{"id":4819,"date":"2023-10-02T07:59:33","date_gmt":"2023-10-02T07:59:33","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=4819"},"modified":"2024-02-15T11:08:31","modified_gmt":"2024-02-15T11:08:31","slug":"50-anos-do-golpe-no-chile","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=4819","title":{"rendered":"50 anos do golpe no Chile"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"cinquentenario-do-golpe-de-1973-e-uma-oportunidade-para-refletir-sobre-os-desafios-enfrentados-na-busca-por-justica-igualdade-e-democracia-na-america-latina\"><span style=\"color: #808080;\">Cinquenten\u00e1rio do golpe de 1973 \u00e9 uma oportunidade para refletir sobre os desafios enfrentados na busca por justi\u00e7a, igualdade e democracia na Am\u00e9rica Latina<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cEnterramos a nossa democracia e enterramos nossa liberdade\u201d. \u00c9 assim que a escritora chilena Isabel Allende relembra o golpe militar de 11 de setembro de 1973 em <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.amnesty.org\/en\/latest\/news\/2013\/09\/life-under-pinochet-isabel-allende-day-we-buried-our-freedom\/\"><strong>entrevista para a Anistia Internacional<\/strong><\/a>.<\/span> O anivers\u00e1rio de 50 anos do golpe reacende o debate sobre uma das ditaduras mais sangrentas da Am\u00e9rica Latina, que deixou mais de tr\u00eas mil mortos e desaparecidos e 40 mil presos e torturados, al\u00e9m de for\u00e7ar cerca de 200 mil chilenos ao ex\u00edlio \u2013 incluindo Isabel Allende. E tamb\u00e9m convida a refletir sobre o impacto que teve sobre toda a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Em um <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/open.spotify.com\/episode\/6koAvZdD0kybkV1k425h08\"><strong>\u00e1udio<\/strong><\/a><\/span> revelado este ano pela CNN Chile, o chanceler chileno Orlando Letelier relatou um almo\u00e7o com o ent\u00e3o presidente Salvador Allende no qual discutiram a aposentadoria de generais militares que amea\u00e7avam se insurgir contra o governo e o an\u00fancio de um plebiscito para uma nova Constitui\u00e7\u00e3o. Os comandantes militares n\u00e3o estavam satisfeitos com o primeiro socialista al\u00e7ado ao poder pelo voto popular nas Am\u00e9ricas e com os rumos do novo governo. Antes que Allende pudesse convocar o plebiscito popular, o Pal\u00e1cio de La Moneda, sede da Presid\u00eancia do Chile, foi cercado e bombardeado por for\u00e7as militares. Os militares tomaram o poder, Salvador Allende morreu, e Augusto Pinochet iniciou a ditadura que duraria at\u00e9 1990.<\/p>\n<p>&#8220;A ditadura chilena foi uma das piores da Am\u00e9rica Latina, pela crueldade, n\u00edveis<br \/>\nde viol\u00eancia e tamb\u00e9m, ou sobretudo, pela aniquila\u00e7\u00e3o da soberania do pa\u00eds e pela<br \/>\nimposi\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica que em seguida seria vendida para o mundo ocidental: o<br \/>\nneoliberalismo&#8221;, afirma Vin\u00edcio Carrilho Martinez, professor do Departamento de Educa\u00e7\u00e3o da <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.ufscar.br\/\"><strong>Universidade Federal de S\u00e3o Carlos (UFScar)<\/strong><\/a><\/span>.