{"id":4909,"date":"2023-10-16T07:58:22","date_gmt":"2023-10-16T07:58:22","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=4909"},"modified":"2023-10-14T18:57:07","modified_gmt":"2023-10-14T18:57:07","slug":"as-fontes-de-energia-no-seculo-xxi-uma-visao-de-sustentabilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=4909","title":{"rendered":"As fontes de energia no s\u00e9culo XXI: uma vis\u00e3o de sustentabilidade"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"nao-e-possivel-continuar-dependendo-dos-combustiveis-fosseis-e-as-energias-renovaveis-sao-o-caminho\"><span style=\"color: #808080;\">N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel continuar dependendo dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, e as energias renov\u00e1veis s\u00e3o o caminho<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Algu\u00e9m precisa dizer algumas coisas sobre a modifica\u00e7\u00e3o de fontes energ\u00e9ticas, sobre o que est\u00e1 acontecendo, e algu\u00e9m deve ter a autoridade de falar sobre isso. Principalmente, tentar gerar uma discuss\u00e3o, tentar fazer com que as pessoas falem sobre qual \u00e9 a evolu\u00e7\u00e3o que se pode imaginar e que se precisa imaginar para o modo de vida das pessoas. \u00c9 a isso que eu me proponho. N\u00e3o me proponho a aprofundar quest\u00f5es t\u00e9cnicas, mas muito mais dizer por que n\u00f3s temos que mudar de tipo de energia e para que lado podemos ir: procurar uma solu\u00e7\u00e3o global, obviamente, do ponto de vista brasileiro.<\/p>\n<p>Vamos considerar o consumo de energia em fun\u00e7\u00e3o dos anos. O que se espera que aconte\u00e7a nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas? Ora, a energia com a qual estamos mais acostumados, como o petr\u00f3leo, n\u00e3o vai desaparecer, mas tamb\u00e9m n\u00e3o vai aumentar e, na realidade, vai diminuir a import\u00e2ncia dessa energia que obtemos queimando o petr\u00f3leo e queimando os derivados do petr\u00f3leo. Sobre a energia nuclear, podemos discutir muito tamb\u00e9m. Qual \u00e9 a energia mais nobre e qual a que mais se espera? A energia solar, a energia e\u00f3lica? A energia hidr\u00e1ulica n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o grande porque n\u00e3o s\u00e3o tantos os pa\u00edses que t\u00eam energia hidr\u00e1ulica para poder representar realmente uma fra\u00e7\u00e3o extremamente consider\u00e1vel.<\/p>\n<p>O que eu espero que voc\u00eas guardem dessa primeira parte \u00e9 simples: a demanda de energia existe porque o n\u00famero de pessoas aumenta e aumenta a necessidade social de se ter energia. Por qu\u00ea? Porque os chineses t\u00eam carros atualmente. Nunca tiveram, mas t\u00eam direito de ter, n\u00e3o \u00e9? Precisamos, em cada na\u00e7\u00e3o, de um desenvolvimento social. E desenvolvimento \u00e9 acompanhado por demanda de energia, que n\u00f3s temos que satisfazer de alguma maneira, qual \u00e9 a maneira?<\/p>\n<p>Hoje, o nosso perfil \u00e9 mais ou menos este: somos dependentes de carv\u00e3o, \u00f3leo e g\u00e1s. O resto \u00e9 muito pequeno, o nuclear \u00e9 importante por causa da Europa, o hidrel\u00e9trico, principalmente, por causa do Brasil e de alguns outros pa\u00edses que usam. Biomassa? Talvez at\u00e9 possamos olhar um pouquinho mais em detalhe e dizer: &#8220;olha, petr\u00f3leo \u00e9 preponderante, carv\u00e3o, nuclear, mas e os renov\u00e1veis?