{"id":3902,"date":"2023-04-04T07:30:12","date_gmt":"2023-04-04T07:30:12","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=3902"},"modified":"2023-04-03T19:10:17","modified_gmt":"2023-04-03T19:10:17","slug":"75-anos-da-sbpc-em-curitiba-ciencia-memorias-e-afeto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=3902","title":{"rendered":"75 anos da SBPC em Curitiba: ci\u00eancia, mem\u00f3rias e afeto"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"pesquisadores-da-ufpr-falam-de-suas-experiencias-no-maior-evento-cientifico-da-america-latina-e-contam-como-as-diferentes-areas-da-ciencia-entendem-a-memoria\"><span style=\"color: #808080;\">Pesquisadores da UFPR falam de suas experi\u00eancias no maior evento cient\u00edfico da Am\u00e9rica Latina e contam como as diferentes \u00e1reas da ci\u00eancia entendem a mem\u00f3ria<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eunice Maria Fernandes Personini\u00a0tinha 19 anos quando viajou pela primeira vez. O ano era 1974. O destino, Recife, Pernambuco. O motivo: participar da 26\u00aa Reuni\u00e3o Anual da\u00a0<strong>Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia (<span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"http:\/\/portal.sbpcnet.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">SBPC<\/a><\/span>)<\/strong>. Mal sabia ela que seria o come\u00e7o de uma longa carreira como secret\u00e1ria em diferentes setores da\u00a0institui\u00e7\u00e3o. Em 2023, aos 68 anos, a paulistana completa quase meio s\u00e9culo de casa. Conheceu o Brasil assim, indo aos eventos da SBPC. Alcan\u00e7aria a marca das 49 reuni\u00f5es consecutivas, n\u00e3o fosse o impedimento da leucemia no ano passado. Tratamento finalizado, Eunice est\u00e1 ansiosa para botar o p\u00e9 na estrada e voltar ao frio da terra das Arauc\u00e1rias. E a raz\u00e3o a gente j\u00e1 sabe. A\u00a0<span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/sbpc.ufpr.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">75\u00aa Reuni\u00e3o da SBPC<\/a><\/strong><\/span>\u00a0vai ser bem aqui, na Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR).<\/p>\n<p>Considerada\u00a0<strong>o maior evento de ci\u00eancia da Am\u00e9rica Latina<\/strong>, a SBPC \u00e9 realizada a cada ano em uma universidade brasileira diferente e \u00e9 aberta a todos. A tradicional reuni\u00e3o anual une cientistas das mais diversas \u00e1reas para mostrar seus trabalhos e debater assuntos importantes\u00a0tanto cient\u00edfica quanto politicamente. Essa \u00e9 uma das caracter\u00edsticas da SBPC que a diferem de outros congressos de ci\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cDesde a minha \u00e9poca de estudante, havia a SBPC. No momento em que as sociedades cient\u00edficas estavam em baixa, ela era a grande figura, a grande voz que unia os intelectuais brasileiros, independente de posi\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-ideol\u00f3gicas\u201d, lembra Maria Tarcisa Silva Bega, professora do\u00a0Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Sociologia\u00a0 da UFPR e participante do evento em algumas edi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Com 74 edi\u00e7\u00f5es realizadas, o evento fez parte da vida de centenas de milhares de pessoas.\u00a0Como Eunice e Maria Tarcisa, cada participante guarda mem\u00f3rias. Alguns lembram mais de uma confer\u00eancia, outros de um jantar depois do evento, existe at\u00e9 quem se recorde com carinho de uma conversa no corredor entre atra\u00e7\u00f5es. Todos t\u00eam alguma lembran\u00e7a.