{"id":5557,"date":"2024-03-07T08:00:38","date_gmt":"2024-03-07T08:00:38","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=5557"},"modified":"2024-09-18T13:03:10","modified_gmt":"2024-09-18T13:03:10","slug":"depoimento-de-amigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=5557","title":{"rendered":"Depoimento de amigo"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"convivencia-aprendizado-e-amizade-entre-cesar-lattes-e-eu\"><span style=\"color: #808080;\">Conviv\u00eancia, aprendizado e amizade entre Cesar Lattes e eu<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A primeira vez que soube de Cesar Lattes foi por meio de uma imagem na revista <em>Cruzeiro <\/em>na d\u00e9cada de 1950. Ele havia sido fotografado em Recife. Nessa ocasi\u00e3o, eu cursava o gin\u00e1sio (atualmente, ensino fundamental).<\/p>\n<p>Certamente, n\u00e3o imaginava que, muitos anos depois, eu estaria participando das pesquisas desenvolvidas sob a \u00e9gide da Colabora\u00e7\u00e3o Brasil-Jap\u00e3o de Raios C\u00f3smicos (CBJ), em experimentos desenvolvidos no monte Chacaltaya (Bol\u00edvia).<\/p>\n<p>Chacaltaya foi \u201cdescoberto\u201d por Cesar ainda em Bristol (Reino Unido) e, pouco depois, passou a ser usado por ele para observar \u2013 usando como detector placas fotogr\u00e1ficas especiais (emuls\u00f5es nucleares) \u2013 dezenas de eventos de m\u00e9sons pi (hoje, p\u00edons) decaindo em m\u00e9sons mi (hoje, m\u00faons).<\/p>\n<p>Os p\u00edons s\u00e3o respons\u00e1veis pela aglomera\u00e7\u00e3o dos n\u00facleons (pr\u00f3tons e n\u00eautrons) no n\u00facleo at\u00f4mico, e os m\u00faons s\u00e3o el\u00e9trons pesados. Ao decair, um p\u00edon carregado d\u00e1 origem a um m\u00faon e a uma part\u00edcula neutra (hoje, neutrino).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"nas-conversas-com-cesar-o-que-era-marcante-era-essa-sua-maneira-de-ensinar-subliminarmente-ele-pedia-opiniao-sobre-determinado-topico-em-seguida-induzia-a-pessoa-a-raciocinar-para-chegar\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cNas conversas com Cesar, o que era marcante era essa sua maneira de ensinar subliminarmente. Ele pedia opini\u00e3o sobre determinado t\u00f3pico; em seguida, induzia a pessoa a raciocinar para chegar \u00e0 validade (ou n\u00e3o) da opini\u00e3o.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cesar e eu fomos apresentados um ao outro pelo grande amigo Shozo Motoyama, que j\u00e1 o conhecia, porque o pai de Shozo, ainda na d\u00e9cada de 1950, havia proposto a vinda ao Brasil de Hideki Yukawa, primeiro japon\u00eas a ganhar o Nobel. O pr\u00eamio foi dado pela proposi\u00e7\u00e3o, em 1935, do p\u00edon, part\u00edcula que seria observada por Cesar cerca de 10 anos depois.<\/p>\n<p>Lembro-me de que, nesse primeiro encontro, est\u00e1vamos (Armando Turtelli Jr. e eu) nos equilibrando em um banco retirado de uma kombi. Ou seja, formalidades n\u00e3o eram com o Cesar.<\/p>\n<p>Cito aqui mais tr\u00eas outros exemplos da irrever\u00eancia e informalidade de Cesar:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li>Na elabora\u00e7\u00e3o da minha tese de doutoramento, fui advertido por Cesar de que n\u00e3o podia trat\u00e1-lo nem por \u201csenhor\u201d, nem \u201cprofessor\u201d, mas, sim, por \u201cCesar\u201d ou \u201cvoc\u00ea\u201d. Em seguida, fechou a tese e s\u00f3 a reabriu quando consegui pronunciar um \u201cvoc\u00ea\u201d.