{"id":5053,"date":"2023-11-08T08:00:55","date_gmt":"2023-11-08T08:00:55","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=5053"},"modified":"2024-09-18T13:13:02","modified_gmt":"2024-09-18T13:13:02","slug":"crise-hidrica-a-resiliencia-dos-biomas-brasileiros-diante-das-mudancas-climaticas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=5053","title":{"rendered":"Crise h\u00eddrica: a resili\u00eancia dos biomas brasileiros diante das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"para-alem-dos-ciclos-naturais-a-influencia-humana-agrava-o-problema-da-crise-hidrica-no-pais\"><span style=\"color: #808080;\">Para al\u00e9m dos ciclos naturais, a influ\u00eancia humana agrava o problema da crise h\u00eddrica no pa\u00eds<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A crise h\u00eddrica de 2023 no Amazonas atinge propor\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e sem precedentes, impactando mais de 600 mil habitantes, de acordo com informa\u00e7\u00f5es divulgadas pela Defesa Civil. Enquanto a Amaz\u00f4nia enfrenta essa severa escassez de \u00e1gua, a regi\u00e3o Sul do Brasil \u00e9 assolada por precipita\u00e7\u00f5es intensas. Esses eventos s\u00e3o, em parte, atribu\u00eddos ao fen\u00f4meno clim\u00e1tico <em>El Ni\u00f1o<\/em>, que provoca condi\u00e7\u00f5es de seca no Norte e chuvas abundantes no Sul do pa\u00eds. At\u00e9 o momento neste ano, um total de 5,8 milh\u00f5es de pessoas se viram afetadas por chuvas intensas e prolongadas secas, segundo dados reunidos pela <strong><a href=\"https:\/\/www.cnm.org.br\/\"><span style=\"color: #800000;\">Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Munic\u00edpios<\/span><\/a><\/strong>.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 2021 o Brasil presenciava o que parecia ser sua pior crise h\u00eddrica, com precipita\u00e7\u00f5es mais baixas dos \u00faltimos 91 anos. Risco de contamina\u00e7\u00e3o com o uso de volume morto dos reservat\u00f3rios, aumento tarif\u00e1rio em torno de 130% ocasionado pelo uso de combust\u00edveis f\u00f3sseis por usinas termel\u00e9tricas, preju\u00edzos na agricultura que geram infla\u00e7\u00e3o no pre\u00e7o final de alimentos\u2026 Esses s\u00e3o apenas alguns dos danos socioecon\u00f4micos presenciados pela popula\u00e7\u00e3o brasileira. \u201cA depender da magnitude e frequ\u00eancia dos eventos extremos e de suas consequ\u00eancias nas altera\u00e7\u00f5es dos ecossistemas, podemos chegar em um ponto de n\u00e3o retorno, onde n\u00e3o h\u00e1 mais condi\u00e7\u00f5es de regenera\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 realmente alarmante\u201d, declara V\u00e2nia Rosa Pereira, pesquisadora do <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.cpa.unicamp.br\/\">Centro de Pesquisas Meteorol\u00f3gicas e Clim\u00e1ticas Aplicadas \u00e0 Agricultura (Cepagri)<\/a><\/strong><\/span> da<span style=\"color: #800000;\"> <strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.unicamp.br\/\">Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)<\/a><\/strong>.<\/span><\/p>\n<p>A crise h\u00eddrica no pa\u00eds \u00e9 o resultado direto da degrada\u00e7\u00e3o dos biomas brasileiros, cujas recorrentes secas e escassez t\u00eam papel crucial no ciclo hidrol\u00f3gico e na disponibilidade de \u00e1gua. O efeito cascata \u00e9 literal: com a redu\u00e7\u00e3o das chuvas ao permitir o avan\u00e7o do desmatamento nos biomas brasileiros, a produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica despenca, empobrece o pa\u00eds e agrava a inseguran\u00e7a alimentar da popula\u00e7\u00e3o, ocasionando em uma necessidade emergencial de a\u00e7\u00f5es integradas de pol\u00edticas ambientais e humanit\u00e1rias. (Figura 1)<\/p>\n<h6 id=\"figura-1-a-crise-hidrica-no-pais-e-o-resultado-direto-da-degradacao-dos-biomas-brasileiros-cujas-recorrentes-secas-e-escassez-tem-papel-crucial-no-ciclo-hidrologico-e-na-disponibilidade-de-agua-fo\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-5057\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/CC-4E23-reportagem-Crise-hi\u0301drica-figura1-300x180.