{"id":4956,"date":"2023-10-19T07:30:42","date_gmt":"2023-10-19T07:30:42","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=4956"},"modified":"2025-11-25T11:41:27","modified_gmt":"2025-11-25T11:41:27","slug":"entrar-nesse-sistema-de-producao-de-conhecimento-na-ciencia-e-fundamental-para-levar-um-novo-olhar-criando-possibilidades-de-cidadania","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=4956","title":{"rendered":"\u201cEntrar nesse sistema de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento na ci\u00eancia \u00e9 fundamental para levar um novo olhar, criando possibilidades de cidadania\u201d"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"confira-entrevista-com-luma-nogueira-de-andrade-diretora-do-instituto-de-humanidades-e-letras-da-unilab\"><span style=\"color: #808080;\">Confira entrevista com Luma Nogueira de Andrade, diretora do Instituto de Humanidades e Letras da UNILAB<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Luma Nogueira de Andrade, a primeira travesti a obter o t\u00edtulo de doutora no Brasil, acende um foco sobre a realidade enfrentada por minorias no campo da educa\u00e7\u00e3o. Embora sua nomea\u00e7\u00e3o tenha sido um marco, a pesquisadora expressa uma mistura de alegria e preocupa\u00e7\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o educacional de travestis e outras minorias. Ela destaca que muitos travestis sequer conseguem concluir o ensino fundamental, expondo uma realidade que atinge qualquer pessoa que n\u00e3o se enquadre nos padr\u00f5es culturais hegem\u00f4nicos da sociedade. \u201cApesar de toda a voz que n\u00f3s temos tido nos \u00faltimos anos, ainda existe muita resist\u00eancia em aceitar a diversidade, em especial de uma pessoa travesti e transexual, dentro da universidade\u201d, afirma a professora e diretora do no Instituto de Humanidades e nos Programas de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/unilab.edu.br\/\">Universidade da Integra\u00e7\u00e3o Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB)<\/a><\/strong><\/span>. Nesse contexto, Luma Andrade critica a cultura patriarcal e a rigidez dos padr\u00f5es de g\u00eanero. Ela aponta que a escola, como uma institui\u00e7\u00e3o da sociedade disciplinar, muitas vezes reproduz essa l\u00f3gica, resultando em viol\u00eancia contra travestis, homossexuais, l\u00e9sbicas, gays, negros, \u00edndios e outros que n\u00e3o se enquadram nos padr\u00f5es. Para ela, \u00e9 urgente que se compreenda o sexo e o g\u00eanero como constru\u00e7\u00f5es sociais e n\u00e3o como determina\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas, destacando o papel fundamental da escola nessa transforma\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00f3s precisamos humanizar nossa pr\u00e1tica e obter as informa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, mas tamb\u00e9m agir para modificar aquela realidade, que \u00e9 cruel\u201d, afirma.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Confira a entrevista!<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ci\u00eancia &amp; Cultura &#8211; Por que ainda hoje, em pleno ano 2023, a academia permanece dominada por cientistas brancos, homens, h\u00e9teros, cis? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Luma Nogueira de Andrade &#8211; <\/strong>Por conta do contexto hist\u00f3rico de uma sociedade que passou por um processo de coloniza\u00e7\u00e3o, o que traz em seu arcabou\u00e7o a quest\u00e3o do machismo, do racismo e de todo esse preconceito com determinadas popula\u00e7\u00f5es. Dentro desse contexto da hist\u00f3ria do Brasil, esses ideais s\u00e3o reproduzidos de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. Obviamente isso j\u00e1 tem se modificado um pouco no decorrer do tempo, mas ainda temos resqu\u00edcios muito fortes desse hist\u00f3rico. Temos dificuldade de chegar nesses espa\u00e7os, tanto a popula\u00e7\u00e3o negra e os povos tradicionais, como a popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+, as pessoas