{"id":3633,"date":"2023-01-09T08:00:40","date_gmt":"2023-01-09T08:00:40","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=3633"},"modified":"2023-08-30T19:10:58","modified_gmt":"2023-08-30T19:10:58","slug":"mudancas-climaticas-caminhos-para-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=3633","title":{"rendered":"Mudan\u00e7as clim\u00e1ticas: caminhos para o Brasil"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"a-construcao-de-uma-sociedade-minimamente-sustentavel-requer-esforcos-da-comunidade-com-colaboracao-entre-a-ciencia-e-os-formuladores-de-politicas-publicas\"><span style=\"color: #808080;\">A constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade minimamente sustent\u00e1vel requer esfor\u00e7os da comunidade com colabora\u00e7\u00e3o entre a ci\u00eancia e os formuladores de pol\u00edticas p\u00fablicas <\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 id=\"introducao\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas constituem um dos maiores desafios da humanidade. \u00c9 urgente entendermos como os ecossistemas brasileiros, a economia, a infraestrutura, as cadeias produtivas, a biodiversidade, a sa\u00fade, entre outros aspectos, est\u00e3o sendo afetados por elas. O Brasil \u00e9 o s\u00e9timo maior emissor de gases de efeito estufa (GEE) do planeta, e o quarto em emiss\u00f5es per capita. Historicamente, desde a revolu\u00e7\u00e3o industrial, o Brasil \u00e9 o sexto maior emissor global de GEE, o que faz de nosso pa\u00eds um dos maiores respons\u00e1veis pela crise clim\u00e1tica. O Brasil tem vantagens estrat\u00e9gicas enormes, como a possibilidade de reduzir fortemente as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa, com ganhos importantes para a sociedade. Temos um potencial de gera\u00e7\u00e3o de energia solar e e\u00f3lica que nenhum outro pa\u00eds possui. Mas tamb\u00e9m temos vulnerabilidades, como um agroneg\u00f3cio dependente do clima e a gera\u00e7\u00e3o de hidroeletricidade dependente da chuva. Ainda, temos tamb\u00e9m 8.500 km de \u00e1reas costeiras sens\u00edveis ao aumento do n\u00edvel do mar, e \u00e1reas urbanas vulner\u00e1veis a eventos clim\u00e1ticos extremos. Precisamos construir uma socioeconomia mais justa e com menos desigualdades, com clima e meio ambiente integrados de modo sustent\u00e1vel \u00e0s nossas atividades socioecon\u00f4micas.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia n\u00e3o tem d\u00favidas quanto ao fato de que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas est\u00e3o gerando impactos significativos para o Brasil e para o planeta como um todo.<sup>[1]<\/sup> Seja com o aumento gradual de temperatura, ou de eventos clim\u00e1ticos extremos, como secas e inunda\u00e7\u00f5es, a mudan\u00e7a clim\u00e1tica j\u00e1 est\u00e1 conosco o tempo todo e agora trazem impactos importantes em nosso sistema socioecon\u00f4mico. As perspectivas que a ci\u00eancia coloca para nossa sociedade \u00e9 de que podemos ter um aquecimento planet\u00e1rio m\u00e9dio da ordem de 3<sup> o<\/sup>C a 4 <sup>o<\/sup>C at\u00e9 2100. Em \u00e1reas continentais, a estimativa \u00e9 de um aquecimento de 4 a 5 <sup>o<\/sup>C.<sup>[1]<\/sup> Isso poder\u00e1 comprometer o funcionamento de muitos ecossistemas, bem como o nosso pr\u00f3prio sistema produtivo e infraestrutura, inclusive com dificuldades importantes para alimentar 10 bilh\u00f5es de pessoas em 2050 em um clima menos favor\u00e1vel. \u00c9 urgente entender claramente como os ecossistemas brasileiros, a economia, a infraestrutura, as cadeias produtivas, a biodiversidade, a sa\u00fade, entre outros aspectos, est\u00e3o sendo afetados.<\/p>\n<p>Aumentar a resili\u00eancia socioambiental \u00e9 muito importante. Para al\u00e9m do potencial impacto nos ecossistemas, com boa vontade e governan\u00e7a colaborativa, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas podem ser vistas como uma oportunidade para transforma\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas significativas e para agilizar o desenvolvimento tecnol\u00f3gico em diversos setores, incluindo ind\u00fastria, agroneg\u00f3cio, sistemas de energia, transportes, etc., buscando a transi\u00e7\u00e3o para uma sociedade mais sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>O Brasil est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de ser competitivo em uma economia de baixo carbono, desde que explore as possibilidades de transformar sua matriz energ\u00e9tica com o uso de energias renov\u00e1veis, eliminando o desmatamento e reduzindo as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa (GEE) provenientes do setor agropecu\u00e1rio. Tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio estimular, ao mesmo tempo, medidas como a restaura\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e a conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade em todos os biomas brasileiros. Isso pode ser alcan\u00e7ado sem comprometer o crescimento econ\u00f4mico e promovendo a redu\u00e7\u00e3o da desigualdade social, devido a algumas vantagens estrat\u00e9gicas que temos no nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>O Brasil mostra vulnerabilidades importantes nas \u00e1reas ambiental e clim\u00e1tica.<sup>[2]<\/sup> O observado aumento da frequ\u00eancia e intensidade de eventos clim\u00e1ticos extremos tem impactado sobremaneira nossa popula\u00e7\u00e3o, a economia, o funcionamento dos ecossistemas, a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, a infraestrutura costeira, a disponibilidade de recursos h\u00eddricos, entre muitos outros efeitos. Particularmente nas cidades costeiras, a alta densidade populacional, defici\u00eancias infraestruturais, altos n\u00edveis de polui\u00e7\u00e3o, degrada\u00e7\u00e3o de rios e \u00e1reas \u00famidas, combinados com os efeitos negativos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, como eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar e ocorr\u00eancia de eventos extremos, amea\u00e7am importantes atividades socioecon\u00f4micas dependentes dos oceanos, como turismo, pesca e com\u00e9rcio internacional.<\/p>\n<p>Outras vulnerabilidades importantes s\u00e3o um agroneg\u00f3cio e a gera\u00e7\u00e3o de hidroeletricidade dependentes de chuva e clima, e algumas regi\u00f5es, principalmente o Nordeste, em processo de desertifica\u00e7\u00e3o. As previs\u00f5es de redu\u00e7\u00e3o nas precipita\u00e7\u00f5es sobre o territ\u00f3rio brasileiro, particularmente no Nordeste, Brasil central e Amaz\u00f4nia, devem ser motivos de preocupa\u00e7\u00e3o sobre como poderemos nos adaptar ao novo clima.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 id=\"interacoes-entre-as-mudancas-climaticas-e-os-impactos-socioeconomicos\"><strong>Intera\u00e7\u00f5es entre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e os impactos socioecon\u00f4micos<\/strong><\/h3>\n<p>Segundo o Intergovernamental <em>Panel on Climate Change<\/em> (IPCC), as emiss\u00f5es globais de gases de efeito estufa devem cair pelo menos 7% ao ano, entre 2021 e 2030, e zerar as emiss\u00f5es em 2050, para afastar a chance de colapso clim\u00e1tico, estabilizando o aquecimento global em 1,5 <sup>o<\/sup>C. Entretanto, as emiss\u00f5es, ao longo dos \u00faltimos anos, est\u00e3o, na verdade, aumentando globalmente cerca de 2% a 4% ao ano. As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas interagem com m\u00faltiplos estressores sociais e ambientais, intensificando seus impactos sociais e econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>Popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis vivendo em encostas, que podem perder a vida em uma \u00fanica chuva forte, s\u00e3o apenas um dos muitos exemplos. O agricultor que tem sua pequena propriedade familiar e \u00e9 obrigado a abandonar as poucas cabe\u00e7as de gado e a ro\u00e7a devido a uma seca prolongada tamb\u00e9m corre o risco de ser afetado. Muitas dessas dimens\u00f5es das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e suas intera\u00e7\u00f5es sociais precisam ser mais bem compreendidas por meio de uma estreita colabora\u00e7\u00e3o entre diversas \u00e1reas de pesquisa na academia e de m\u00faltiplos atores sociais, incluindo lideran\u00e7as pol\u00edticas, organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, grupos sociais, comunidades e minorias.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas relat\u00f3rios mais recentes do IPCC, lan\u00e7ados em 2021 e 2022, mostram o quanto o Brasil, particularmente, \u00e9 vulner\u00e1vel \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. O aquecimento m\u00e9dio observado no pa\u00eds, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, \u00e9 significativamente maior do que o aquecimento m\u00e9dio do planeta, pois as \u00e1reas continentais se aquecem mais do que as \u00e1reas oce\u00e2nicas, que est\u00e3o inclu\u00eddas na m\u00e9dia mundial. Nos \u00faltimos vinte anos, extremos clim\u00e1ticos registrados em todas as regi\u00f5es brasileiras enfatizaram a necessidade de solu\u00e7\u00f5es para minimizar os problemas socioecon\u00f4micos decorrentes de secas fortes e frequentes e inunda\u00e7\u00f5es em grandes \u00e1reas, inclusive \u00e1reas urbanas.