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"299\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/CC-4E23-reportagem-Crise-hi\u0301drica-figura1-300x180.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/CC-4E23-reportagem-Crise-hi\u0301drica-figura1-1024x613.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/CC-4E23-reportagem-Crise-hi\u0301drica-figura1-768x460.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/CC-4E23-reportagem-Crise-hi\u0301drica-figura1-1536x919.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/CC-4E23-reportagem-Crise-hi\u0301drica-figura1-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/CC-4E23-reportagem-Crise-hi\u0301drica-figura1-800x479.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/CC-4E23-reportagem-Crise-hi\u0301drica-figura1-1160x694.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/CC-4E23-reportagem-Crise-hi\u0301drica-figura1.jpg 1691w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><strong>Figura 1. A crise h\u00eddrica no pa\u00eds \u00e9 o resultado direto da degrada\u00e7\u00e3o dos biomas brasileiros, cujas recorrentes secas e escassez t\u00eam papel crucial no ciclo hidrol\u00f3gico e na disponibilidade de \u00e1gua.<br \/>\n<\/strong>(Foto: Sabesp. Divulga\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"como-as-mudancas-climaticas-estao-alterando-os-recursos-hidricos-no-pais\"><strong>Como as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas est\u00e3o alterando os recursos h\u00eddricos no pa\u00eds?<\/strong><\/h4>\n<p>O n\u00famero de desastres naturais causados pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas aumentou cinco vezes em 50 anos e matou mais de duas milh\u00f5es de pessoas, segundo a <strong><a href=\"https:\/\/news.un.org\/pt\/tags\/organizacao-meteorologica-mundial\"><span style=\"color: #800000;\">Organiza\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica Mundial (OMM)<\/span><\/a><\/strong>, ag\u00eancia ligada \u00e0s <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/brasil.un.org\/pt-br\">Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU)<\/a><\/strong><\/span>. As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas t\u00eam provocado altera\u00e7\u00f5es nos padr\u00f5es de precipita\u00e7\u00e3o, nas temperaturas, nos n\u00edveis e na qualidade da \u00e1gua em \u00e1reas costeiras, na fenologia das plantas, no funcionamento dos ecossistemas e, al\u00e9m disso, t\u00eam afetado a distribui\u00e7\u00e3o da biodiversidade, inclusive de vetores transmissores de doen\u00e7as. Tais mudan\u00e7as interagem com diversos fatores de press\u00e3o sociais e ambientais, cujos potenciais impactos se amplificam cada vez mais. \u201cJ\u00e1 \u00e9 sabido que os eventos clim\u00e1ticos t\u00eam se comportado de maneira mais intensa do que usual. E embora as previs\u00f5es estejam dispon\u00edveis com anteced\u00eancia, associadas a um conhecimento cient\u00edfico consolidado mostrando que os eventos meteorol\u00f3gicos, como as chuvas e as estiagens t\u00eam sido mais intensas do que usual, o que tem faltado s\u00e3o medidas preventivas que nos capacitem a um melhor enfrentamento dessas condi\u00e7\u00f5es extremas\u201d, declara Pedro Luiz C\u00f4rtes, professor do Instituto de Energia e Ambiente da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www5.usp.br\/\">Universidade de S\u00e3o Paulo (USP)<\/a><\/strong><\/span>, pesquisador em pol\u00edticas p\u00fablicas de combate \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e revisor de relat\u00f3rios do <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.googleadservices.com\/pagead\/aclk?sa=L&amp;ai=DChcSEwj8geOt4J2CAxW9VEgAHR2FCLMYABACGgJjZQ&amp;gclid=Cj0KCQjwqP2pBhDMARIsAJQ0CzrFnQ1cGM5lPzEr_niraP1sy7xjud5pai_9Q_A8RczBW2WeOjFfD-oaAnSSEALw_wcB&amp;ohost=www.google.com&amp;cid=CAESVuD2TQXjTPQ4LOvpp8wl6c_mqGOrsBPw-BJqLuqUMYFraorWYbw_0Evwl35rSKuxkEEK8z1OBQl7mRl7uzs89EyvGKliKeuZzraRr_JUCeuG267viw6h&amp;sig=AOD64_2mEHG-uqoM_smop1BbYRw9FxEyDA&amp;q&amp;adurl&amp;ved=2ahUKEwj37Nyt4J2CAxWNrZUCHQV-DngQ0Qx6BAgKEAE\">Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC)<\/a><\/strong><\/span> da ONU. \u201cDiscuss\u00f5es que deveriam ser pautadas com urg\u00eancia, como, por exemplo, o que fazer diante da emerg\u00eancia clim\u00e1tica, acabam perdendo espa\u00e7o para outros temas que parecem preocupar mais os pol\u00edticos do que essas situa\u00e7\u00f5es extremas que temos vivido\u201d.