{"id":4680,"date":"2023-09-08T07:30:14","date_gmt":"2023-09-08T07:30:14","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=4680"},"modified":"2025-11-25T11:41:41","modified_gmt":"2025-11-25T11:41:41","slug":"precisamos-de-medidas-emergenciais-que-salvaguarda-todas-as-linguas-indigenas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=4680","title":{"rendered":"\u201cPrecisamos de medidas emergenciais para salvaguardar todas as l\u00ednguas ind\u00edgenas\u201d"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"confira-entrevista-com-altaci-rubim-professora-da-unb-e-representante-da-america-latina-e-do-caribe-na-decada-internacional-das-linguas-indigenas-da-unesco\"><span style=\"color: #808080;\">Confira entrevista com Altaci Rubim, professora da UnB e representante da Am\u00e9rica Latina e do Caribe na D\u00e9cada Internacional das L\u00ednguas Ind\u00edgenas da Unesco<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Existem mais de sete mil l\u00ednguas faladas no planeta. Dessas, mais de seis mil s\u00e3o ind\u00edgenas, segundo a Unesco. No Brasil, s\u00e3o mais de 274 l\u00ednguas ind\u00edgenas, conforme <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/indigenas.ibge.gov.br\/estudos-especiais-3\/o-brasil-indigena\/lingua-falada\">dados<\/a><\/strong><\/span> do \u00faltimo Censo Demogr\u00e1fico realizado pelo <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.ibge.gov.br\/\">Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE)<\/a><\/strong><\/span>. Por\u00e9m, muitas est\u00e3o em risco de ser esquecidas \u2013 tanto por sua desvalorizando quanto pela morte de seus falantes. Para valorizar essa rica cultura, a <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.unesco.org\/pt\">Unesco<\/a><\/strong><\/span> proclamou o per\u00edodo entre 2022 e 2032 como a D\u00e9cada Internacional das L\u00ednguas Ind\u00edgenas, alertando para a necessidade de preserv\u00e1-las para as gera\u00e7\u00f5es futuras. \u201cQuando voc\u00ea fala em fortalecimento lingu\u00edstico, voc\u00ea fala de saberes que nos conecta com a m\u00e3e terra, com nossa ancestralidade, que est\u00e1 ligado com o bem viver dos povos\u201d, afirma Altaci Rubim, professora do Departamento de Lingu\u00edstica, Portugu\u00eas e L\u00ednguas Cl\u00e1ssicas da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"unb.br\">Universidade de Bras\u00edlia (UnB)<\/a><\/strong><\/span>. Pertencente ao povo Kokama, da regi\u00e3o do munic\u00edpio de Santo Ant\u00f4nio do I\u00e7\u00e1, no Alto Solim\u00f5es (AM), ela desenvolveu durante v\u00e1rios anos atividades de revitaliza\u00e7\u00e3o da l\u00edngua de seu povo em comunidades de contexto urbano.\u00a0Seus trabalhos levaram a ser a representante da Am\u00e9rica Latina e do Caribe da Unesco no Grupo de Trabalho (GT) Mundial da D\u00e9cada das L\u00ednguas Ind\u00edgenas.\u00a0\u201cEssa valoriza\u00e7\u00e3o, essa promo\u00e7\u00e3o, essa presen\u00e7a das l\u00ednguas nas escolas, nos centros, nas m\u00fasicas, nos teatros, nos filmes, tudo isso faz com que cada povo se veja dentro desses espa\u00e7os dessa sociedade\u201d, defende a pesquisadora. Altaci Rubim tamb\u00e9m enfatiza a necessidade de pol\u00edticas p\u00fablicas para proteger as l\u00ednguas e os povos ind\u00edgenas, al\u00e9m de um di\u00e1logo constante com a sociedade. \u201cO poder p\u00fablico deve assumir a import\u00e2ncia da vida, da cultura e da l\u00edngua dos ind\u00edgenas\u201d. <\/em><\/p>\n<p>Leia a entrevista completa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ci\u00eancia &amp; Cultura &#8211; Muitas l\u00ednguas ind\u00edgenas est\u00e3o amea\u00e7adas, seja por sua desvaloriza\u00e7\u00e3o, seja pela morte de seus falantes. Como preserv\u00e1-las e valoriz\u00e1-las?