&#8221;. Renov\u00e1veis que representam a parte h\u00eddrica, a partir das hidrel\u00e9tricas, e a parte dos combust\u00edveis renov\u00e1veis, de onde podemos tirar o nosso etanol e o nosso biodiesel. Existem combust\u00edveis renov\u00e1veis que n\u00f3s podemos e devemos discutir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-demanda-de-energia-existe-porque-o-numero-de-pessoas-aumenta-e-aumenta-a-necessidade-social-de-se-ter-energia\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cA demanda de energia existe porque o n\u00famero de pessoas aumenta e aumenta a necessidade social de se ter energia.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Talvez aqui seja melhor comparar as fontes prim\u00e1rias e as fontes secund\u00e1rias, renov\u00e1veis e n\u00e3o renov\u00e1veis. Queremos contar com fontes renov\u00e1veis ou n\u00e3o renov\u00e1veis? \u00c9 preciso ter renov\u00e1vel para que tenhamos sustentabilidade. Ent\u00e3o, temos que tratar com fontes renov\u00e1veis e essas fontes renov\u00e1veis v\u00e3o se centrar na hidr\u00e1ulica, na e\u00f3lica e em qual outra? O Sol pode gerar diversas fontes secund\u00e1rias, a biomassa significa fazer fotoss\u00edntese e gerar material a partir da madeira, da cana-de-a\u00e7\u00facar, do carv\u00e3o vegetal, dos \u00f3leos vegetais, que aqui temos um dom\u00ednio enorme. O petr\u00f3leo e o carv\u00e3o s\u00e3o n\u00e3o renov\u00e1veis, portanto, vamos ter problema com essas fontes.<\/p>\n<p>Temos que nos encontrar dentro desse conjunto. O Painel Intergovernamental de controle clim\u00e1tico: seus participantes que colocaram na discuss\u00e3o p\u00fablica a quest\u00e3o do CO<sub>2<\/sub> (o aumento da quantidade de CO<sub>2<\/sub> no ar) e acabaram ganhando o pr\u00eamio Nobel pelas discuss\u00f5es que tiveram. \u00c9 um painel da ONU, por isso parece ser mais confi\u00e1vel, tem representa\u00e7\u00e3o de todos os pa\u00edses, inclusive o Brasil est\u00e1 l\u00e1. Eles fizeram um trabalho que eu considero muito interessante, que \u00e9 acompanhar as emiss\u00f5es de CO<sub>2<\/sub> e fazer a previs\u00e3o das sete cunhas. Sabem em qual cunha n\u00f3s estamos? Um pouquinho pior que a mais pessimista: n\u00f3s ca\u00edmos um pouquinho fora da \u00faltima delas.<\/p>\n<p>Por que posso passar horas discutindo? Por causa das queimadas, dos nossos procedimentos, por causa de quest\u00f5es naturais tamb\u00e9m. Mas o que temos s\u00e3o necessidades energ\u00e9ticas. 2020 sempre foi pleiteado como um ano chave para tomar as decis\u00f5es, vamos parar de emitir CO<sub>2<\/sub>? N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel parar de emitir CO<sub>2<\/sub> sem encontrar uma alternativa vi\u00e1vel. O ser humano precisa continuar se deslocando, precisamos encontrar solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O quadro n\u00e3o \u00e9 muito favor\u00e1vel. Vamos estudar quais s\u00e3o os combust\u00edveis. Vamos usar carv\u00e3o? Temos emiss\u00f5es diretas e indiretas. Cada uma das fontes que n\u00f3s formos estudar tem a emiss\u00e3o direta, que \u00e9 o combust\u00edvel usado no carro, que gera CO<sub>2<\/sub>, mas tem uma emiss\u00e3o indireta, que \u00e9 o quanto foi gerado de polui\u00e7\u00e3o ao prepar\u00e1-lo, ao fazer esse combust\u00edvel. Temos muita emiss\u00e3o direta e certa emiss\u00e3o indireta com carv\u00e3o, \u00f3leo, petr\u00f3leo e todas suas variantes e g\u00e1s. N\u00f3s vivemos nesse mundo, para que lado vamos? Vamos para a energia da biomassa, para a nuclear, para a hidroeletricidade, para a e\u00f3lica, para a solar? A hidr\u00e1ulica \u00e9 boa, mas h\u00e1 um problema de emiss\u00e3o indireta tamb\u00e9m. Antigamente se faziam grandes lagos para servir \u00e0s hidrel\u00e9tricas, hoje melhorou, j\u00e1 fazemos a pr\u00f3pria hidrel\u00e9trica no fio d&#8217;\u00e1gua, utilizando simplesmente o que estamos deslocando como \u00e1gua. \u201cVamos usar a nuclear, \u00e9 t\u00e3o limpa\u201d. Eu sou de uma \u00e9poca em que o Greenpeace era totalmente contra a nuclear; hoje o Greenpeace \u00e9 um grande defensor da nuclear, podemos discuti-la e como \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h6 id=\"figura-1-roberto-fernando-de-souza-um-dos-pesquisadores-mais-produtivos-em-catalise-no-brasil-contribuindo-para-o-desenvolvimento-desta-ciencia-atraves-de-suas-atividades-em-pesquisa-e-na-formacao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-4911\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-artigo-As-fontes-de-energia-no-se\u0301culo-XXI-figura1-300x236.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"393\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-artigo-As-fontes-de-energia-no-se\u0301culo-XXI-figura1-300x236.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-artigo-As-fontes-de-energia-no-se\u0301culo-XXI-figura1-15x12.jpg 15w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/CC-3E23-artigo-As-fontes-de-energia-no-se\u0301culo-XXI-figura1.jpg 527w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 1. Roberto Fernando de Souza, um dos pesquisadores mais produtivos em Cat\u00e1lise no Brasil, contribuindo para o desenvolvimento desta ci\u00eancia atrav\u00e9s de suas atividades em pesquisa e na forma\u00e7\u00e3o de recursos humanos<br \/>\n<\/strong>(Foto: SBCat. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vamos falar do CO<sub>2<\/sub> que faz o efeito estufa. Podemos queimar petr\u00f3leo, transformar em gasolina, queimar no carro e colocar no ar. Essa quantidade que est\u00e1 no ar depende de quanto emitimos e quanto conseguimos absorver nas florestas com a fotoss\u00edntese. H\u00e1 um tempo de absor\u00e7\u00e3o e h\u00e1 um equil\u00edbrio, h\u00e1 um balan\u00e7o. N\u00e3o \u00e9 muito diferente se pegarmos a cana-de-a\u00e7\u00facar, transform\u00e1-la em etanol e queim\u00e1-la. N\u00f3s podemos discutir esse ciclo, se ele \u00e9 muito diferente de outro, mas, o que me interessa \u00e9 a quantidade que est\u00e1 no ar, que eleva a quantidade de ppm de CO<sub>2<\/sub> no ar ao longo dos anos. T\u00ednhamos 1.200, 1.400 no ano 2000. Muita gente falava do n\u00famero 400 ppm. Quando chegar a 400 ppm, temos a \u00faltima crise do aquecimento global. Acabamos de passar!<\/p>\n<p>O efeito estufa \u00e9 o ac\u00famulo desses gases no ar, o sol aquece esses gases e a terra aquece. Quais s\u00e3o esses gases? Basicamente, Metano e CO<sub>2<\/sub>. Esses gases s\u00e3o feitos pelos vulc\u00f5es, pelos ruminantes e pela nossa atividade industrial ou atividade de queima. Controlar os vulc\u00f5es \u00e9 dif\u00edcil, eu diria imposs\u00edvel. Controlar a quantidade de ruminantes: esses dias, no Fronteiras do Pensamento, houve uma grande defesa de nos tornarmos todos vegetarianos. N\u00e3o sei se teremos sucesso nesse processo, acho dif\u00edcil, poss\u00edvel, mas dif\u00edcil. Controlar a atividade industrial ou as atividades de queima seria a terceira forma de redu\u00e7\u00e3o. Temos que mudar o nosso perfil de produ\u00e7\u00e3o de CO<sub>2<\/sub>, e essa discuss\u00e3o \u00e9 econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o h\u00e1 esses gases que est\u00e3o em volta da terra. Passamos dos 400 ppm, a temperatura na terra est\u00e1 subindo. Sabemos que a temperatura est\u00e1 subindo ou, pelo menos, que h\u00e1 um grande desequil\u00edbrio, que est\u00e1 causando muitas tormentas, muitas secas, muitas inunda\u00e7\u00f5es. E isso est\u00e1 aumentando por causa do desequil\u00edbrio ambiental. N\u00f3s, qu\u00edmicos, achamos que isso est\u00e1 muito ligado ao CO<sub>2<\/sub>, o pessoal da geologia acha que \u00e9 um ciclo normal da vida humana. Pelo jeito, n\u00e3o d\u00e1 para aguentar o que est\u00e1 acontecendo, n\u00f3s passamos do limite.