<\/li>\n<li>Em minha primeira miss\u00e3o na Bol\u00edvia, a trabalho da CBJ, fizemos consider\u00e1vel aquisi\u00e7\u00e3o de placas usinadas de chumbo para os experimentos; mas a autoriza\u00e7\u00e3o para o envio do dinheiro do Brasil para pagar a compra atrasou consideravelmente. Consequentemente, fiquei retido l\u00e1, num tipo de estada for\u00e7ada e quase sem dinheiro. Para piorar a situa\u00e7\u00e3o, o governo boliviano havia decretado desvaloriza\u00e7\u00e3o de 60% de sua moeda&#8230; Cesar disse irreverentemente que eu, por ter resolvido o problema, havia me tornado amigo da vi\u00fava propriet\u00e1ria da usina produtora das placas de chumbo.<\/li>\n<li>Em outra ocasi\u00e3o, a solu\u00e7\u00e3o para retirar da alf\u00e2ndega boliviana o material de um dos experimentos da CBJ foi usar um avi\u00e3o de paraquedistas, modelo B\u00fafalo, da For\u00e7a A\u00e9rea Brasileira, que, na ida, havia levado equipamentos de criogenia doados pelo Instituto de F\u00edsica Gleb Wataghin da Universidade Estadual de Campinas (IFGW\/Unicamp) para a <em>Universidad Mayor de San Andr\u00e9s<\/em>. Antes de minha nova viagem \u00e0 Bol\u00edvia, fui informado por Cesar de que os jornais bolivianos reportavam que a recente queda do presidente Garcia Mezza teria sido engendrada por agente do ent\u00e3o SNI que havia levado para l\u00e1 caixas com material n\u00e3o vistoriado. Desnecess\u00e1rio dizer que fiz a viagem bastante apreensivo.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tudo isso, claro, eram brincadeiras de Cesar.<\/p>\n<p>Lealdade e gratid\u00e3o eram outras caracter\u00edsticas da personalidade dele. Por exemplo, quando o contrato do fundador do IFGW, Marcello Damy de Souza Santos, n\u00e3o foi renovado, Cesar foi abordado por Rog\u00e9rio C\u00e9zar de Cerqueira Leite, sucessor de Damy na dire\u00e7\u00e3o do instituto. Cerqueira Leite queria que o colega apoiasse a decis\u00e3o de n\u00e3o renova\u00e7\u00e3o emitida pelo ent\u00e3o reitor da Unicamp, Zeferino Vaz. Cesar n\u00e3o fez isso: manifestou-se a favor da renova\u00e7\u00e3o do contrato, em apoio ao seu ex-professor e amigo de longa data. (Figura 1)<\/p>\n<h6 id=\"figura-1-cesar-lattes-na-foto-aparece-o-logo-da-bccl-biblioteca-central-cesar-lattes-inspirado-num-desenho-de-cesar-lattescredito-arquivo-unicamp-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-5559\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura-1-300x219.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura-1-300x219.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura-1-1024x749.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura-1-768x562.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura-1-1536x1124.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura-1-16x12.jpg 16w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura-1-800x585.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura-1-1160x849.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura-1.jpg 1691w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 1. Cesar Lattes. Na foto aparece o logo da BCCL-Biblioteca Central Cesar Lattes, inspirado num desenho de Cesar Lattes<br \/>\n<\/strong>(Cr\u00e9dito: Arquivo Unicamp. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Depois de minha gradua\u00e7\u00e3o em f\u00edsica, em 1968, pela Universidade S\u00e3o Paulo (USP), fomos contratados pela Unicamp, para onde Cesar havia se transferido no fim da d\u00e9cada de 60, devido ao ambiente n\u00e3o amig\u00e1vel e sabotador do ent\u00e3o Departamento de F\u00edsica da Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras da USP \u2013 novamente, contei com a ajuda do amigo Shozo Motoyama para conseguir esse emprego.<\/p>\n<p>Cesar dizia que n\u00e3o havia dado muitas aulas \u2013 talvez, pelas circunst\u00e2ncias advindas da fama e grande quantidade de tarefas. Mas, quando as dava, ele ensinava de maneira <em>sui generis <\/em>\u2013 possivelmente, por influ\u00eancia de seus mestres na USP, Gleb Vassilievich Wataghin e Giuseppe Paolo Stanislao Occhialini.