{"id":4784,"date":"2023-10-02T08:00:21","date_gmt":"2023-10-02T08:00:21","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=4784"},"modified":"2024-02-15T11:09:21","modified_gmt":"2024-02-15T11:09:21","slug":"arte-na-america-latina-do-monumento-ao-testemunho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=4784","title":{"rendered":"Arte na Am\u00e9rica Latina: do monumento ao testemunho"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"a-arte-permite-que-historias-locais-extrapolem-as-fronteiras-e-ajudem-a-desconstruir-historias-nacionalistas\"><span style=\"color: #808080;\">A arte permite que hist\u00f3rias locais extrapolem as fronteiras e ajudem a desconstruir hist\u00f3rias nacionalistas.<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em \u201cEx\u00edlios, escombros, resist\u00eancias\u201d, o fot\u00f3grafo argentino Marcelo Brodsky fala sobre mem\u00f3ria, ex\u00edlios, viol\u00eancia e direitos humanos. No <a href=\"https:\/\/museujudaicosp.org.br\/exposicoes\/marcelo-brodsky-exilios-escombros-resistencias\/\"><strong><span style=\"color: #800000;\">Museu Judaico<\/span><\/strong><\/a>, em S\u00e3o Paulo, a exposi\u00e7\u00e3o, que fica em cartaz at\u00e9 novembro, traz uma retrospectiva da obra do artista que, para al\u00e9m do registro fotogr\u00e1fico, costuma fazer interven\u00e7\u00f5es nas fotos, ora escrevendo, ora desenhando. Um dos eixos da mostra tem como foco as diversas ditaduras na Am\u00e9rica Latina nos anos 1960. Em uma das interven\u00e7\u00f5es, ele pinta as m\u00e3os dadas de Leila Diniz, Odete Lara, Normal Bengell e outras atrizes em uma foto de arquivo sobre as mobiliza\u00e7\u00f5es de estudantes contra a ditatura em 1968, no Brasil.<\/p>\n<p>Mais do que a contempla\u00e7\u00e3o, o conjunto da exposi\u00e7\u00e3o prop\u00f5e uma reflex\u00e3o sobre mem\u00f3ria, viol\u00eancia e resist\u00eancia. A arte aqui se coloca como um caminho para quebrar o paradigma de uma narrativa \u00fanica e monumental para a Am\u00e9rica Latina. Um caminho para abandonar uma narrativa linear, homog\u00eanea, calcada em um punhado de her\u00f3is, sempre brancos, sempre homens e construir novas identidades a partir de mem\u00f3rias coletivas, como ensinou o soci\u00f3logo franc\u00eas Maurice Halbwachs. O dispositivo est\u00e9tico tem um papel fundamental na divis\u00e3o da sociedade entre elites dominadoras e subalternizados, explica o curador da mostra, M\u00e1rcio Seligmann-Silva, pois produz imagens que justamente sustentam os quadros de mem\u00f3ria conservadores. N\u00e3o existe, portanto, um salto para fora da colonialidade e sua terr\u00edvel continuidade sem uma revolu\u00e7\u00e3o no campo cultural das imagens. \u201cA arte \u00e9 coisa ser\u00edssima. N\u00e3o por acaso todos os regimes autorit\u00e1rios a censuram. Basta lembrar da balburdia negacionista racista que marcou a Funda\u00e7\u00e3o Cultural palmares entre 2019-2022, numa verdadeira tentativa de apagar a cultura afrodescendente no Brasil\u201d, aponta o professor titular de Teoria Liter\u00e1ria na Unicamp.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"apagamentos\">Apagamentos<\/h4>\n<p><em>\u201cDepois chegaram os chamados brancos, com a cruz e o arcabuz.(&#8230;). J\u00e1 chegam sabendo mais do que nos, sobre o que querem de n\u00f3s\u201d, <\/em>escreveu o poeta Tiago de Mello (1953)<em>. <\/em>A gesta\u00e7\u00e3o da Modernidade dependeu de col\u00f4nias e de povos colonizados. No caso das Am\u00e9rica, que tem na diversidade um conceito-chave, as centenas de povos que aqui viviam \u2013 incas, <em>calchaqu\u00edes<\/em>, <em>tzotziles<\/em>, <em>olmecas<\/em>, maias, guaranis, tupis, etc. foram chamados de \u00edndios, uma palavra que n\u00e3o existia na regi\u00e3o. \u201cSe, nos documentos hist\u00f3ricos europeus eles foram chamados de \u00edndios ou negros da terra, em suas pr\u00f3prias l\u00ednguas n\u00e3o existe nenhuma palavra para se referir a todos os povos que viviam nas Am\u00e9ricas\u201d, escreveu o arque\u00f3logo e historiador da Unicamp, Pedro Paulo Funari, no artigo \u201c<em>Am\u00e9rica Latina Antiga, patrim\u00f4nio arqueol\u00f3gico ind\u00edgena e sua import\u00e2ncia para a convivialidade\u201d, <\/em>publicado no livro \u201c<em>Arte e Arqueologia da Am\u00e9rica Ind\u00edgena<\/em>\u201d (Editora da Unicamp, 2022).