{"id":3266,"date":"2022-10-06T07:30:24","date_gmt":"2022-10-06T07:30:24","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=3266"},"modified":"2022-10-05T10:49:10","modified_gmt":"2022-10-05T10:49:10","slug":"a-negacao-da-ciencia-e-o-armamentismo-que-ceifou-milhares-de-vidas-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=3266","title":{"rendered":"A Nega\u00e7\u00e3o da Ci\u00eancia e o Armamentismo que ceifou milhares de vidas no Brasil"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"artigo-de-daniel-cerqueira-diretor-presidente-do-instituto-jones-dos-santos-neves-ijsn-e-coordenador-do-atlas-da-violencia\"><span style=\"color: #808080;\">Artigo de Daniel Cerqueira, diretor-presidente do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) e coordenador do Atlas da Viol\u00eancia<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O grau de converg\u00eancia dos achados cient\u00edficos sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a difus\u00e3o de armas de fogo e crimes \u00e9 praticamente consensual, de forma an\u00e1loga ao grau de concord\u00e2ncia por estudiosos de que o processo de aquecimento global e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas t\u00eam sido provocados pela a\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>No Atlas da Viol\u00eancia 2019 fizemos um resumo sobre essa literatura especializada, em que os v\u00e1rios estudos apontados, inclusive alguns baseados em revis\u00f5es sistem\u00e1ticas da literatura, deixam claro os achados de que a maior preval\u00eancia de armas de fogo est\u00e1 relacionada a maiores taxas de homic\u00eddios, de feminic\u00eddio, de acidentes fatais envolvendo armas, e de suic\u00eddio nas sociedades.<\/p>\n<p>As pesquisas emp\u00edricas mostram que a difus\u00e3o de armas de fogo n\u00e3o apenas representa um fator de risco para toda a sociedade, mas conspira contra a seguran\u00e7a dos pr\u00f3prios lares dos indiv\u00edduos que possuem tais artefatos. Alguns estudos, como os de Kellermann e coautores imputam risco at\u00e9 dez vezes maior de alguma pessoa ser assassinada, sofrer suic\u00eddio ou acidente fatal com arma de fogo, em lares onde haja armas, comparando a outras resid\u00eancias onde n\u00e3o haja.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio da fal\u00e1cia armamentista sob a qual o mundo estaria dividido entre \u201ccidad\u00e3os de bem\u201d e criminosos, at\u00e9 40% do total de mortes violentas intencionais s\u00e3o devidas a motiva\u00e7\u00f5es interpessoais, segundo estat\u00edsticas oficiais das pol\u00edcias. S\u00e3o feminic\u00eddios, brigas de bar, brigas de tr\u00e2nsito, escaramu\u00e7as por diferen\u00e7as ideol\u00f3gicas, entre outras raz\u00f5es. Assassinatos perpetrados por um cidad\u00e3o que nunca participou do mundo do crime, mas, que em meio a um conflito, sentindo-se empoderado, com uma arma na m\u00e3o, terminou matando o outro.<\/p>\n<p>Outro ponto importante \u00e9 que quanto maior o n\u00famero de armas no mercado legal, mais armas cair\u00e3o na ilegalidade \u2013 seja por extravios, roubos ou vendas intencionais pelos pr\u00f3prios propriet\u00e1rios. A maior oferta de armas de fogo no mercado ilegal, faz o seu pre\u00e7o diminuir a\u00ed, possibilitando que o criminoso mais desorganizado tenha acesso \u00e0 mesma, exatamente o jovem criminoso que, com uma arma na m\u00e3o, sai para praticar assaltos e termina cometendo latroc\u00ednio.<\/p>\n<p>Por fim, pesquisas indicam que as chances de um cidad\u00e3o armado ser assassinado em um assalto aumentam 56%, quando o mesmo porta uma arma, comparando com a v\u00edtima desarmada. Ou seja, nas cidades, a arma de fogo \u00e9 um excelente instrumento de ataque, mas um p\u00e9ssimo instrumento de defesa, em face do fator surpresa.<\/p>\n<p>O\u00a0<em>The Journal of the American Medical Association<\/em>\u00a0(JAMA) produziu num editorial uma receita clara de como\u00a0<em>policy makers<\/em>\u00a0podem atuar para reduzir letalidade violenta intencional:\u00a0<em>\u201c(\u2026)a chave para reduzir as mortes por armas de fogo nos Estados Unidos \u00e9 entender e reduzir a exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 causa, assim como em qualquer epidemia, e neste caso s\u00e3o as armas\u201d\u00a0<\/em>(tradu\u00e7\u00e3o dos autores).