com defici\u00eancia e outros. Enfim, isso foi algo constru\u00eddo e usado como um processo de exclus\u00e3o desses povos. O que observamos \u00e9 que todo o fazer da sociedade est\u00e1 atrelado a determinados corpos privilegiados, que s\u00e3o os corpos do homem branco com determinadas condi\u00e7\u00f5es financeiras que determina o que pode e o que n\u00e3o pode dentro sociedade. Ent\u00e3o, dentro do contexto da hist\u00f3ria do Brasil, quem det\u00e9m o poder s\u00e3o essas pessoas com um determinado estere\u00f3tipo e uma determinada condi\u00e7\u00e3o financeira, que estabelecem as regras do jogo, que s\u00e3o obviamente regras para eles permanecerem no topo e excluir tudo aquilo que n\u00e3o faz parte da sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Como mudar esse cen\u00e1rio para dar mais visibilidade (e mais lugar) a outros grupos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LNA\u2013<\/strong> A necessidade de entrar nesses contextos de tomada de decis\u00e3o e de poder \u00e9 exatamente para poder levar um outro olhar, uma outra epistemologia, que \u00e9 completamente diferente. Ent\u00e3o entrar nesse sistema, inclusive na produ\u00e7\u00e3o de conhecimento na ci\u00eancia, \u00e9 fundamental para levar exatamente esse novo olhar, criando possibilidades de cidadania para essas resist\u00eancias que s\u00e3o diferentes. A\u00ed n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de privil\u00e9gio, mas \u00e9 uma quest\u00e3o de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Obviamente tem que ser pessoas com consci\u00eancia, porque n\u00e3o basta s\u00f3 ter a singularidade: tem que ter a consci\u00eancia pol\u00edtica do lugar hist\u00f3rico dos seus povos para poder agir de forma que modifique o fazer dentro desse sistema e produzir a inclus\u00e3o dessas pessoas dentro de um olhar de cidadania, de respeito, e de garantia de direitos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"eu-sabia-que-o-meu-sucesso-era-necessario-para-abrir-portas-para-outras-pessoas-travestis-e-transexuais-que-tambem-tinham-a-capacidade-de-poder-ocupar-esses-espacos-e-mudar-a-otica-do-sistema\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cEu sabia que o meu sucesso era necess\u00e1rio para abrir portas para outras pessoas travestis e transexuais que tamb\u00e9m tinham a capacidade de poder ocupar esses espa\u00e7os e mudar a \u00f3tica do sistema, produzindo novas epistemologias.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Por que \u00e9 importante a presen\u00e7a dessa diversidade (que inclui povos origin\u00e1rios, negros, popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+) na universidade? Como essa diversidade pode influenciar o fazer cient\u00edfico?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LNA &#8211;<\/strong> N\u00f3s estamos avan\u00e7ando dentro deste olhar com a entrada desses povos dentro da universidade. Isso tem produzido saberes utilizados para poder modificar o sistema. As produ\u00e7\u00f5es feitas por pessoas negras, pela popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+, etc. produz uma quebra de paradigma dentro da sociedade e vai ser utilizado como elementos para produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es que v\u00e3o promover a inser\u00e7\u00e3o dessas pessoas. Um exemplo \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o do nome social para pessoas trans. Eu fui uma das convidadas pelo <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"http:\/\/portal.mec.gov.br\/conselho-nacional-de-educacao\/apresentacao\">Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o (CNE)<\/a><\/strong><\/span> para fazer a defesa e a fundamenta\u00e7\u00e3o utilizada foi exatamente a produ\u00e7\u00e3o que fiz dentro da academia. Ent\u00e3o \u00e9 importante essas pessoas estarem nesses espa\u00e7os para poder fazer suas produ\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio existir uma possibilidade da exist\u00eancia desses corpos dentro das universidades. O