<\/p>\n<h4 id=\"impactos-nos-biomas-brasileiros\"><strong>Impactos nos biomas brasileiros<\/strong><\/h4>\n<p>Segundo maior bioma do pa\u00eds, o Cerrado enfrenta uma devasta\u00e7\u00e3o desenfreada e atingiu o topo no ranking do desmatamento. Somente nos \u00faltimos 12 meses, mais de 6,3 mil km<sup>2<\/sup> foram derrubados, de acordo com o <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"http:\/\/www.obt.inpe.br\/OBT\/assuntos\/programas\/amazonia\/deter\/deter\">Sistema de Detec\u00e7\u00e3o de Desmatamento em Tempo Real (Deter)<\/a><\/strong><\/span>. Em 50 anos, metade de sua vegeta\u00e7\u00e3o original j\u00e1 n\u00e3o existe mais. Irregularidades na concess\u00e3o de licen\u00e7as, falta de fiscaliza\u00e7\u00e3o e o fato de possuir apenas 10% de sua \u00e1rea protegida deixa a regi\u00e3o vulner\u00e1vel ao avan\u00e7o do desmatamento em propriedades privadas, sendo o agroneg\u00f3cio seu principal causador. O Cerrado \u00e9 a savana com maior biodiversidade em fauna e flora do mundo e \u00e9 o ber\u00e7o de 8 entre as 12 principais bacias hidrogr\u00e1ficas do Brasil. (Figura 2)<\/p>\n<h6 id=\"figura-2-segundo-maior-bioma-do-pais-o-cerrado-enfrenta-uma-devastacao-desenfreada-e-atingiu-o-topo-no-ranking-do-desmatamento-foto-marcelo-camargo-agencia-brasil-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-5058\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/CC-4E23-reportagem-Crise-hi\u0301drica-figura2-300x180.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"299\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/CC-4E23-reportagem-Crise-hi\u0301drica-figura2-300x180.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/CC-4E23-reportagem-Crise-hi\u0301drica-figura2-1024x613.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/CC-4E23-reportagem-Crise-hi\u0301drica-figura2-768x460.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/CC-4E23-reportagem-Crise-hi\u0301drica-figura2-1536x919.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/CC-4E23-reportagem-Crise-hi\u0301drica-figura2-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/CC-4E23-reportagem-Crise-hi\u0301drica-figura2-800x479.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/CC-4E23-reportagem-Crise-hi\u0301drica-figura2-1160x694.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/CC-4E23-reportagem-Crise-hi\u0301drica-figura2.jpg 1691w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 2. Segundo maior bioma do pa\u00eds, o Cerrado enfrenta uma devasta\u00e7\u00e3o desenfreada e atingiu o topo no ranking do desmatamento.<br \/>\n<\/strong>(Foto: Marcelo Camargo\/ Ag\u00eancia Brasil. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A atual seca no bioma Amaz\u00f4nico deixa evidente sua situa\u00e7\u00e3o de fragilidade para lidar com as adversidades clim\u00e1ticas. Al\u00e9m disso, a contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua por agrot\u00f3xicos, pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea, redu\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, deslocamento for\u00e7ado de povos tradicionais, mil\u00edcias rurais, entre outros fatores, enfraquecem comunidades inteiras e colocam em risco a quest\u00e3o h\u00eddrica e energ\u00e9tica com impacto humano e urbano. \u201cA Amaz\u00f4nia vive o paradoxo de que, embora conhecida por sua alta disponibilidade h\u00eddrica, atualmente possui baix\u00edssimas condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a h\u00eddrica. \u00c9 o bioma que registra d\u00e9ficits marcantes de instrumentos b\u00e1sicos de gest\u00e3o dos recursos h\u00eddricos, saneamento b\u00e1sico, infraestrutura, governan\u00e7a e articula\u00e7\u00e3o local em rela\u00e7\u00e3o aos recursos h\u00eddricos\u201d, aponta V\u00e2nia Pereira.