabalho-e-da-coordenacao-da-remi\"><em>Jos\u00e9 Dari Krein \u00e9\u00a0<\/em><em>professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), diretor do CESIT (Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho) e da coordena\u00e7\u00e3o da REMIR (Rede de Estudos e Monitoramento da Reforma Trabalhista)<\/em><\/h6>\n<p><a href=\"http:\/\/www.jornaldaciencia.org.br\/\"><em><span style=\"color: #808080;\">Jornal da Ci\u00eancia<\/span><\/em><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-remy-gieling-unsplash-com\">Capa: <a class=\"N2odk RZQOk Vk1a0 AsGGe pgmwB KHq0c\" href=\"https:\/\/unsplash.com\/@gieling\">Remy Gieling<\/a> | <a href=\"http:\/\/unsplash.com\">Unsplash.com<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Artigo de Jos\u00e9 Dari Krein, professor do Instituto de Economia da Unicamp&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":3264,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3263"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3263"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3263\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3265,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3263\/revisions\/3265"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3264"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3263"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3263"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3263"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}