<\/p>\n<p>O nosso modelo econ\u00f4mico, baseado no agroneg\u00f3cio, tamb\u00e9m \u00e9 particularmente vulner\u00e1vel a altera\u00e7\u00f5es nos padr\u00f5es pluviom\u00e9tricos e nos padr\u00f5es e aumento dos extremos clim\u00e1ticos. Quanto e quando chove \u00e9 fundamental para a produtividade agr\u00edcola, podendo trazer inseguran\u00e7a alimentar e instabilidade econ\u00f4mica para a popula\u00e7\u00e3o brasileira. Vale ressaltar que nosso pa\u00eds tamb\u00e9m apresenta inseguran\u00e7a energ\u00e9tica dada a vulnerabilidade da gera\u00e7\u00e3o de energia hidrel\u00e9trica aos padr\u00f5es de chuva. Observamos que a seca no Brasil central em 2021 afetou o custo da eletricidade, pois v\u00e1rias termel\u00e9tricas foram ativadas e estas geram eletricidade com custo mais alto que as hidroel\u00e9tricas. O Brasil tem 8.500 km de \u00e1reas costeiras, incluindo v\u00e1rias grandes cidades, tornando-o vulner\u00e1vel \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar e \u00e0 acidifica\u00e7\u00e3o marinha, que afetam a economia baseada em recursos pesqueiros.<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental ajudar o pa\u00eds a desenvolver estrat\u00e9gias baseadas na ci\u00eancia para que o Brasil possa cumprir suas obriga\u00e7\u00f5es internacionais (como as Contribui\u00e7\u00f5es Nacionalmente Determinadas \u2013 NDC) associadas ao Acordo de Paris e \u00e0 Agenda 2030. Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (ODS) da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), ilustrados na Figura 1, fornecem um arcabou\u00e7o de como nossa sociedade pode se tornar mais sustent\u00e1vel, e ao mesmo tempo, mais justa e resiliente. A a\u00e7\u00e3o contra a mudan\u00e7a do clima \u00e9 o ODS 13, mas muitos dos demais ODS s\u00e3o imposs\u00edveis de serem cumpridos sem um clima est\u00e1vel e previs\u00edvel, al\u00e9m de dependerem de um sistema econ\u00f4mico mais justo que respeite os limites propiciados pelos recursos naturais finitos, e que considere a quest\u00e3o da justi\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n<h6 id=\"figura-1-o-brasil-e-um-dos-signatarios-da-agenda-2030-que-estruturou-os-17-objetivos-de-desenvolvimento-sustentavel-da-onu-que-sao-a-peca-central-da-construcao-de-uma-nova-sociedade-mais-sustentav\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-3635\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/CC-4-edicao-opiniao-Mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-caminhos-para-o-Brasil-figura1-300x164.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"274\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/CC-4-edicao-opiniao-Mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-caminhos-para-o-Brasil-figura1-300x164.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/CC-4-edicao-opiniao-Mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-caminhos-para-o-Brasil-figura1-18x10.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/CC-4-edicao-opiniao-Mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-caminhos-para-o-Brasil-figura1-200x110.jpg 200w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/CC-4-edicao-opiniao-Mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-caminhos-para-o-Brasil-figura1.jpg 467w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 1.<\/strong> <strong>O Brasil \u00e9 um dos signat\u00e1rios da Agenda 2030, que estruturou os <\/strong><a href=\"https:\/\/brasil.un.org\/pt-br\/sdgs\"><strong>17 Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel da ONU<\/strong><\/a><strong>, que s\u00e3o a pe\u00e7a central da constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade, mais sustent\u00e1vel, justa e resiliente. A implementa\u00e7\u00e3o de medidas econ\u00f4micas, sociais e ambientais para que nossa sociedade possa atingir os 17 ODS deve ser uma prioridade nesta d\u00e9cada.<br \/>\n<\/strong>(ONU. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 id=\"os-compromissos-brasileiros-na-agenda-climatica\"><strong>Os compromissos brasileiros na agenda clim\u00e1tica<\/strong><\/h3>\n<p>Em 2016, o Brasil ratificou o Acordo de Paris, comprometendo-se a reduzir suas emiss\u00f5es de gases de efeito estufa em 37% at\u00e9 2025, e 43% at\u00e9 2030, em compara\u00e7\u00e3o com emiss\u00f5es verificadas em 2005, e eliminar o desmatamento ilegal da Amaz\u00f4nia. O pa\u00eds tamb\u00e9m se comprometeu a aumentar a participa\u00e7\u00e3o da bioenergia na sua matriz energ\u00e9tica para 18% at\u00e9 2030, restaurar e reflorestar 12 milh\u00f5es de hectares de florestas, bem como alcan\u00e7ar uma participa\u00e7\u00e3o de 45% de energias renov\u00e1veis na composi\u00e7\u00e3o da matriz energ\u00e9tica em 2030, al\u00e9m de uma redu\u00e7\u00e3o em 10% do consumo de eletricidade (105 TWh em 2030).<\/p>\n<p>Tornar-se neutro em emiss\u00f5es de carbono em 2050 tamb\u00e9m \u00e9 um dos nossos compromissos, assim como recuperar uma \u00e1rea de 15 milh\u00f5es de hectares de pastagens degradadas por meio do manejo adequado e aduba\u00e7\u00e3o. S\u00e3o metas que exigir\u00e3o esfor\u00e7os consider\u00e1veis da ci\u00eancia e da sociedade brasileira. Na COP-26, em Glasgow, em 2021, o Brasil adicionalmente se comprometeu a reduzir suas emiss\u00f5es de metano em 30% at\u00e9 2030, e eliminar o desmatamento da Amaz\u00f4nia at\u00e9 2030.<\/p>\n<p>Importante salientar que esses compromissos da agenda clim\u00e1tica v\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o de alcan\u00e7armos os 17 ODS e trabalhar na dire\u00e7\u00e3o da preserva\u00e7\u00e3o de nossa biodiversidade. Eles s\u00e3o essenciais na constru\u00e7\u00e3o de um novo Brasil, mais sustent\u00e1vel e justo. Todos os ODS podem atingidos, mas precisamos da governan\u00e7a necess\u00e1ria para implementar essas medidas. Em particular, voltarmos a ter \u00f3rg\u00e3os fiscalizadores efetivos, e uma maior regula\u00e7\u00e3o do sistema fundi\u00e1rio e das atividades agropecu\u00e1rias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 id=\"integrando-a-protecao-da-biodiversidade-a-mitigacao-das-mudancas-climaticas\"><strong>Integrando a prote\u00e7\u00e3o da biodiversidade \u00e0 mitiga\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/strong><\/h3>\n<p>Estamos em plena era do Antropoceno, na qual o homem \u00e9 um dos principais agentes transformadores. O crescimento da popula\u00e7\u00e3o humana mundial, que poder\u00e1 alcan\u00e7ar entre 9 e 10 bilh\u00f5es de pessoas em 2050, nos coloca frente a um dos maiores desafios do s\u00e9culo XXI: manter a provis\u00e3o da qualidade ambiental e possibilitar acesso justo a recursos b\u00e1sicos, como \u00e1gua, alimentos e energia, garantindo a seguran\u00e7a e equidade em um cen\u00e1rio de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e desigualdades sociais. Esta quest\u00e3o \u00e9 bem trabalhada no \u00faltimo relat\u00f3rio do <em>Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services<\/em> (IPBES),<sup>[5]<\/sup> que coloca o colapso dos servi\u00e7os ecossist\u00eamicos na agenda ambiental.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-observado-aumento-da-frequencia-e-intensidade-de-eventos-climaticos-extremos-tem-impactado-sobremaneira-nossa-populacao-a-economia-o-funcionamento-dos-ecossistemas-a-producao-agricola-a\" style=\"text-align: center;\"><em><span style=\"color: #800000;\">\u201cO observado aumento da frequ\u00eancia e intensidade de eventos clim\u00e1ticos extremos tem impactado sobremaneira nossa popula\u00e7\u00e3o, a economia, o funcionamento dos ecossistemas, a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, a infraestrutura costeira, a disponibilidade de recursos h\u00eddricos, entre muitos outros efeitos.\u201d<\/span><\/em><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os servi\u00e7os ecossist\u00eamicos englobam todos os materiais que consumimos providos pelos ecossistemas, sejam alimentos (frutos, ra\u00edzes, animais, mel, vegetais), mat\u00e9rias-primas para constru\u00e7\u00e3o e combust\u00edvel (madeira, biomassa, \u00f3leos de plantas), \u00e1gua pot\u00e1vel (qualidade e quantidade) e recursos gen\u00e9ticos, entre outros. A resili\u00eancia dos ecossistemas e sua capacidade de reagir a mudan\u00e7as est\u00e3o sujeitos, em grande parte, \u00e0 sua biodiversidade.<\/p>\n<p>As altera\u00e7\u00f5es observadas na temperatura e na chuva j\u00e1 est\u00e3o impactando o funcionamento dos ecossistemas em praticamente todas as regi\u00f5es do nosso planeta. Mudan\u00e7as clim\u00e1ticas podem, por exemplo, levar a desencontros entre a \u00e9poca da flora\u00e7\u00e3o e a atividade dos polinizadores, afetando a produtividade de culturas e de ecossistemas naturais, com consequ\u00eancias ainda imprevistas para a manuten\u00e7\u00e3o da biodiversidade e da produ\u00e7\u00e3o de alimentos. Tamb\u00e9m perturbam os padr\u00f5es ecossist\u00eamicos da fotoss\u00edntese e da produtividade, podendo modificar os ciclos hidrol\u00f3gicos e a din\u00e2mica do ciclo do carbono.