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"so-em-uma-noite-cesar-observou-uma-duzia-de-pions-positivos-e-negativos-tudo-indica-que-essa-foi-a-primeira-vez-que-se-observou-o-fenomeno-da-fotoproducao-de-pions\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cS\u00f3 em uma noite, Cesar observou uma d\u00fazia de p\u00edons positivos e negativos. Tudo indica que essa foi a primeira vez que se observou o fen\u00f4meno da fotoprodu\u00e7\u00e3o de p\u00edons.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nas conversas com Cesar, o que era marcante era essa sua maneira de ensinar subliminarmente. Ele pedia opini\u00e3o sobre determinado t\u00f3pico; em seguida, induzia a pessoa a raciocinar para chegar \u00e0 validade (ou n\u00e3o) da opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Wataghin disse ao rec\u00e9m-formado Cesar que, a partir daquele momento, 1943 (formatura em F\u00edsica pela USP), eles eram iguais, e havia uma \u00fanica coisa que os diferenciava: professores s\u00e3o mais experientes. Quando Occhialini viu que o \u00fanico aluno matriculado em um de seus cursos, na USP, era Cesar, mudou a forma tradicional da rela\u00e7\u00e3o aluno-professor: em vez da aula formal, ele entregou um filme rec\u00e9m-revelado \u2013 ainda molhado pela \u00e1gua de lavagem \u2013 e disse ao aluno: \u201cDestrincha isso!\u201d. Cesar estranhou esse tipo de aula, mas, depois, viu que era a forma mais rica de ensino.<\/p>\n<p>Muito se especula sobre por que Cesar (ent\u00e3o jovem f\u00edsico, com 22 ou 23 anos de idade) n\u00e3o recebeu o Nobel de F\u00edsica \u2013 apesar de ter sido indicado sete vezes para o pr\u00eamio at\u00e9 1964. A Comiss\u00e3o do Nobel concedeu o pr\u00eamio s\u00f3 a Cecil Frank Powell, chefe do Laborat\u00f3rio de F\u00edsica H. H. Wills, da Universidade de Bristol \u2013 onde Cesar trabalhou em 1946 e no ano seguinte \u2013 pelo desenvolvimento do m\u00e9todo fotogr\u00e1fico para estudo de processos nucleares e por descobertas relacionadas com os m\u00e9sons.<\/p>\n<p>Mas cometeu-se, a meu ver, injusti\u00e7a: afinal, foi Cesar \u2013 para estudar rea\u00e7\u00f5es nucleares de n\u00eautrons em aceleradores e, posteriormente, n\u00eautrons c\u00f3smicos \u2013 que solicitou \u00e0 empresa brit\u00e2nica Ilford que inclu\u00edsse na composi\u00e7\u00e3o das emuls\u00f5es (basicamente, gelatina e sais de prata) o elemento qu\u00edmico boro (na forma de b\u00f3rax).<\/p>\n<p>Essa inser\u00e7\u00e3o fez com que as trajet\u00f3rias das part\u00edculas que atravessaram as emuls\u00f5es permanecessem est\u00e1veis por mais tempo \u2013 ou seja, a perda da chamada imagem latente foi atenuada. Cesar contou que, nessa ocasi\u00e3o, Powell \u2013 que havia sido especialista em terremotos \u2013 estava envolvido com f\u00edsica nuclear e seguia usando para suas pesquisas as \u201cvelhas\u201d emuls\u00f5es nucleares, de antes do fim da Segunda Guerra, chapas fotogr\u00e1ficas pouco espessas e com baixa quantidade de sais de prata.<\/p>\n<p>No fim das contas, o boro teve papel decisivo na detec\u00e7\u00e3o do p\u00edon em Bristol, em 1947, pois, tudo indica, permitiu que as trajet\u00f3rias dessas part\u00edculas permanecessem est\u00e1veis por semanas e, assim, pudessem ser visualizadas ao microsc\u00f3pio, ap\u00f3s reveladas as emuls\u00f5es.