<\/p>\n<p>E para relacionar recorda\u00e7\u00f5es como estas e seus afetos com o que a ci\u00eancia diz sobre mem\u00f3ria, a\u00a0<strong>Ag\u00eancia Escola UFPR<\/strong>\u00a0preparou uma reportagem especial. Para isso, a nossa equipe conversou com participantes de edi\u00e7\u00f5es anteriores do evento e com pesquisadores de diferentes \u00e1reas que estudam temas relacionados ao assunto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"memoria-ciencia-e-democracia\"><strong>Mem\u00f3ria, ci\u00eancia e democracia<\/strong><\/h4>\n<p>O tema do 75o encontro da SBPC,\u00a0<strong>\u201cCi\u00eancia e democracia para um Brasil justo e desenvolvido\u201d<\/strong>, vem em um momento de reafirma\u00e7\u00e3o da democracia no Brasil, ap\u00f3s eventos anti-democr\u00e1ticos e frequentes amea\u00e7as de golpe. Na mem\u00f3ria de Maria Tarcisa, as universidades e a SBPC sempre foram\u00a0<strong>espa\u00e7os de resist\u00eancia<\/strong>\u00a0aos momentos em que a democracia esteve em risco e mesmo durante seu fim:\u00a0\u201cCresci intelectualmente vendo a SBPC nesse papel. Eu diria que SBPC e democracia s\u00e3o quase sin\u00f4nimos. As pautas da SBPC e a constru\u00e7\u00e3o de consenso entre os intelectuais \u00e9 muito dif\u00edcil. Mas a defesa da democracia, da liberdade de c\u00e1tedra e da autonomia da ci\u00eancia, da n\u00e3o subordina\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia a interesses privados ou pontuais de governos \u00e9 o que a SBPC representa.\u201d<\/p>\n<p>E a\u00a0<strong>mem\u00f3ria<\/strong>\u00a0\u00e9, por si s\u00f3, um importante instrumento para impedir retrocessos, sejam eles pol\u00edticos ou cient\u00edficos. \u201cQuem n\u00e3o conhece sua hist\u00f3ria est\u00e1 condenado a repeti-la\u201d, diz o famoso ditado popular. A professora do Departamento de Hist\u00f3ria, Karina Belotti, explica que a mem\u00f3ria traz\u00a0<strong>diversidade<\/strong>\u00a0\u00e0 democracia, evitando que atos antidemocr\u00e1ticos como a invas\u00e3o do Capit\u00f3lio nos Estados Unidos e os atos de 8 de janeiro no Brasil de 2023, consigam\u00a0<strong>silenciar vozes<\/strong>\u00a0dissonantes do pensamento do grupo.<\/p>\n<p>\u201cO fundamentalismo trabalha com um pensamento \u00fanico. Quando s\u00f3 existe um jeito certo de pensar, todos os outros jeitos de pensar, de viver e de se lembrar da hist\u00f3ria n\u00e3o servem. Ent\u00e3o a forma como a hist\u00f3ria pode contribuir \u00e9 mostrando a variedade de experi\u00eancias hist\u00f3ricas, sujeitos hist\u00f3ricos e tamb\u00e9m as desigualdades de poder, socioecon\u00f4micas, que tamb\u00e9m interferem nas formas de lembrar e esquecer de cada sociedade\u201d, diz Karina.<\/p>\n<p>Para Marcos Alberto Torres, professor do Departamento de Geografia da UFPR, os atos de 8 de janeiro, em Bras\u00edlia, s\u00e3o reflexo da falta de mem\u00f3ria de algo que aconteceu muito recentemente, nos anos de 1960 e 1970: a ditadura militar.<\/p>\n<p>\u201cSe a gente n\u00e3o trabalha isso, n\u00e3o mant\u00e9m essa mem\u00f3ria viva. Se a gente n\u00e3o falar sobre essas coisas, n\u00e3o problematizar o que a gente viveu, que marcaram t\u00e3o profundamente a hist\u00f3ria do Brasil, vai ter gente nas ruas homenageando torturadores, bustos nos espa\u00e7os p\u00fablicos de pessoas que n\u00e3o fizeram uma coisa bacana para o Brasil. E essas marcas tamb\u00e9m s\u00e3o mem\u00f3rias. Ent\u00e3o a gente tem que olhar para isso e pensar em quais s\u00e3o as marcas que a gente quer deixar no espa\u00e7o e qual \u00e9 a hist\u00f3ria que esse espa\u00e7o pode nos contar\u201d, diz Torres, que acredita que o tema foi uma escolha certa para o momento, pois a mem\u00f3ria dos eventos recentes contribui para super\u00e1-los e para que haja um\u00a0<strong>fortalecimento da democracia e da ci\u00eancia<\/strong>.