<\/p>\n<p>Os efeitos sin\u00e9rgicos da mudan\u00e7a do uso da terra, incluindo a fragmenta\u00e7\u00e3o e redu\u00e7\u00e3o de vegeta\u00e7\u00e3o nativa e mudan\u00e7as do clima, podem aumentar a a\u00e7\u00e3o de pragas, reduzindo os polinizadores e exigindo medidas de mitiga\u00e7\u00e3o ou adapta\u00e7\u00e3o para garantir a produtividade de muitas culturas alimentares no Brasil e ao redor do mundo. A vulnerabilidade da nossa biota e ecossistemas aumenta significativamente e, consequentemente, reduz a biodiversidade e os servi\u00e7os ecossist\u00eamicos associados, vitais para nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Na Amaz\u00f4nia, o aumento da produ\u00e7\u00e3o de biomassa, acelera\u00e7\u00e3o do ciclo de vida das \u00e1rvores, altera\u00e7\u00f5es na distribui\u00e7\u00e3o e abund\u00e2ncia de esp\u00e9cies est\u00e3o entre as mudan\u00e7as relacionadas ao efeito fisiol\u00f3gico da eleva\u00e7\u00e3o de CO\u2082\u00a0atmosf\u00e9rico, tamb\u00e9m influenciadas pela disponibilidade de nutrientes nos solos, em particular o f\u00f3sforo. Em nossa vasta plataforma continental oce\u00e2nica, nosso conhecimento \u00e9 ainda mais restrito em decorr\u00eancia da falta de programas de monitoramento, e das especificidades dos estudos nesse ambiente. No ambiente marinho, o aquecimento da \u00e1gua tem promovido a migra\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies e estoques pesqueiros para maiores latitudes.<\/p>\n<p>Para melhorar a detec\u00e7\u00e3o e atribui\u00e7\u00e3o dos efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas na biodiversidade e ecossistemas brasileiros, \u00e9 fundamental melhorar nosso entendimento dos servi\u00e7os ecossist\u00eamicos relacionados, e analisar poss\u00edveis respostas a cen\u00e1rios futuros de aquecimento, prevendo e sugerindo medidas de mitiga\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o e procedimentos de remedia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 id=\"os-desafios-brasileiros-em-setores-chaves-nesta-transformacao\"><strong>Os desafios brasileiros em setores chaves nesta transforma\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>O Brasil tem um perfil de emiss\u00e3o de GEE muito peculiar e diferente da maior parte dos pa\u00edses desenvolvidos. O <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"http:\/\/www.seeg.eco.br\">Sistema de Estimativas de Emiss\u00f5es de Gases de Efeito Estufa do Observat\u00f3rio do Clima<\/a> <\/strong><\/span>(SEEG) mostra que os setores que mais emitiram GEE s\u00e3o: mudan\u00e7a de uso do solo (46%), agropecu\u00e1ria (27%), energia (18%), processos industriais (5%) e res\u00edduos (4%). O setor de transporte est\u00e1 inclu\u00eddo na componente de energia. Na maior parte dos pa\u00edses, as emiss\u00f5es s\u00e3o dominadas pela queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis para gera\u00e7\u00e3o de eletricidade e no setor de transporte. O total das emiss\u00f5es brasileiras atingiu em 2021 cerca de 2,16 bilh\u00f5es de toneladas de CO\u2082\u00a0equivalentes. A Figura 2 apresenta a s\u00e9rie hist\u00f3rica das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa do Brasil, de 1990 a 2021, por cada setor econ\u00f4mico. Nota-se que desde 2011, temos emiss\u00f5es crescentes, apesar do compromisso brasileiro de reduzir emiss\u00f5es de gases de efeito estufa.<\/p>\n<h6 id=\"figura-2-serie-historica-das-emissoes-de-gases-de-efeito-estufa-do-brasil-de-1990-a-2021-por-cada-setor-economico-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-3637\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/CC-4-edicao-opiniao-Mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-caminhos-para-o-Brasil-figura2-300x150.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/CC-4-edicao-opiniao-Mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-caminhos-para-o-Brasil-figura2-300x150.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/CC-4-edicao-opiniao-Mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-caminhos-para-o-Brasil-figura2-18x9.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/CC-4-edicao-opiniao-Mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-caminhos-para-o-Brasil-figura2.jpg 468w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 2. S\u00e9rie hist\u00f3rica das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa do Brasil, de 1990 a 2021, por cada setor econ\u00f4mico.<br \/>\n<\/strong>(Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h3 id=\"a-questao-energetica\"><strong>A quest\u00e3o energ\u00e9tica<\/strong><\/h3>\n<p>Na escala planet\u00e1ria, cerca de 75% das emiss\u00f5es globais de GEE est\u00e3o associados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de energia e ao setor de transporte. Os desafios cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos para reduzir emiss\u00f5es e manter o aquecimento global m\u00e1ximo em 2 <sup>o<\/sup>C, como estabelecido pelos pa\u00edses signat\u00e1rios do Acordo de Paris, implicam grandes transforma\u00e7\u00f5es globais na produ\u00e7\u00e3o e uso de energia, em particular nos setores de gera\u00e7\u00e3o de eletricidade por termel\u00e9tricas e em transportes. O Brasil tem importantes vantagens estrat\u00e9gicas na \u00e1rea energ\u00e9tica, pois uma parcela significativa de nossa matriz energ\u00e9tica vem de fontes renov\u00e1veis, como a hidroeletricidade e biocombust\u00edveis, e possu\u00edmos grande potencial de utiliza\u00e7\u00e3o das energias e\u00f3lica (<em>onshore<\/em> e <em>offshore<\/em>) e solar. Entretanto, as emiss\u00f5es de GEE do setor energ\u00e9tico brasileiro dobraram de 1990 a 2019, devido ao aumento da queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis, para gera\u00e7\u00e3o por termel\u00e9tricas.<\/p>\n<p>Incorporar o potencial de redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es ao atual sistema energ\u00e9tico nacional requer desenvolvimento de novos modelos de gera\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e tarifa\u00e7\u00e3o de energia, e incentivos para que o uso de energia renov\u00e1vel seja ampliado, em especial para a gera\u00e7\u00e3o e\u00f3lica e solar. Novas oportunidades de cria\u00e7\u00e3o de empregos, novos neg\u00f3cios e novas cadeias de suprimento com novas tecnologias poder\u00e3o surgir. Ao mesmo tempo e na dire\u00e7\u00e3o oposta, h\u00e1 interesse crescente na incorpora\u00e7\u00e3o de novas parcelas de combust\u00edveis f\u00f3sseis, especialmente de g\u00e1s natural e petr\u00f3leo oriundos da explora\u00e7\u00e3o do pr\u00e9-sal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"as-consequencias-do-descaso-com-a-infraestrutura-associada-a-cobertura-vegetal-e-recursos-hidricos-que-modulam-o-clima-urbano-tendem-a-agravar-episodios-recorrentes-de-inundacoes-e-alagamen\" style=\"text-align: center;\"><em><span style=\"color: #800000;\">\u201cAs consequ\u00eancias do descaso com a infraestrutura associada \u00e0 cobertura vegetal e recursos h\u00eddricos, que modulam o clima urbano, tendem a agravar epis\u00f3dios recorrentes de inunda\u00e7\u00f5es e alagamentos severos, ondas de calor e baixa qualidade do ar, trazendo s\u00e9rios danos \u00e0 qualidade de vida e bem-estar dos indiv\u00edduos.\u201d<\/span><\/em><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A aparente contradi\u00e7\u00e3o entre a evolu\u00e7\u00e3o para as energias renov\u00e1veis e a explora\u00e7\u00e3o do pr\u00e9-sal pode ser resolvida por meio de estrat\u00e9gias de utiliza\u00e7\u00e3o do g\u00e1s natural como um combust\u00edvel de transi\u00e7\u00e3o, possibilitando a inser\u00e7\u00e3o gradativa de grandes blocos de energia intermitente. S\u00e3o necess\u00e1rios esfor\u00e7os para melhor compreens\u00e3o dos impactos de mudan\u00e7as em tecnologias e pol\u00edticas energ\u00e9ticas no que se refere \u00e0 maior resili\u00eancia da economia brasileira e, ao mesmo tempo, reduzir as emiss\u00f5es de GEE da gera\u00e7\u00e3o el\u00e9trica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 id=\"mudancas-de-uso-do-solo-e-agropecuaria\"><strong>Mudan\u00e7as de uso do solo e agropecu\u00e1ria<\/strong><\/h3>\n<p>A quest\u00e3o do desmatamento da Amaz\u00f4nia e sua liga\u00e7\u00e3o com a expans\u00e3o da agropecu\u00e1ria s\u00e3o quest\u00f5es centrais para o Brasil. Depreende-se da an\u00e1lise dos dados do SEEG que a atividade rural ainda responde pela imensa maioria das emiss\u00f5es do Brasil. Quando se soma o total emitido por mudan\u00e7a de uso da terra e as emiss\u00f5es totais da agropecu\u00e1ria, a maioria delas do rebanho bovino, conclui-se que 73% das emiss\u00f5es nacionais est\u00e3o diretas ou indiretamente ligadas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o rural e ao desmatamento da Amaz\u00f4nia. A Figura 3 apresenta as taxas anuais de desmatamento da floresta amaz\u00f4nica, produzidas pelo sistema de monitoramento Programa de Desmatamento (Prodes) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).<\/p>\n<h6 id=\"figura-3-taxas-anuais-de-desmatamento-da-floresta-amazonica-produzidas-pelo-sistema-de-monitoramento-prodes-do-inpe-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-3638\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/CC-4-edicao-opiniao-Mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-caminhos-para-o-Brasil-figura3-300x160.