{"id":4377,"date":"2023-07-05T08:00:54","date_gmt":"2023-07-05T08:00:54","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=4377"},"modified":"2023-10-16T12:34:03","modified_gmt":"2023-10-16T12:34:03","slug":"ciencia-basica-combate-a-fome-e-a-nova-equacao-alimentar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=4377","title":{"rendered":"Ci\u00eancia b\u00e1sica, combate \u00e0 fome e a nova equa\u00e7\u00e3o alimentar"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"apesar-de-ser-uma-potencia-agricola-global-o-brasil-convive-com-33-milhoes-de-pessoas-em-situacao-de-inseguranca-alimentar\"><span style=\"color: #808080;\">Apesar de ser uma pot\u00eancia agr\u00edcola global, o Brasil convive com 33 milh\u00f5es de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar <\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"introducao\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h4>\n<p>No final de 2021, a\u00a0assembleia geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) proclamou 2022 o Ano Internacional das Ci\u00eancias B\u00e1sicas para o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel. A partir disso, uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es foram colocadas em marcha com vistas a sensibilizar os l\u00edderes pol\u00edticos e econ\u00f4micos, bem como a sociedade em geral, sobre a import\u00e2ncia da pesquisa b\u00e1sica para o cumprimento da Agenda 2030. Entre os m\u00faltiplos desafios est\u00e1 a supera\u00e7\u00e3o da fome, um problema para o qual as respostas convencionais t\u00eam sido ineficazes e, al\u00e9m disso, repercutido em eros\u00e3o da biodiversidade, acelera\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e prolifera\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as associadas ao consumo exagerado de alimentos ultraprocessados, por exemplo. A articula\u00e7\u00e3o sist\u00eamica desses e outros problemas sugere a emerg\u00eancia de uma nova \u201cequa\u00e7\u00e3o alimentar\u201d,<sup>[1,2]<\/sup> a qual exige respostas inovadoras, que conciliem o combate \u00e0 fome com a promo\u00e7\u00e3o de sistemas alimentares sustent\u00e1veis, saud\u00e1veis e justos. Por sua vez, esse desafio tem implica\u00e7\u00f5es sobre quais pesquisas b\u00e1sicas e aplicadas dever\u00e3o ser estimuladas no futuro pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"armas-germes-e-soja\"><strong>Armas, germes e soja<\/strong><\/h4>\n<p>Em 2018, a Academia Brasileira de Ci\u00eancias (ABC) publicou seu <em>Projeto de Ci\u00eancia para o Brasil,<\/em><sup>[3]<\/sup> um compilado de documentos anal\u00edticos e propositivos que resultou do trabalho de quase duas dezenas de renomados cientistas brasileiros. O primeiro cap\u00edtulo \u00e9 dedicado \u00e0 ci\u00eancia b\u00e1sica, considerada a raiz que \u201calimenta e nutre a pesquisa aplicada\u201d (p. 42). Dentre as principais contribui\u00e7\u00f5es brasileiras para a pesquisa b\u00e1sica, o documento destaca que o pa\u00eds \u201c\u00e9 um dos principais produtores de conhecimento em ci\u00eancias agr\u00edcolas e ci\u00eancias de plantas e animais, respondendo por 8,8% e 6,6% da produ\u00e7\u00e3o mundial nessas \u00e1reas\u201d (p. 43). Por sua vez, entre os casos citados para ilustrar tal contribui\u00e7\u00e3o, o primeiro refere-se \u00e0 descoberta, em 1957, pela agr\u00f4noma Johanna D\u00f6bereiner, das bact\u00e9rias fixadoras de nitrog\u00eanio. Esse feito foi respons\u00e1vel por transformar \u201co Brasil no segundo maior produtor mundial de soja\u201d (p. 50).<\/p>\n<p>Um ano ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o, o Brasil se tornou o maior produtor mundial de soja, mas essa n\u00e3o \u00e9 a quest\u00e3o mais relevante. O que nos interessa dessa discuss\u00e3o \u00e9 a contribui\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia b\u00e1sica para o \u00eaxito da Revolu\u00e7\u00e3o Verde e o desenvolvimento tecnol\u00f3gico do pa\u00eds.<sup>[4]<\/sup> Os exemplos nessa dire\u00e7\u00e3o v\u00e3o muito al\u00e9m das bact\u00e9rias. Em 1962, antes mesmo do governo militar colocar em marcha as pol\u00edticas de moderniza\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria da agricultura brasileira, Rachel Carson j\u00e1 havia demonstrado que a mesma qu\u00edmica b\u00e1sica que produziu as armas da Segunda Guerra Mundial estava presente nos agrot\u00f3xicos sint\u00e9ticos que, de uma forma bem menos louv\u00e1vel, tamb\u00e9m foram respons\u00e1veis pelo sucesso do agroneg\u00f3cio brasileiro.<sup>[5]<\/sup> H\u00e1 ainda os exemplos relativos \u00e0 contribui\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria b\u00e9lica para o desenvolvimento da mecaniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola.<\/p>\n<p>Por sua vez, as ci\u00eancias sociais e humanas ofereceram suas contribui\u00e7\u00f5es para explicar como o destino da \u201csociedade do agro\u201d foi tra\u00e7ado pelos formuladores dessas pol\u00edticas p\u00fablicas em parceria com os <em>experts<\/em> das organiza\u00e7\u00f5es multilaterais e com o apoio de corpora\u00e7\u00f5es transnacionais. Nos \u00faltimos anos, essas disciplinas t\u00eam sido novamente convocadas a explicar por que, ainda hoje, essa pot\u00eancia agr\u00edcola global convive com 33 milh\u00f5es de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar grave, ou seja, fome.<sup>[6]<\/sup> Afinal, como pode o terceiro maior produtor de alimentos do mundo (atr\u00e1s apenas de Estados Unidos e China), segundo maior exportador em volume total, que comercializa para 180 pa\u00edses, e diz ser respons\u00e1vel por <a href=\"https:\/\/cnabrasil.org.br\/noticias\/taxar-o-agro-resulta-em-fome-inflacao-e-miseria\">alimentar 1 bilh\u00e3o de pessoas<\/a> no mundo, estar de volta ao Mapa da Fome das Na\u00e7\u00f5es Unidas? (Figura 1)<\/p>\n<h6 id=\"figura-1-o-brasil-voltou-ao-mapa-da-fome-com-mais-de-33-milhoes-de-brasileiros-em-situacao-de-inseguranca-alimentarfoto-por-tania-rego-agencia-brasil-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-4378\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/CC-2E23-opinia\u0303o-Cie\u0302ncia-ba\u0301sica-combate-a\u0300-fome-e-a-nova-equac\u0327a\u0303o-alimentar-figira1-300x180.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"299\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/CC-2E23-opinia\u0303o-Cie\u0302ncia-ba\u0301sica-combate-a\u0300-fome-e-a-nova-equac\u0327a\u0303o-alimentar-figira1-300x180.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/CC-2E23-opinia\u0303o-Cie\u0302ncia-ba\u0301sica-combate-a\u0300-fome-e-a-nova-equac\u0327a\u0303o-alimentar-figira1-1024x613.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/CC-2E23-opinia\u0303o-Cie\u0302ncia-ba\u0301sica-combate-a\u0300-fome-e-a-nova-equac\u0327a\u0303o-alimentar-figira1-768x460.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/CC-2E23-opinia\u0303o-Cie\u0302ncia-ba\u0301sica-combate-a\u0300-fome-e-a-nova-equac\u0327a\u0303o-alimentar-figira1-1536x919.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/CC-2E23-opinia\u0303o-Cie\u0302ncia-ba\u0301sica-combate-a\u0300-fome-e-a-nova-equac\u0327a\u0303o-alimentar-figira1-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/CC-2E23-opinia\u0303o-Cie\u0302ncia-ba\u0301sica-combate-a\u0300-fome-e-a-nova-equac\u0327a\u0303o-alimentar-figira1-800x479.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/CC-2E23-opinia\u0303o-Cie\u0302ncia-ba\u0301sica-combate-a\u0300-fome-e-a-nova-equac\u0327a\u0303o-alimentar-figira1-1160x694.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/CC-2E23-opinia\u0303o-Cie\u0302ncia-ba\u0301sica-combate-a\u0300-fome-e-a-nova-equac\u0327a\u0303o-alimentar-figira1.jpg 1691w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><strong style=\"font-family: -apple-system, BlinkMacSystemFont, 'Segoe UI', Roboto, 'Helvetica Neue', Arial, 'Noto Sans', sans-serif, 'Apple Color Emoji', 'Segoe UI Emoji', 'Segoe UI Symbol', 'Noto Color Emoji';\"><br \/>\nFigura 1. O Brasil voltou ao Mapa da Fome, com mais de 33 milh\u00f5es de brasileiros em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar<br \/>\n<\/strong><span style=\"font-family: -apple-system, BlinkMacSystemFont, 'Segoe UI', Roboto, 'Helvetica Neue', Arial, 'Noto Sans', sans-serif, 'Apple Color Emoji', 'Segoe UI Emoji', 'Segoe UI Symbol', 'Noto Color Emoji';\">(Foto por T\u00e2nia Rego\/ Ag\u00eancia Brasil. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/span><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Similares a quase tudo que envolve as ci\u00eancias sociais, as respostas para essa quest\u00e3o s\u00e3o variadas. H\u00e1 quem insista, por exemplo, que o pa\u00eds est\u00e1 acometido por uma variante mais resistente da \u201cDoen\u00e7a Holandesa\u201d,<sup>[7]<\/sup> o que pressup\u00f5em a exist\u00eancia de um problema estrutural de longo prazo. Outros preferem destacar os efeitos contextuais da crise econ\u00f4mica, pol\u00edtica e sanit\u00e1ria (covid-19), o que geralmente implica numa vis\u00e3o mais otimista sobre o futuro.<sup>[8]<\/sup> Sem desconsiderar ambas as possibilidades, interessa nesse artigo ressaltar o fato de que as institui\u00e7\u00f5es que t\u00eam projetado solu\u00e7\u00f5es ineficazes para o problema da fome tamb\u00e9m ditam os rumos da ci\u00eancia b\u00e1sica e seus usos para fins tecnol\u00f3gicos (tornando-a \u201caplicada\u201d). Por institui\u00e7\u00f5es, compreendemos o conjunto de regras, valores e conven\u00e7\u00f5es que organizam e d\u00e3o sentido \u00e0s pr\u00e1ticas dos atores e organiza\u00e7\u00f5es sociais. Entre essas institui\u00e7\u00f5es est\u00e1 a pr\u00f3pria imagem do \u201cagro\u201d como um projeto para as sociedades latino-americanas.