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Altaci Rubim &#8211;<\/strong> Esse \u00e9 um processo longo porque n\u00f3s nascemos com essa concep\u00e7\u00e3o e ao longo da nossa forma\u00e7\u00e3o, principalmente escolar, vai sendo exigido de n\u00f3s colocar de lado todos nossos saberes que v\u00eam do ventre da m\u00e3e. Em nossa sa\u00edda para cidade, para o campo, para fora das aldeias, fora das nossas fam\u00edlias, esse processo colonizador da sociedade vai de certa forma matando ou deixando adormecido nossos saberes. Ent\u00e3o chega num ponto que voc\u00ea n\u00e3o consegue mais pensar sem citar um te\u00f3rico porque sen\u00e3o seu conhecimento n\u00e3o \u00e9 legitimado. N\u00f3s vamos sendo silenciados, n\u00e3o podemos falar de nossas experi\u00eancias de vida porque n\u00e3o nos \u00e9 colocado falar de experi\u00eancias de vida, j\u00e1 que isso n\u00e3o cabe na academia, porque a academia \u00e9 um local da ci\u00eancia \u2013 e da ci\u00eancia nessa vis\u00e3o ocidental, numa concep\u00e7\u00e3o totalmente diferente da concep\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. Ent\u00e3o nesse cen\u00e1rio n\u00f3s temos que fazer um caminho de volta. N\u00f3s sa\u00edmos de nossas origens e temos que voltar a elas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"esse-processo-colonizador-da-sociedade-vai-de-certa-forma-matando-ou-deixando-adormecido-nossos-saberes\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cEsse processo colonizador da sociedade vai de certa forma matando ou deixando adormecido nossos saberes.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Estamos na D\u00e9cada Internacional da L\u00edngua Ind\u00edgena, estabelecida pela Unesco. Como as sociedades e os governos podem contribuir para a promo\u00e7\u00e3o dessas l\u00ednguas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AR &#8211;<\/strong> Come\u00e7amos esse processo de discuss\u00e3o no <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.forest-trends.org\/wp-content\/uploads\/imported\/Gomes.pdf\">Grupo de Trabalho Amaz\u00f4nico (GTA)<\/a><\/strong><\/span> da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/unescoportugal.mne.gov.pt\/pt\/noticias\/decada-internacional-das-linguas-autoctones-2022-2032\">D\u00e9cada Internacional das L\u00ednguas Ind\u00edgenas<\/a><\/strong><\/span> (2022-2032) estabelecida pela Unesco. A partir dessas discuss\u00f5es como ind\u00edgenas come\u00e7amos a ver que precis\u00e1vamos apresentar para n\u00f3s mesmos a nossa epistemologia. Da\u00ed sai a concep\u00e7\u00e3o de \u201cl\u00edngua esp\u00edrito\u201d. O primeiro ponto s\u00e3o justamente pol\u00edticas p\u00fablicas para apoiar as iniciativas dos pr\u00f3prios povos, assim tamb\u00e9m como pol\u00edticas p\u00fablicas para troca de experi\u00eancias para que os povos que est\u00e3o com dificuldade possam interagir com povos que est\u00e3o com boas pr\u00e1ticas de ensino e aprendizagem de l\u00ednguas e, nesse sentido, dar condi\u00e7\u00f5es para desenvolver. N\u00f3s sabemos a import\u00e2ncia da pol\u00edtica p\u00fablica do governo para fortalecimento das l\u00ednguas ind\u00edgenas, mas at\u00e9 aquele momento, pela vis\u00e3o ocidental, n\u00e3o ter\u00edamos pol\u00edtica para isso porque a pr\u00f3pria academia tirava isso dos povos ao afirmar n\u00e3o era poss\u00edvel. O poder p\u00fablico deve assumir a import\u00e2ncia da vida, da cultura e da l\u00edngua dos ind\u00edgenas. Sem essas pol\u00edticas p\u00fablicas, n\u00f3s, povos ind\u00edgenas, vamos cada vez mais estar \u00e0 merc\u00ea de pol\u00edticas dominantes que fazem com que as l\u00ednguas sejam apagadas. A mudan\u00e7a de status da l\u00edngua \u00e9 de suma import\u00e2ncia. Essa valoriza\u00e7\u00e3o, essa promo\u00e7\u00e3o, essa presen\u00e7a das l\u00ednguas nas escolas, nos centros, nas m\u00fasicas, nos teatros, nos filmes, tudo isso faz com que cada povo se veja dentro desses espa\u00e7os dessa sociedade ao inv\u00e9s de ver como \u201cprivil\u00e9gio\u201d ter a l\u00edngua portuguesa ou outras l\u00ednguas dominantes como status. Porque eu posso falar 10 l\u00ednguas ind\u00edgenas, mas eu n\u00e3o sou considerada inteligente. Eu vou ser considerada inteligente se eu falar portugu\u00eas, ingl\u00eas, espanhol, franc\u00eas. A\u00ed eu vou ser considerada uma pessoa bil\u00edngue, letrada e tudo mais. Ent\u00e3o essa mudan\u00e7a de status dentro da sociedade \u00e9 importante tamb\u00e9m para que as l\u00ednguas passam ter for\u00e7a para continuarem vivas.