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/CC-4-edicao-opiniao-Mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-caminhos-para-o-Brasil-figura3-300x160.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/CC-4-edicao-opiniao-Mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-caminhos-para-o-Brasil-figura3-18x10.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/CC-4-edicao-opiniao-Mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-caminhos-para-o-Brasil-figura3-260x140.jpg 260w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/CC-4-edicao-opiniao-Mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-caminhos-para-o-Brasil-figura3-560x300.jpg 560w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/CC-4-edicao-opiniao-Mudanc\u0327as-clima\u0301ticas-caminhos-para-o-Brasil-figura3.jpg 755w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 3. Taxas anuais de desmatamento da floresta amaz\u00f4nica, produzidas pelo sistema de monitoramento PRODES do INPE.<br \/>\n<\/strong>(Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Brasil, com um forte agroneg\u00f3cio e taxas altas de desmatamento da Amaz\u00f4nia e Cerrado, est\u00e1 no centro da quest\u00e3o de redu\u00e7\u00e3o do desmatamento. Por outro lado, o das vulnerabilidades, o clima \u00e9 um fator significativo na produtividade agr\u00edcola, e um dos setores que podem ser muito impactados \u00e9 exatamente a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e a pecu\u00e1ria. Temos um potencial de perdas de produtividade agr\u00edcola devido \u00e0s altera\u00e7\u00f5es no regime de chuvas e aumento de temperatura.<\/p>\n<p>As implica\u00e7\u00f5es para o manejo e renda de propriedades agr\u00edcolas dependem de combina\u00e7\u00f5es de adapta\u00e7\u00f5es incrementais (agricultura de precis\u00e3o, sensoriamento remoto, etc.), adapta\u00e7\u00e3o sist\u00eamica (conserva\u00e7\u00e3o de solo e \u00e1gua, diversidade gen\u00e9tica, etc.) e adapta\u00e7\u00f5es transformativas (sistemas agr\u00edcolas complexos, agroecologia, agroflorestal, etc.). Em todos os casos, efeitos ben\u00e9ficos ou delet\u00e9rios podem existir, o que requer estudos comparativos em v\u00e1rias escalas. Um dos desafios \u00e9 desenvolver uma agricultura mais eficiente e resiliente, reduzindo drasticamente novas expans\u00f5es sobre \u00e1reas de vegeta\u00e7\u00e3o nativa, como a Amaz\u00f4nia e o Cerrado, e, ao mesmo tempo, reduzir as emiss\u00f5es.<\/p>\n<p>A\u00e7\u00f5es para a redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es do \u00f3xido nitroso (N\u2082O) e metano (CH\u2084) no setor agropecu\u00e1rio constituem uma quest\u00e3o primordial. A Embrapa est\u00e1 liderando um grande projeto de desenvolvimento de agricultura de baixo carbono, o chamado <a href=\"https:\/\/www.embrapa.br\/tema-agricultura-de-baixo-carbono\/sobre-o-tema\"><strong><span style=\"color: #800000;\">programa ABC<\/span><\/strong><\/a>, que inclui ampliar a utiliza\u00e7\u00e3o do Sistema Plantio Direto (SPD) em 8 milh\u00f5es de hectares, e aumentar a ado\u00e7\u00e3o de sistemas de Integra\u00e7\u00e3o Lavoura-Pecu\u00e1ria-Floresta (iLPF) e de Sistemas Agroflorestais (SAFs) em 4 milh\u00f5es de hectares.<\/p>\n<p>O trabalho nessa \u00e1rea deve contemplar pesquisas interdisciplinares, ressaltando os aspectos da busca integrada do equil\u00edbrio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria e conserva\u00e7\u00e3o ambiental. Por exemplo, para os pequenos produtores, esses impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas podem representar uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia, enquanto para os grandes produtores os impactos se reverter\u00e3o em perdas econ\u00f4micas que reverberam pelo sistema socioecon\u00f4mico do pa\u00eds. Essas duas situa\u00e7\u00f5es demandam olhares diferentes de pesquisa\/investiga\u00e7\u00e3o. O sistema <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/mapbiomas.org\/\">MapBiomas<\/a><\/strong><\/span> de mapeamento da cobertura do solo de nosso pa\u00eds \u00e9 um excelente exemplo de esfor\u00e7os em tornar transparente e com f\u00e1cil acesso \u00e0 sociedade o impacto das mudan\u00e7as do uso do solo para todo o territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-desmatamento-na-amazonia-nao-derruba-somente-arvores-ele-tambem-destroi-a-biodiversidade-desorganiza-o-regime-de-chuvas-desequilibra-o-microclima-local-e-o-clima-global-aprofunda-as-des\" style=\"text-align: center;\"><em><span style=\"color: #800000;\">\u201cO desmatamento na Amaz\u00f4nia n\u00e3o derruba somente \u00e1rvores, ele tamb\u00e9m destr\u00f3i a biodiversidade, desorganiza o regime de chuvas, desequilibra o microclima local e o clima global, aprofunda as desigualdades sociais, agrava a viol\u00eancia e n\u00e3o gera prosperidade, como se v\u00ea pelos indicadores socioecon\u00f4micos da regi\u00e3o, inferiores aos do restante do Brasil.\u201d<\/span><\/em><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Brasil precisa manter a alta produtividade agr\u00edcola em um clima em r\u00e1pida mudan\u00e7a, e esta tarefa n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil. Isso inclui avalia\u00e7\u00e3o da resili\u00eancia, da plasticidade e da capacidade de coexist\u00eancia entre ecossistemas nativos e de sistemas de produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1rios e florestais. As pesquisas devem buscar: 1) Novas tecnologias (incluindo melhoramento gen\u00e9tico), aprimorando a agricultura, considerando as din\u00e2micas relacionadas ao cont\u00ednuo \u00e1gua-solo-atmosfera, incluindo resili\u00eancia das zonas cr\u00edticas; 2) Desenvolvimento de sistemas avan\u00e7ados de apoio \u00e0 tomada de decis\u00e3o, incluindo modelagem num\u00e9rica de tempo, clima e ambiental, plataformas avan\u00e7adas de informa\u00e7\u00e3o, e integra\u00e7\u00e3o da modelagem biof\u00edsica aos modelos socioecon\u00f4micos; 3) M\u00e9todos avan\u00e7ados de implementa\u00e7\u00e3o de novas tecnologias visando o incremento da produtividade agropecu\u00e1ria com melhores pr\u00e1ticas de manejo do solo e da produ\u00e7\u00e3o, e agricultura de baixo carbono; 4) Analisar a evolu\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es de uso do solo, incluindo padr\u00f5es de desmatamento e verifica\u00e7\u00e3o do cumprimento das NDC do Acordo de Paris; 5) Pesquisas sobre os impactos na agricultura, incluindo perspectivas em paisagens multifuncionais, voltadas a solu\u00e7\u00f5es sustent\u00e1veis ao setor produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 id=\"impactos-das-mudancas-climaticas-na-saude\"><strong>Impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas na sa\u00fade<\/strong><\/h3>\n<p>O Brasil apresenta uma complexa heterogeneidade nas suas regi\u00f5es, com variada distribui\u00e7\u00e3o espacial e temporal de determinadas doen\u00e7as e grande diversidade social, cultural, ecol\u00f3gica e clim\u00e1tica que impactam na resili\u00eancia individual e coletiva das popula\u00e7\u00f5es expostas \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Os impactos na sa\u00fade resultantes das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas globais depender\u00e3o do estado geral de sa\u00fade das popula\u00e7\u00f5es expostas que, por sua vez, dependem de condi\u00e7\u00f5es dos determinantes sociais da sa\u00fade, como a cobertura de sa\u00fade universal, a governan\u00e7a socioambiental, pol\u00edticas p\u00fablicas e os rumos do modelo de desenvolvimento do pa\u00eds. O clima tropical e as altera\u00e7\u00f5es ecossist\u00eamicas favorecem o desenvolvimento de pat\u00f3genos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m caracteriza nosso pa\u00eds uma grande diversidade de animais silvestres que, por sua vez, hospedam m\u00faltiplos e diferentes microrganismos, muitos destes considerados agentes etiol\u00f3gicos de doen\u00e7as, tanto para os animais quanto para o homem. Como parte do ciclo de transmiss\u00e3o de in\u00fameros parasitas, a sa\u00fade humana est\u00e1 intimamente ligada \u00e0 sa\u00fade dos animais silvestres. As altera\u00e7\u00f5es ambientais, incluindo as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e a perda da biodiversidade, s\u00e3o fatores determinantes para a emerg\u00eancia de doen\u00e7as oriundas de animais silvestres. Em geral, doen\u00e7as infecciosas crescem em incid\u00eancia com maiores temperaturas. Os ecossistemas preservados e em equil\u00edbrio t\u00eam um papel importante para a din\u00e2mica e controle de doen\u00e7as zoon\u00f3ticas e infec\u00e7\u00f5es transmitidas por vetores.<\/p>\n<p>Cerca de 60% das doen\u00e7as infecciosas circulam entre animais e humanos (zoonoses) e estima-se que 72% dessas sejam causadas por pat\u00f3genos com origem na vida silvestre. \u00c9 de amplo conhecimento que a diversidade de v\u00edrus (incluindo coronav\u00edrus), bact\u00e9rias e outros agentes pat\u00f3genos segue o mesmo padr\u00e3o espacial da diversidade de plantas e animais, fazendo do Brasil o maior reposit\u00f3rio desses seres vivos.