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"nao-e-possivel-parar-de-emitir-co2-sem-encontrar-uma-alternativa-viavel-o-ser-humano-precisa-continuar-se-deslocando-precisamos-encontrar-solucoes\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel parar de emitir CO2 sem encontrar uma alternativa vi\u00e1vel. O ser humano precisa continuar se deslocando, precisamos encontrar solu\u00e7\u00f5es.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se continuarmos usando o petr\u00f3leo, h\u00e1 um probleminha: o pre\u00e7o do petr\u00f3leo e como ele tem evolu\u00eddo em fun\u00e7\u00e3o do tempo. Claro que o pre\u00e7o do petr\u00f3leo varia, porque varia a demanda, a oferta, mas varia tamb\u00e9m conforme as crises e as guerras. O primeiro aumento brusco foi aquela crise nos anos 1970. Tenho publica\u00e7\u00f5es que dizem que quando o barril de petr\u00f3leo passar dos 64 d\u00f3lares n\u00e3o d\u00e1 mais, temos que mudar de fonte. Hoje nosso barril de petr\u00f3leo est\u00e1 custando 112 d\u00f3lares. N\u00f3s estamos l\u00e1, no cen\u00e1rio mais pessimista. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso, e se acontece uma guerra nos pa\u00edses produtores de petr\u00f3leo, se houver problemas geopol\u00edticos nos pa\u00edses produtores de petr\u00f3leo? Muda vinte a trinta por cento o nosso custo de vida de um dia para outro? Eu acho que n\u00e3o d\u00e1 para viver assim.<\/p>\n<p>Com isso, tentei fazer algo colocando a cat\u00e1strofe, dizendo que:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li>a disponibilidade de energia \u00e9 limitada;<\/li>\n<li>a demanda de energia \u00e9 crescente;<\/li>\n<li>a polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica \u00e9 inaceit\u00e1vel;<\/li>\n<li>existem problemas de pre\u00e7o e disponibilidade.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que podemos propor a longo prazo? A Europa disse que temos de passar para o hidrog\u00eanio. T\u00ednhamos, nos anos 2000, uma economia baseada em combust\u00edveis f\u00f3sseis, temos que chegar em 2050 com uma economia orientada ao hidrog\u00eanio. Isso \u00e9 o que diz a Uni\u00e3o Europeia, podemos compartilhar ou n\u00e3o, mas temos que saber o que \u00e9 a economia de hidrog\u00eanio.<\/p>\n<p>Vou explicar com ocorre a eletr\u00f3lise. \u00c9 uma coisa que eu aconselho a fazer. Quando \u00e9ramos novos, nas feiras de ci\u00eancia, coloc\u00e1vamos dois fios, uma bateria e sa\u00eda hidrog\u00eanio e oxig\u00eanio, correto? Podemos fazer o contr\u00e1rio: entramos com hidrog\u00eanio e oxig\u00eanio, tiramos a \u00e1gua e sobra energia. Isso de fazer o contr\u00e1rio da eletr\u00f3lise que faz\u00edamos no col\u00e9gio se chama c\u00e9lula a combust\u00edvel. Podemos entrar com hidrog\u00eanio e oxig\u00eanio, sai \u00e1gua no escapamento e temos energia el\u00e9trica dispon\u00edvel. Por exemplo, em uma caixa de pl\u00e1stico pequena, temos dois eletrodos, alimentamos de um lado com hidrog\u00eanio e de outro com oxig\u00eanio, sai a \u00e1gua e retiramos a eletricidade que necessitamos para os carros.