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-arte-e-coisa-serissima-nao-por-acaso-todos-os-regimes-autoritarios-a-censuram\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cA arte \u00e9 coisa ser\u00edssima. N\u00e3o por acaso todos os regimes autorit\u00e1rios a censuram.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O processo de coloniza\u00e7\u00e3o se d\u00e1 pela imposi\u00e7\u00e3o de um tipo de pensamento europeu \u00e0s demais culturas do mundo. \u201cNesse processo, milhares de l\u00ednguas, c\u00f3digos de conduta, modelos de est\u00e9tica, narrativas, hist\u00f3rias e h\u00e1bitos multicenten\u00e1rios foram sendo apagados. Para al\u00e9m de uma mera terminologia ou de uma refer\u00eancia geogr\u00e1fica, a pr\u00f3pria g\u00eanese do termo Am\u00e9rica Latina, que se d\u00e1 em meados do s\u00e9culo 19, deve ser alvo de reflex\u00e3o. Em seu livro \u201c<em>La idea de Am\u00e9rica Latina<\/em>\u201d, Walter Mignolo, semi\u00f3logo argentino e professor de literatura na Universidade de Duke, nos Estados Unidos, e um dos principais te\u00f3ricos decoloniais, explica que:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 160px;\"><em>\u201cem meados do s\u00e9culo XIX, a ideia da Am\u00e9rica como um todo come\u00e7ou a se dividir, n\u00e3o de acordo com os estados-na\u00e7\u00e3o que surgiam, mas segundo as diferentes hist\u00f3rias imperiais do Hemisf\u00e9rio Ocidental, o que resultou na configura\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica sax\u00e3, ao norte, e da Am\u00e9rica Latina, ao sul. Naquele momento, \u2018Am\u00e9rica Latina\u2019 foi o termo escolhido para nomear a restaura\u00e7\u00e3o da \u2018civiliza\u00e7\u00e3o\u2019 da Europa meridional, cat\u00f3lica e latina, na Am\u00e9rica do Sul e, simultaneamente, reproduzir as aus\u00eancias (dos ind\u00edgenas e dos africanos) do primeiro per\u00edodo colonial. [&#8230;] A \u2018ideia\u2019 de Am\u00e9rica Latina \u00e9 a triste celebra\u00e7\u00e3o, por parte das elites crioulas, de sua inclus\u00e3o nos tempos modernos, quando, na realidade, elas submergiam cada vez mais na l\u00f3gica da colonialidade\u201d. (Mignolo, 2007)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s despertamos para este fato \u2018tarde demais\u2019, infelizmente. Mas ainda temos muito a fazer para impedir que esse processo elimine os \u00faltimos basti\u00f5es da megadiversidade, como \u00e9 o caso das popula\u00e7\u00f5es amer\u00edndias, com suas l\u00ednguas, seus saberes e t\u00e9cnicas que podem nos ajudar a sobreviver \u00e0s mazelas do modelo monol\u00edngue ocidental\u201d, defende Seligmann-Silva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"identidades-plurais\">Identidades, plurais<\/h4>\n<p>Ainda na d\u00e9cada de 1960, diversos artistas latino-americanos assumiram para si a tarefa de problematizar a ideia de Am\u00e9rica Latina e, ao mesmo tempo, refletir sobre o efetivo lugar ocupado por essa regi\u00e3o no mundo. Uma das representa\u00e7\u00f5es mais conhecidas \u00e9 o desenho \u201c<em>El Norte es el Sur\u201d<\/em>, do artista uruguaio Torres Garc\u00eda, de 1935, no qual ele opera uma invers\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o do mapa do continente sul-americano. Conforme explica a professora Maria de F\u00e1tima Morethy Couto, do Instituto de Artes da Unicamp, o desenho deve ser entendido como um gesto simb\u00f3lico, que acabou por se converter em poderoso instrumento de afirma\u00e7\u00e3o de identidade cultural. \u201cCom ele, Torres Garc\u00eda n\u00e3o apenas transgrediu a cartografia cl\u00e1ssica, revelando que o planeta \u00e9 estruturado por complexas rela\u00e7\u00f5es