<\/p>\n<p>A observa\u00e7\u00e3o, em Chacaltaya, de dezenas de m\u00e9sons duplos \u2013 ou seja, p\u00edons decaindo em m\u00faons \u2013 induziu Cesar a tentar observ\u00e1-los em aceleradores de part\u00edculas. O acelerador de part\u00edculas alfa com energia de 380 MeV\u00a0na Universidade da Calif\u00f3rnia, em Berkeley (EUA), tinha energia de 98 MeV por n\u00facleon \u2013 portanto, inferior \u00e0 massa do p\u00edon. Mas, considerando que os n\u00facleons n\u00e3o est\u00e3o est\u00e1ticos, Cesar e seu colega te\u00f3rico Jos\u00e9 Leite Lopes fizeram c\u00e1lculos e constataram que, numa colis\u00e3o favor\u00e1vel, a energia seria maior que a massa do p\u00edon. Ou seja, o acelerador em Berkeley poderia produzir p\u00edons, como constatou Cesar, no in\u00edcio de 1948, ao observar emuls\u00f5es que haviam sido irradiadas pelo acelerador antes de sua chegada a Berkeley. (Figura 2)<\/p>\n<h6 id=\"figura-2-departamento-de-raios-cosmicos-e-cronologia-do-instituto-de-fisica-gleb-wataghin-da-universidade-estadual-de-campinas-fonte-drcc-ifgw-unicamp-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-5561\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura2-300x220.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura2-300x220.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura2-1024x750.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura2-768x563.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura2-1536x1125.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura2-16x12.jpg 16w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura2-800x586.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura2-1160x850.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura2.jpg 1691w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 2. Departamento de Raios C\u00f3smicos e Cronologia do Instituto de F\u00edsica Gleb Wataghin da Universidade Estadual de Campinas.<br \/>\n<\/strong>(Fonte: DRCC\/IFGW\/Unicamp. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ainda no fim de 1947, em viagem \u00e0 Dinamarca, Cesar reportou a possibilidade de o acelerador em Berkeley produzir p\u00edons para um dos seus grandes \u00eddolos, Niels Bohr, que parece ter concordado com a hip\u00f3tese, mas estranhou o fato de o brasileiro querer deixar Bristol quando \u201cas coisas estavam quentes por l\u00e1\u201d \u2013 entenda-se, a detec\u00e7\u00e3o do p\u00edon pela equipe do H. H. Wills.<\/p>\n<p>Naquele in\u00edcio de 1948, Cesar Lattes e Eugene Gardner observaram a exist\u00eancia dos p\u00edons positivos (e, mais tarde, negativos), gerados pela colis\u00e3o do feixe de part\u00edculas do acelerador contra alvo fixo (carbono, por exemplo). No texto <em>\u201cMy work in Particle Physics\u201d<\/em>, Cesar afirmou que Edwin McMillan pediu a ele para analisar chapas fotogr\u00e1ficas espessas irradiadas pelo feixe do acelerador s\u00edncrotron de el\u00e9trons, com energia de 300 MeV (milh\u00f5es de el\u00e9trons-volt), tamb\u00e9m em Berkeley. S\u00f3 em uma noite, Cesar observou uma d\u00fazia de p\u00edons positivos e negativos. Tudo indica que essa foi a primeira vez que se observou o fen\u00f4meno da fotoprodu\u00e7\u00e3o de p\u00edons.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que somente Cesar fez a observa\u00e7\u00e3o completa dos p\u00edons. E, pessoalmente, acho que o Nobel deveria ter sido concedido n\u00e3o s\u00f3 a Powell, mas tamb\u00e9m a Occhialini e Lattes. Tr\u00eas fatos corroboram minha opini\u00e3o. O primeiro: a rea\u00e7\u00e3o de Powell ao telegrama que Cesar enviou, t\u00e3o logo foram observados os p\u00edons carregados em Berkeley: \u201c<em>Fortunately we are right<\/em>\u201d (\u201cPor sorte, estamos certos\u201d). O segundo: a doen\u00e7a (beriliose) de Gardner, consequ\u00eancia de seu trabalho no Projeto Manhattan, o impedia de ficar muito tempo ao microsc\u00f3pio \u2013 consequentemente, quase toda observa\u00e7\u00e3o dos m\u00e9sons nas emuls\u00f5es ficou a cargo de Cesar. Terceiro: o coment\u00e1rio que ouvi de Occhialini, de que Cesar estava certo ao ir para Berkeley e que o erro dele, Occhialini, foi ter se apaixonado pelas emuls\u00f5es nucleares e ter ficado na Europa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"um-dos-comentarios-notaveis-de-cesar-e-fiz-o-possivel-fui-empurrado-pela-historia\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cUm dos coment\u00e1rios not\u00e1veis de Cesar \u00e9: \u2018Fiz o poss\u00edvel. Fui empurrado pela hist\u00f3ria\u2019.