<\/p>\n<p>O carro funciona assim: um dep\u00f3sito, c\u00e9lula a combust\u00edvel e motor el\u00e9trico. Chamamos de pilha a combust\u00edvel porque \u00e9 uma pilha de c\u00e9lulas a combust\u00edvel. Empilhamos quantas for preciso para chegar a pot\u00eancia necess\u00e1ria. Funciona muito bem, esses carros s\u00e3o modernos, podemos comprar no Jap\u00e3o e nos Estados Unidos. Quando compramos um carro podemos escolher: gasolina ou hidrog\u00eanio? Podemos escolher o movido a hidrog\u00eanio. Funciona bem, grande autonomia, \u00e9 econ\u00f4mico, e o que mais gostaria que voc\u00eas entendessem \u00e9 que do escapamento dele s\u00f3 sai \u00e1gua. N\u00e3o sai nada que venha a poluir. Voc\u00eas conseguem imaginar cidades como Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo, com aquela polui\u00e7\u00e3o toda, e s\u00f3 sai \u00e1gua do escapamento? Eu acho isso uma coisa absolutamente fant\u00e1stica.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, n\u00e3o se acreditava tanto nesses carros a hidrog\u00eanio, pois eles tinham problemas de autonomia. Mas com um carro que tenha autonomia de 400 quil\u00f4metros, aqui no Sul \u00e9 poss\u00edvel ir \u00e0 praia e voltar. \u00c9 um carro pr\u00e1tico, com o mesmo pre\u00e7o do carro a gasolina. \u00c9 uma realidade, \u00e9 isso que gostaria que voc\u00eas considerassem. Foram feitos muitos testes antes com outros carros, principalmente com carros maiores, \u00f4nibus com espa\u00e7o maior. E todas as companhias, Volkswagen, Toyota, GM, Honda, Mercedes etc., todas elas, est\u00e3o com seus carros na rua, est\u00e3o prontos, basta n\u00f3s querermos trocar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"nos-temos-essas-fontes-de-energia-para-todos-os-recursos-renovaveis-a-substituicao-por-fontes-limpas-e-inevitavel\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cN\u00f3s temos essas fontes de energia para todos os recursos renov\u00e1veis. A substitui\u00e7\u00e3o por fontes limpas \u00e9 inevit\u00e1vel.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tudo est\u00e1 resolvido? N\u00e3o. Tem a vida \u00fatil dessas c\u00e9lulas: se fizermos a c\u00e9lula utilizando como eletrodo o pal\u00e1dio, haveria um problema, pois n\u00e3o h\u00e1 pal\u00e1dio que chegue para substituir todos os carros do mundo, \u00e9 preciso conseguirmos substituir por metais menos nobres e mais dispon\u00edveis. H\u00e1 que se ter uma rede de abastecimento de hidrog\u00eanio. Em Porto Alegre, h\u00e1 um posto a cada 450 metros, imaginem substituir tudo isso. Diziam que era imposs\u00edvel se ter abastecimento de g\u00e1s liquefeito de petr\u00f3leo, hoje est\u00e3o ali os nossos t\u00e1xis funcionando t\u00e3o bem. N\u00f3s vamos ter que ter algo semelhante, mas eu uso esse gancho para dizer \u201cTu me comprovaste que \u00e9 interessante e que podemos fazer funcionar bem a c\u00e9lula a combust\u00edvel, mas tem que ter hidrog\u00eanio&#8221;. Em seguida vamos falar do hidrog\u00eanio. Onde n\u00f3s entramos nessa hist\u00f3ria? Porque eu tenho um eletrodo e outro eletrodo, adi\u00e7\u00e3o de hidrog\u00eanio e oxig\u00eanio, mas tem que ter um contato entre eles. E n\u00f3s entramos nessa hist\u00f3ria com os l\u00edquidos i\u00f4nicos.<\/p>\n<p>Certas subst\u00e2ncias org\u00e2nicas, compostas de um c\u00e1tion e um \u00e2nion, quando n\u00e3o conseguem cristalizar, ficam l\u00edquidas. Esse l\u00edquido conduz \u00e0 eletricidade e \u00e9 extremamente est\u00e1vel, s\u00e3o os l\u00edquidos i\u00f4nicos, que foram introduzidos para n\u00f3s por Yves Chauvin, o verdadeiro inventor dessa \u00e1rea dos l\u00edquidos i\u00f4nicos. L\u00edquido i\u00f4nico significa misturar um sal que, por exemplo, funde a 78\u00ba graus, com um outro composto que funde a 190\u00ba graus e que, no fim, vira um liquido i\u00f4nico. Em 1994, quando trabalhei com Chauvin, n\u00f3s fizemos esse liquido i\u00f4nico contendo o \u00e2nion BF<sub>4<\/sub>. Por isso ele \u00e9 est\u00e1vel, \u00e9 \u00fatil no nosso laborat\u00f3rio, no Instituto de Qu\u00edmica. Por exemplo, n\u00f3s pegamos esse l\u00edquido i\u00f4nico que serve de condutor entre os dois eletrodos. O que que isso faz na pr\u00e1tica? Permite trocar uma membrana polim\u00e9rica por um l\u00edquido i\u00f4nico, permitindo um alto desempenho e um melhor desempenho da c\u00e9lula ao combust\u00edvel. \u00c9 isso que fazemos no nosso laborat\u00f3rio; por isso, nos envolvemos com essa \u00e1rea.