<\/p>\n<p>Na Mata Atl\u00e2ntica, o bioma ocupado por mais de 70% da popula\u00e7\u00e3o brasileira atualmente possui apenas 12,4% da cobertura de sua vegeta\u00e7\u00e3o original, resultado do desmatamento que acentua o quadro de eventos clim\u00e1ticos, como o temporal devastador ocorrido no litoral paulista que matou 65 pessoas em fevereiro deste ano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"a-depender-da-magnitude-e-frequencia-dos-eventos-extremos-e-de-suas-consequencias-nas-alteracoes-dos-ecossistemas-podemos-chegar-a-um-ponto-de-nao-retorno-onde-nao-ha-mais-condicoes-de-rege\" style=\"text-align: center;\"><em><span style=\"color: #800000;\">\u201cA depender da magnitude e frequ\u00eancia dos eventos extremos e de suas consequ\u00eancias nas altera\u00e7\u00f5es dos ecossistemas, podemos chegar a um ponto de n\u00e3o retorno, onde n\u00e3o h\u00e1 mais condi\u00e7\u00f5es de regenera\u00e7\u00e3o.\u201d<\/span><\/em><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J\u00e1 a Caatinga possui um hist\u00f3rico de d\u00e9ficit h\u00eddrico devido a longas estiagens sazonais, tornando seus rios intermitentes. No entanto, o problema \u00e9 agravado pela retirada significativa de \u00e1gua para a agricultura irrigada e \u00e1reas urbanas. Mesmo com instrumentos de gest\u00e3o existentes, as crises h\u00eddricas persistem. Al\u00e9m disso, a Caatinga tem as piores condi\u00e7\u00f5es de saneamento b\u00e1sico do pa\u00eds. As proje\u00e7\u00f5es para o futuro indicam redu\u00e7\u00e3o nas vaz\u00f5es e aumento de secas extremas, tornando a regi\u00e3o ainda mais vulner\u00e1vel em termos de quantidade e qualidade de \u00e1gua. Fatores socioecon\u00f4micos, como a falta de infraestrutura e saneamento, pobreza e agricultura de sequeiro s\u00e3o as principais vulnerabilidades diante das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas nesse bioma.<\/p>\n<p>No Pantanal, a falta de infraestrutura e saneamento b\u00e1sico, juntamente com um fraco monitoramento da qualidade da \u00e1gua, representa uma s\u00e9ria preocupa\u00e7\u00e3o para a seguran\u00e7a h\u00eddrica. Embora haja uma grande quantidade de \u00e1gua dispon\u00edvel atualmente, a capacidade de resposta a eventos de seca extrema \u00e9 limitada devido \u00e0 fr\u00e1gil governan\u00e7a regional. Proje\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas futuras apontam para um aumento de secas excepcionais, o que pode resultar em mudan\u00e7as significativas nos per\u00edodos de inunda\u00e7\u00e3o. Isso tornaria a regi\u00e3o ainda mais suscet\u00edvel \u00e0 polui\u00e7\u00e3o difusa, contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua subterr\u00e2nea e perda da biodiversidade.<\/p>\n<p>J\u00e1 nos Pampas, atualmente caracterizado por uma alta disponibilidade de \u00e1gua e um bom acesso a servi\u00e7os de saneamento, o aumento da demanda de \u00e1gua, principalmente para a produ\u00e7\u00e3o de arroz irrigado, gera o potencial aumento da polui\u00e7\u00e3o e contamina\u00e7\u00e3o do len\u00e7ol fre\u00e1tico. \u201cOs conflitos pelo uso m\u00faltiplo da \u00e1gua e perdas de biodiversidade podem ser amplificadas\u201d, alerta V\u00e2nia Pereira.<\/p>\n<h4 id=\"\"><\/h4>\n<h4 id=\"acoes-para-mitigar-os-efeitos\"><strong>A\u00e7\u00f5es para mitigar os efeitos<\/strong><\/h4>\n<p>Tradicionalmente, o Brasil tem adotado um modelo de gerenciamento de crises para enfrentar situa\u00e7\u00f5es de seca. Isso implica na tomada de medidas reativas e emergenciais somente ap\u00f3s a ocorr\u00eancia da escassez de \u00e1gua, concentrando-se na mitiga\u00e7\u00e3o dos efeitos da seca. No entanto, esse enfoque n\u00e3o contribui para fortalecer a resili\u00eancia do sistema diante de crises futuras. \u201cN\u00e3o temos que esperar o que quer que aconte\u00e7a durante o pico do evento clim\u00e1tico para agir. \u00c9 importante que haja o monitoramento cont\u00ednuo de condi\u00e7\u00f5es que podem levar a uma redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de reservat\u00f3rios, por exemplo, sempre considerando algo cont\u00ednuo, que n\u00e3o pode parar\u201d, analisa Jos\u00e9 Antonio Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"http:\/\/www.cemaden.gov.br\/\">Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN)<\/a><\/strong><\/span>. O