<\/p>\n<p>As mudan\u00e7as ambientais globais t\u00eam consequ\u00eancias diretas para o avan\u00e7o dos pat\u00f3genos que geram impactos tanto para a sa\u00fade p\u00fablica quanto para a conserva\u00e7\u00e3o de fauna. Dentre eles, podem ser apontados os agentes etiol\u00f3gicos da mal\u00e1ria, febre-amarela, tuberculose, toxoplasmose, leptospirose, febres hemorr\u00e1gicas, raiva, brucelose, doen\u00e7a de Chagas, das doen\u00e7as causadas pelos v\u00edrus oropouche, Mayaro, ebola, e os coronav\u00edrus SARS-CoV-2 dentre tantos outros. As doen\u00e7as arbovirais, como dengue, zika, chikungunya e febre-amarela, s\u00e3o as principais amea\u00e7as das mudan\u00e7as globais \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"no-contexto-das-mudancas-climaticas-esforcos-de-adaptacao-podem-gerar-varios-beneficios-adicionais-como-melhoria-da-produtividade-agricola-inovacao-saude-e-bem-estar-seguranca-alimentar\" style=\"text-align: center;\"><em><span style=\"color: #800000;\">\u201cNo contexto das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, esfor\u00e7os de adapta\u00e7\u00e3o podem gerar v\u00e1rios benef\u00edcios adicionais, como melhoria da produtividade agr\u00edcola, inova\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e bem-estar, seguran\u00e7a alimentar, conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade, bem como redu\u00e7\u00e3o de riscos e danos.\u201d<\/span><\/em><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>S\u00e3o tamb\u00e9m observados impactos de fungos, com micoses descritas em climas tropicais passando a ocorrer em climas temperados. H\u00e1 tamb\u00e9m o impacto do calor na maior prolifera\u00e7\u00e3o e crescimento de larvas de insetos vetores de doen\u00e7as virais que causam febres hemorr\u00e1gicas. A maior temperatura favorece o desenvolvimento de fungos que afetam tanto a sa\u00fade quanto a seguran\u00e7a alimentar, no armazenamento e transporte de alimentos. Esses agentes patog\u00eanicos, entre outros, provocam impactos importantes na sa\u00fade e socioeconomia.<\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) estruturou o conceito \u201c<em>One World, One Health<\/em>\u201d, que integra pol\u00edticas de sa\u00fade humana, animal e ambiental. Tem o objetivo de ampliar a vis\u00e3o e as a\u00e7\u00f5es para o enfrentamento dos desafios da preven\u00e7\u00e3o de epidemias e epizootias e manuten\u00e7\u00e3o da integridade ecossist\u00eamica em benef\u00edcio humano e da biodiversidade que os suportam. A pandemia de covid-19 causada pelo coronav\u00edrus SARS-CoV-2 mostrou a relev\u00e2ncia dessa abordagem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 id=\"a-questao-urbana-e-as-mudancas-climaticas\"><strong>A quest\u00e3o urbana e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/strong><\/h3>\n<p>Cerca de 84% de nossa popula\u00e7\u00e3o vive em \u00e1reas urbanas em 2022. Muitas de nossas cidades concentram \u00e1reas altamente suscet\u00edveis aos impactos mais severos das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, como eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel m\u00e9dio do mar (em cidades costeiras) e eventos extremos de precipita\u00e7\u00e3o (inunda\u00e7\u00f5es) e intensifica\u00e7\u00e3o do aumento da temperatura pela ilha de calor urbana. Epis\u00f3dios recentes relacionados a esses eventos evidenciam que as altera\u00e7\u00f5es na distribui\u00e7\u00e3o, intensidade e frequ\u00eancia geogr\u00e1fica dos riscos relacionados \u00e0s condi\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas amea\u00e7am exceder as capacidades das cidades brasileiras de absorverem perdas e recuperarem-se dos impactos.<\/p>\n<p>Esses impactos tendem a exacerbar os riscos comumente existentes nas cidades brasileiras, bem como as inadequa\u00e7\u00f5es nas capacidades dos governos locais para tratarem da infraestrutura inadequada e no oferecimento de servi\u00e7os b\u00e1sicos necess\u00e1rios, agravando as condi\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade de determinados grupos sociais e comunidades. Assim, as estrat\u00e9gias de mitiga\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o nos centros urbanos devem considerar aspectos como habitabilidade, conforto t\u00e9rmico, sa\u00fade, mobilidade, planejamento urbano, transportes, acesso \u00e0 \u00e1gua e energia, entre outros aspectos.<\/p>\n<p>Nas \u00e1reas urbanas, o uso do solo e as emiss\u00f5es antropog\u00eanicas de gases e part\u00edculas alteram o clima local. Esse entendimento \u00e9 ainda mais cr\u00edtico considerando o crescimento r\u00e1pido dos assentamentos urbanos e o pr\u00f3prio processo de urbaniza\u00e7\u00e3o desordenada que caracteriza, em geral, a maioria das cidades brasileiras. Ainda que apresentem suas especificidades, em comum os munic\u00edpios s\u00e3o marcados por uma legisla\u00e7\u00e3o urban\u00edstica ainda muito descolada das din\u00e2micas urbanas e da produ\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano, e pela desarticula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas setoriais, como as relacionadas \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o e qualidade ambiental e habita\u00e7\u00e3o, o que dificulta a qualifica\u00e7\u00e3o integrada do espa\u00e7o urbano, tornando o processo de atualiza\u00e7\u00e3o e\/ou adapta\u00e7\u00e3o complexo e lento.<\/p>\n<p>A segrega\u00e7\u00e3o socioespacial tamb\u00e9m \u00e9 outra caracter\u00edstica marcante, sobretudo nos grandes centros urbanos. Somam-se a esses problemas os epis\u00f3dios de alagamentos e efeitos da ilha de calor, ambos associados \u00e0 redu\u00e7\u00e3o das \u00e1reas verdes e \u00e0 expans\u00e3o hist\u00f3rica das \u00e1reas urbanizadas, agravados nas \u00faltimas d\u00e9cadas pelas mudan\u00e7as do clima, tornando esses eventos cada vez mais frequentes.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias do descaso com a infraestrutura associada \u00e0 cobertura vegetal e recursos h\u00eddricos, que modulam o clima urbano, tendem a agravar epis\u00f3dios recorrentes de inunda\u00e7\u00f5es e alagamentos severos, ondas de calor e baixa qualidade do ar, trazendo s\u00e9rios danos \u00e0 qualidade de vida e bem-estar dos indiv\u00edduos. O n\u00famero de pessoas vulner\u00e1veis \u00e0s consequ\u00eancias das ondas de calor e chuvas extremas aumentou significativamente no Brasil.<\/p>\n<p>A polui\u00e7\u00e3o do ar nas grandes cidades pela frota veicular e emiss\u00f5es industriais trazem impactos negativos na sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o. A redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es de gases de efeito estufa tamb\u00e9m reduziria os n\u00edveis de poluentes atmosf\u00e9ricos em \u00e1reas urbanas em efeito sin\u00e9rgico com o aquecimento global. S\u00e3o necess\u00e1rias, assim, mudan\u00e7as profundas na mobilidade urbana, como viagens intermodais, corredores de \u00f4nibus de baixas emiss\u00f5es, sistemas de transportes de massa extensos, eletrifica\u00e7\u00e3o da frota veicular, compartilhamento de ve\u00edculos, entre outras propostas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 id=\"a-questao-amazonica-e-crucial-para-nosso-pais\"><strong>A quest\u00e3o amaz\u00f4nica \u00e9 crucial para nosso pa\u00eds.<\/strong><\/h3>\n<p>A Amaz\u00f4nia \u00e9 um ecossistema cr\u00edtico para a manuten\u00e7\u00e3o do clima global e regional, em especial na quest\u00e3o do ciclo do carbono, ciclo hidrol\u00f3gico e manuten\u00e7\u00e3o da biodiversidade. O desmatamento na Amaz\u00f4nia n\u00e3o derruba somente \u00e1rvores, ele tamb\u00e9m destr\u00f3i a biodiversidade, desorganiza o regime de chuvas, desequilibra o microclima local e o clima global, aprofunda as desigualdades sociais, agrava a viol\u00eancia e n\u00e3o gera prosperidade, como se v\u00ea pelos indicadores socioecon\u00f4micos da regi\u00e3o, inferiores aos do restante do Brasil. As a\u00e7\u00f5es associadas ao desmatamento v\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o oposta \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o dos ODS da ONU, dos quais o Brasil \u00e9 um dos signat\u00e1rios. Por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es, a Amaz\u00f4nia \u00e9 uma regi\u00e3o estrat\u00e9gica para o planeta e para o Brasil. <sup>[3, 4]<\/sup> Contempla a maior floresta tropical do mundo, com uma \u00e1rea aproximada de 6,7 milh\u00f5es de km<sup>2<\/sup>, dos quais 5,5 milh\u00f5es de km<sup>2 <\/sup>est\u00e3o em territ\u00f3rio brasileiro; sua bacia hidrogr\u00e1fica \u00e9 o maior sistema fluvial do planeta, e a floresta est\u00e1 distribu\u00edda entre nove pa\u00edses (Brasil, Bol\u00edvia, Col\u00f4mbia, Equador, Guiana Francesa, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela). A Amaz\u00f4nia tamb\u00e9m hospeda uma gigantesca e complexa biodiversidade. Desenha papel fundamental na provis\u00e3o de produtos e servi\u00e7os ambientais, no ciclo do carbono e na regula\u00e7\u00e3o do clima. \u00c9 o maior reservat\u00f3rio de carbono em regi\u00f5es continentais, contendo cerca de 120 bilh\u00f5es de toneladas de carbono, ou o equivalente a 10 anos de toda a queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis. Presta servi\u00e7os ecossist\u00eamicos essenciais para a sociedade e a economia brasileira. Tem uma vasta popula\u00e7\u00e3o tradicional e ind\u00edgena, detentora de ativos de valores inestim\u00e1veis como conhecimento, l\u00ednguas e cultura nos povos ind\u00edgenas e comunidades tradicionais.