<sup>[9]<\/sup><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"desvirtuacao-ou-escolhas-institucionais\"><strong>Desvirtua\u00e7\u00e3o ou escolhas institucionais<\/strong><\/h4>\n<p>\u00c9 comum nos depararmos com a ideia de que a ci\u00eancia b\u00e1sica sofre pela desvirtua\u00e7\u00e3o dos seus objetivos iniciais. Tal ideia pode ser inclusive conveniente para muitos cientistas que n\u00e3o ter\u00e3o a mesma oportunidade que teve Robert Oppenheimer para pronunciar suas mais c\u00e9lebres palavras: \u201c<a href=\"https:\/\/www.atomicarchive.com\/media\/videos\/oppenheimer.html\"><strong><em>We knew the world would not be the same. <\/em><\/strong><strong><em>A few people laughed, a few people cried, most people were silent. <\/em><\/strong><strong><em>[\u2026] Now, I am become Death, the destroyer of worlds<\/em><\/strong><\/a>\u201d (\u201cN\u00f3s sab\u00edamos que o mundo n\u00e3o seria o mesmo. Algumas pessoas riram, outras pessoas choraram, a maior ficou em sil\u00eancio. [&#8230;] Agora, eu me tornei a morte, o destruidor de mundos\u201d) Mas ela n\u00e3o se sustenta quando, por exemplo, lembramos que o objetivo inicial do 2,4-D, um herbicida altamente t\u00f3xico e de amplo uso na produ\u00e7\u00e3o de soja, era servir de arma qu\u00edmica (o famoso Agente Laranja) na Guerra do Vietn\u00e3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"como-pode-o-terceiro-maior-produtor-de-alimentos-do-mundo-atras-apenas-de-estados-unidos-e-china-segundo-maior-exportador-em-volume-total-que-comercializa-para-180-paises-e-diz-ser-respo\" style=\"text-align: center;\"><em><span style=\"color: #800000;\">\u201cComo pode o terceiro maior produtor de alimentos do mundo (atr\u00e1s apenas de Estados Unidos e China), segundo maior exportador em volume total, que comercializa para 180 pa\u00edses, e diz ser respons\u00e1vel por alimentar um bilh\u00e3o de pessoas no mundo, estar de volta ao Mapa da Fome das Na\u00e7\u00f5es Unidas?\u201d<\/span><\/em><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quase um s\u00e9culo depois do Projeto Manhattan mudar dramaticamente o curso da hist\u00f3ria, o <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.iybssd2022.org\/en\/home\/\"><strong>Ano Internacional das Ci\u00eancias B\u00e1sicas para o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel<\/strong><\/a> <\/span>pretende ser \u201cum momento chave de mobiliza\u00e7\u00e3o para convencer os l\u00edderes econ\u00f4micos e pol\u00edticos, bem como todos os cidad\u00e3os, da import\u00e2ncia de levar em conta e dominar as ci\u00eancias b\u00e1sicas para garantir um desenvolvimento equilibrado, sustent\u00e1vel e inclusivo do planeta\u201d. \u00c9 importante notar que este des\u00edgnio estabelece uma nova rota: ao inv\u00e9s da guerra, os Objetivos do Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (ODS) que, conjuntamente, se tornaram a principal orienta\u00e7\u00e3o institucional para a a\u00e7\u00e3o de governos, empresas, movimentos sociais e qui\u00e7\u00e1 tamb\u00e9m dos cientistas.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o, no entanto, \u00e9 como articular a pesquisa b\u00e1sica aos 17 objetivos e 169 metas globais\u00a0da Agenda 2030. Em primeiro lugar, \u00e9 preciso ter em mente a imprescind\u00edvel integra\u00e7\u00e3o desses objetivos e metas, de tal modo que as a\u00e7\u00f5es para a promo\u00e7\u00e3o de um(a) n\u00e3o incorram no comprometimento de outros(as). E aqui reside um dos principais dilemas na nova equa\u00e7\u00e3o alimentar: a ci\u00eancia (b\u00e1sica ou aplicada) precisar\u00e1 contribuir n\u00e3o apenas para suplantar o esc\u00e1rnio da fome, mas tamb\u00e9m para que isso se d\u00ea a partir da promo\u00e7\u00e3o de sistemas alimentares sustent\u00e1veis, saud\u00e1veis e justos. Com isso, as antigas respostas concebidas pela Revolu\u00e7\u00e3o Verde j\u00e1 n\u00e3o podem ser repetidas, seja porque elas agravaram a crise ecol\u00f3gica (eros\u00e3o da biodiversidade, por exemplo),<sup>[10]<\/sup> seja porque elas promoveram problemas de sa\u00fade p\u00fablica que, em alguns contextos, se tornaram mais mortais que a pr\u00f3pria fome.<sup>[11]<\/sup><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-sindemia-global\"><strong>A sindemia global<\/strong><\/h4>\n<p>Em 2019, antes da maioria de n\u00f3s ouvirmos a express\u00e3o pandemia pela primeira vez, a Comiss\u00e3o Lancet publicou um importante relat\u00f3rio sobre a gravidade de uma \u201csindemia global\u201d que associa subnutri\u00e7\u00e3o, obesidade e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<sup>[11]<\/sup> Essa crise tem revelado efeitos devastadores, especialmente nos pa\u00edses mais pobres. Em 2015, o excesso de peso corporal afetava mais de dois bilh\u00f5es de pessoas no mundo e era respons\u00e1vel por, aproximadamente, quatro milh\u00f5es de mortes por ano. Os custos econ\u00f4micos da obesidade representavam aproximadamente 2,8% do PIB mundial.<sup>[11]<\/sup> Uma das estimativas mais conservadoras, publicadas no <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.worldobesity.org\/resources\/resource-library\/world-obesity-atlas-2022\"><strong>Atlas Global da Obesidade<\/strong><\/a><\/span> de 2022 sugere que, em 2030, um bilh\u00e3o de pessoas estar\u00e1 com obesidade, o que implica que o n\u00famero de indiv\u00edduos nessa condi\u00e7\u00e3o duplicar\u00e1 em 20 anos. Segundo esse estudo, enquanto nas Am\u00e9ricas a taxa de expans\u00e3o deve ser de 1,5 entre 2010 e 2030, na \u00c1frica o n\u00famero deve triplicar.