de poder, como tamb\u00e9m exp\u00f4s a necessidade de trilharmos caminhos pr\u00f3prios, aut\u00f4nomos\u201d, escreveu em seu artigo \u201c<span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/periodicos.ufmg.br\/index.php\/revistapos\/article\/view\/15709\">Para al\u00e9m das representa\u00e7\u00f5es convencionais: A ideia de arte latino-americana em debate<\/a><\/strong><\/span>\u201d. Para ela, \u00e9 poss\u00edvel ter uma arte que conteste essas narrativas pautadas por outros interesses e outros assuntos e que, muitas vezes, querem empregar conceitos que n\u00e3o nos servem de modo mais amplo. Um exemplo \u00e9 a ideia de uma arte universal, de uma est\u00e9tica regulada por quest\u00f5es ocidentais, que desconsidere por exemplo, no nosso caso, a produ\u00e7\u00e3o de artistas afro diasp\u00f3ricos, ou artistas ind\u00edgenas, ou que possam dar visibilidade a temas que dizem respeito \u00e0 nossa regi\u00e3o ou a fatos que nos marcaram, como por exemplo, a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana e as ditaduras \u2013 tema que comp\u00f5e a mostra de Marcelo Brodsky no Museu Judaico. (Figura 1)<\/p>\n<h6 id=\"figura-1-na-obra-el-norte-es-el-sur-o-artista-uruguaio-joaquin-torres-garcia-1935-transgrediu-a-cartografia-classica-revelando-que-o-planeta-e-estruturado-por-complexas-relacoes-de-poder-imagem\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-4787\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-Arte-na-Ame\u0301rica-Latina-figura1-283x300.jpg\" alt=\"\" width=\"472\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-Arte-na-Ame\u0301rica-Latina-figura1-283x300.jpg 283w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-Arte-na-Ame\u0301rica-Latina-figura1-967x1024.jpg 967w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-Arte-na-Ame\u0301rica-Latina-figura1-768x813.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-Arte-na-Ame\u0301rica-Latina-figura1-11x12.jpg 11w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-Arte-na-Ame\u0301rica-Latina-figura1-800x847.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-Arte-na-Ame\u0301rica-Latina-figura1-1160x1228.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-Arte-na-Ame\u0301rica-Latina-figura1.jpg 1395w\" sizes=\"(max-width: 472px) 100vw, 472px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 1. Na obra <em>El Norte es el Sur<\/em>, o artista uruguaio Joaquin Torres Garc\u00eda (1935) transgrediu a cartografia cl\u00e1ssica, revelando que o planeta \u00e9 estruturado por complexas rela\u00e7\u00f5es de poder.<br \/>\n<\/strong>(Imagem: Joaquin Torres Garc\u00eda. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Abandonar o paradigma de uma identidade latino-americana abre in\u00fameras possiblidades de cria\u00e7\u00e3o e de contribui\u00e7\u00f5es a partir dos pa\u00edses que formam esta entidade geogr\u00e1fica. \u201cNo campo das artes, h\u00e1 muitas iniciativas para aproximar esses pa\u00edses, muitas curadorias que tratam, por exemplo e sobretudo em arte contempor\u00e2nea, de um tipo de arte conceitual voltada a refletir sobre quest\u00f5es pol\u00edticas\u201d, explica F\u00e1tima Couto. Ela lembra de importante acervo mantido pelo Museu de Arte Contempor\u00e2nea da Universidade de S\u00e3o Paulo (<span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"http:\/\/www.mac.usp.br\/mac\/conteudo\/exp\/2021\/59.asp\">MAC-USP<\/a><\/strong><\/span>). Existe ainda uma iniciativa do <strong><span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/icaa.mfah.org\/s\/en\/page\/home\">Centro internacional para as artes das Am\u00e9ricas (ICAA)<\/a><\/span>,<\/strong> do <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.mfah.org\/\">Museu de Belas Artes de Houston<\/a><\/strong><\/span> (EUA), que criou e disponibilizou uma plataforma de documenta\u00e7\u00e3o de arte latina e latino-americana do s\u00e9culo 20. Lan\u00e7ado pela primeira vez em 2002, o projeto \u00e9 uma iniciativa dedicada \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o e publica\u00e7\u00e3o de materiais de fonte prim\u00e1ria e textos cr\u00edticos. De acesso aberto, a plataforma tem mais de oito mil documentos de arte dos s\u00e9culos 20 e 21 na Am\u00e9rica Latina, no Caribe e entre as comunidades latinas dos Estados Unidos. \u201cA arte \u00e9 respons\u00e1vel por criar espa\u00e7os de converg\u00eancia e esse espa\u00e7o n\u00e3o precisa ser consensual, ao contr\u00e1rio, pode expressar opini\u00f5es opostas, estimulando debates e gerando provoca\u00e7\u00f5es\u201d, complementou. Para a pesquisadora da Unicamp, as artes s\u00e3o essenciais para refletir sobre localidades determinadas, com hist\u00f3rias espec\u00edficas, para pensar em nossa pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o humana. (Figura 2)<\/p>\n<h6 id=\"figura-2-acervo-do-mac-usp-reune-repertorios-artisticos-latino-americanos-estimulando-um-deslocamento-do-olhar-do-sol-para-o-sul-imagem-obra-sereias-de-armando-morales-mac-usp\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-4788\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-Arte-na-Ame\u0301rica-Latina-figura2-300x208.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"347\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-Arte-na-Ame\u0301rica-Latina-figura2-300x208.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-Arte-na-Ame\u0301rica-Latina-figura2-1024x711.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-Arte-na-Ame\u0301rica-Latina-figura2-768x533.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-Arte-na-Ame\u0301rica-Latina-figura2-1536x1066.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-Arte-na-Ame\u0301rica-Latina-figura2-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-Arte-na-Ame\u0301rica-Latina-figura2-800x555.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-Arte-na-Ame\u0301rica-Latina-figura2-1160x805.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-Arte-na-Ame\u0301rica-Latina-figura2.jpg 1566w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 2. Acervo do MAC-USP re\u00fane repert\u00f3rios art\u00edsticos latino-americanos, estimulando um deslocamento do olhar do sol para o sul.<br \/>\n<\/strong>(Imagem: Obra \u201cSereias\u201d de Armando Morales. MAC\/ USP. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"arte-e-testemunho\">Arte e testemunho<\/h4>\n<p>A arte e a cultura podem ser instrumento de combate ao autoritarismo e de defesa dos direitos humanos. Como isso se d\u00e1? Para M\u00e1rcio Seligmann-Silva, a palavra-chave aqui seria criar uma cultura do testemunho. \u201cRefiro-me a uma cultura que se abrisse para as diversas narrativas, para diversas l\u00ednguas e hist\u00f3rias, para al\u00e9m dos textos can\u00f4nicos que t\u00eam servido de muro e barragem a essas outras narrativas. Construir uma hist\u00f3ria cr\u00edtica implica nessa abertura a outras vozes e nos levaria a escovar nossa hist\u00f3ria a contrapelo\u201d, afirma. Segundo ele, \u00e9 importante permitir que hist\u00f3rias locais e pesquisas que extrapolem as fronteiras nacionais ajudem a desconstruir hist\u00f3rias nacionalistas e voltadas para o enaltecimento de um suposto \u201cpovo\u201d homog\u00eaneo com uma suposta hist\u00f3ria \u00fanica de suposto triunfo e progresso. \u201cNa verdade, do ponto de vista das popula\u00e7\u00f5es espezinhadas por esse longo processo da Modernidade, o progresso \u00e9 a cat\u00e1strofe e a cat\u00e1strofe \u00e9 o progresso\u201d, complementou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-arte-e-responsavel-por-criar-espacos-de-convergencia-e-esse-espaco-nao-precisa-ser-consensual-ao-contrario-pode-expressar-opinioes-opostas-estimulando-debates-e-gerando-provocacoes\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cA arte \u00e9 respons\u00e1vel por criar espa\u00e7os de converg\u00eancia e esse espa\u00e7o n\u00e3o precisa ser consensual, ao contr\u00e1rio, pode expressar opini\u00f5es opostas, estimulando debates e gerando provoca\u00e7\u00f5es.