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o golpe, Pinochet promulgou uma nova Constitui\u00e7\u00e3o em 1980, que estabeleceu as bases do regime autorit\u00e1rio e limitou a responsabilidade do Estado na promo\u00e7\u00e3o de direitos sociais e igualdade. Essa Constitui\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m criou mecanismos de autodefesa que dificultaram mudan\u00e7as pol\u00edticas substanciais. No entanto, em 1988, Pinochet perdeu um plebiscito que decidiria se ele poderia continuar como presidente e em 1990 Patr\u00edcio Elwin, representando a\u00a0<em>Concertaci\u00f3n,<\/em> tomou posse como primeiro presidente eleito ap\u00f3s a ditadura. \u201cMas isso n\u00e3o significou a abertura de uma fase de democracia plena\u201d, explica Alberto Aggio, professor da Faculdade de Ci\u00eancias Humanas e Sociais (FCHS) da <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"Universidade%2520Estadual%2520Paulista%2520J%2525C3%2525BAlio%2520de%2520Mesquita%2520Filho%2520(UNESP)\"><strong>Universidade Estadual Paulista J\u00falio de Mesquita Filho (UNESP)<\/strong><\/a><\/span>. Segundo o pesquisador, depois da derrota no plebiscito de 1988 era preciso fazer reformas na Constitui\u00e7\u00e3o para que os partidos pudessem voltar a existir e disputar as elei\u00e7\u00f5es. Nessa r\u00e1pida transi\u00e7\u00e3o, Pinochet negociou duramente com a\u00a0<em>Concertaci\u00f3n<\/em>\u00a0e imp\u00f4s, em um novo plebiscito realizado em 1989, o que ficou conhecido como \u201cenclaves autorit\u00e1rios\u201d: um conjunto de normas que manteve o pinochetismo como uma sombra autorit\u00e1ria sobre a democracia rec\u00e9m-conquistada. \u201cForam necess\u00e1rios v\u00e1rios anos para que se suprimissem esses \u2018enclaves autorit\u00e1rios\u2019. Assim, o que se tem depois da retomada da democracia s\u00e3o governos submetidos a uma camisa de for\u00e7a imposta pelo autoritarismo\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-aniversario-de-50-anos-do-golpe-reacende-o-debate-sobre-uma-das-ditaduras-mais-sangrentas-da-america-latina-que-deixou-mais-de-tres-mil-mortos-e-desaparecidos-e-40-mil-presos-e-torturados\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cO anivers\u00e1rio de 50 anos do golpe reacende o debate sobre uma das ditaduras mais sangrentas da Am\u00e9rica Latina, que deixou mais de tr\u00eas mil mortos e desaparecidos e 40 mil presos e torturados.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Desta forma, o novo governo eleito n\u00e3o convocou uma Assembleia Constituinte para invalidar a Carta Magna pinochetista e substitu\u00ed-la por outra mais adequada \u00e0 democracia. \u201cA reprodu\u00e7\u00e3o \u2018transformista\u2019 operada pela <em>Concertaci\u00f3n<\/em>\u00a0consistiu\u00a0precisamente na exitosa reciclagem durante a redemocratiza\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas da ditadura, de sua concep\u00e7\u00e3o despolitizada da pol\u00edtica e de sua cultura individualista, competitiva e aquisitiva\u201d, explica Jales\u00a0Dantas da Costa, professor no Departamento de Economia da\u00a0<a href=\"https:\/\/languagetool.org\/Universidade%20de%20Bras%25C3%25ADlia%20(UnB)\"><strong><span style=\"color: #800000;\">Universidade de Bras\u00edlia (UnB)<\/span><\/strong><\/a>. \u201cA <em>Concertaci\u00f3n<\/em>\u00a0atuou\u00a0sem questionar as finalidades\u00a0impostas\u00a0pela ditadura.\u00a0Procederam\u00a0como se o capitalismo neoliberal e sua democracia\u00a0semi-representativa\u00a0fossem os espa\u00e7os naturais do\u00a0conv\u00edvio\u00a0social\u201d, pontua.