<\/p>\n<p>Bilh\u00f5es de d\u00f3lares t\u00eam sido gastos anualmente para financiar pesquisas que pretendem provar que as mortes ocasionadas por doen\u00e7as cardiovasculares, diabetes tipo 2 e certos c\u00e2nceres n\u00e3o est\u00e3o associadas \u00e0 dieta alimentar, ao uso de agrot\u00f3xicos ou ao consumo de alimentos ultraprocessados, mas ao estilo de vida sedent\u00e1rio dos consumidores.<sup>[12]<\/sup> Com um <em>modus operandi<\/em> similar aos negacionismos que marcaram as narrativas contra a covid-19, a a\u00e7\u00e3o desses \u201cmercadores da d\u00favida\u201d na guerra contra a regulamenta\u00e7\u00e3o de determinados mercados (alimentos, tabaco, bebidas, agrot\u00f3xicos) tem sido um dos principais problemas para avan\u00e7ar em pol\u00edticas alimentares que promovam sa\u00fade, sustentabilidade e justi\u00e7a alimentar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-ciencia-basica-ou-aplicada-precisara-contribuir-nao-apenas-para-suplantar-o-escarnio-da-fome-mas-tambem-para-que-isso-se-de-a-partir-da-promocao-de-sistemas-alimentares-sustentaveis-sau\" style=\"text-align: center;\"><em><span style=\"color: #800000;\">\u201cA ci\u00eancia (b\u00e1sica ou aplicada) precisar\u00e1 contribuir n\u00e3o apenas para suplantar o esc\u00e1rnio da fome, mas tamb\u00e9m para que isso se d\u00ea a partir da promo\u00e7\u00e3o de sistemas alimentares sustent\u00e1veis, saud\u00e1veis e justos.\u201d<\/span><\/em><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um dos focos de embate s\u00e3o os Guias Alimentares, documentos que orientam a a\u00e7\u00e3o do Estado na regula\u00e7\u00e3o do setor e na execu\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. Nos Estados Unidos, em 2019, 933 relat\u00f3rios foram produzidos para embasar o <em>lobby<\/em> da ind\u00fastria alimentar. Em 2015, quando o Departamento de Agricultura (USDA) estava discutindo o Guia Alimentar 2015-2020, 1.176 relat\u00f3rios foram financiados por empresas como PepsiCo, Coca-Cola, Monsanto, Nestle e McDonald\u2019s.<sup>[13]<\/sup> O modo como o dinheiro, o poder e a pol\u00edtica influenciam o debate americano se revela em um Guia Alimentar que, por exemplo, condena o consumo excessivo de a\u00e7\u00facares e s\u00f3dio, mas n\u00e3o faz qualquer refer\u00eancia ao tipo de alimento que \u00e9 a principal fonte destes ingredientes.<\/p>\n<p>No Brasil, as corpora\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m buscaram desacreditar o Guia Alimentar atacando principalmente o conceito de alimento ultraprocessado.<sup>[14]<\/sup> Em 2020, tal ofensiva ganhou o Minist\u00e9rio da Agricultura como um aliado de primeira ordem, notadamente quando o Departamento de An\u00e1lises Econ\u00f4micas e Pol\u00edticas P\u00fablicas (DAEP) publicou a Nota T\u00e9cnica n. 42, questionando a legitimidade do Guia, afirmando que ele \u00e9 confuso e incoerente, a tal ponto de defini-lo como \u201cum dos piores do mundo\u201d. Essa posi\u00e7\u00e3o foi prontamente recha\u00e7ada pelos pesquisadores que participaram da constru\u00e7\u00e3o do Guia. Desde ent\u00e3o, <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/c809pyredx9o\"><strong>in\u00fameros estudos<\/strong><\/a> <\/span>t\u00eam ratificado os efeitos prejudiciais \u00e0 sa\u00fade das dietas baseadas em alimentos ultraprocessados.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia de curto prazo das corpora\u00e7\u00f5es agroalimentares j\u00e1 est\u00e1 desenhada. Al\u00e9m de contratar estudos que usam metodologias question\u00e1veis para tentar desacreditar as evid\u00eancias cient\u00edficas,<sup>[15]<\/sup> elas t\u00eam se engajado no financiamento de congressos acad\u00eamicos e importantes f\u00f3runs internacionais, tais como a Confer\u00eancia do Clima (COP 27), realizada em 2022, e a C\u00fapula dos Sistemas Alimentares das Na\u00e7\u00f5es Unidas, em 2021. Nesse caso, ao inv\u00e9s do negacionismo que questiona as pesquisas e a comunidade internacional, o objetivo \u00e9 assegurar que o referencial utilizado para tratar dos problemas alimentares (e clim\u00e1ticos) seja compat\u00edvel com suas estrat\u00e9gias comerciais.<\/p>\n<p>No longo prazo, por sua vez, as estrat\u00e9gias corporativas voltam-se \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de tecnologias que prometem revolucionar o modo como nos alimentamos. A produ\u00e7\u00e3o de carnes sint\u00e9ticas talvez seja a principal express\u00e3o de como grandes corpora\u00e7\u00f5es da ind\u00fastria alimentar concebem solu\u00e7\u00f5es para a sindemia global.