<\/p>\n<p>Apesar de sua import\u00e2ncia, o ecossistema est\u00e1 sendo destru\u00eddo rapidamente, devido ao desmatamento e ao impacto das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas no ecossistema.<sup>[9]<\/sup> O INPE, por meio do sistema de monitoramento do desmatamento amaz\u00f4nico, observou em 2021 a convers\u00e3o de mais de 13.000 km<sup>2<\/sup> de florestas. As <strong><span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/plataforma.seeg.eco.br\/\">emiss\u00f5es de di\u00f3xido de carbono e metano<\/a><\/span><\/strong> associadas ao desmatamento e queimadas evidenciam o processo destrutivo recente sobre a Amaz\u00f4nia, de acordo com <a href=\"https:\/\/plataforma.seeg.eco.br\/\"><span style=\"color: #800000;\"><strong>relat\u00f3rio<\/strong><\/span><\/a> do SEEG de 2022. Como resultado desse processo, o ciclo hidrol\u00f3gico est\u00e1 sendo alterado em vastas \u00e1reas, com realimenta\u00e7\u00f5es sobre o pr\u00f3prio ecossistema e sobre o clima de vastas regi\u00f5es da Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>Por outro lado, algumas regi\u00f5es da Amaz\u00f4nia tiveram aumento expressivo de temperatura (maior que 2,2 <sup>o<\/sup>C), redu\u00e7\u00e3o da precipita\u00e7\u00e3o (cerca de 20%) e aumento dos fen\u00f4menos clim\u00e1ticos extremos como grandes secas e inunda\u00e7\u00f5es. Como resultado, est\u00e1 sendo observado em v\u00e1rios estudos, uma degrada\u00e7\u00e3o florestal pronunciada na floresta, com perda de carbono e biomassa.<\/p>\n<p>\u00c9 consenso, para a ci\u00eancia, que a preserva\u00e7\u00e3o da floresta \u00e9 fundamental para a sustentabilidade do planeta. O bioma amaz\u00f4nico \u00e9 rico em diversidade cultural, lingu\u00edstica, biol\u00f3gica e geol\u00f3gica, e investimentos em ci\u00eancia, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o, em pesquisas b\u00e1sicas e aplicadas s\u00e3o estrat\u00e9gicos para a sua compreens\u00e3o e sua sustentabilidade. No entanto, apesar de ser caracterizada como a regi\u00e3o que hospeda a maior biodiversidade natural do pa\u00eds, o seu desenvolvimento socioecon\u00f4mico em torno de atividades relacionadas \u00e0 floresta ainda n\u00e3o alcan\u00e7ou escala de proje\u00e7\u00e3o em todo o seu potencial. H\u00e1 um gigantesco desafio no \u00e2mbito da regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria, e faltam planos concretos de crescimento econ\u00f4mico inclusivo e sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1ria a formula\u00e7\u00e3o de uma estrat\u00e9gia de transi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica sustent\u00e1vel atrav\u00e9s da sociobiodiversidade. Esta formula\u00e7\u00e3o envolve quest\u00f5es territoriais, ligadas a quest\u00f5es fundi\u00e1rias no ambiente rural e urbano. \u00c9 importante tamb\u00e9m desenvolver cadeias de valor e sociobiodiversidade que mudem as atuais pr\u00e1ticas e modelos econ\u00f4micos atuais para um novo conjunto de iniciativas econ\u00f4micas, baseadas na floresta em p\u00e9. Esta nova economia deve ser estruturada na prote\u00e7\u00e3o e uso sustent\u00e1vel dos recursos naturais, rompendo com o atual modelo de desenvolvimento predat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Outro aspecto importante do desenvolvimento recente na Amaz\u00f4nia \u00e9 a domina\u00e7\u00e3o de atividades criminosas, como invas\u00e3o de terras ind\u00edgenas, contrabando de madeira, ocupa\u00e7\u00e3o ilegal de terras p\u00fablicas, tr\u00e1fico de drogas e outras atividades il\u00edcitas. Certamente a implementa\u00e7\u00e3o de um novo modelo econ\u00f4mico para a Amaz\u00f4nia ter\u00e1 que superar a criminalidade que impera hoje na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O desmatamento e a degrada\u00e7\u00e3o da floresta, associadas a mudan\u00e7as clim\u00e1ticas globais e, em especial, o aumento da frequ\u00eancia e intensidade de queimadas e da ocorr\u00eancia de secas extremas, aproximam a Amaz\u00f4nia de um ponto de n\u00e3o-retorno. Ou seja, uma mudan\u00e7a abrupta nos estados e funcionamento da floresta, que ter\u00e1 impactos importantes sobre o clima do Brasil e do planeta. A ci\u00eancia n\u00e3o conhece exatamente onde est\u00e3o estes chamados \u201c<em>tipping points<\/em>\u201d, mas podemos j\u00e1 estar a meio caminho destes pontos de n\u00e3o retorno, e todo o cuidado \u00e9 necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>O que a ci\u00eancia destaca, em conson\u00e2ncia com o conhecimento de povos origin\u00e1rios da regi\u00e3o, \u00e9 que a conserva\u00e7\u00e3o dos ambientes terrestres e aqu\u00e1ticos \u00e9 que ser\u00e1 o pilar do desenvolvimento humano e econ\u00f4mico sustent\u00e1vel da Amaz\u00f4nia. O objetivo \u00e9 manter os processos de funcionamento do planeta, e ao mesmo tempo dar uma vida digna aos brasileiros que vivem na regi\u00e3o amaz\u00f4nica. Temos clareza de que, se a floresta influencia processos ecol\u00f3gicos e econ\u00f4micos al\u00e9m de suas fronteiras, as mudan\u00e7as globais representam um risco crescente que atua em sinergia com as mudan\u00e7as locais, acelerando a degrada\u00e7\u00e3o e a perda de resili\u00eancia do ecossistema amaz\u00f4nico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3 id=\"a-adaptacao-do-brasil-ao-novo-clima\"><strong>A adapta\u00e7\u00e3o do Brasil ao novo clima<\/strong><\/h3>\n<p>A localiza\u00e7\u00e3o tropical, a estrutura socioecon\u00f4mica fortemente dependente do regime de chuvas, as inadequa\u00e7\u00f5es urban\u00edsticas e enormes iniquidades sociais fazem do Brasil um pa\u00eds singular, ambientalmente falando. No contexto das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, esfor\u00e7os de adapta\u00e7\u00e3o podem gerar v\u00e1rios benef\u00edcios adicionais, como melhoria da produtividade agr\u00edcola, inova\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e bem-estar, seguran\u00e7a alimentar, conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade, bem como redu\u00e7\u00e3o de riscos e danos.<\/p>\n<p>As a\u00e7\u00f5es de adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica \u2013 compreendida como processos de ajustamentos para antecipar impactos adversos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que resultam na redu\u00e7\u00e3o da vulnerabilidade \u2013 tendem a ser mais facilmente implementadas e organizadas quando buscam sinergias com pol\u00edticas, recursos e outras medidas j\u00e1 existentes, incluindo a\u00e7\u00f5es visando \u00e0 sustentabilidade, qualidade de vida e melhoria de infraestrutura.<\/p>\n<p>O Brasil tem um plano de adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica (PNA), lan\u00e7ado em 2016, que visa orientar iniciativas para gest\u00e3o e redu\u00e7\u00e3o dos riscos provenientes dos efeitos adversos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas no m\u00e9dio e nos longos prazos, nas dimens\u00f5es social, econ\u00f4mica e ambiental. Todavia, at\u00e9 o momento, um planejamento de longo prazo voltado \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica ainda n\u00e3o ganhou proje\u00e7\u00e3o no pa\u00eds como um todo.<\/p>\n<p>Entre as raz\u00f5es para esse atraso est\u00e3o a pr\u00f3pria complexidade envolvida na adapta\u00e7\u00e3o, as limita\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, institucionais e pol\u00edticas e, em particular nas cidades, as rela\u00e7\u00f5es de interdepend\u00eancia entre mudan\u00e7as do clima, din\u00e2micas do planejamento urbano e quest\u00f5es pol\u00edticas. Recentemente, o Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00f5es (MCTI) e o Inpe lan\u00e7aram a plataforma Adapta Brasil, que sugere uma s\u00e9rie de pol\u00edticas p\u00fablicas a serem implementadas.<\/p>\n<p>Embora melhorias nos n\u00edveis de renda, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e outros indicadores socioecon\u00f4micos sejam importantes para reduzir a vulnerabilidade \u00e0s mudan\u00e7as do clima em geral, considerando o conjunto de riscos espec\u00edficos que as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas representam em particular para as cidades (por exemplo, inunda\u00e7\u00f5es, secas, aumento do n\u00edvel do mar, ilhas de calor), h\u00e1 tamb\u00e9m uma necessidade urgente de considerar as capacidades espec\u00edficas necess\u00e1rias para superar e se recuperar desses estressores, incluindo, por exemplo, mapeamentos de \u00e1reas de risco, sistemas de alerta precoce e planejamento de enfrentamento a desastres naturais.