<\/p>\n<p>A c\u00e9lula a combust\u00edvel, mas tem que ter hidrog\u00eanio, e como fazemos? Fazemos eletr\u00f3lise. Aqui eu tenho que salientar um ponto: o Brasil tem um programa nacional de hidrog\u00eanio. Eles fazem por reforma, quer dizer, pegam combust\u00edvel f\u00f3ssil, fazem uma rea\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a rea\u00e7\u00e3o de reforma e tiram hidrog\u00eanio. \u00c9 preciso fazer por eletr\u00f3lise, temos que pegar \u00e1gua e separ\u00e1-la em hidrog\u00eanio e oxig\u00eanio. \u00c9 isso que estamos defendendo.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso entender que sa\u00edmos da \u00e1gua e vamos chegar a algo como o hidrog\u00eanio e o oxig\u00eanio. Quer dizer que sempre vamos precisar de uma energia para isso. Mas temos tamb\u00e9m um processo de energia de ativa\u00e7\u00e3o, temos que passar uma barreira de ativa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, se tivermos algo que catalise esse processo, fica mais f\u00e1cil. E n\u00f3s usamos o qu\u00ea? Como sempre, os l\u00edquidos i\u00f4nicos.<\/p>\n<p>Qual a ideia? Quer dizer que vamos pegar alguma energia, n\u00e3o sei qual energia, e fazer eletr\u00f3lise, com a eletr\u00f3lise vamos fazer hidrog\u00eanio, com hidrog\u00eanio alimentamos a c\u00e9lula combust\u00edvel? Voc\u00eas entendem que o hidrog\u00eanio \u00e9 s\u00f3 algo para transportar energia. Que energia vamos usar? Que energia voc\u00eas utilizariam para fazer eletr\u00f3lise? A e\u00f3lica, a solar, a hidr\u00e1ulica? Qual a melhor solu\u00e7\u00e3o para o mundo inteiro? N\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o geral, temos que usar todas essas energias, mas, por exemplo, no caso brasileiro, existe uma situa\u00e7\u00e3o muito curiosa que \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o das hidroel\u00e9tricas.<\/p>\n<p>Itaipu est\u00e1 aqui, aqui se produz eletricidade e aqui tem um chamado vertedouro, t\u00e3o bonito, um monte de \u00e1gua, e o que \u00e9 essa \u00e1gua? \u00c9 que uma hidroel\u00e9trica s\u00f3 pode produzir energia que vende, ela n\u00e3o guarda nada, n\u00e3o tem como guardar, ent\u00e3o todo o restante da \u00e1gua vai para o vertedouro, ou seja, \u00e9 jogado fora. Toda essa energia enorme \u00e9 jogada fora. Mas, se pensarmos diferente, se pegarmos essa energia toda que estamos jogando fora, transform\u00e1-la em eletricidade, toda essa eletricidade fizer eletr\u00f3lise, qual \u00e9 o pre\u00e7o dessa eletricidade feita com essa \u00e1gua vertida? No in\u00edcio eu disse que era zero, mas temos que pagar as pessoas, fazer a manuten\u00e7\u00e3o. Hoje ela custa algo em torno de 5 a 10% do pre\u00e7o da energia que pagamos, essa da tomada. \u00c9 bem barato. N\u00e3o podemos desperdi\u00e7ar essa energia. Quanto temos dessa energia?