<sup>[16]<\/sup> Em tese, tais produtos seriam capazes de reduzir drasticamente o desmatamento e a emiss\u00e3o de gases de efeito estufa, melhorar o padr\u00e3o nutricional das dietas e acabar com a subnutri\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de garantir o bem-estar animal, uma agenda que vem ganhando for\u00e7a nos debates alimentares em virtude da a\u00e7\u00e3o de movimentos antiespecistas. Essa imagem projetada sobre o futuro (um componente central das institui\u00e7\u00f5es) est\u00e1 no centro da disputa sobre a pr\u00f3pria ideia do que \u00e9 um sistema alimentar saud\u00e1vel e sustent\u00e1vel. (Figura 2)<\/p>\n<h6 id=\"figura-2-a-producao-de-carnes-sinteticas-mostra-como-grandes-corporacoes-da-industria-alimentar-concebem-solucoes-para-a-sindemia-global-foto-por-university-of-colorado-boulder-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-4379\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/CC-2E23-opinia\u0303o-Cie\u0302ncia-ba\u0301sica-combate-a\u0300-fome-e-a-nova-equac\u0327a\u0303o-alimentar-figura2-300x174.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/CC-2E23-opinia\u0303o-Cie\u0302ncia-ba\u0301sica-combate-a\u0300-fome-e-a-nova-equac\u0327a\u0303o-alimentar-figura2-300x174.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/CC-2E23-opinia\u0303o-Cie\u0302ncia-ba\u0301sica-combate-a\u0300-fome-e-a-nova-equac\u0327a\u0303o-alimentar-figura2-1024x594.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/CC-2E23-opinia\u0303o-Cie\u0302ncia-ba\u0301sica-combate-a\u0300-fome-e-a-nova-equac\u0327a\u0303o-alimentar-figura2-768x446.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/CC-2E23-opinia\u0303o-Cie\u0302ncia-ba\u0301sica-combate-a\u0300-fome-e-a-nova-equac\u0327a\u0303o-alimentar-figura2-1536x891.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/CC-2E23-opinia\u0303o-Cie\u0302ncia-ba\u0301sica-combate-a\u0300-fome-e-a-nova-equac\u0327a\u0303o-alimentar-figura2-18x10.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/CC-2E23-opinia\u0303o-Cie\u0302ncia-ba\u0301sica-combate-a\u0300-fome-e-a-nova-equac\u0327a\u0303o-alimentar-figura2-800x464.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/CC-2E23-opinia\u0303o-Cie\u0302ncia-ba\u0301sica-combate-a\u0300-fome-e-a-nova-equac\u0327a\u0303o-alimentar-figura2-1160x673.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/CC-2E23-opinia\u0303o-Cie\u0302ncia-ba\u0301sica-combate-a\u0300-fome-e-a-nova-equac\u0327a\u0303o-alimentar-figura2.jpg 1691w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 2. A produ\u00e7\u00e3o de carnes sint\u00e9ticas mostra como grandes corpora\u00e7\u00f5es da ind\u00fastria alimentar concebem solu\u00e7\u00f5es para a sindemia global.<br \/>\n<\/strong>(Foto por <a href=\"https:\/\/www.colorado.edu\/ecenter\/2021\/10\/20\/lab-grown-meat-emerging-industry\"><em>University of Colorado Boulder<\/em><\/a>. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Contra essa imagem, em outro lugar do espectro pol\u00edtico desse embate, movimentos sociais que se articulam, por exemplo, em torno dos princ\u00edpios da agroecologia e da seguran\u00e7a e soberania alimentar e nutricional oferecem outra perspectiva de saudabilidade e sustentabilidade. Esses movimentos t\u00eam pressionado de maneira contundente para que as pol\u00edticas alimentares respondam de maneira sist\u00eamica \u00e0 sindemia global. Al\u00e9m disso, eles tamb\u00e9m s\u00e3o os principais respons\u00e1veis por incorporar uma dimens\u00e3o de justi\u00e7a alimentar, denunciando que a crise tem origem n\u00e3o apenas nas escolhas alimentares dos consumidores, mas nos fatores estruturais que reproduzem m\u00faltiplas desigualdades no acesso a alimentos saud\u00e1veis e sustent\u00e1veis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"politicas-publicas-ciencia-basica-e-politica-cientifica\"><strong>Pol\u00edticas p\u00fablicas, ci\u00eancia b\u00e1sica e pol\u00edtica cient\u00edfica<\/strong><\/h4>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o de sistemas alimentares sustent\u00e1veis, saud\u00e1veis e justos depende, embora n\u00e3o exclusivamente, de pol\u00edticas que induzam uma grande variedade de atores a se engajarem na constru\u00e7\u00e3o de novas pr\u00e1ticas. Mudan\u00e7as na regulamenta\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria alimentar, na estrutura de incentivos fiscais para a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, e na legisla\u00e7\u00e3o trabalhista que, atualmente, favorece o trabalho precarizado no segmento de <em>deliveries<\/em>, s\u00e3o algumas das in\u00fameras medidas j\u00e1 sugeridas.<sup>[17]<\/sup> Mesmo assim, transforma\u00e7\u00f5es mais substanciais \u201c<em>to fix a broken food system<\/em>\u201d <sup>[18]\u00a0<\/sup>tamb\u00e9m depender\u00e3o da indu\u00e7\u00e3o de inova\u00e7\u00f5es cient\u00edficas adequadas aos objetivos do desenvolvimento sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Essa quest\u00e3o tem sido objeto de preocupa\u00e7\u00e3o dos formuladores de pol\u00edticas cient\u00edficas e tecnol\u00f3gicas, os quais, em geral, tendem a favorecer a pesquisa aplicada. Por mais que, como destacado acima, esta dependa da ci\u00eancia b\u00e1sica, os editais de apoio \u00e0 pesquisa recorrentemente reproduzem a cis\u00e3o. Pressionados por eleitores, acionistas ou militantes, governos, empresas ou movimentos