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Quais s\u00e3o as maiores amea\u00e7as \u00e0 l\u00edngua \u2013 e ao povo \u2013 ind\u00edgena?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AR &#8211;<\/strong> Durante a pandemia de covid-19, n\u00f3s perdemos muitos anci\u00f5es do meu povo. Foram mais de 70 ind\u00edgenas. E n\u00f3s estamos num processo de fortalecimento a l\u00edngua. O povo Yawalapiti, do alto Xingu, tem apenas dois falantes. Eram tr\u00eas, mas um anci\u00e3o morreu de covid. Ent\u00e3o precisamos de medidas emergenciais para salvaguardar todas essas l\u00ednguas. Atrav\u00e9s do fortalecimento e da documenta\u00e7\u00e3o isso pode ser feito, pode se manter esse conhecimento para os demais membros da comunidade daquele povo que fala aquela l\u00edngua. As doen\u00e7as, o retorno dos anci\u00e3os para nossa ancestralidade, o tempo dos nossos ancestrais, isso faz com que as l\u00ednguas fiquem cada vez mais enfraquecidas porque, como n\u00e3o h\u00e1 uma pol\u00edtica de fortalecimento das l\u00ednguas ind\u00edgenas, quando um anci\u00e3o se vai, muitas vezes os mais jovens n\u00e3o querem continuar esse processo. H\u00e1 uma interrup\u00e7\u00e3o geracional. A grande amea\u00e7a est\u00e1 primeiro da demarca\u00e7\u00e3o de terras, porque sem a terra n\u00e3o h\u00e1 popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. Precisamos do territ\u00f3rio n\u00e3o somente para que os anci\u00e3os possam ter uma condi\u00e7\u00e3o de vida dentro da sua cultura, mas tamb\u00e9m para que eles n\u00e3o fiquem sofrendo amea\u00e7a de invas\u00e3o, da minera\u00e7\u00e3o, das queimadas, etc. Se j\u00e1 sofrem tantas agress\u00f5es em terras que demarcadas, imagine nas terras que n\u00e3o s\u00e3o demarcadas.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"a-grande-ameaca-esta-primeiro-da-demarcacao-de-terras-porque-sem-a-terra-nao-ha-populacao-indigena\" style=\"text-align: center;\"><em><span style=\"color: #800000;\">\u201cA grande amea\u00e7a est\u00e1 primeiro da demarca\u00e7\u00e3o de terras, porque sem a terra n\u00e3o h\u00e1 popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena.\u201d<\/span><\/em><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Durante muitas d\u00e9cadas as l\u00ednguas ind\u00edgenas eram exclusivamente estudadas e sistematizadas por n\u00e3o ind\u00edgenas. Voc\u00ea \u00e9 uma das pioneiras como linguista ind\u00edgena, dentro da academia ocidental. Como foi seu ingresso neste campo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AR &#8211;<\/strong> A minha \u201cvolta\u201d acontece depois de 2000, quando eu entro em contato com o fortalecimento da l\u00edngua do meu povo. E as concep\u00e7\u00f5es ocidentais s\u00e3o muito negativas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 retomada e revitaliza\u00e7\u00e3o das l\u00ednguas ind\u00edgenas no sentido de n\u00e3o acreditarem nesse processo. Porque ele n\u00e3o tem explica\u00e7\u00e3o na ci\u00eancia produzida por eles. Ent\u00e3o n\u00f3s seguimos primeiramente essas vozes fora do nosso contexto cultural, que s\u00e3o os professores que trabalham com l\u00ednguas, mas quando nos voltamos para n\u00f3s mesmos, o que antes era animador acaba se tornando um obst\u00e1culo. Ouvimos muitos \u201cisso n\u00e3o vai dar certo\u201d, \u201cvoc\u00ea n\u00e3o vai