<\/p>\n<p>Francisco Assis Mendon\u00e7a, professor do Departamento de Geografia e\u00a0Pr\u00f3-reitor de Pesquisa e P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m traz mem\u00f3rias da SBPC relacionadas \u00e0 ci\u00eancia e \u00e0 democracia. Ele conta que a reuni\u00e3o de 1983 foi realizada no Par\u00e1 no pen\u00faltimo ano da\u00a0<strong>ditadura militar<\/strong>\u00a0e que, naquele ano, havia uma luta muito aguerrida de toda a comunidade universit\u00e1ria e cient\u00edfica brasileira, n\u00e3o s\u00f3 pela\u00a0<strong>retomada da democracia<\/strong>, mas tamb\u00e9m para que o princ\u00edpio da democracia pudesse trazer luz \u00e0\u00a0<strong>reconstru\u00e7\u00e3o de uma ci\u00eancia mais aberta<\/strong>. A ditadura militar resultou na expuls\u00e3o de cientistas e em perdas na constru\u00e7\u00e3o de conhecimento no pa\u00eds, porque os curr\u00edculos das universidades foram mudados nesse per\u00edodo. A influ\u00eancia internacional, em particular dos norte-americanos, foi intensa.<\/p>\n<p>\u201cO evento da SBPC de 1983 marcou o per\u00edodo do final da era militar e se configurou em um momento pol\u00edtico em que a ci\u00eancia foi organizada para dar vaz\u00e3o \u00e0queles anseios da ci\u00eancia, da democracia e da ideia da ci\u00eancia laica, ci\u00eancia cidad\u00e3, bem como da universidade brasileira como forma e possibilidade de criar uma sociedade brasileira de qualidade\u201d, afirma Francisco.<\/p>\n<p>Ele aponta que, novamente, a ci\u00eancia brasileira vai ter o momento de reunir-se enquanto institui\u00e7\u00f5es, sociedade, estudantes e pesquisadores \u201cpara juntos construirmos os desafios de um pa\u00eds que se quer soberano na sua ci\u00eancia ou se quer forte na sua constru\u00e7\u00e3o do conhecimento. E \u00e9 a SBPC que vai oportunizar isso em Curitiba\u201d.<\/p>\n<p>Assim como Francisco, que \u00e9 um apaixonado pela ci\u00eancia,\u00a0Eunice\u00a0tem o maior evento de divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica latino-americano em suas mem\u00f3rias. Mas antes de trazer em palavras a simbologia que tais recorda\u00e7\u00f5es t\u00eam em suas vidas, que tal um passeio por diferentes campos cient\u00edficos e suas rela\u00e7\u00f5es sobre este tema, que \u00e9 t\u00e3o curioso e faz parte do cotidiano de todas as pessoas?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-ciencia-do-recordar\"><strong>A ci\u00eancia do recordar<\/strong><\/h4>\n<p>Francisco participa de reuni\u00f5es anuais da SBPC desde 1983 e esteve presente na \u00faltima vez que Curitiba sediou o evento, em 1986. Ele conta que, naquele ano, apresentou a pesquisa do mestrado em Geografia F\u00edsica que fazia na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). Por aqui, ele se hospedou no centro da cidade e ia at\u00e9 o campus Centro Polit\u00e9cnico para participar do evento: \u201cEu lembro de um ambiente maravilhoso, de integra\u00e7\u00e3o entre pessoas, de vontade de apresentar o que se sabe, aprender com o outro e interagir cultural e cientificamente\u201d. Ele ainda conta: \u201cOra, foi uma semana que marcou muito minha vida, que me inspirou fortemente a seguir o caminho da ci\u00eancia e da universidade, que naquele momento estavam em muita evid\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Assim como as lembran\u00e7as do \u00faltimo encontro da\u00a0<strong>SBPC em Curitiba<\/strong>\u00a0foram fundamentais para definir e fixar a identidade profissional de Francisco como cientista,\u00a0 as\u00a0<strong>mem\u00f3rias<\/strong>\u00a0s\u00e3o importantes para\u00a0determinar\u00a0todo tipo de\u00a0<strong>identidade<\/strong>. Na ci\u00eancia, cada \u00e1rea de estudo entende isso de uma forma diferente e ao mesmo tempo, complementar.<\/p>\n<p>O professor do Departamento de\u00a0<strong>Psicologia<\/strong>\u00a0da UFPR, Amer Cavalheiro Hamdan, explica sobre a mem\u00f3ria na sua linha de estudo, que entende o conceito pelo ponto de vista biol\u00f3gico: \u201cA mem\u00f3ria \u00e9 fundamental para o processo de aprendizagem, para a sociabilidade, para a identidade. N\u00f3s somos as nossas mem\u00f3rias, tudo aquilo que conseguimos reter, guardar e evocar.\u201d Ele explica que isso tudo fica muito claro quando se perde a mem\u00f3ria: \u201cPor exemplo, na doen\u00e7a de Alzheimer, quando a pessoa perde a mem\u00f3ria, ela n\u00e3o se reconhece e perde parte da personalidade.