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um dos coment\u00e1rios not\u00e1veis de Cesar \u00e9: \u201cFiz o poss\u00edvel. Fui empurrado pela hist\u00f3ria\u201d. Eu o interpreto como justificativa para o fato de que a observa\u00e7\u00e3o do decaimento do p\u00edon, em 1947, em emuls\u00f5es nucleares expostas no <em>Pic du Midi<\/em>, nos Pirineus franceses, \u00e9 consequ\u00eancia n\u00e3o s\u00f3 de uma tarefa atribu\u00edda a ele pela equipe de Bristol, mas tamb\u00e9m da inclus\u00e3o do boro nas emuls\u00f5es. H\u00e1 mais um motivo, como veremos.<\/p>\n<p>Nessa ocasi\u00e3o, Donald Hill Perkins, do Imperial College, havia observado evento inusitado em emuls\u00f5es expostas a bordo de avi\u00e3o, voando a grande altitude. Com esse an\u00fancio, era premente observar mais eventos assemelhados aos do <em>Pic du Midi<\/em>, publicados em 24 de maio de 1947 na revista <em>Nature<\/em>. Segundo Cesar, estabeleceu-se competi\u00e7\u00e3o entre o Imperial College e a Universidade de Bristol na busca de mais p\u00edons.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia de Cesar foi buscar local mais alto que os Pirineus \u2013 numa altitude semelhante ao do avi\u00e3o Comet, que estava sendo testado \u00e0 \u00e9poca em voos em altitudes estratosf\u00e9ricas. Ao analisar mapas do Departamento de Geografia da Universidade de Bristol, Cesar encontrou o monte Chacaltaya, de f\u00e1cil acesso at\u00e9 o primeiro pico (5,6 km acima do n\u00edvel do mar), por causa de estrada que levava at\u00e9 o Clube Andino (cerca de 5,3 km acima do n\u00edvel do mar).<\/p>\n<p>Feito isso, prop\u00f4s vir para o Brasil e, daqui, com recursos pr\u00f3prios, seguir para a Bol\u00edvia. Ao questionar se deveria assinar um recibo referente \u00e0 viagem Inglaterra-Brasil-Inglaterra, Arthur Mannering Tyndall\u00a0 , diretor do Departamento de F\u00edsica, disse que n\u00e3o havia necessidade, porque os recibos seriam os artigos cient\u00edficos publicados.<\/p>\n<p>Cesar se surpreendeu com a total falta de burocracia. Importante lembrar que a Universidade de Bristol era privada, e os recursos financeiros eram mais modestos do que os do Imperial College.<\/p>\n<p>\u00danica recomenda\u00e7\u00e3o de Tyndall: voar com uma empresa a\u00e9rea brit\u00e2nica, pois o numer\u00e1rio era de \u201cSua Alteza Real\u201d. Mas o adido cultural da Embaixada brasileira em Londres aconselhou Cesar a viajar com a empresa brasileira, Panair do Brasil, que operava novos avi\u00f5es Super Constellation, enquanto a empresa brit\u00e2nica ainda usava velhos avi\u00f5es adaptados de bombardeiros da Segunda Guerra.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, acrescentou o funcion\u00e1rio, o servi\u00e7o a bordo servia um suculento bife. Isso deve ter soado como m\u00fasica para o jovem Cesar, que, apesar de estar estagiando num pa\u00eds vencedor da Segunda Grande Guerra, costumava passar fome em Bristol, devido ao racionamento de comida \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p>A sugest\u00e3o seguida por Cesar foi providencial. Quando estava sobrevoando o aeroporto de Dakar, viu o avi\u00e3o brit\u00e2nico espatifado no solo. Cesar comentou, mais de uma vez comigo, que, caso estivesse no avi\u00e3o brit\u00e2nico, a comprova\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia dos dois m\u00e9sons poderia ter sido retardada.