<\/p>\n<p>A falta de dados e informa\u00e7\u00f5es \u00fateis e utiliz\u00e1veis, que possam ser mobilizados para subsidiar gest\u00e3o, planejamento e governan\u00e7a, \u00e9 frequentemente identificada como uma das principais barreiras para o avan\u00e7o da adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, traduzindo-se em paralisia e ina\u00e7\u00e3o por parte dos tomadores de decis\u00e3o. Nesse contexto, t\u00e3o importante quanto a capacidade de produzir informa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnico-cient\u00edfica que seja facilmente convertida em estrat\u00e9gias, pol\u00edticas e a\u00e7\u00f5es de adapta\u00e7\u00e3o, \u00e9 promover maior envolvimento dos usu\u00e1rios da informa\u00e7\u00e3o (os atores institucionais, por exemplo) na produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o do conhecimento.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o e disponibiliza\u00e7\u00e3o desses dados, que incluam m\u00e9tricas robustas e possam ser atualizados periodicamente e que estejam conectados \u00e0s especificidades da realidade brasileira, considerando um conjunto de vari\u00e1veis que refletem na capacidade adaptativa, podem impulsionar a\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas p\u00fablicas de adapta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio, as pesquisas tamb\u00e9m devem buscar compreender melhor as respostas sociais e individuais \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, considerando que os governos, embora cumpram papel importante no planejamento efetivo de adapta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o capazes, sozinhos, de resolver a crise clim\u00e1tica dada sua complexidade e multidimensionalidade. Ademais, \u00e9 preciso entender que adapta\u00e7\u00e3o requer parcerias, alian\u00e7as estrat\u00e9gicas e outras formas de colabora\u00e7\u00e3o entre diferentes setores e organiza\u00e7\u00f5es. Pesquisas sobre as melhores estrat\u00e9gias de adapta\u00e7\u00e3o s\u00e3o essenciais, pois estas, em geral, envolvem solu\u00e7\u00f5es locais ou regionais.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h3 id=\"conclusoes\"><strong>Conclus\u00f5es<\/strong><\/h3>\n<p>Nosso pa\u00eds tem not\u00e1veis vantagens estrat\u00e9gicas para enfrentar estes desafios. Mas tamb\u00e9m tem vulnerabilidades importantes, pela sua vasta \u00e1rea costeira, vulner\u00e1vel ao aumento do n\u00edvel do mar, e pela sua localiza\u00e7\u00e3o tropical, fortemente afetada pelo aumento global de temperatura. As previs\u00f5es de redu\u00e7\u00e3o nas precipita\u00e7\u00f5es sobre o territ\u00f3rio brasileiro, particularmente no Nordeste, Brasil central e Amaz\u00f4nia, devem ser motivos de preocupa\u00e7\u00e3o, pelos seus impactos nos ecossistemas e na socioeconomia.<sup>[6]<\/sup> Importante salientar que nossa economia baseada na produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria pode n\u00e3o ter a mesma produtividade em um cen\u00e1rio de redu\u00e7\u00e3o de chuvas ao logo das pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. Nossas cidades n\u00e3o est\u00e3o preparadas para o aumento dos eventos clim\u00e1ticos extremos, e a constru\u00e7\u00e3o de \u00e1reas urbanas mais sustent\u00e1veis deve ser uma de nossas prioridades.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade minimamente sustent\u00e1vel requerer\u00e1 grandes esfor\u00e7os da sociedade, em todos os setores, com forte colabora\u00e7\u00e3o entre a ci\u00eancia e os formuladores de pol\u00edticas p\u00fablicas.<sup>[6, 7]<\/sup> Gera\u00e7\u00e3o e consumo de energia, produ\u00e7\u00e3o de alimentos, transportes, habita\u00e7\u00e3o, quest\u00f5es urbanas, funcionamento de ecossistemas s\u00e3o somente alguns destas quest\u00f5es que ter\u00e3o aten\u00e7\u00e3o. \u00c9 evidente a necessidade da constru\u00e7\u00e3o de uma nova rota de desenvolvimento, que poder\u00e1 ser um grande processo de reconstru\u00e7\u00e3o de nossa sociedade, incluindo o sistema econ\u00f4mico global. In\u00fameros relat\u00f3rios internacionais apontam para a necessidade da constru\u00e7\u00e3o deste novo modelo de desenvolvimento, j\u00e1 que este nosso atual modelo econ\u00f4mico \u00e9 insustent\u00e1vel, mesmo a curto prazo.<\/p>\n<p>Neste sentido, alguns t\u00f3picos requerem aten\u00e7\u00e3o especial: 1) aprimorar proje\u00e7\u00f5es sobre impacto econ\u00f4mico direto e indireto de diferentes cen\u00e1rios de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas em diferentes setores produtivos, incluindo impactos sociais de distintas estrat\u00e9gicas futuras de mitiga\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o; 2) ter uma maior compreens\u00e3o da contribui\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da conserva\u00e7\u00e3o da natureza e dos servi\u00e7os ecossist\u00eamicos visando minimizar impactos de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas para a sociedade; 3) criar oportunidades de inova\u00e7\u00f5es na economia da biodiversidade, estudando potenciais estrat\u00e9gias de bioeconomia sustent\u00e1vel; 4) desenvolver modelos de economia circular para diferentes setores econ\u00f4micos, maximizando os benef\u00edcios \u00e0 sociedade como um todo; 5) conhecer os impactos territoriais predat\u00f3rios para orientar pol\u00edticas de desenvolvimento que recupere \u00e1reas degradadas e avance na restaura\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica de nossos biomas; 6) criar oportunidades e sinergias para alinhar medidas de mitiga\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da pobreza e desigualdades sociais; 7) trabalhar com o conceito de \u201cjusti\u00e7a clim\u00e1tica\u201d, desenvolvendo estrat\u00e9gias que minimizem os impactos na popula\u00e7\u00e3o menos favorecida.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao cr\u00edtico papel da Amaz\u00f4nia nas quest\u00f5es relacionadas \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, o recente relat\u00f3rio do <em>Science Panel for Amazon<\/em>\u00a0<sup>[4]<\/sup> apresentou quatro recomenda\u00e7\u00f5es-chave para tomadores de decis\u00e3o para mudar a trajet\u00f3ria de desmatamento e degrada\u00e7\u00e3o no bioma amaz\u00f4nico: (1) eliminar o desmatamento, degrada\u00e7\u00e3o e inc\u00eandios na bacia at\u00e9 2030; (2) restaura\u00e7\u00e3o de ecossistemas aqu\u00e1ticos e terrestres; e (3) promo\u00e7\u00e3o de uma bioeconomia de \u201csaud\u00e1veis florestas em p\u00e9 e rios fluindo\u201d baseada em ci\u00eancia, tecnologia, inova\u00e7\u00e3o e conhecimentos ind\u00edgenas e de comunidades locais. Equidade, \u00e9tica e justi\u00e7a moral s\u00e3o centrais na corre\u00e7\u00e3o de rumos em um processo colaborativo de desenho de alternativas inovadoras e vi\u00e1veis para a regi\u00e3o amaz\u00f4nica. O panorama de viol\u00eancia, crimes ambientais, degrada\u00e7\u00e3o e descaso do poder p\u00fablico que resultou no avan\u00e7o acentuado do desmatamento e degrada\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos anos ir\u00e1 requerer um pacto nacional de reconstru\u00e7\u00e3o da governan\u00e7a socioambiental para a Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Modelos econ\u00f4micos de baixa emiss\u00e3o de carbono podem ser geradores de emprego, e podem reduzir as desigualdades sociais. As pol\u00edticas de mitiga\u00e7\u00e3o precisam considerar o efeito da gera\u00e7\u00e3o de empregos, particularmente para pessoas menos qualificadas e mais vulner\u00e1veis. Analisar processos de fortalecimento territorial de comunidades organizadas na produ\u00e7\u00e3o da biodiversidade em diversas escalas contribui para a mitiga\u00e7\u00e3o. A quest\u00e3o da seguran\u00e7a alimentar em um clima em mudan\u00e7a tamb\u00e9m \u00e9 chave nas dimens\u00f5es sociais, e uma oportunidade para reduzir a fome, e adaptar nosso sistema agropecu\u00e1rio ao clima em mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Importante tamb\u00e9m destacar o delineamento de estrat\u00e9gias para informar adequadamente a sociedade sobre as Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas. A divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e ci\u00eancia cidad\u00e3 s\u00e3o estrat\u00e9gias efetivas e j\u00e1 reconhecidas, que devem ser incentivadas, implementadas e aperfei\u00e7oadas. Divulgar e informar o p\u00fablico sobre o aquecimento global, definir, ilustrar, mostrar as tend\u00eancias e padr\u00f5es de dados, explicar os seus efeitos, discutir as informa\u00e7\u00f5es imprecisas na m\u00eddia e divulgar os resultados das pesquisas s\u00e3o prerrogativas desta agenda. Nesta estrat\u00e9gia est\u00e1 o apoio necess\u00e1rio \u00e0 educa\u00e7\u00e3o ambiental em todos os n\u00edveis, desenvolvendo ferramentas de educa\u00e7\u00e3o para a ci\u00eancia e difus\u00e3o do conhecimento.<\/p>\n<p>Temos como tarefa auxiliar o pa\u00eds a desenvolver estrat\u00e9gias baseadas em ci\u00eancia para que o Brasil cumpra suas obriga\u00e7\u00f5es internacionais (as <em>National Determined Contribution<\/em> &#8211; NDC) associadas ao Acordo de Paris. O aux\u00edlio na formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas baseadas em ci\u00eancia em todos os n\u00edveis (municipal, estadual, nacional e global) \u00e9 tarefa fundamental. Estas atividades exigir\u00e3o grande esfor\u00e7o cient\u00edfico da academia em parceria com os v\u00e1rios setores da sociedade. A adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas nas diversas regi\u00f5es do nosso pa\u00eds tamb\u00e9m ir\u00e1 requerer o desenvolvimento de ci\u00eancia olhando para as necessidades da sociedade. Os desafios envolvidos na redu\u00e7\u00e3o do impacto das a\u00e7\u00f5es humanas no ambiente, alinhados \u00e0 necessidade do desenvolvimento sustent\u00e1vel e redu\u00e7\u00e3o de desigualdades sociais, passam pelo desenvolvimento de s\u00f3lidos resultados cient\u00edficos.