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para Andrea Califano, professor do programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais (PPGRI) da Universidade Federal da Bahia (Ufba), n\u00f3s precisamos de uma defesa que esteja baseada nas especificidades hist\u00f3ricas e culturais da regi\u00e3o \u2013 o que inclui as linguagens e as express\u00f5es art\u00edsticas. \u201c\u00c9 uma defesa dos direitos humanos que passa pelo reconhecimento dos sujeitos hist\u00f3ricos que foram brutalmente subjugados no processo de constitui\u00e7\u00e3o dos estados nacionais dependentes dos centros do sistema capitalista mundial. E isso \u00e9 um processo hist\u00f3rico t\u00edpico de todos os pa\u00edses da regi\u00e3o\u201d, pontua.<\/p>\n<p>A cultura do testemunho abre caminhos para o que Seligmann chama de arte testemunhal, na qual n\u00e3o h\u00e1 uma separa\u00e7\u00e3o entre o artista, a constru\u00e7\u00e3o de sua subjetividade e a de suas obras. Em artigo publicado no <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"http:\/\/www.suplementopernambuco.com.br\/capa\/3132-viradas-necess%C3%A1rias-ao-corpo-do-pensamento.html\"><strong>Suplemento de Pernambuco<\/strong><\/a><\/span>, o autor explica que o corpo do artista \u00e9 mobilizado no fazer art\u00edstico. Nesse novo contexto das artes e da literatura tornou-se necess\u00e1ria a rela\u00e7\u00e3o entre a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica e a identidade \u00e9tnica racial, sobretudo quando se tratava de um artista com origem afro. A obra de Carolina Maria de Jesus n\u00e3o poderia ser compreendida sem se pensar em seu elemento testemunhal. Tamb\u00e9m a obra de Concei\u00e7\u00e3o Evaristo e sua escreviv\u00eancia expressa essa virada. O testemunho nessas escritoras faz com que s\u00e9culos de literatura pensada como produtos de g\u00eanios (na maioria homens brancos) que manteriam uma rela\u00e7\u00e3o de dist\u00e2ncia com seu estrato hist\u00f3rico seja abalado e revisto. As no\u00e7\u00f5es de literatura e de artes s\u00e3o redelineadas a partir dessa virada testemunhal. Essas autoras fazem com que finalmente compreendamos que tamb\u00e9m aqueles autores do c\u00e2none tradicional testemunhavam: eles eram testemunhas de culturas machistas e coloniais. (Figura 3)<\/p>\n<h6 id=\"figura-3-carolina-de-jesus-relata-sua-vivencia-como-mae-moradora-da-favela-e-catadora-de-papel-invertendo-uma-nocao-tradicional-de-literatura-produzida-por-homens-em-sua-maioria-brancos-foto-a\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-4789\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-Arte-na-Ame\u0301rica-Latina-figura3-217x300.jpg\" alt=\"\" width=\"361\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-Arte-na-Ame\u0301rica-Latina-figura3-217x300.jpg 217w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-Arte-na-Ame\u0301rica-Latina-figura3-739x1024.jpg 739w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-Arte-na-Ame\u0301rica-Latina-figura3-768x1064.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-Arte-na-Ame\u0301rica-Latina-figura3-9x12.jpg 9w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-Arte-na-Ame\u0301rica-Latina-figura3-800x1108.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-Arte-na-Ame\u0301rica-Latina-figura3.jpg 1066w\" sizes=\"(max-width: 361px) 100vw, 361px\" \/><strong style=\"font-family: -apple-system, BlinkMacSystemFont, 'Segoe UI', Roboto, 'Helvetica Neue', Arial, 'Noto Sans', sans-serif, 'Apple Color Emoji', 'Segoe UI Emoji', 'Segoe UI Symbol', 'Noto Color Emoji';\">Figura 3. Carolina de Jesus relata sua viv\u00eancia como m\u00e3e, moradora da favela e catadora de papel, invertendo uma no\u00e7\u00e3o tradicional de Literatura, produzida por homens, em sua maioria brancos.<br \/>\n<\/strong>(Foto: Arquivo Nacional. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Segundo M\u00e1rcio Seligmann-Silva, o testemunho constitui uma for\u00e7a propulsora de contra imagens e agencia um encontro \u201cface a face\u201d com aquele que porta hist\u00f3rias e experi\u00eancias que, ao serem compartilhadas, promovem uma identifica\u00e7\u00e3o positiva. \u201cNo Brasil seria muito importante se nossos alunos estudassem a hist\u00f3ria dos povos amer\u00edndios e dos povos vindos da \u00c1frica e de seus desdobramentos no Brasil, primeiro como escravizados, depois como uma popula\u00e7\u00e3o que luta pela sobreviv\u00eancia em meio a uma cultura estruturalmente racista. Para al\u00e9m desse estudo hist\u00f3rico, seria genial se em nossas escolas os alunos pudessem optar por estudar l\u00ednguas amer\u00edndias. Assim como nas escolas ind\u00edgenas o ensino \u00e9 bil\u00edngue, ou multil\u00edngue, o mesmo poderia acontecer no Brasil com a introdu\u00e7\u00e3o de l\u00ednguas ind\u00edgenas em nosso curr\u00edculo. Isso promoveria uma mudan\u00e7a na nossa rela\u00e7\u00e3o com nossas hist\u00f3rias de opress\u00e3o e viol\u00eancia contra os ind\u00edgenas e a abertura para uma constru\u00e7\u00e3o de outras identidades transversais e dial\u00f3gicas\u201d. Ele lembra que s\u00e3o justamente os saberes amer\u00edndios, por exemplo, impedem, hoje, que a Amaz\u00f4nia se transforme em deserto. O mesmo vale para saberes quilombolas e se repete em outros pa\u00edses das Am\u00e9ricas, na \u00c1frica ou na \u00c1sia, onde vozes at\u00e9 a pouco amorda\u00e7adas se manifestam e ganham espa\u00e7o nas sociedades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"e-uma-defesa-dos-direitos-humanos-que-passa-pelo-reconhecimento-dos-sujeitos-historicos-que-foram-brutalmente-subjugados-no-processo-de-constituicao-dos-estados-nacionais-dependentes-dos-cent\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201c\u00c9 uma defesa dos direitos humanos que passa pelo reconhecimento dos sujeitos hist\u00f3ricos que foram brutalmente subjugados no processo de constitui\u00e7\u00e3o dos estados nacionais dependentes dos centros do sistema capitalista mundial.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-mostra-do-fotografo-marcelo-brodsky-convida-a-nao-esquecer-imagem-marcelo-brodsky-museu-judaico-reproducao\"><strong>Capa. Mostra do fot\u00f3grafo Marcelo Brodsky convida a n\u00e3o esquecer.<br \/>\n<\/strong>(Imagem: Marcelo Brodsky. Museu Judaico. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 id=\"mariuzzo-patricia-arte-na-america-latina-do-monumento-ao-testemunho-a-arte-permite-que-historias-locais-extrapolem-as-fronteiras-e-ajudem-a-desconstruir-historias-nacionalistas-cienc-c\"><span style=\"color: #808080;\">MARIUZZO, Patr\u00edcia.<span class=\"article-title\">\u00a0Arte na Am\u00e9rica Latina: do monumento ao testemunho. A arte permite que hist\u00f3rias locais extrapolem as fronteiras e ajudem a desconstruir hist\u00f3rias nacionalistas.<\/span><i>\u00a0Cienc. Cult.<\/i>\u00a0[online]. 2023, vol.75, n.3 [citado\u00a0 2024-02-15], pp.1-5. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/cienciaecultura.bvs.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252023000300012&amp;lng=pt&amp;nrm=iso&gt;. ISSN 0009-6725.\u00a0 http:\/\/dx.doi.org\/10.5935\/2317-6660.20230044.<\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A arte permite que hist\u00f3rias locais extrapolem as fronteiras e ajudem a&hellip;\n","protected":false},"author":18,"featured_media":4791,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4784"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/18"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4784"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4784\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5508,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4784\/revisions\/5508"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4791"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4784"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4784"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4784"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}