sociais refor\u00e7am a cobran\u00e7a pela aplicabilidade direta do conhecimento. Assim, em um contexto de crise econ\u00f4mica, os parcos recursos para a pesquisa tendem a se voltar para os projetos que prometem resultados imediatos (vide os formul\u00e1rios de avalia\u00e7\u00e3o utilizados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico\u00a0[CNPq] nos \u00faltimos anos), ainda que eles geralmente ofere\u00e7am respostas insuficientes para a complexidade da nova equa\u00e7\u00e3o alimentar. O problema \u00e9 que sem o potencial disruptivo das descobertas geradas pela ci\u00eancia b\u00e1sica, a pesquisa aplicada tende a reproduzir respostas com varia\u00e7\u00f5es incrementais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-direito-humano-a-alimentacao-adequada-e-demasiadamente-importante-para-deixa-lo-nas-maos-de-algumas-poucas-corporacoes-privadas-financiadas-por-capitais-financeiros-e-atuando-com-inovacoes\" style=\"text-align: center;\"><em><span style=\"color: #800000;\">\u201cO direito humano \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o adequada \u00e9 demasiadamente importante para deix\u00e1-lo nas m\u00e3os de algumas poucas corpora\u00e7\u00f5es privadas, financiadas por capitais financeiros e atuando com inova\u00e7\u00f5es de alto risco.\u201d<\/span><\/em><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No setor alimentar, um n\u00famero reduzido de grandes empreendimentos cient\u00edficos, capitaneados por conglomerados transnacionais com ou sem apoio dos governos de pa\u00edses ricos, tem estado \u00e0 frente das inova\u00e7\u00f5es que prometem revolucionar o sistema. Esse \u00e9 o caso dos investimentos no desenvolvimento de prote\u00ednas alternativas.<sup>[16, 19]<\/sup> Em junho de 2023, a JBS, maior produtora de carne do mundo, anunciou a constru\u00e7\u00e3o da primeira f\u00e1brica em escala comercial de carne cultivada, na qual pretende produzir anualmente mais de mil toneladas. A tecnologia utilizada foi gerada pela <em>BioTech Foods<\/em>, uma empresa espanhola que tem entre os fundadores a PhD em f\u00edsica de materiais Mercedes Vila Ju\u00e1rez, uma das maiores especialistas em materiais para biomedicina e vencedora, em 2010, do pr\u00eamio L&#8217;Or\u00e9al-Unesco para Mulheres na Ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Em face das in\u00fameras d\u00favidas e questionamentos acerca da viabilidade e dos efeitos dessa tecnologia, ainda \u00e9 cedo para afirmar se ela trar\u00e1 uma resposta efetiva para a sindemia global. No entanto, tendo em vista os atores capitaneando tais iniciativas, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar que elas ter\u00e3o um resultado limitado em termos de justi\u00e7a alimentar. Seus principais propagadores, a exemplo do <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/gfi.org.br\/\"><strong>Good Food Institute<\/strong><\/a> <\/span>no caso da carne cultivada, asseguram que tal justi\u00e7a ser\u00e1 alcan\u00e7ada \u00e0 medida que os avan\u00e7os cient\u00edficos permitirem cultivo em larga escala e pre\u00e7os competitivos. No entanto, esse argumento apenas reproduz a mesma ladainha que h\u00e1 d\u00e9cadas sustenta as j\u00e1 senis pol\u00edticas de moderniza\u00e7\u00e3o da agricultura, as mesmas que tornaram o Brasil o maior produtor mundial de soja, mantendo-o no Mapa da Fome. Sem uma nova governan\u00e7a democr\u00e1tica do sistema alimentar, o controle oligopolista dessas inova\u00e7\u00f5es provavelmente acentuar\u00e1 a depend\u00eancia das na\u00e7\u00f5es, a inseguran\u00e7a alimentar das popula\u00e7\u00f5es e os conflitos geopol\u00edticos globais.<\/p>\n<p>Ademais, caso n\u00e3o se confirmem os futuros imaginados por novos empreendimentos, quais op\u00e7\u00f5es ainda estar\u00e3o na mesa dos governos, empresas, agricultores e consumidores? O direito humano \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o adequada \u00e9 demasiadamente importante para deix\u00e1-lo nas m\u00e3os de algumas poucas corpora\u00e7\u00f5es privadas, financiadas por capitais financeiros e atuando com inova\u00e7\u00f5es de alto risco. Em face disso, al\u00e9m de reconhecer a import\u00e2ncia da ci\u00eancia b\u00e1sica, \u00e9 urgente criar mecanismos institucionais (fundos p\u00fablicos e privados, centros interdisciplinares, parcerias interinstitucionais, coopera\u00e7\u00f5es internacionais) que viabilizem pesquisas com potencial disruptivo e orientadas para os desafios do desenvolvimento sustent\u00e1vel. Governos e sociedades ter\u00e3o que decidir, por exemplo, se continuar\u00e3o com suas pol\u00edticas de benef\u00edcios fiscais para a venda de agrot\u00f3xicos e refrigerantes, ou se v\u00e3o taxar esses produtos para desincentivar o consumo e angariar recursos para promover uma efetiva transi\u00e7\u00e3o para a sustentabilidade.