<\/p>\n<p>Cesar costumava dizer, com sua humildade de sempre, dizer: \u201cSe \u00e9 que descobri alguma coisa na vida, isso foi o b\u00f3rax e o monte Chacaltaya\u201d. Isso sintetiza os fatos ocorridos que vieram como desdobramentos dessas \u201cdescobertas\u201d. Mas h\u00e1 que ressaltar que essa intui\u00e7\u00e3o e perspic\u00e1cia de Cesar levaram \u00e0 observa\u00e7\u00e3o do p\u00edon em raios c\u00f3smicos, bem como no acelerador de part\u00edculas em Berkeley.<\/p>\n<p>Em visita \u2013 em 1968, creio \u2013, ao Museu da Paz em Hiroshima (Jap\u00e3o), Cesar teria sido abordado com o seguinte prop\u00f3sito: fornecer sua foto para ser inclu\u00edda em mural de renomados cientistas que colaboraram para o desenvolvimento da bomba at\u00f4mica. Cesar se recusou terminantemente, porque, na ocasi\u00e3o do Projeto Manhattan, ele estava fazendo c\u00e1lculos matem\u00e1ticos sob supervis\u00e3o de M\u00e1rio Schenberg, na USP.<\/p>\n<p>O pedido por parte do museu causou mal-estar a Cesar, que pediu a seu cicerone, Takao Tati, professor da Universidade de Hiroshima, para encerrar a visita e voltar ao hotel. Essa atitude de Cesar foi uma de muitas manifesta\u00e7\u00f5es de humanidade, tra\u00e7o marcante de sua personalidade.<\/p>\n<p>Cesar costumava dizer que a \u00fanica conex\u00e3o dele com o Projeto Manhattan, projeto que desenvolveu a bomba at\u00f4mica, foi o uso do \u00edm\u00e3 que defletia os m\u00e9sons positivos e negativos no acelerador em Berkeley. Esse equipamento foi usado para enriquecer o ur\u00e2nio usado na bomba at\u00f4mica.<\/p>\n<p>Em 1981, na 17\u00aa Confer\u00eancia Internacional sobre Raios C\u00f3smicos, em Paris, Cesar determinou que eu apresentasse um dos trabalhos da CBJ. Foi meu <em>debut<\/em>, sob supervis\u00e3o dele, nessa s\u00e9rie de confer\u00eancias, a qual se iniciou em Crac\u00f3via (Pol\u00f4nia), de 6 a 11 de outubro de 1947 \u2013 esta \u00faltima realizada justamente para discutir a observa\u00e7\u00e3o dos dois m\u00e9sons. Mas vale destacar tamb\u00e9m o an\u00fancio, naquele encontro, do Professor Louis Leprince-Ringuet dos m\u00e9sons K (hoje, k\u00e1ons), com massa mil vezes a massa do el\u00e9tron.<\/p>\n<p>Com a aposentadoria de Cesar, fui designado coordenador, pela parte brasileira, da CBJ. Na ocasi\u00e3o, ele perguntou minha opini\u00e3o sobre a aposentadoria dele. Respondi que era um direito, mas que eu continuaria pedindo a ele conselhos e conversas.<\/p>\n<p>Por ocasi\u00e3o do planejamento de experimento da CBJ em conjunto com a Colabora\u00e7\u00e3o Pamir, que reunia ex-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e Pol\u00f4nia, me posicionei contr\u00e1rio \u00e0 proposta feita por colegas japoneses, sovi\u00e9ticos e poloneses de tentar detectar eventos atmosf\u00e9ricos de grandes energias, como os do tipo Andr\u00f4meda, observado pela CBJ, e do tipo Fianit, pela Colabora\u00e7\u00e3o Pamir. (Figura 3)<\/p>\n<h6 id=\"figura-3-painel-ilustrando-a-linha-do-tempo-de-cesar-lattes-credito-radio-e-tv-da-unicamp\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-5562\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura3-300x92.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"183\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura3-300x92.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura3-1024x312.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura3-768x234.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura3-1536x469.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura3-18x5.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura3-800x244.