{"id":3281,"date":"2022-10-12T07:30:38","date_gmt":"2022-10-12T07:30:38","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=3281"},"modified":"2022-10-10T12:37:50","modified_gmt":"2022-10-10T12:37:50","slug":"o-brasil-sabe-como-debelar-a-fome-e-so-fazer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=3281","title":{"rendered":"O Brasil sabe como debelar a fome, \u00e9 s\u00f3 fazer!"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"artigo-de-nathalie-beghin-coordenadora-da-assessoria-politica-do-inesc\"><span style=\"color: #808080;\">Artigo de Nathalie Beghin, coordenadora da Assessoria Pol\u00edtica do Inesc\u00a0<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 2022, o Brasil, uma das maiores pot\u00eancias agr\u00edcolas do mundo, atingiu n\u00edveis vergonhosos de inseguran\u00e7a alimentar grave: 33 milh\u00f5es de pessoas passando fome, de acordo com os dados recentemente publicados pela\u00a0<a href=\"https:\/\/olheparaafome.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong><span style=\"color: #800000;\">Rede Penssan<\/span><\/strong><\/a>. Uma das principais causas da volta desse flagelo social \u2013 em 2014 o pa\u00eds havia sa\u00eddo do Mapa da Fome das Na\u00e7\u00f5es Unidas \u2013 foi o desmonte de pol\u00edticas p\u00fablicas de promo\u00e7\u00e3o do direito humano \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o adequada que haviam sido progressivamente estruturadas no pa\u00eds desde os anos de 1990, com maior \u00eanfase a partir de 2003.<\/p>\n<p>Os impactos do desmonte das pol\u00edticas de seguran\u00e7a alimentar e nutricional s\u00e3o agravados pelos efeitos da forma de produzir e consumir alimentos no Brasil que apresentam graves consequ\u00eancias na sa\u00fade das pessoas, no meio ambiente e nas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. O agroneg\u00f3cio \u00e9 respons\u00e1vel por boa parte da \u00e1gua extra\u00edda da natureza, causa enorme perda da biodiversidade, contamina os recursos naturais, gera emiss\u00f5es de gases de efeito estufa, adoece a popula\u00e7\u00e3o por meio de agrot\u00f3xicos e de alimentos ultraprocessados e expulsa camponeses, povos ind\u00edgenas e povos e comunidades tradicionais de suas terras e territ\u00f3rios engrossando as periferias empobrecidas das grandes cidades.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que o Brasil atingiu uma rela\u00e7\u00e3o insustent\u00e1vel entre a produ\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e o consumo de alimentos.<\/p>\n<p>A boa not\u00edcia \u00e9 que sabemos como fazer para enfrentar esta quest\u00e3o. A fome \u00e9 um problema multicausal decorrente da insufici\u00eancia de renda; da dificuldade de acessar alimentos de qualidade e em quantidades suficientes; e, de processos discriminat\u00f3rios, como o racismo e o patriarcado, que penalizam mulheres, pessoas negras, povos ind\u00edgenas, comunidades tradicionais e quilombolas, entre outras causas.<\/p>\n<p>Assim, o enfrentamento da inseguran\u00e7a alimentar e nutricional requer uma abordagem sist\u00eamica e multisetorial. Para possibilitar a aquisi\u00e7\u00e3o de alimentos \u00e9 preciso aumentar o sal\u00e1rio-m\u00ednimo em termos reais, implementar pol\u00edticas p\u00fablicas de gera\u00e7\u00e3o de emprego e renda e ampliar a cobertura e os valores de programas de transfer\u00eancia de renda, como o Bolsa Fam\u00edlia e o Benef\u00edcio de Presta\u00e7\u00e3o Continuada (BPC). A urg\u00eancia de reparar as desigualdades de g\u00eanero e ra\u00e7a exige a implementa\u00e7\u00e3o de medidas afirmativas como, por exemplo, cotas para negros e mulheres no mercado de trabalho e valores de transfer\u00eancias monet\u00e1rias maiores para mulheres e pessoa pretas e pardas.