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"nova-constituicao-velhos-problemas\"><strong>Nova constitui\u00e7\u00e3o, velhos problemas<\/strong><\/h4>\n<p>A redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds disfar\u00e7ava uma s\u00e9rie de problemas sociais que foram se agravando at\u00e9 \u201cexplodirem\u201d em um grande levante popular, conhecido como &#8220;<em>estallido social<\/em>&#8220;. O estopim dos eventos foi o aumento da tarifa do sistema de transporte p\u00fablico de Santiago. Isso desencadeou uma s\u00e9rie de protestos que se iniciaram em outubro de 2019 e continuaram at\u00e9 mar\u00e7o de 2020. Os protestos se espalharam rapidamente por todo o pa\u00eds, com muitos dist\u00farbios violentos. A situa\u00e7\u00e3o levou o ent\u00e3o presidente Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era a decretar estado de emerg\u00eancia e toque de recolher. (Figura 1)<\/p>\n<h6 id=\"figura-1-levante-popular-conhecido-como-estallido-social-demonstrou-insatisfacao-da-populacao-chilena-e-durou-de-outubro-de-2019-ate-marco-de-2020foto-arquivo-efe-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-4822\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-50-anos-do-golpe-no-Chile-figura1-300x158.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"263\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-50-anos-do-golpe-no-Chile-figura1-300x158.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-50-anos-do-golpe-no-Chile-figura1-1024x538.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-50-anos-do-golpe-no-Chile-figura1-768x404.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-50-anos-do-golpe-no-Chile-figura1-1536x808.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-50-anos-do-golpe-no-Chile-figura1-18x9.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-50-anos-do-golpe-no-Chile-figura1-380x200.jpg 380w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-50-anos-do-golpe-no-Chile-figura1-800x421.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-50-anos-do-golpe-no-Chile-figura1-1160x610.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-50-anos-do-golpe-no-Chile-figura1.jpg 1691w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 1. Levante popular conhecido como &#8220;<em>estallido social<\/em>&#8221; demonstrou insatisfa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o chilena e durou de outubro de 2019 at\u00e9 mar\u00e7o de 2020<br \/>\n<\/strong>(Foto: Arquivo\/EFE. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que come\u00e7ou como um protesto contra o aumento das tarifas do transporte p\u00fablico na verdade carregava uma longa lista de insatisfa\u00e7\u00f5es: alto custo de vida (at\u00e9 2019, Santiago era a segunda cidade mais cara da Am\u00e9rica Latina); elevados pre\u00e7os nos transportes, medicamentos e tratamentos de sa\u00fade; e uma rejei\u00e7\u00e3o generalizada de toda a classe pol\u00edtica e do descr\u00e9dito institucional acumulado nos \u00faltimos anos, incluindo a pr\u00f3pria Constitui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. O resultado foi uma s\u00e9rie de medidas, denominadas \u201cNova Agenda Social\u201d, que inclu\u00edam provid\u00eancias relacionadas com pens\u00f5es, sa\u00fade, sal\u00e1rios e administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>&#8220;Os n\u00edveis de dessocializa\u00e7\u00e3o, desconstru\u00e7\u00e3o do humano \u2013 o que tamb\u00e9m se<br \/>\ndenomina de estranhamento e de brutaliza\u00e7\u00e3o \u2013, foram t\u00e3o acentuados que a<br \/>\nsociedade chilena est\u00e1 repartida em duas&#8221;, explica Vin\u00edcio Martinez. &#8220;\u00c9 como se uma parte ainda lutasse por justi\u00e7a, repara\u00e7\u00e3o e penaliza\u00e7\u00e3o dos carrascos \u2013 apesar de j\u00e1 terem avan\u00e7ado \u2013 e a outra metade (digamos assim) ainda se mantivesse crente nos resultados trazidos por Pinochet&#8221;, diz. Para o professor, um exemplo da magnitude da fissura social est\u00e1 na recusa do projeto normativo da Constituinte chilena.