\u201d<\/p>\n<p>Existem diferentes mem\u00f3rias para diferentes atividades, como explica o professor. \u201cA mem\u00f3ria\u00a0 mais famosa \u00e9 a epis\u00f3dica, recorda de acontecimentos ao longo do tempo. Eu lembrar a minha inf\u00e2ncia ou o que eu comi ontem \u00e9 mem\u00f3ria epis\u00f3dica.\u201d Amer apontou tamb\u00e9m outros tipos, que, por exemplo, garantem habilidades como escrever e dirigir um carro, ou a mem\u00f3ria sem\u00e2ntica: \u201c\u00c9 a informa\u00e7\u00e3o, o conhecimento. Por exemplo, o que \u00e9 psicologia.\u201d<\/p>\n<p>No c\u00e9rebro humano existem cerca de 100 bilh\u00f5es de neur\u00f4nios que se comunicam atrav\u00e9s de fendas, as chamadas sinapses. A cada novo aprendizado, essas sinapses s\u00e3o fortalecidas, o que aumenta a chance de conex\u00e3o entre dois neur\u00f4nios. Neste momento a forma\u00e7\u00e3o acontece. Esta explica\u00e7\u00e3o vem do professor do Departamento de Farmacologia da UFPR, Cl\u00e1udio da Cunha.<\/p>\n<p>J\u00e1 na\u00a0<strong>Matem\u00e1tica<\/strong>, a mem\u00f3ria funciona como um \u201ccombust\u00edvel\u201d, conta a professora do Setor de Exatas do campus de Palotina,\u00a0Danilene Gullich Donin Berticelli<strong>,\u00a0<\/strong>especialista em C\u00e1lculo Mental. \u201cSe tivermos mem\u00f3rias de fatos b\u00e1sicos, de dobros, da rede do 10, temos condi\u00e7\u00f5es de analisar uma opera\u00e7\u00e3o e decidir qual caminho tomaremos para resolver.\u201d<\/p>\n<p>Ela explica: \u201cO C\u00e1lculo Mental \u00e9 ancorado em conhecimentos essenciais e estrat\u00e9gias. Para formular uma estrat\u00e9gia \u00e9 necess\u00e1rio que o sujeito tenha mem\u00f3rias dos conhecimentos essenciais, como os fatos b\u00e1sicos, opera\u00e7\u00f5es que n\u00e3o \u201cviram\u201d a dezena. Por exemplo: 1+4, 17+2, 21+3.\u201d<\/p>\n<p>Com as lembran\u00e7as destes conhecimentos considerados essenciais para o c\u00e1lculo mental, a pessoa tem condi\u00e7\u00f5es de elaborar diversas estrat\u00e9gias para resolver uma opera\u00e7\u00e3o mentalmente.\u00a0Danilene alerta,\u00a0no entanto, que\u00a0mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 \u201cdecoreba\u201d e sim uma compreens\u00e3o na qual a pessoa trabalhe com os n\u00fameros de forma a valorizar a criatividade, o senso num\u00e9rico e a flexibilidade.<\/p>\n<p>E essas n\u00e3o s\u00e3o as \u00fanicas formas de mem\u00f3ria existentes. A professora do Departamento de\u00a0<strong>Hist\u00f3ria<\/strong>\u00a0da UFPR, Karina Belotti, explica sobre outro tipo, que \u00e9 formado pelos elementos que um povo decide lembrar ou esquecer. Dessa forma, a mem\u00f3ria diz muito sobre um povo e a\u00a0<strong>identidade<\/strong>\u00a0dele a partir do que se orgulham e o que consideram esquec\u00edveis. Mas existe um por\u00e9m quanto \u00e0 constru\u00e7\u00e3o dessa identidade: quem decide o que \u00e9 lembrado s\u00e3o as pessoas que t\u00eam poder.<\/p>\n<p>A\u00a0<strong>mem\u00f3ria de um povo<\/strong>\u00a0muda de acordo com o surgimento de novas gera\u00e7\u00f5es e grupos de poder que discordam das anteriores, como afirma Karina. Ela complementa explicando que este processo vem acontecendo de maneira diferente a partir dos anos 70, com o desenvolvimento de novas formas de comunica\u00e7\u00e3o e mais recentemente com a Internet. Novas vozes passaram a ser ouvidas e ganhar espa\u00e7o, logo novas hist\u00f3rias passaram a ganhar destaque. \u201cV\u00e1rios grupos, essas minorias sociais come\u00e7am a redescobrir sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria e querer escrever uma hist\u00f3ria maior\u201d, declara a professora. \u201cVoc\u00ea v\u00ea essa gera\u00e7\u00e3o nova tomando os meios de comunica\u00e7\u00e3o para dar lugar a outras vozes que n\u00e3o tinham espa\u00e7o nos meios de comunica\u00e7\u00e3o massificada.