pr\u00f3prio estado criou uma sistem\u00e1tica para impedir essas pessoas de terem acesso ao ensino superior. Isso aconteceu com as mulheres, com os negros e negras, e inclusive com a popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+. Inclusive existiram decretos que impossibilitava presen\u00e7a desses corpos homossexuais e transexuais dentro da universidade. O Estado criou estrat\u00e9gias para impossibilitar a exist\u00eancia dessas popula\u00e7\u00f5es dentro da universidade porque essas universidades foram pensadas para a elite, que estava criando as normas e obviamente n\u00e3o agiriam para poder incluir. Agora, com o contexto do avan\u00e7o da sociedade, o processo de di\u00e1logo e as produ\u00e7\u00f5es das novas epistemologias se percebe a necessidade dessa mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; O acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o de pessoas pertencentes \u00e0 comunidade LGBTQIA+ ainda \u00e9 muito dif\u00edcil no Brasil. Como as pol\u00edticas de a\u00e7\u00e3o afirmativa contribuem para melhorar esse cen\u00e1rio \u2013 e como poderiam contribuir ainda mais?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LNA &#8211;<\/strong> Os pr\u00f3prios movimentos se organizaram para lutar por esse espa\u00e7o dentro dessa universidade e dessa sociedade. E o que alcan\u00e7amos \u00e9 resultado dessa luta, que n\u00e3o \u00e9 dada por nenhum gestor. \u00c9 uma luta de todos os movimentos que abriu a possibilidade da quest\u00e3o das cotas para o acesso \u00e0 universidade para esses corpos, que inclusive t\u00eam um grande potencial de produzir epistemologias que fortale\u00e7am a exist\u00eancia de suas singularidades nas universidades e na sociedade como um todo. Ent\u00e3o esses corpos chegam \u00e0 universidade, e chegam atrav\u00e9s das pol\u00edticas afirmativas. E isso \u00e9 muito criticado por uma ala conservadora que pensa que a universidade n\u00e3o \u00e9 para esses corpos, o que \u00e9 uma forma de manter o sistema da forma tradicional. Por\u00e9m, as lutas dos movimentos produziram aberturas para a possibilidade do acesso atrav\u00e9s das cotas e essa popula\u00e7\u00e3o, quando entra nas universidades, mostra que tem capacidade \u2013 ao contr\u00e1rio de um discurso que tenta recuar os direitos conquistados com a ideia de que essa diversidade dentro dos espa\u00e7os universit\u00e1rios diminuiria a qualidade dessas institui\u00e7\u00f5es. Isso n\u00e3o \u00e9 ver\u00eddico. N\u00f3s temos dados de estudos que trazem justamente o contr\u00e1rio: os resultados produzidos por pessoas que entram atrav\u00e9s do sistema de cotas s\u00e3o excelentes e n\u00e3o deixam nada a desejar. E a\u00ed vem outra luta, pois n\u00e3o basta s\u00f3 o acesso. Tem que ter pol\u00edtica para essas pessoas se manterem tanto na gradua\u00e7\u00e3o quanto na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. E para isso s\u00e3o necess\u00e1rios recursos, porque essas pessoas necessitam de habita\u00e7\u00e3o, necessitam de alimenta\u00e7\u00e3o, necessitam de aquisi\u00e7\u00e3o de materiais para estudos para poder conseguir concluir o seu curso com sucesso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"nos-iniciamos-uma-historia-de-quebra-de-tabus-que-comeca-a-dialogar-sobre-essa-singularidade-e-a-importancia-da-inclusao-dessa-diversidade-e-a-contribuicao-dessa-diversidade-para-universidade\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cN\u00f3s iniciamos uma hist\u00f3ria de quebra de tabus que come\u00e7a a dialogar sobre essa singularidade e a import\u00e2ncia da inclus\u00e3o dessa diversidade e a contribui\u00e7\u00e3o dessa diversidade para universidade.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Como a sua presen\u00e7a como professora trans em uma universidade pode contribuir para que outras mulheres trans trilhem o mesmo caminho?