<\/p>\n<p>\u201cAcredito que o <em>estallido social<\/em> acirrou a polaridade\u201d, explica Jales Costa. \u201cDe um lado, o \u00edmpeto popular de trabalhadores, desempregados, marginalizados, empobrecidos, indignados, estudantes, professores, ind\u00edgenas, representantes dos mais diversos movimentos sociais, etc., que imprimiram um rotundo \u2018n\u00e3o\u2019 a figura e ao legado de Pinochet \u2013 como prova o recha\u00e7o da Constitui\u00e7\u00e3o vigente e o plebiscito para elabora\u00e7\u00e3o de uma nova Constitui\u00e7\u00e3o. Por outro lado, fortaleceu o apoio a sua imagem e seu legado n\u00e3o apenas por parte de conservadores, reacion\u00e1rios e contrarrevolucion\u00e1rios, como tamb\u00e9m parte de moderados apavorados com a explos\u00e3o social\u201d, pontua.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-golpe-liderado-pelo-general-augusto-pinochet-em-setembro-de-1973-no-chile-nao-foi-um-incidente-isolado-na-america-do-sul\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cO golpe liderado pelo general Augusto Pinochet em setembro de 1973 no Chile n\u00e3o foi um incidente isolado na Am\u00e9rica do Sul.\u201d <\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um acordo transversal entre o Governo e o Congresso acordou a convoca\u00e7\u00e3o de um plebiscito nacional para definir a elabora\u00e7\u00e3o de uma nova Constitui\u00e7\u00e3o. O plebiscito, realizado em 2020, apontou que 78% da popula\u00e7\u00e3o chilena aprovava a cria\u00e7\u00e3o de uma nova Carta Magna. No entanto, em outro plebiscito, realizado em 2022, 61,8% da popula\u00e7\u00e3o rejeitou a primeira proposta dessa Constitui\u00e7\u00e3o. Um ano ap\u00f3s a derrota da nova constituinte e 50 anos ap\u00f3s o golpe militar de Pinochet, uma nova proposta da Carta Magna est\u00e1 sendo elaborada por um \u00f3rg\u00e3o eleito em maio e dominado por uma direita ultraconservadora. A Nova Constitui\u00e7\u00e3o deve ficar pronta em dezembro deste ano, quando ser\u00e1 submetida novamente a voto popular.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"direitos-humanos-violacao-e-reparacao\"><strong>Direitos humanos: viola\u00e7\u00e3o e repara\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h4>\n<p>\u201cA ditadura chilena legou para a sociedade uma s\u00e9rie de viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos e uma cultura de impunidade\u201d, afirma Caroline\u00a0Silveira Bauer, professora do Departamento de Hist\u00f3ria da <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/ufrgs\/inicial\"><strong>Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)<\/strong><\/a><\/span><strong>.<\/strong> Segundo a pesquisadora, a ditadura pinochetista foi caracterizada pela viol\u00eancia aos direitos humanos e por repress\u00f5es sem precedentes. Protestos populares foram combatidos com pris\u00f5es, exonera\u00e7\u00f5es, tortura, execu\u00e7\u00f5es, desapari\u00e7\u00f5es, ex\u00edlios e censura. A viol\u00eancia sexual era uma parte horr\u00edvel dessa repress\u00e3o, com a maioria das mulheres sofrendo abusos, incluindo estupro, durante a pris\u00e3o. Muitas delas deram \u00e0 luz crian\u00e7as concebidas em meio a essas atrocidades. A <span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.indh.cl\/destacados\/comision-valech\/\"><strong>Comiss\u00e3o Nacional sobre a Pris\u00e3o Pol\u00edtica e Tortura<\/strong><\/a><\/span> registrou que 94% das pessoas detidas sofreram torturas diversas, incluindo choques el\u00e9tricos, simula\u00e7\u00e3o de fuzilamento e asfixia.