\u201d<\/p>\n<p>Na\u00a0<strong>Geografia<\/strong>, ela surge como um elemento essencial para a constru\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o. De acordo Marcos, nas abordagens da cultura, a mem\u00f3ria \u00e9 fundamental para se pensar as constru\u00e7\u00f5es espaciais dentro de diferentes contextos. A disciplina estuda como cada indiv\u00edduo sente e percebe o espa\u00e7o e como isso marca suas recorda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m das recorda\u00e7\u00f5es individuais, um grupo tamb\u00e9m constr\u00f3i uma mem\u00f3ria coletiva sobre o espa\u00e7o e, consequentemente, representa\u00e7\u00f5es do espa\u00e7o a partir dessas\u00a0<strong>experi\u00eancias do coletivo<\/strong>. Na\u00a0<span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/acervodigital.ufpr.br\/bitstream\/handle\/1884\/19665\/Dissertacao%20Marcos%20Torres.pdf?sequence=1&amp;isAllowed=y\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">disserta\u00e7\u00e3o de mestrado<\/a><\/strong><\/span>\u00a0sobre o Fandango na Ilha dos Valadares, Marcos estudou justamente isso. \u201cOs fandangueiros da Ilha dos Valadares tinham essa lembran\u00e7a de inf\u00e2ncia do que era o fandango, dos mutir\u00f5es que eles faziam nas suas idas \u00e0s planta\u00e7\u00f5es de arroz. Eles vinham com muitas hist\u00f3rias de como era nas diferentes ilhas do litoral.\u201d<\/p>\n<p>Ao sa\u00edrem de suas ilhas em busca de trabalho no Porto de Paranagu\u00e1, os fandangueiros escolheram viver na ilha vizinha ao porto, em vez de na cidade. N\u00e3o tiveram d\u00favidas, relata Marcos: \u201cEles diziam \u2018eu sou ilh\u00e9u, quero continuar vivendo na ilha\u2019.\u00a0 As mem\u00f3rias deles, o modo de vida anterior foram essenciais para que escolhessem a ilha como local de moradia.\u201d<\/p>\n<p>Na\u00a0<strong>Sociologia<\/strong>, como na Hist\u00f3ria, na Geografia e em outras \u00e1reas, a mem\u00f3ria est\u00e1 presente o tempo todo. Ela \u00e9 o solo sobre o qual a sociologia se constr\u00f3i. \u201cEstamos sempre trabalhando com isso. Trabalhei e trabalho com movimentos populares. Existe uma documenta\u00e7\u00e3o que a imprensa faz, por exemplo, na \u00e1rea de ocupa\u00e7\u00e3o urbana, registrando, num primeiro momento, o enfrentamento entre o movimento\u00a0[social]\u00a0e o Estado. O movimento tem outra leitura, os partidos pol\u00edticos, ainda outra. Tudo isso a gente pode colocar num grande campo de mem\u00f3rias. Sobre o movimento vai prevalecer um tipo de hist\u00f3ria que na verdade n\u00e3o \u00e9 real, porque ela n\u00e3o existe. \u00c9 sempre uma hist\u00f3ria percebida de um ponto de vista. Ent\u00e3o vai depender muito da posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, da conjuntura pol\u00edtica, da condi\u00e7\u00e3o social, da agenda p\u00fablica. A cada momento temos uma mem\u00f3ria sendo ressignificada\u201d, conclui Maria Tarcisa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"ciencia-com-afeto\"><strong>Ci\u00eancia com afeto<\/strong><\/h4>\n<p>A SBPC formou um mar de lembran\u00e7as para qualquer participante, mas \u00e9 natural que algumas se tornem as favoritas. Para Eunice, a reuni\u00e3o de 1977 foi a mais marcante.\u00a0Por medo de retalia\u00e7\u00e3o dos militares, nenhuma universidade queria abrigar a reuni\u00e3o anual. Quem aceitou, em cima da hora, foi Dom Paulo Evaristo Arns. Ent\u00e3o o evento, que seria em Fortaleza, foi realizado na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica (PUC) de S\u00e3o Paulo e sem recursos governamentais.<\/p>\n<p>\u201cFoi um momento lindo, porque a popula\u00e7\u00e3o se mobilizou para conseguir recursos. Artistas, escritores e jornalistas fizeram uma campanha enorme, venderam obras de arte. A popula\u00e7\u00e3o mesmo abrigou os participantes, j\u00e1 que n\u00e3o havia alojamento. Foi um momento de solidariedade, de uni\u00e3o em torno da causa da ci\u00eancia e a favor da democracia\u201d, conta a secret\u00e1ria.