<\/p>\n<p>Considerando as quest\u00f5es cient\u00edficas, de governan\u00e7a, finan\u00e7as, e novas tecnologias poderemos construir um futuro mais resiliente, sustent\u00e1vel e justo, preservando os servi\u00e7os ecossist\u00eamicos atrav\u00e9s de estrat\u00e9gias adequadas de adapta\u00e7\u00e3o e mitiga\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es.<sup>[8]<\/sup> Este processo est\u00e1 associado aos ODS, j\u00e1 que temos que atender \u00e0s necessidades b\u00e1sicas da popula\u00e7\u00e3o (educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, igualdade de g\u00eanero, erradica\u00e7\u00e3o da pobreza, fome zero, \u00e1gua limpa e outros), e ao mesmo tempo respeitar os limites da disponibilidade dos recursos naturais de nosso planeta. Estas s\u00e3o somente algumas das importantes quest\u00f5es que o Brasil ter\u00e1 que enfrentar, e solu\u00e7\u00f5es baseadas em ci\u00eancia s\u00f3lida certamente t\u00eam mais chances de garantir uma trajet\u00f3ria sustent\u00e1vel a nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>A partir de janeiro de 2023, esperamos que o Brasil implemente pol\u00edticas que nos permitam alcan\u00e7ar os 17 ODS, reduzindo a pobreza, eliminando a fome e com isso construir uma sociedade sustent\u00e1vel, social e economicamente. Isso \u00e9 poss\u00edvel, e temos todos os elementos para esta transforma\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. N\u00e3o ser\u00e1 feita rapidamente, mas o Brasil redirecionar\u00e1 seus grandes recursos humanos e naturais na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais justa e sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-desmatamento-e-garimpo-no-amazonas-agrava-mudancas-climaticas-trazendo-consequencias-negativas-para-todo-o-planetaimagem-ibama-reproducao\"><strong>Capa. Desmatamento e garimpo no Amazonas agrava mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, trazendo consequ\u00eancias negativas para todo o planeta<br \/>\n<\/strong>(Imagem: Ibama. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<hr \/>\n<h5 id=\"referencias\"><span style=\"color: #808080;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/span><\/h5>\n<h6 id=\"1-ipcc-ar6-wgi-2021-v-masson-delmotte-p-zhai-a-pirani-s-l-connors-c-pean-s-berger-n-caud-y-chen-l-goldfarb-m-i-gomis-m-huang-k-leitzell-e-lonnoy-j-b-r-matthews-t\"><span style=\"color: #808080;\">[1] IPCC AR6 WGI (2021). V. Masson-Delmotte, P. Zhai, A. Pirani, S. L. Connors, C. P\u00e9an, S. Berger, N. Caud, Y. Chen, L. Goldfarb, M. I. Gomis, M. Huang, K. Leitzell, E. Lonnoy, J. B. R. Matthews, T. K. Maycock, T. Waterfield, O. Yelek\u00e7i, R. Yu, &amp; B. Zhou (Eds.), Climate Change 2021: The Physical Science Basis. Cambridge University Press. Contribution of Working Group I to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. <a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/www.ipcc.ch\/report\/ar6\/wg1\/\">https:\/\/www.ipcc.ch\/report\/ar6\/wg1\/<\/a>.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"2-artaxo-p-hansson-h-c-machado-l-a-t-rizzo-l-v-2022a-tropical-forests-are-crucial-in-regulating-the-climate-on-earth-plos-climate-18-e0000054-https-doi-org-10-1371-journal-pclm-00\"><span style=\"color: #808080;\">[2] Artaxo P., Hansson H. C., Machado L.A. T., Rizzo L. V. (2022a) Tropical forests are crucial in regulating the climate on Earth. PLOS Climate 1(8): e0000054. https:\/\/doi.org\/10.1371\/journal.pclm.0000054, 2022.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"3-artaxo-p-hansson-h-c-et-al-2022b-tropical-and-boreal-forest-atmosphere-interactions-a-review-tellus-b-chemical-and-physical-meteorology-74-2022-24-163-doi-https\"><span style=\"color: #808080;\">[3] Artaxo, P, Hansson, H-C, et al., 2022b. Tropical and Boreal Forest \u2013 Atmosphere Interactions: A Review. Tellus B: Chemical and Physical Meteorology, 74 (2022), 24\u2013163. DOI: <a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/doi.org\/10.16993\/tellusb.34\">https:\/\/doi.org\/10.16993\/tellusb.34<\/a>.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"4-spa-2021-spa-the-amazon-we-want-science-panel-for-the-amazon-executive-summary-of-the-amazon-assessment-report-2021-48-p-the-amazon-we-want-united-nations-sustainable-develo\"><span style=\"color: #808080;\">[4] SPA 2021 &#8211; SPA &#8211; The Amazon we Want. Science Panel for the Amazon. Executive Summary of the Amazon Assessment Report 2021 (48 p.). The Amazon we Want. United Nations Sustainable Development Solutions Network. DOI: 10.55161\/RWSX6527, ISBN 9781734808001. <a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/www.theamazonwewant.org\">https:\/\/www.theamazonwewant.org<\/a>. 2021.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"5-ipbes-2019-intergovernmental-science-policy-platform-on-biodiversity-and-ecosystem-services-ipbes-2019-global-assessment-report-of-the-intergovernmental-science-policy-platfo\"><span style=\"color: #808080;\">[5] IPBES 2019 &#8211; Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services \u2013 IPBES. (2019). Global assessment report of the Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services. IPBES. <a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/ipbes.net\/\">https:\/\/ipbes.net\/<\/a> .<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"6-artaxo-p-as-tres-emergencias-que-nossa-sociedade-enfrenta-saude-biodiversidade-e-mudancas-climaticas-estudos-avancados-vol-34-numero-100-editora-da-universidade-de-sao-paulo-sao-paulo-2\"><span style=\"color: #808080;\">[6] Artaxo, P., As tr\u00eas emerg\u00eancias que nossa sociedade enfrenta: sa\u00fade, biodiversidade e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Estudos Avan\u00e7ados, vol. 34, n\u00famero 100, Editora da Universidade de S\u00e3o Paulo, S\u00e3o Paulo 2020. <a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/s0103-4014.2020.34100.005\">https:\/\/doi.org\/10.1590\/s0103-4014.2020.34100.005<\/a>.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"7-artaxo-p-break-down-boundaries-in-climate-research-world-view-section-nature-481-239-2012\"><span style=\"color: #808080;\">[7] Artaxo, P., Break down boundaries in climate research. World View Section, Nature 481, 239, 2012.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"8-artaxo-p-working-together-for-amazonia-editorial-science-magazine-vol-363-issue-6425-doi-10-1126-science-aaw6986-january-2019\"><span style=\"color: #808080;\">[8] Artaxo, P., Working together for Amazonia. Editorial Science Magazine, Vol. 363, Issue 6425, doi: 10.1126\/science.aaw6986, January 2019.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"9-davidson-e-de-araujo-a-artaxo-p-et-al-the-amazon-basin-in-transition-nature-481-321-328-2012-https-doi-org-10-1038-nature10717\"><span style=\"color: #808080;\">[9] Davidson, E., de Ara\u00fajo, A., Artaxo, P.\u00a0<em>et al.<\/em>\u00a0The Amazon basin in transition.\u00a0<em>Nature<\/em>\u00a0<strong>481<\/strong>, 321\u2013328 (2012). https:\/\/doi.org\/10.1038\/nature10717<\/span><\/h6>\n<hr \/>\n<h6 id=\"artaxo-paulo-mudancas-climaticas-caminhos-para-o-brasil-a-construcao-de-uma-sociedade-minimamente-sustentavel-requer-esforcos-da-sociedade-com-colaboracao-entre-a-ciencia-e-os-formuladores-de\"><span style=\"color: #808080;\"><em>ARTAXO, Paulo.<span class=\"article-title\">\u00a0Mudan\u00e7as clim\u00e1ticas: caminhos para o Brasil: a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade minimamente sustent\u00e1vel requer esfor\u00e7os da sociedade com colabora\u00e7\u00e3o entre a ci\u00eancia e os formuladores de pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/span>\u00a0Cienc. Cult.\u00a0[online]. 2022, vol.74, n.4 [citado\u00a0 2023-08-30], pp.01-14. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/cienciaecultura.bvs.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252022000400013&amp;lng=pt&amp;nrm=iso&gt;. ISSN 0009-6725.\u00a0 http:\/\/dx.doi.org\/10.5935\/2317-6660.20220067.<\/em><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade minimamente sustent\u00e1vel requer esfor\u00e7os da comunidade com&hellip;\n","protected":false},"author":79,"featured_media":3639,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[21],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3633"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/79"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3633"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3633\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4645,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3633\/revisions\/4645"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3639"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3633"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3633"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3633"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}