<\/p>\n<p>Mas as viola\u00e7\u00f5es n\u00e3o pararam por a\u00ed. Outras a\u00e7\u00f5es, mais sutis, tamb\u00e9m tiveram um terr\u00edvel impacto negativo na popula\u00e7\u00e3o chilena. Os direitos trabalhistas e sociais conquistados durante o governo de Allende foram desmanteladas sob o regime de Pinochet, com milhares de pessoas sendo demitidas de seus trabalhos ou expulsas de suas terras. \u201cOs relat\u00f3rios das Comiss\u00f5es da Verdade (1991, 2001, 2004, 2011) escancaram, al\u00e9m das mortes (3.216 pessoas) e as torturas (38.254), os ex\u00edlios (cerca de 200 mil pessoas), as demiss\u00f5es em massa (cerca de 230 mil pessoas), o roubo de terras ind\u00edgenas e camponesas (mais de 7 milh\u00f5es de hectares), etc.\u201d, aponta Jales Costa. (Figura 2)<\/p>\n<h6 id=\"figura-2-a-ditadura-chilena-deixou-mais-de-tres-mil-mortos-e-desaparecidos-40-mil-presos-e-torturados-e-cerca-de-200-mil-exilados-foto-arquivo-memorial-dos-direitos-humanos-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-4823\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-50-anos-do-golpe-no-Chile-figura2-300x175.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"292\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-50-anos-do-golpe-no-Chile-figura2-300x175.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-50-anos-do-golpe-no-Chile-figura2-1024x599.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-50-anos-do-golpe-no-Chile-figura2-768x449.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-50-anos-do-golpe-no-Chile-figura2-1536x898.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-50-anos-do-golpe-no-Chile-figura2-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-50-anos-do-golpe-no-Chile-figura2-800x468.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-50-anos-do-golpe-no-Chile-figura2-1160x678.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-reportagem-50-anos-do-golpe-no-Chile-figura2.jpg 1691w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 2. A d<\/strong><strong>itadura chilena deixou mais de tr\u00eas mil mortos e desaparecidos, 40 mil presos e torturados e cerca de 200 mil exilados.<br \/>\n<\/strong>(Foto: Arquivo\/Memorial dos Direitos Humanos. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Embora medidas reparadoras tenham sido tomadas para condenar repressores e reconhecer as v\u00edtimas, a ascens\u00e3o da extrema-direita no cen\u00e1rio pol\u00edtico chileno tem levado \u00e0 relativiza\u00e7\u00e3o desses abusos, com tentativas de favorecer torturadores por meio de uma legisla\u00e7\u00e3o controversa. O governo acaba de lan\u00e7ar o Plano Nacional de Busca de v\u00edtimas de desaparecimento for\u00e7ado sob o regime Pinochet \u2013 uma demanda hist\u00f3rica. Para Caroline Bauer, \u00e9 preciso empregar esfor\u00e7os para a localiza\u00e7\u00e3o dos restos mortais dos desaparecidos pol\u00edticos, para a elucida\u00e7\u00e3o de seus assassinatos (principalmente com a disponibiliza\u00e7\u00e3o dos arquivos da repress\u00e3o) e para a responsabiliza\u00e7\u00e3o dos implicados. Esses trabalhos devem construir e difundir valores que tornem a viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos e sua apologia incompat\u00edveis com a ordem democr\u00e1tica. \u201cA luta de indiv\u00edduos e organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos foi fundamental para a den\u00fancia do que acontecia no Chile, e para que fossem tomadas provid\u00eancias no p\u00f3s-ditadura para a investiga\u00e7\u00e3o do que fora a ditadura pinochetista. Nesse sentido, tamb\u00e9m podemos falar que essas pessoas e esses grupos foram fundamentais para a consolida\u00e7\u00e3o da democracia, j\u00e1 que esse sistema \u00e9 fragilizado quando os direitos n\u00e3o s\u00e3o garantidos a todos, e o passado \u00e9 tratado com impunidade\u201d, enfatiza a pesquisadora.