<\/p>\n<p>No Brasil, negacionistas e vi\u00favas de um Brasil colonial e da barb\u00e1rie n\u00e3o apenas idolatram as armas de fogo, mas, sem qualquer evid\u00eancia, disseminam\u00a0<em>fake news<\/em>\u00a0de que o aumento da difus\u00e3o de armas pela popula\u00e7\u00e3o, proporcionada pela legisla\u00e7\u00e3o irrespons\u00e1vel do Governo Bolsonaro, vem contribuindo para a seguran\u00e7a p\u00fablica e para a diminui\u00e7\u00e3o de homic\u00eddios no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em recente estudo do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, coordenado por mim, baseado em metodologias econom\u00e9tricas robustas empregadas para estimar causalidade em fen\u00f4menos sociais, com dados para o pa\u00eds at\u00e9 2021, encontramos que a cada 1% a mais na preval\u00eancia de armas, a taxa de homic\u00eddio, assim como a de latroc\u00ednio aumenta 1,1%. Nesse trabalho, mostramos ainda que a difus\u00e3o de armas de fogo n\u00e3o afeta a taxa de outros crimes contra o patrim\u00f4nio, revelando que o argumento do uso defensivo da arma de fogo \u00e9 um mito. No c\u00f4mputo geral, encontramos que se n\u00e3o fosse a legisla\u00e7\u00e3o de armas para todos, p\u00f3s 2019, 6.379 vidas teriam sido poupadas neste per\u00edodo.<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental que o pr\u00f3ximo presidente da Rep\u00fablica lastreie suas decis\u00f5es em evid\u00eancias cient\u00edficas. No que diz respeito \u00e0 mat\u00e9ria aqui tratada, \u00e9 urgente que se revogue integralmente todos os mais de 40 dispositivos infra legais sobre armas de fogo e muni\u00e7\u00e3o sancionadas a partir de 2019. Al\u00e9m disso, \u00e9 crucial promover no Congresso Nacional um aprimoramento na legisla\u00e7\u00e3o de controle respons\u00e1vel desses artefatos, com a extin\u00e7\u00e3o da categoria de colecionadores de armas, entre outras aberra\u00e7\u00f5es ainda vigentes. Como sabemos, ci\u00eancia e boa gest\u00e3o salvam vidas.<\/p>\n<h6 id=\"sobre-o-autor\"><strong><em>Sobre o autor:<\/em><\/strong><\/h6>\n<h6 id=\"daniel-cerqueira-e-doutor-em-economia-diretor-presidente-do-instituto-jones-dos-santos-neves-ijsn-conselheiro-do-forum-brasileiro-de-seguranca-publica-fbsp-coordenador-do-atlas-da-violencia-e-p\"><em>Daniel Cerqueira \u00e9 doutor em economia. Diretor-presidente do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), conselheiro do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica (FBSP), coordenador do Atlas da Viol\u00eancia e professor do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Seguran\u00e7a P\u00fablica da Universidade Vila Velha (PPGSEG-UVV) e em Economia da Universidade de Bras\u00edlia (PPGECO-UnB).<\/em><\/h6>\n<h6 id=\"o-artigo-expressa-exclusivamente-a-opiniao-do-autor\"><strong><em>*O artigo expressa exclusivamente a opini\u00e3o do autor<\/em><\/strong><\/h6>\n<p><em><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.jornaldaciencia.org.br\/\">Jornal da Ci\u00eancia<\/a><\/span><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-jay-rembert-unsplash-com\">Capa: <a class=\"N2odk RZQOk Vk1a0 AsGGe pgmwB KHq0c\" href=\"https:\/\/unsplash.com\/@jay_rembert\">Jay Rembert<\/a> | <a href=\"http:\/\/unsplash.com\">Unsplash.com<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Artigo de Daniel Cerqueira, diretor-presidente do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN)&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":3268,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3266"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3266"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3266\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3270,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3266\/revisions\/3270"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3268"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3266"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3266"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3266"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}