<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m lembra com carinho da reuni\u00e3o de 1975, quando entendeu\u00a0<strong>o papel e a for\u00e7a da SBPC na sociedade<\/strong>:\u00a0\u201cFoi em Belo Horizonte. A gente recebeu tantas mo\u00e7\u00f5es, que o presidente da SBPC da \u00e9poca teve que transferir a assembleia geral para um est\u00e1dio de futebol.\u201d As mo\u00e7\u00f5es s\u00e3o cr\u00edticas, especialmente pol\u00edticas, que grupos de s\u00f3cios encaminham \u00e0 SBPC para que ela tome provid\u00eancias e envie essas quest\u00f5es para os \u00f3rg\u00e3os federais e estaduais. A reuni\u00e3o acabou \u00e0s 03h da manh\u00e3 e todos os funcion\u00e1rios e participantes tiveram que voltar a p\u00e9. \u201cFoi a\u00ed que comecei a ver a import\u00e2ncia que tinha a SBPC para o desenvolvimento. Para mim foi um crescente, tenho bastante orgulho de trabalhar na SBPC\u201d, afirma Eunice.<\/p>\n<p>Do evento de 1986, que foi realizado na UFPR, a secret\u00e1ria se recorda bem do frio, da boa organiza\u00e7\u00e3o e da enorme participa\u00e7\u00e3o. Foram quase 7 mil inscritos e mais de 10 mil participantes. O tema do 38o encontro, \u201cCi\u00eancia e Tecnologia \u2013 Uma Necessidade Nacional\u201d, foi escolhido, pois a diretoria queria mostrar que o desenvolvimento social e econ\u00f4mico de\u00a0 que o Brasil precisava \u2013 e precisa ainda \u2013 passa necessariamente pelas descobertas cient\u00edficas em todas as \u00e1reas do conhecimento.<\/p>\n<p>J\u00e1 Francisco guarda com carinho os momentos \u201cextra-oficiais\u201d. Jantar em restaurantes novos, assistir um debate ou um concerto musical e at\u00e9 mesmo desbravar novos bares fazem parte da programa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o est\u00e1 no papel e que acontece espontaneamente quando algu\u00e9m convida.<\/p>\n<p>O cientista tamb\u00e9m destaca o\u00a0<strong>clima de otimismo e alegria<\/strong>\u00a0em um evento que celebra o fazer cient\u00edfico: \u201cS\u00e3o todas atividades paralelas que as pessoas participam sem nenhuma obriga\u00e7\u00e3o. V\u00e3o, porque querem dividir o conhecimento, aprender.\u201d Francisco ainda afirma que \u201cfazer ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 essa dor que muitas vezes falam. Existe um prazer maravilhoso em descobrir e produzir conhecimento\u201d.<\/p>\n<p>A SBPC \u00e9 isso, um momento de aprender e\u00a0<strong>compartilhar ci\u00eancia.\u00a0<\/strong>Nas reuni\u00f5es anuais, o cientista encontra a oportunidade de mostrar \u00e0 sociedade seu trabalho, assim como de trocar conhecimentos. \u201c\u00c9 a prova cabal de que a ci\u00eancia \u00e9 algo social, coletivo e uma produ\u00e7\u00e3o que, claro, se faz muito no individual, mas s\u00f3 faz sentido se for socialmente conhecida e reconhecida\u201d, conclui Francisco.<\/p>\n<p><span style=\"color: #808080;\"><em><a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/agenciaescola.ufpr.br\/site\/?p=5157\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ag\u00eancia Escola UFPR<\/a><\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Pesquisadores da UFPR falam de suas experi\u00eancias no maior evento cient\u00edfico da&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":3467,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3902"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3902"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3902\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3904,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3902\/revisions\/3904"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3467"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3902"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3902"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3902"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}