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4 id=\"cenario-latino-americano-ontem-e-hoje\"><strong>Cen\u00e1rio latino-americano, ontem e hoje<\/strong><\/h4>\n<p>O golpe liderado pelo general Augusto Pinochet em setembro de 1973 no Chile n\u00e3o foi um incidente isolado na Am\u00e9rica do Sul. Naquele per\u00edodo, a regi\u00e3o testemunhou uma s\u00e9rie de golpes militares com caracter\u00edsticas comuns, como o contrarrevolucionarismo declarado, a intensa repress\u00e3o ilegal que resultou em milhares de v\u00edtimas, a coordena\u00e7\u00e3o entre os regimes militares por meio da chamada &#8220;Opera\u00e7\u00e3o Condor&#8221; e a influ\u00eancia direta dos Estados Unidos na promo\u00e7\u00e3o e configura\u00e7\u00e3o desses governos militares. O Brasil vivia h\u00e1 nove anos sob um regime militar que duraria 20 anos. A Bol\u00edvia era governada pelo general Hugo Banzer. No Uruguai, governava Juan Mar\u00eda Bordaberry, que mais tarde seria preso por crimes contra a humanidade. Na Argentina, as For\u00e7as Armadas tomariam o poder em 1976.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-cinquentenario-do-golpe-de-1973-no-chile-e-uma-oportunidade-de-compreender-a-historia-compartilhada-da-regiao-e-refletir-sobre-os-desafios-enfrentados-na-busca-por-justica-igualdade-e-demo\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cO cinquenten\u00e1rio do golpe de 1973 no Chile \u00e9 uma oportunidade de compreender a hist\u00f3ria compartilhada da regi\u00e3o e refletir sobre os desafios enfrentados na busca por justi\u00e7a, igualdade e democracia.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Brasil foi o primeiro pa\u00eds a reconhecer a nova junta militar do Chile. Documentos revelados posteriormente evidenciam a coopera\u00e7\u00e3o brasileira nos &#8220;interrogat\u00f3rios&#8221; realizados no Est\u00e1dio Nacional de Santiago, que havia sido convertido em centro de prisioneiros. Isso teve implica\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas e de ex\u00edlio para o pa\u00eds. \u201cO que ocorreu no Chile, da vit\u00f3ria de Allende at\u00e9 o golpe de Estado de 1973, impactou toda a esquerda ocidental pelo caminho que o presidente eleito assumiu: construir o socialismo pela democracia\u201d, explica Alberto Aggio. \u201cPode-se ver o Chile de Allende, historicamente, como um ponto de inflex\u00e3o na cultura pol\u00edtica da revolu\u00e7\u00e3o que marcou o s\u00e9culo XX latino-americano e mundial\u201d, diz.<\/p>\n<p>A queda e morte de Salvador Allende no Chile representaram uma virada na hist\u00f3ria da esquerda internacional, marcando a transi\u00e7\u00e3o entre duas eras. No contexto atual, sua morte ainda ressoa como um lembrete da import\u00e2ncia de lutar por convic\u00e7\u00f5es e princ\u00edpios, independentemente das adversidades e desafios enfrentados ao longo do caminho. Jales Costa pontua que, para os latino-americanos,\u00a0se trata\u00a0tamb\u00e9m\u00a0de compreender o qu\u00e3o longe\u00a0p\u00f4de chegar\u00a0\u00e0\u00a0experi\u00eancia ao socialismo chileno\u00a0e\u00a0os porqu\u00eas de sua derrota, e n\u00e3o\u00a0apenas compreender os\u00a0tristes\u00a0anos sombrios. \u201c\u00c9 certo que durante o primeiro ano da\u00a0<em>revolucci\u00f3n<\/em>\u00a0chilena, a utopia socialista identificada com \u2018os de baixo\u2019 se fez mais viva que nunca, precisamente porque sonhos se fizeram reais. \u00c9 tamb\u00e9m certo que a ditadura de Pinochet transformou sonhos em pesadelos e enterrou o quanto pode a utopia socialista, que de fato se esboroou. E que o\u00a0<em>Chile<\/em><em>\u00a0Actual<\/em>\u00a0encontra dificuldades para mant\u00ea-la acesa e irradi\u00e1-la\u201d.