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil ser a primeira. Eu sou a primeira doutora travesti do pa\u00eds e n\u00e3o foi nada f\u00e1cil chegar ao doutorado. Para chegar ao doutorado, o primeiro obst\u00e1culo que tive (estamos falando de outra \u00e9poca) foi exatamente que a minha proposta de pesquisa, que era estudar os travestis nas escolas, fosse vista como algo cient\u00edfico. Muitos doutores s\u00eaniores n\u00e3o compreendiam que essa pesquisa era algo importante e cient\u00edfico. Eles desclassificavam como algo que fosse de milit\u00e2ncia \u2013 como se separar as nossas vidas de uma milit\u00e2ncia fosse poss\u00edvel, porque todos n\u00f3s somos milit\u00e2ncia de algo que acreditamos, produzimos e fazemos nas rela\u00e7\u00f5es sociais. Enfim, n\u00e3o foi nada f\u00e1cil ultrapassar essa barreira e mostrar a import\u00e2ncia do estudo e que era um estudo cient\u00edfico. Foi um momento muito dif\u00edcil porque foi a primeira produ\u00e7\u00e3o sobre travestis nas escolas que chegava em uma universidade, ent\u00e3o n\u00e3o teve muito acolhimento. Mas na resist\u00eancia n\u00f3s abrimos espa\u00e7os. Eu sabia que o meu sucesso era necess\u00e1rio para abrir portas para outras pessoas travestis e transexuais que tamb\u00e9m tinham a capacidade de poder ocupar esses espa\u00e7os e mudar a \u00f3tica do sistema, produzindo novas epistemologias. A obra realmente entrou nessa seara de muita batalha para poder se afirmar, mas conseguiu o sucesso desejado que era exatamente discutir as condi\u00e7\u00f5es de uma pessoa travesti dentro do espa\u00e7o da escola. E isso faz parte, sim, de uma produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica das ci\u00eancias humanas, porque s\u00e3o seres humanos que estavam sendo renegados pela sociedade e pelo sistema educacional. Quando produzimos esse material que traz essa nova epistemologia, ensinamos \u00e0s travestis que est\u00e3o vivendo s\u00f3 na prostitui\u00e7\u00e3o, que est\u00e3o tentando sobreviver dentro da escola, que elas podem ocupar outros espa\u00e7os. Minha obra sequer foi indicada para o <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.gov.br\/capes\/pt-br\/assuntos\/premios\/premio-capes-de-tese\">pr\u00eamio Capes de teses<\/a><\/strong><\/span> porque n\u00e3o era considerada uma produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Mas depois se configurou um cl\u00e1ssico fundamental para dar esse olhar e contribuir com pol\u00edticas p\u00fablicas. Ent\u00e3o \u00e9 uma mudan\u00e7a de paradigma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Agora, falando um pouco sobre sua pesquisa, porque a presen\u00e7a LGBTQIA+ na escola ainda \u00e9 um campo de batalha? Quais s\u00e3o os maiores desafios para a educa\u00e7\u00e3o ser mais inclusiva para essas pessoas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LNA &#8211;<\/strong> J\u00e1 realizei v\u00e1rias pesquisas focadas na quest\u00e3o das pessoas travestis e transexuais e popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+. Tem uma certa press\u00e3o para eu realizar estudos desse tipo. No meu p\u00f3s-doutorado, que foi feito agora em 2020, estudei justamente as travestis que sa\u00edram do Brasil para morar em Portugal. E isso foi bem na \u00e9poca da pandemia. Eu encontrei essas travestis da \u00c1frica, de Portugal e do Brasil e acabei tendo essa esse contato com elas na rua. Muitas delas estava morando nas ruas e com minha atua\u00e7\u00e3o como como pesquisadora passaram para abrigos. Ent\u00e3o isso mostra a import\u00e2ncia de uma pesquisa-a\u00e7\u00e3o. Porque n\u00e3o basta apenas pesquisar os copos e depois ir embora. N\u00f3s pesquisadores e pesquisadores n\u00e3o podemos utilizar as pessoas como objetos em busca de informa\u00e7\u00f5es e de saberes e largar essas pessoas. N\u00f3s precisamos humanizar nossa pr\u00e1tica e obter as informa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, mas tamb\u00e9m agir para modificar aquela realidade, que \u00e9 cruel. Quando eu fui pesquisar as travestis que estavam vivendo em Portugal na pandemia eu pude verificar essas condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias e dar visibilidade para essa quest\u00e3o. Isso rendeu inclusive mat\u00e9rias na TV. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 dar visibilidade, tamb\u00e9m tem que contribuir para a modifica\u00e7\u00e3o daquela realidade. Se n\u00f3s podemos com nossa din\u00e2mica melhorar a qualidade de vida daquelas pessoas, e at\u00e9 mudar aquela realidade, por que n\u00e3o atuar? Por isso \u00e9 fundamental deixar de ver as pessoas como objeto para ver as pessoas como de fato seres humanos. E entender que n\u00e3o basta coletar informa\u00e7\u00e3o, mas que \u00e9 preciso modificar aquela realidade. Outra pesquisa que estou desenvolvendo \u00e9 um estudo <em>in loco<\/em> sobre quem s\u00e3o, como vivem, como est\u00e3o resistindo as travestis e transexuais que est\u00e3o dentro das universidades. Olhar para isso contribui para saber o que pode ser feito para essas popula\u00e7\u00f5es. N\u00f3s necessitamos de dados, pois sem dados n\u00e3o tem como agir. Ent\u00e3o acho que essa \u00e9 uma pesquisa de grande relev\u00e2ncia. Outra atua\u00e7\u00e3o que estou desenvolvendo \u00e9 uma atividade de extens\u00e3o que busca aproximar a universidade dos movimentos sociais. Porque \u00e9 uma via de m\u00e3o dupla, um precisa colaborar com o outro para podermos ter como protagonista dessas rela\u00e7\u00f5es a pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+. Ent\u00e3o esses movimentos t\u00eam que estar presente, fortalecendo esses jovens as essas jovens que est\u00e3o l\u00e1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-universidade-tem-que-estar-preparada-para-essa-sociedade-em-transformacao-tem-que-produzir-profissionais-qualificados-para-o-mercado-de-trabalho-e-que-respeite-as-pessoas-nas-relacoes-inte\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cA universidade tem que estar preparada para essa sociedade em transforma\u00e7\u00e3o, tem que produzir profissionais qualificados para o mercado de trabalho e que respeite as pessoas nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C \u2013 Quais os desafios dessas pessoas ocuparem esses espa\u00e7os, especialmente o espa\u00e7o acad\u00eamico?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LNA &#8211;<\/strong> Existe a tentativa desse silenciamento, dessa desqualifica\u00e7\u00e3o, como se n\u00e3o existisse uma produ\u00e7\u00e3o desse sentido porque existe um preconceito tamb\u00e9m com quem faz pela sua singularidade. Temos que superar isso porque essas pessoas s\u00e3o capazes de ocupar esses espa\u00e7os. Quando eu passei a ocupar esses espa\u00e7os, quando eu entrei na universidade e me tornei a primeira travesti professora em uma universidade desse pa\u00eds, eu passei a fazer palestras para o Brasil inteiro, e at\u00e9 em outros pa\u00edses, para poder apresentar minha produ\u00e7\u00e3o. Eu era vista como algo a ser observado. As pessoas se questionavam: como se comporta uma pessoa travesti em uma palestra? O que ela vai falar? Inclusive eu n\u00e3o falava sobre a minha hist\u00f3ria de vida nesse per\u00edodo porque eu entendia que n\u00e3o daria credibilidade. Assim, eu passei a relatar exatamente o que eu tinha escrito, o que eu tinha produzido enquanto ci\u00eancia. Isso foi muito importante para mostrar que realmente eu tinha feito um doutorado, eu tinha feito uma produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de qualidade, que tinha sentido e tinha relev\u00e2ncia social. Isso foi \u00f3timo porque as pessoas come\u00e7ar a avaliar a import\u00e2ncia dessas popula\u00e7\u00f5es ocuparem esses lugares. Posteriormente n\u00f3s tivemos mais uma travesti que conseguiu adentrar esse espa\u00e7o de doutora e se tornar professora na <strong><a href=\"Universidade%20Federal%20do%20Paran%25C3%25A1%20(UFPR)\"><span style=\"color: #800000;\">Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR<\/span>)<\/a><\/strong>, a Megg Rayara. A\u00ed outras e outros vem conseguindo isso. Ent\u00e3o, as pessoas come\u00e7aram a observar essas