conseguir\u201d. E durante um tempo acreditamos mais nessa ci\u00eancia do que nos nossos anci\u00e3os, porque o processo colonizador deslegitima tudo o que n\u00e3o consegue enquadrar. Mas, passando por forma\u00e7\u00f5es e discuss\u00f5es entre meu povo, acabei fundando um espa\u00e7o, o <strong><em>Centro de Ci\u00eancias e Saberes Tradicionais Kokama Lua Verde<\/em><\/strong>, em Manaus (AM), para testar as metodologias. Eu queria entender porque n\u00f3s n\u00e3o consegu\u00edamos avan\u00e7ar. Ao discutir isso dentro desse centro e testar metodologias, eu vou come\u00e7ando a entender que todo o caminho que t\u00ednhamos trilhado at\u00e9 ali n\u00e3o era nosso. N\u00f3s est\u00e1vamos tentando imitar uma metodologia que n\u00e3o dava certo, tentando encaixar nossos conhecimentos, nossa forma de educar, dentro dessas metodologias. Com isso eu vou para o mestrado em lingu\u00edstica e l\u00ednguas ind\u00edgenas, onde \u00e9 o espa\u00e7o que a gente estuda as epistemologias, e a\u00ed eu come\u00e7o realmente a ver o que estava fazendo. E eu venho fortalecer essa vis\u00e3o, essa epistemologia ind\u00edgena. Porque quando voc\u00ea fala em fortalecimento lingu\u00edstico, voc\u00ea fala de saberes que nos conecta com a m\u00e3e terra, com nossa ancestralidade, que est\u00e1 ligado com o bem viver dos povos, seja na alimenta\u00e7\u00e3o, seja na cura f\u00edsica e espiritual, estamos todos conectados.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Como a sua presen\u00e7a como professora em uma universidade pode contribuir para que outros ind\u00edgenas trilhem o mesmo caminho?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AR &#8211;<\/strong> Eu tenho a felicidade de ouvir as pessoas falarem que a minha entrada nesse espa\u00e7o foi importante. N\u00e3o somente eu ganhei entrando na universidade, mas a pr\u00f3pria universidade ganhou ainda mais comigo e com meus alunos, tanto na diversidade quanto nos trabalhos que fazemos. At\u00e9 no meu pr\u00f3prio povo eu ou\u00e7o muitas mulheres jovens falando \u201ceu quero ser como a professora Altaci. Ela n\u00e3o abandonou o povo, ela continuou mesmo estando na universidade\u201d. Porque mesmo estando na <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"Universidade%20de%20Bras%25C3%25ADlia%20(UnB)\">Universidade de Bras\u00edlia (UnB)<\/a><\/strong><\/span> eu continuo conectando meus trabalhos com meu povo. Tamb\u00e9m achei interessante uma parente falar \u201cprofessora, voc\u00ea fez com que os Kokama voltassem a se apaixonar pela l\u00edngua\u201d. Porque nossa caminhada inspirou outros movimentos. Hoje existem v\u00e1rios movimentos em processo de fortalecimento lingu\u00edstico do povo Kokama e tamb\u00e9m de outros povos que nos viram fazer esse esfor\u00e7o e muitas vezes pedem para n\u00f3s compartilharmos nossos saberes com eles. Ent\u00e3o eu sempre falo para minha fam\u00edlia que se eu morrer eu morro muito agradecida, porque acredito que a caminhada que fizemos n\u00e3o tem mais volta. Essa pequena caminhada mudou o destino da nossa vida, o destino da nossa l\u00edngua.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"agora-e-tempo-de-reconstrucao-de-reflexao-e-de-constituicao-de-politicas-que-vao-ficar-para-a-futura-geracao\" style=\"text-align: center;\"><em><span style=\"color: #800000;\">\u201cAgora \u00e9 tempo de reconstru\u00e7\u00e3o, de reflex\u00e3o e de constitui\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas que v\u00e3o ficar para a futura gera\u00e7\u00e3o.