CEMADEN realiza monitoramento de secas e risco de fogo nas principais bacias do pa\u00eds, seja para avalia\u00e7\u00e3o de disponibilidade para consumo humano ou para gera\u00e7\u00e3o de energia. Este monitoramento come\u00e7ou em 2013 devido \u00e0 crise energ\u00e9tica em S\u00e3o Paulo e se estendeu para outras bacias estrat\u00e9gicas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"embora-as-previsoes-estejam-disponiveis-com-antecedencia-associadas-a-um-conhecimento-cientifico-consolidado-mostrando-que-os-eventos-meteorologicos-como-as-chuvas-e-as-estiagens-tem-sido\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cEmbora as previs\u00f5es estejam dispon\u00edveis com anteced\u00eancia, associadas a um conhecimento cient\u00edfico consolidado mostrando que os eventos meteorol\u00f3gicos, como as chuvas e as estiagens, t\u00eam sido mais intensas do que usual, o que tem faltado s\u00e3o medidas preventivas que nos capacitem a um melhor enfrentamento dessas condi\u00e7\u00f5es extremas.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/monitordesecas.ana.gov.br\/\">Monitor de Secas do Brasil<\/a><\/strong><\/span>, gerenciado pela <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.gov.br\/ana\/pt-br\">Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas e Saneamento B\u00e1sico (ANA)<\/a><\/strong><\/span> e o sistema de monitoramento dos efeitos da seca realizado pelo CEMADEN s\u00e3o ferramentas que produzem a classifica\u00e7\u00e3o da intensidade da seca como resultado de suas atividades. Em 2022 foi lan\u00e7ada a segunda edi\u00e7\u00e3o do <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/dadosabertos.ana.gov.br\/maps\/897b12b3081c49678a1b2161c372b70c\">Atlas \u00c1guas<\/a><\/strong>,<\/span> um estudo que visa identificar vulnerabilidades no abastecimento de \u00e1gua nas \u00e1reas urbanas e recomendar medidas de gest\u00e3o para garantir a seguran\u00e7a h\u00eddrica. O estudo destacou a necessidade de investimento de R$ 110 bilh\u00f5es em infraestruturas de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua at\u00e9 2035, sendo 76% deste investimento necess\u00e1rio para as regi\u00f5es Sudeste e Nordeste devido \u00e0 alta densidade populacional nesses locais.<\/p>\n<p>Atualmente, a Defesa Civil de estados e munic\u00edpios emitem alertas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o presente em \u00e1reas onde a previs\u00e3o meteorol\u00f3gica apresenta iminente risco de evento clim\u00e1tico. Contudo, esses alertas ainda possuem baixa ades\u00e3o e efetividade, j\u00e1 que \u00e9 necess\u00e1rio o cadastro voluntariamente pela pessoa interessada. \u201cN\u00e3o somente os alertas devem ocorrer de forma mandat\u00f3ria, mas h\u00e1 medidas que podem ser tomadas localmente pelos governos, como organiza\u00e7\u00e3o de rotas de fuga, indicando onde buscar abrigo e outras de cunho estrutural, onde a popula\u00e7\u00e3o pode ser realocada das \u00e1reas de risco para ocupar \u00e1reas com condi\u00e7\u00f5es dignas de habita\u00e7\u00e3o, pois, as pessoas n\u00e3o v\u00e3o para a \u00e1rea de risco porque elas querem, elas v\u00e3o por falta de op\u00e7\u00e3o\u201d, analisa Pedro C\u00f4rtes.<\/p>\n<p>Paralelamente, \u00e9 fundamental investir em uma cultura de conscientiza\u00e7\u00e3o, resultando em uma sociedade que seja minimamente sustent\u00e1vel, mais preparada e engajada na preserva\u00e7\u00e3o dos recursos h\u00eddricos, com uma maior vis\u00e3o de longo prazo. \u201c\u00c9 imposs\u00edvel conter os eventos que v\u00e3o acontecer, mas devemos minimizar, sobretudo, a perda de vidas humanas\u201d, pontua Jos\u00e9 Antonio Marengo.