<\/p>\n<p>A maior disponibilidade de alimentos de qualidade passa por assegurar o acesso \u00e0 terra e territ\u00f3rios aos que produzem com respeito \u00e0 natureza e aos distintos h\u00e1bitos alimentares da nossa popula\u00e7\u00e3o; passa, tamb\u00e9m, pelo fortalecimento da agricultura familiar e da agricultura urbana na perspectiva da agroecologia; pelo acesso sustent\u00e1vel \u00e0 \u00e1gua para produ\u00e7\u00e3o e consumo no semi\u00e1rido; pelo aumento dos recursos p\u00fablicos alocados \u00e0 programas de alimenta\u00e7\u00e3o e nutri\u00e7\u00e3o, como a alimenta\u00e7\u00e3o escolar; pela implementa\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica p\u00fablica de abastecimento que aproxime produtores de consumidores de alimentos; e, pela implanta\u00e7\u00e3o de equipamentos urbanos de alimenta\u00e7\u00e3o e nutri\u00e7\u00e3o como restaurantes populares e cozinhas comunit\u00e1rias. Aqui tamb\u00e9m, a necessidade de corrigir os efeitos do racismo e do sexismo requer pol\u00edticas afirmativas como modalidades diferenciadas de acesso \u00e0 cr\u00e9dito rural para agricultoras mulheres e agricultores negros e quilombolas.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, ainda, coibir pr\u00e1ticas empresariais extremamente danosas \u00e0 sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o, como \u00e9 o caso dos agrot\u00f3xicos e de produtos ultraprocessados. Esses \u00faltimos parecem comida, mas s\u00e3o imita\u00e7\u00e3o de comida. S\u00e3o fabricados a partir de diversas etapas de processamento e combinam ingredientes como prote\u00edna de soja e de leite, extrato de carnes, gordura vegetal hidrogenada, xarope de frutose, espessantes, emulsificantes, corantes, aromatizantes, real\u00e7adores de sabor e v\u00e1rios outros tipos de aditivos. S\u00e3o exemplos disso: pratos congelados prontos, biscoitos recheados, salgadinhos de pacote, sucos a\u00e7ucarados e refrigerantes, entre outros. Esses produtos contribuem para aumentar diversos tipos de doen\u00e7a como obesidade, hipertens\u00e3o, diabetes e alguns tipos de c\u00e2ncer. Os poderes p\u00fablicos devem n\u00e3o somente deixar de subsidiar essas empresas como sobretax\u00e1-las pelas graves consequ\u00eancias que trazem \u00e0 sa\u00fade das pessoas.<\/p>\n<p>A centralidade da abordagem intersetorial para fazer face \u00e0 um problema complexo, como no caso da fome no Brasil, n\u00e3o \u00e9 algo novo. Contudo, para funcionar deve ser al\u00e7ada a prioridade nacional e ancorada na celebra\u00e7\u00e3o de um amplo pacto federativo que envolva a Uni\u00e3o, estados e munic\u00edpios. Para tal, faz-se necess\u00e1rio retomar o Sistema Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (Sisan) sob a lideran\u00e7a do governo federal. \u00c9 primordial, ainda, a efetiva participa\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es e movimentos sociais que possam expressar as demandas e necessidades das pessoas mais afetadas pela alimenta\u00e7\u00e3o inadequada. Da\u00ed a urg\u00eancia de retomar o Conselho Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (Consea) e os ciclos de confer\u00eancias nacionais.<\/p>\n<p>V\u00ea-se que n\u00e3o h\u00e1 segredos, \u00e9 s\u00f3 come\u00e7ar j\u00e1!<\/p>\n<p><strong><em>Sobre a autora:<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Nathalie Beghin \u00e9 coordenadora da Assessoria Pol\u00edtica do Instituto de Estudos Socioecon\u00f4micos (Inesc). Economista (Universit\u00e9 Libre de Bruxelles), com mestrado e doutorado em Pol\u00edtica Social pela Universidade de Bras\u00edlia (UnB)<\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #808080;\"><em><a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/www.jornaldaciencia.org.br\/\">Jornal da Ci\u00eancia<\/a><\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-cdc-unsplash-com\">Capa: <a class=\"N2odk RZQOk Vk1a0 AsGGe pgmwB KHq0c\" href=\"https:\/\/unsplash.com\/@cdc\">CDC<\/a> | <a href=\"http:\/\/Unsplash.com\">Unsplash.com<\/a><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Artigo de Nathalie Beghin, coordenadora da Assessoria Pol\u00edtica do Inesc\u00a0 &nbsp; Em&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":3282,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3281"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3281"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3281\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3284,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3281\/revisions\/3284"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3282"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3281"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3281"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3281"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}