<\/p>\n<p>Finalmente, permanece aberta a quest\u00e3o de como orientar a ci\u00eancia b\u00e1sica para determinados objetivos. Em geral, os cientistas s\u00e3o c\u00e9ticos com a ideia de que o governo definir\u00e1 o escopo das suas pesquisas \u2013 e a hist\u00f3ria de Robert Oppenheimer sugere que eles t\u00eam toda raz\u00e3o para s\u00ea-lo. Por isso tamb\u00e9m \u00e9 fundamental fortalecer as inst\u00e2ncias colegiadas e interinstitucionais que deliberam sobre os rumos da pesquisa. O que n\u00e3o pode \u00e9 um pa\u00eds como o Brasil estar desde 2020 sem um <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.gov.br\/capes\/pt-br\/acesso-a-informacao\/institucional\/plano-nacional-de-pos-graduacao-pnpg\"><strong>Plano Nacional de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o<\/strong><\/a> <\/span>que oriente a pesquisa e a forma\u00e7\u00e3o de pesquisadores. Uma das quest\u00f5es que precisa ser contemplada por esse tipo de plano diz respeito \u00e0 interlocu\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas entre diferentes \u00e1reas do conhecimento, mas entre ci\u00eancias b\u00e1sicas e aplicadas. Ao inv\u00e9s de refor\u00e7ar uma cis\u00e3o, os exemplos mencionados acima sugerem que o potencial transformativo das inova\u00e7\u00f5es pode ser maior quando os\/as cientistas articulam pesquisas b\u00e1sicas e aplicadas. Para os mais jovens, que talvez n\u00e3o tenham conhecido o Projeto Manhattan, a quest\u00e3o \u00e9 sobre a possibilidade de fazer Sheldon Cooper e Howard Wolowitz trabalharem no mesmo projeto.<\/p>\n<hr \/>\n<h5 id=\"referencias\"><span style=\"color: #808080;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/span><\/h5>\n<h6 id=\"1-mellor-john-w-johnston-bruce-f-the-world-food-equation-interrelations-among-development-employment-and-food-consumption-journal-of-economic-literature-v-22-n-2-p-531-574-1984\"><span style=\"color: #808080;\">[1] MELLOR, John W.; JOHNSTON, Bruce F. The world food equation: Interrelations among development, employment, and food consumption.\u00a0<strong>Journal of Economic Literature<\/strong>, v. 22, n. 2, p. 531-574, 1984.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"2-morgan-kevin-sonnino-roberta-the-urban-foodscape-world-cities-and-the-new-food-equation-cambridge-journal-of-regions-economy-and-society-v-3-n-2-p-209-224-2010\"><span style=\"color: #808080;\">[2] MORGAN, Kevin; SONNINO, Roberta. The urban foodscape: world cities and the new food equation.\u00a0<strong>Cambridge Journal of Regions, Economy and Society<\/strong>, v. 3, n. 2, p. 209-224, 2010.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"3-silva-j-l-tundisi-j-g-coord-projeto-de-ciencia-para-o-brasil-rio-de-janeiro-academia-brasileira-de-ciencias-2018\"><span style=\"color: #808080;\">[3] SILVA, J.L.; TUNDISI, J. G. (Coord.). <strong>Projeto de Ci\u00eancia para o Brasil<\/strong>. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Ci\u00eancias, 2018.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"4-patel-raj-the-long-green-revolution-journal-of-peasant-studies-v-40-n-1-p-1-63-2013\"><span style=\"color: #808080;\">[4] PATEL, Raj. The long Green Revolution. <strong>Journal of Peasant Studies<\/strong>,\u00a0v. 40, n. 1, p.\u00a01-63, 2013.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"5-carson-rachel-silent-spring-boston-houghton-mifflin1962\"><span style=\"color: #808080;\">[5] CARSON, Rachel. <strong>Silent spring<\/strong>. Boston: Houghton Mifflin,1962.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"6-rede-penssan-ii-inquerito-nacional-sobre-inseguranca-alimentar-no-contexto-da-pandemia-da-covid-19-no-brasil-sao-paulo-sp-fundacao-friedrich-ebert-rede-penssan-2022\"><span style=\"color: #808080;\">[6] REDE PENSSAN. <strong>II Inqu\u00e9rito Nacional sobre Inseguran\u00e7a Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil<\/strong>. S\u00e3o Paulo, SP: Funda\u00e7\u00e3o Friedrich Ebert, Rede Penssan, 2022.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"7-bresser-pereira-luiz-carlos-tarifas-de-importacao-o-argumento-da-neutralizacao-da-doenca-holandesa-brazilian-journal-of-political-economy-v-43-n-1-p-299-303-2023\"><span style=\"color: #808080;\">[7] BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. Tarifas de importa\u00e7\u00e3o: o argumento da neutraliza\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a holandesa.\u00a0<strong>Brazilian Journal of Political Economy<\/strong>, v.\u00a043, n. 1, p. 299-303, 2023.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"8-soendergaard-niels-et-al-impactos-da-covid-19-no-agronegocio-e-o-papel-do-brasil-insper-centro-do-agronegocio-global-texto-para-discussao-v-2-2020\"><span style=\"color: #808080;\">[8] SOENDERGAARD, Niels et al. <strong>Impactos da covid-19 no agroneg\u00f3cio e o papel do Brasil<\/strong>.\u00a0Insper-Centro do Agroneg\u00f3cio Global. Texto para discuss\u00e3o, v. 2, 2020.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"9-gerhardt-cleyton-da-sociedade-do-agronegocio-a-cosmologia-agro-subjetivacao-e-conquista-de-novos-territorios-contemporanea-v-11-n-3-2021\"><span style=\"color: #808080;\">[9] GERHARDT, Cleyton. Da Sociedade do Agroneg\u00f3cio \u00e0 Cosmologia Agro: subjetiva\u00e7\u00e3o e conquista de novos territ\u00f3rios.