<\/p>\n<p>Ao adotar medidas que promovem uma gest\u00e3o preventiva ao inv\u00e9s de reativa, nos aproximamos do conceito da seguran\u00e7a h\u00eddrica, pontuado pelo estudo <strong><span style=\"color: #800000;\"><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/docs.google.com\/document\/u\/0\/d\/1eCvzwBOcT8JEON8GMwe-ZwNdByL_qWZDXoC0CICjZ68\/edit\">Vulnerabilidades da seguran\u00e7a h\u00eddrica no Brasil frente \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/a><\/span><u>,<\/u><\/strong> de V\u00e2nia Pereira em colabora\u00e7\u00e3o com Daniel Andr\u00e9s Rodriguez, do Instituto Alberto Luiz Coimbra de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o e Pesquisa de Engenharia da<span style=\"color: #800000;\"> <strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/ufrj.br\/\">Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)<\/a><\/strong><\/span>. \u201cO termo \u00e9 de imensa relev\u00e2ncia no contexto atual, cujo planejamento precisa considerar a incerteza e a n\u00e3o estacionaridade do clima, buscando um olhar para al\u00e9m das quest\u00f5es ligadas \u00e0 seguran\u00e7a energ\u00e9tica, alimentar e socioambiental\u201d, enfatiza. Essa abordagem visa assegurar o acesso sustent\u00e1vel \u00e0 \u00e1gua de qualidade, atendendo \u00e0s necessidades humanas, econ\u00f4micas, ambientais e sociais, enfrentando os desafios presentes e futuros relacionados \u00e0 \u00e1gua.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"e-importante-que-haja-o-monitoramento-continuo-de-condicoes-que-podem-levar-a-uma-reducao-do-numero-de-reservatorios-sempre-considerando-algo-continuo-que-nao-pode-parar\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201c\u00c9 importante que haja o monitoramento cont\u00ednuo de condi\u00e7\u00f5es que podem levar a uma redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de reservat\u00f3rios, sempre considerando algo cont\u00ednuo, que n\u00e3o pode parar.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A crise h\u00eddrica que o Brasil enfrenta, agravada pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, demanda uma resposta proativa e emergencial por parte da na\u00e7\u00e3o. Para encarar esse desafio, \u00e9 imperativo promover uma mudan\u00e7a de paradigma, transicionando de uma abordagem reativa para uma estrat\u00e9gia de seguran\u00e7a h\u00eddrica preventiva. Este novo enfoque envolve a aloca\u00e7\u00e3o de recursos em monitoramento ininterrupto, infraestrutura h\u00eddrica, sistemas de alerta eficazes e, sobretudo, em fomentar uma cultura de conscientiza\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o dos recursos h\u00eddricos. \u201cTemos que atuar em uma nova din\u00e2mica que precisa ser corretamente assimilada pelos gestores p\u00fablicos e a popula\u00e7\u00e3o precisa ser permanentemente informada para que ela possa cobrar isso dos gestores e estar ao menos mais precavida. Talvez n\u00f3s n\u00e3o possamos evitar a perda econ\u00f4mica e a perda de bens materiais, mas \u00e9 fundamental que consigamos salvar vidas\u201d, declara Pedro C\u00f4rtes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-a-atual-seca-na-amazonia-deixa-evidente-sua-situacao-de-fragilidade-para-lidar-com-as-adversidades-climaticas-foto-defesa-civil-am-reproducao\"><strong>Capa. A atual seca na Amaz\u00f4nia deixa evidente sua situa\u00e7\u00e3o de fragilidade para lidar com as adversidades clim\u00e1ticas.<br \/>\n<\/strong>(Foto: Defesa Civil AM. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 id=\"http-dx-doi-org-10-5935-2317-6660-20230060\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.5935\/2317-6660.20230060\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/dx.doi.org\/10.5935\/2317-6660.20230060<\/a><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Para al\u00e9m dos ciclos naturais, a influ\u00eancia humana agrava o problema da&hellip;\n","protected":false},"author":42,"featured_media":5056,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5053"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/42"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5053"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5053\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7123,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5053\/revisions\/7123"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5056"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5053"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5053"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5053"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}