<\/p>\n<p>Para Vin\u00edcio Martinez, a ditadura chilena n\u00e3o s\u00f3 impactou a Am\u00e9rica Latina como ainda reflete em nossos dias. &#8220;A ditadura chilena foi um nefasto experimento sociometab\u00f3lico do capital, com requintes de crueldade, vilip\u00eandio humano, de acordo com os piores valores econ\u00f4micos e sob a \u00e9gide dos piores n\u00edveis de psicopatia imagin\u00e1veis. Por isso e por tudo que tratamos aqui hoje, \u00e9 um alerta m\u00e1ximo de que a luta pol\u00edtica no combate ao Fascismo renitente (e procriado) deve ser constante, atuando-se nos lares, nos bares, no trabalho, nas ruas, nos grupos sociais, nas escolas&#8221;, alerta.<\/p>\n<p>O cinquenten\u00e1rio do golpe de 1973 no Chile \u00e9 um momento de reflex\u00e3o n\u00e3o apenas para os chilenos, mas tamb\u00e9m para toda a Am\u00e9rica Latina. \u00c9 uma oportunidade de compreender a hist\u00f3ria compartilhada da regi\u00e3o e refletir sobre os desafios enfrentados na busca por justi\u00e7a, igualdade e democracia. A constru\u00e7\u00e3o de uma nova Constitui\u00e7\u00e3o chilena e os debates em torno dela s\u00e3o passos cruciais nesse caminho cont\u00ednuo. \u201cPorque estamos diretamente relacionados com as pol\u00edticas desenvolvidas na regi\u00e3o nos anos 1960 em diante. Esse passado n\u00e3o se encontra dissociado do presente. As ditaduras podem ter acabado; muitas de suas consequ\u00eancias, ideologias e pr\u00e1ticas, n\u00e3o\u201d, conclui Caroline Bauer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-palacio-la-moneda-sede-da-presidencia-do-chile-e-atacado-por-soldados-em-11-de-setembro-de-1973foto-afp-reproducao\"><strong>Capa. <\/strong><strong>Pal\u00e1cio La Moneda, sede da Presid\u00eancia do Chile, \u00e9 atacado por soldados em 11 de setembro de 1973<br \/>\n<\/strong>(Foto: AFP\/ Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 id=\"bueno-chris-50-anos-do-golpe-no-chile-cinquentenario-do-golpe-de-1973-e-uma-oportunidade-para-refletir-sobre-os-desafios-enfrentados-na-busca-por-justica-igualdade-e-democracia-na-america-lat\"><span style=\"color: #808080;\">BUENO, Chris.<span class=\"article-title\">\u00a050 anos do golpe no Chile: cinquenten\u00e1rio do golpe de 1973 \u00e9 uma oportunidade para refletir sobre os desafios enfrentados na busca por justi\u00e7a, igualdade e democracia na Am\u00e9rica Latina.<\/span><i>\u00a0Cienc. Cult.<\/i>\u00a0[online]. 2023, vol.75, n.3 [citado\u00a0 2024-02-15], pp.1-5. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/cienciaecultura.bvs.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252023000300011&amp;lng=pt&amp;nrm=iso&gt;. ISSN 0009-6725.\u00a0 http:\/\/dx.doi.org\/10.5935\/2317-6660.20230043.<\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Cinquenten\u00e1rio do golpe de 1973 \u00e9 uma oportunidade para refletir sobre os&hellip;\n","protected":false},"author":11,"featured_media":4824,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4819"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4819"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4819\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5507,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4819\/revisions\/5507"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4824"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4819"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4819"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4819"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}