\u201d<\/span><\/em><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Por que \u00e9 importante a presen\u00e7a dessa diversidade (que inclui povos origin\u00e1rios, negros, popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+) na universidade? E como as pol\u00edticas de a\u00e7\u00f5es afirmativas s\u00e3o importantes para isso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AR &#8211;<\/strong> Hoje temos uma pol\u00edtica de acesso. Mas tamb\u00e9m ainda temos muita luta. Esse processo est\u00e1 possibilitando problematizar a quest\u00e3o de g\u00eanero e levar as mulheres para ci\u00eancia. Est\u00e1 dando acesso ao conhecimento a jovens negros e ind\u00edgenas. Antigamente nem sonh\u00e1vamos com isso, n\u00e3o t\u00ednhamos condi\u00e7\u00f5es de sair da aldeia e acessar as informa\u00e7\u00f5es. E quem tinha acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o sabia como aproveitar. Ent\u00e3o hoje, quando eu falo de fortalecimento lingu\u00edstico n\u00e3o significa que vamos sobreviver s\u00f3 dentro da epistemologia ind\u00edgena, mas nesse di\u00e1logo cultural com essa sociedade. N\u00f3s precisamos entender essa sociedade para que possamos pensar juntos pol\u00edticas p\u00fablicas, logicamente sem abandonar nossos saberes, sem nos sentimos inferiorizados. Ent\u00e3o essas possibilidades de problematizar, de estar nesses espa\u00e7os, de discutir tomada de decis\u00e3o, \u00e9 uma mudan\u00e7a, \u00e9 uma virada de chave nesse s\u00e9culo. \u00c9 uma conquista coletiva de todos os movimentos, de cada um que se articulou da melhor forma. Ocupar os espa\u00e7os nesse ambiente da universidade e em todas as outras institui\u00e7\u00f5es, seja por meio de concurso p\u00fablico, seja na possibilidade de tomar uma decis\u00e3o que sirva coletivamente para os direitos humanos, os direitos dos povos, est\u00e3o l\u00e1 representados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Como essa diversidade pode influenciar o fazer cient\u00edfico?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AR &#8211; <\/strong>\u00c9 muito importante ocupar esse espa\u00e7o na universidade, porque \u00e9 a cosmovis\u00e3o dos povos colocada no processo de ensino-aprendizagem. Isso muda a vis\u00e3o que os estudantes t\u00eam ao chegar \u00e0 universidade sobre os povos ind\u00edgenas, sobre a forma de ensinar. Essa conex\u00e3o que estabelecemos com esses alunos transforma. Com o tempo, eles v\u00e3o tendo sensibilidade com a quest\u00e3o ind\u00edgena, com o ensino, e entendendo um pouco mais da percep\u00e7\u00e3o do que \u00e9 ensinar de forma significativa. Porque para n\u00f3s, povos ind\u00edgenas, o que n\u00f3s fazemos \u00e9 significativo. A aprendizagem acontece por meio da oralidade, mas essa oralidade n\u00e3o fica abstrata como no conhecimento ocidental: ela se materializa. Ent\u00e3o \u00e9 um divisor de \u00e1guas dentro da universidade. N\u00f3s estamos avan\u00e7ando. Falta avan\u00e7ar muito, mas o que estamos conquistando hoje, n\u00f3s nem sonh\u00e1vamos que aconteceria. Porque n\u00f3s sa\u00edmos de um governo genocida que deixou de lado as pol\u00edticas sociais, as pol\u00edticas p\u00fablicas para povos como n\u00f3s. Ent\u00e3o acho que agora \u00e9 tempo de reconstru\u00e7\u00e3o, de reflex\u00e3o e de constitui\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas que v\u00e3o ficar para a futura gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Confira entrevista com Altaci Rubim, professora da UnB e representante da Am\u00e9rica&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":4681,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2,864],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4680"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4680"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4680\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5367,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4680\/revisions\/5367"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4681"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4680"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4680"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4680"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}