\u00a0<strong>Contempor\u00e2nea<\/strong>, v. 11, n. 3, 2021.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"10-wagner-david-et-al-insect-decline-in-the-anthropocene-death-by-a-thousand-cuts-proceedings-of-the-national-academy-of-sciences-of-the-united-states-of-america-v-118-n-2-p-1-10-2021\"><span style=\"color: #808080;\">[10] WAGNER, David <em>et al<\/em>. 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Acessado em 07\/01\/2023.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"14-louzada-maria-laura-da-costa-et-al-consumo-de-alimentos-ultraprocessados-no-brasil-distribuicao-e-evolucao-temporal-2008-2018-revista-de-saude-publica-v-57-p-12-2023\"><span style=\"color: #808080;\">[14] LOUZADA, Maria Laura da Costa et al. Consumo de alimentos ultraprocessados no Brasil: distribui\u00e7\u00e3o e evolu\u00e7\u00e3o temporal 2008\u20132018.\u00a0<strong>Revista de Sa\u00fade P\u00fablica<\/strong>, v. 57, p. 12, 2023.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"15-bes-rastrollo-maira-et-al-financial-conflicts-of-interest-and-reporting-bias-regarding-the-association-between-sugar-sweetened-beverages-and-weight-gain-a-systematic-review-of-systematic\"><span style=\"color: #808080;\">[15] BES-RASTROLLO, Maira et al.\u00a0Financial Conflicts of Interest and Reporting Bias Regarding the Association between Sugar-Sweetened Beverages and Weight Gain: A Systematic Review of Systematic Reviews. <strong>PLOS Medicine<\/strong>, v. 10, n. 12, 2013.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"16-wilkinson-john-o-mundo-dos-alimentos-em-transformacao-curitiba-appris-2023\"><span style=\"color: #808080;\">[16] WILKINSON, John. <strong>O mundo dos alimentos em transforma\u00e7\u00e3o<\/strong>. Curitiba: Appris, 2023.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"17-niederle-paulo-politicas-alimentares-integradas-e-a-construcao-de-sistemas-alimentares-saudaveis-sustentaveis-e-justos-porto-alegre-sopas-ibirapitanga-2023\"><span style=\"color: #808080;\">[17] NIEDERLE, Paulo. <strong>Pol\u00edticas alimentares integradas e a constru\u00e7\u00e3o de sistemas alimentares saud\u00e1veis, sustent\u00e1veis e justos<\/strong>. Porto Alegre: Sopas, Ibirapitanga, 2023.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"18-schmidt-traub-guido-obersteiner-michael-mosnier-aline-fix-the-broken-food-system-in-three-steps-nature-v-569-n-7755-p-181-183-2019\"><span style=\"color: #808080;\">[18] SCHMIDT-TRAUB, Guido; OBERSTEINER, Michael; MOSNIER, Aline. Fix the broken food system in three steps.\u00a0<strong>Nature<\/strong>, v. 569, n. 7755, p. 181-183, 2019.<\/span><\/h6>\n<h6 id=\"19-abramovay-ricardo-desafios-para-o-sistema-alimentar-global-ciencia-e-cultura-v-73-p-53-57-2021\"><span style=\"color: #808080;\">[19] ABRAMOVAY, Ricardo. Desafios para o sistema alimentar global. <strong>Ci\u00eancia e Cultura<\/strong>, v. 73, p. 53-57, 2021.<\/span><\/h6>\n<hr \/>\n<h6 id=\"capa-ciencia-pode-contribuir-para-o-combate-a-fome-mas-governo-e-sociedade-precisam-trabalhar-juntosfoto-reproducao\"><strong>Capa. Ci\u00eancia pode contribuir para o combate a fome, mas governo e sociedade precisam trabalhar juntos<br \/>\n<\/strong>(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 id=\"niederle-paulo-ciencia-basica-combate-a-fome-e-a-nova-equacao-alimentar-apesar-de-ser-uma-potencia-agricola-global-o-brasil-convive-com-33-milhoes-de-pessoas-em-situacao-de-inseguranca-alime\"><span style=\"color: #808080;\">NIEDERLE, Paulo.<span class=\"article-title\">\u00a0Ci\u00eancia b\u00e1sica, combate \u00e0 fome e a nova equa\u00e7\u00e3o alimentar: apesar de ser uma pot\u00eancia agr\u00edcola global, o Brasil convive com 33 milh\u00f5es de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar.<\/span><i>\u00a0Cienc. Cult.<\/i>\u00a0[online]. 2023, vol.75, n.2 [citado\u00a0 2023-10-16], pp.01-07. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/cienciaecultura.bvs.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252023000200015&amp;lng=pt&amp;nrm=iso&gt;. ISSN 0009-6725.\u00a0 http:\/\/dx.doi.org\/10.5935\/2317-6660.20230031.<\/span><\/h6>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Apesar de ser uma pot\u00eancia agr\u00edcola global, o Brasil convive com 33&hellip;\n","protected":false},"author":109,"featured_media":4380,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[21],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4377"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/109"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4377"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4377\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4927,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4377\/revisions\/4927"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4380"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4377"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4377"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4377"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}