<\/p>\n<p>Fizemos um trabalho em que pegamos cada hidroel\u00e9trica brasileira, todas elas, e vimos qual a quantidade total de \u00e1gua vertida, perdida, durante um ano. O resultado \u00e9 fant\u00e1stico: a quantidade de \u00e1gua perdida, se transformada em hidrog\u00eanio, que uso em c\u00e9lula a combust\u00edvel, se for poss\u00edvel transformar tudo (e claro que n\u00e3o \u00e9, claro que s\u00f3 uma fra\u00e7\u00e3o dessa \u00e1gua vertida vai ser aproveitada), daria o equivalente ao nosso consumo total de gasolina anual hoje. N\u00e3o precisar\u00edamos mais de gasolina. Sim, estou sonhando, estou sonhando que fosse poss\u00edvel fazer isso, mas, se eu substituir 10 ou 15% j\u00e1 \u00e9 um resultado maravilhoso. Estou tentando convencer voc\u00eas do seguinte: pegamos o sol, pegamos a \u00e1gua, fizemos a eletr\u00f3lise, uma eletr\u00f3lise gera hidrog\u00eanio, jogamos na c\u00e9lula combust\u00edvel que gera \u00e1gua de volta. Isso se chama sustentabilidade. E qual \u00e9 a quantidade dispon\u00edvel? Quanto eu quiser! Quanto eu quiser!<\/p>\n<p>Concluindo, n\u00f3s temos essas fontes de energia para todos os recursos renov\u00e1veis. A substitui\u00e7\u00e3o por fontes limpas \u00e9 inevit\u00e1vel, n\u00f3s n\u00e3o podemos mais deixar esse CO<sub>2<\/sub> subir no ar. Est\u00e1 subindo. N\u00e3o adianta tentar fazer campanha educativa e tentar baixar esse CO<sub>2<\/sub> produzido industrialmente ou por queima. Devemos continuar fazendo esfor\u00e7o? Sim, mas chegamos ao limite. O petr\u00f3leo vai deixar de ser utilizado? N\u00e3o. Ele vai ser usado para fazer pl\u00e1stico, para fazer rem\u00e9dios, ele vai ser usado para dar qualidade de vida e ele tem as suas utiliza\u00e7\u00f5es nobres. Ele vai parar de ser utilizado para ser queimado, e isso tem que acontecer. Por que a gente n\u00e3o troca? Porque \u00e9 uma decis\u00e3o geopol\u00edtica.<\/p>\n<p>Tudo isso leva sempre ao que eu digo: \u201cainda existem muitas pedras e n\u00f3s temos que entender que a idade da pedra acabou\u201d. Sei que corro um risco com o que estou dizendo aqui: acabou a idade de queimar petr\u00f3leo. Temos que passar para outra coisa. Somos n\u00f3s que estamos em risco, somos n\u00f3s mesmos que n\u00e3o vamos aguentar mais. Depois, o que n\u00e3o quero \u00e9 ouvir algu\u00e9m dizer: &#8220;poxa, ningu\u00e9m nos avisou&#8221;. Eu, pelo menos, estou fazendo meu gr\u00e3ozinho de areia e estou avisando: isso tem que ser feito.<\/p>\n<hr \/>\n<p><em><span style=\"color: #808080;\">* Este artigo \u00e9 uma homenagem ao cientista brasileiro Roberto Fernando de Souza, um dos pesquisadores mais produtivos em Cat\u00e1lise no Brasil, falecido em 2013.<\/span><\/em><\/p>\n<hr \/>\n<h6 id=\"capa-a-tendencia-e-que-o-consumo-de-energia-com-a-qual-estamos-mais-acostumados-como-o-petroleo-vai-diminuir-enquanto-as-energias-renovaveis-apresentarao-aumento-foto-energy-gov-reproducao\"><strong>Capa. A tend\u00eancia \u00e9 que o consumo de energia com a qual estamos mais acostumados, como o petr\u00f3leo, vai diminuir, enquanto as energias renov\u00e1veis apresentar\u00e3o aumento.<br \/>\n<\/strong>(Foto: energy.gov. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel continuar dependendo dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, e as energias renov\u00e1veis&hellip;\n","protected":false},"author":131,"featured_media":4910,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[21],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4909"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4909"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4909\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4914,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4909\/revisions\/4914"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4910"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4909"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4909"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4909"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}