conquistas e muito tempo depois come\u00e7am a entrar novas travestis e transexuais em doutorados. N\u00f3s iniciamos uma hist\u00f3ria de quebra de tabus que come\u00e7a a dialogar sobre essa singularidade e a import\u00e2ncia da inclus\u00e3o dessa diversidade e a contribui\u00e7\u00e3o dessa diversidade para universidade. Porque a nossa presen\u00e7a dentro da universidade em qualquer lugar que n\u00f3s estejamos \u00e9 pedag\u00f3gica, os nossos corpos ensinam o tempo todo, e isso modifica o espa\u00e7o e a din\u00e2mica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C \u2013 E como as universidades est\u00e3o acolhendo essas mudan\u00e7as?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LNA &#8211;<\/strong> Quando se trata de uma pessoa que tomou consci\u00eancia pol\u00edtica, o sistema muda. Quando eu entrei na universidade como professora, uma das radicais contribui\u00e7\u00f5es que fiz participar da constru\u00e7\u00e3o do Projeto Pedag\u00f3gico do Curso (PPC). Isso \u00e9 realmente relevante, porque trata do que vamos levar para forma\u00e7\u00e3o dos futuros professores e professoras. Ent\u00e3o trazer novas disciplinas, como educa\u00e7\u00e3o, g\u00eanero e sexualidade, para o curso de pedagogia de forma obrigat\u00f3ria \u00e9 uma mudan\u00e7a no sistema, porque o sistema n\u00e3o v\u00ea isso como importante. Porque n\u00f3s n\u00e3o podemos continuar formando profissionais que v\u00e3o atuar nesse mercado dizendo quem \u00e9 que eles v\u00e3o atender, dizendo \u201cs\u00f3 vou atender pessoas brancas\u201d ou \u201cs\u00f3 vou atender pessoas heterossexuais\u201d. A universidade tem que estar preparada para essa sociedade em transforma\u00e7\u00e3o, tem que produzir profissionais qualificados para o mercado de trabalho e que respeite as pessoas nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais. Apesar de toda a voz que n\u00f3s temos tido nos \u00faltimos anos, ainda existe muita resist\u00eancia em aceitar a diversidade, em especial de uma pessoa travesti e transexual, dentro da universidade. Hoje eu sou diretora de um instituto, mas continuo sofrendo discrimina\u00e7\u00e3o e preconceito. Inclusive no per\u00edodo eleitoral para a diretoria, eu sofri ataques na tentativa de me retirar do processo. Mesmo ap\u00f3s eu ser eleita pelo maior instituto da UNILAB, eu acabei sofrendo repres\u00e1lias. Todos os servidores foram removidos pela reitoria e n\u00e3o houve transi\u00e7\u00e3o entre uma gest\u00e3o e outra. Ainda hoje estou sofrendo v\u00e1rios ataques na tentativa de sucateamento do Instituto que eu dirijo. E por eu denunciar essa situa\u00e7\u00e3o publicamente, o que acabou saindo na m\u00eddia nacional, o reitor da institui\u00e7\u00e3o entrou com uma not\u00edcia-crime na Justi\u00e7a Federal contra mim por cal\u00fania e difama\u00e7\u00e3o. Felizmente, o juiz entendeu a situa\u00e7\u00e3o e rejeitou a not\u00edcia-crime. Isso \u00e9 uma evid\u00eancia de como ocorre o tratamento das pessoas travestis e transexuais, principalmente quando ousam ocupar espa\u00e7os chancelados pelas elites, que n\u00e3o aceitam a nossa exist\u00eancia dentro desses lugares de tomada de decis\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Confira entrevista com Luma Nogueira de Andrade, diretora do Instituto de Humanidades&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":4957,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2,864],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4956"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4956"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4956\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4959,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4956\/revisions\/4959"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4957"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4956"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4956"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4956"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}