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura3-1160x354.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura3.jpg 1691w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 3. Painel ilustrando a \u201clinha do tempo\u201d de Cesar Lattes.<br \/>\n<\/strong>(Cr\u00e9dito: R\u00e1dio e TV da Unicamp)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse meu posicionamento, resultado de conversas com Cesar, se mostrou correto. A base para essa decis\u00e3o foi o fato de a comunidade internacional da \u00e1rea de raios c\u00f3smicos costumar citar, na literatura, s\u00f3 os resultados de eventos de alvo localizado (C-jatos), ou seja, radia\u00e7\u00e3o c\u00f3smica filtrada pela parte superior da c\u00e2mara de emuls\u00f5es nucleares \u2013 porque a espessura do alvo \u00e9 da ordem de 40 cm, o que permite an\u00e1lises quantitativas.<\/p>\n<p>J\u00e1 os eventos atmosf\u00e9ricos (A-jatos) \u2013 apesar de serem mais energ\u00e9ticos do que os C-jatos \u2013 t\u00eam a grande desvantagem de serem resultado de intera\u00e7\u00f5es ocorridas nos 40 km da atmosfera terrestre; portanto, a maioria deles carece de precis\u00e3o. Em tempo: atualmente, planejo continuar a an\u00e1lise detalhada dos 12 eventos do tipo Andr\u00f4meda, com altura na casa de 2 km.<\/p>\n<p>Os feitos de Cesar foram recentemente reconhecidos pela Presid\u00eancia da Rep\u00fablica do Brasil, que emitiu o Decreto de 1\u00ba junho de 2011, no qual consta: \u201cFica declarado de interesse p\u00fablico e social o acervo arquiv\u00edstico de Cesar Lattes, sob a guarda do Departamento de Raios C\u00f3smicos e Cronologia do Instituto de F\u00edsica Gleb Wataghin e do Arquivo Central do Sistema de Arquivos da Universidade Estadual de Campinas \u2013 Unicamp, por se tratar de um conjunto documental de m\u00e1xima relev\u00e2ncia para a hist\u00f3ria da ci\u00eancia, pela singularidade e ineditismo de suas descobertas, fundamentais para o desenvolvimento da f\u00edsica at\u00f4mica em \u00e2mbito nacional e internacional.\u201d<\/p>\n<p>Encerrando este depoimento, gostaria de registrar minha eterna gratid\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 a Cesare Mansueto Giulio Lattes, mas tamb\u00e9m a Martha Siqueira Netto Lattes, pela amizade de ambos que tive o prazer de desfrutar por d\u00e9cadas. (Figura 4)<\/p>\n<h6 id=\"figura-4-martha-lattes-cesar-e-o-autor-dir-na-casa-do-casal-em-campinas-spcredito-arquivo-pessoal\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-5563\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura4-300x218.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"363\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura4-300x218.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura4-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-depoimento-de-amigo-figura4.jpg 633w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 4. Martha Lattes, Cesar e o autor (dir.), na casa do casal, em Campinas (SP)<br \/>\n<\/strong>(Cr\u00e9dito: Arquivo pessoal)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-encontro-em-princeton-em-1949-em-comemoracao-dos-70-anos-de-albert-einstein-os-brasileiros-la-estavam-para-pedir-apoio-da-comunidade-internacional-para-a-constituicao-do-cbpf-centro-brasileiro\"><strong>Capa. Encontro em Princeton em 1949 em comemora\u00e7\u00e3o dos 70 anos de Albert Einstein. Os brasileiros l\u00e1 estavam para pedir apoio da comunidade internacional para a constitui\u00e7\u00e3o do CBPF-Centro Brasileiro de Pesquisas F\u00edsicas.<br \/>\n<\/strong>(Cr\u00e9dito: Acervo CBPF. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 id=\"http-dx-doi-org-10-5935-2317-6660-20240006\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.5935\/2317-6660.20240006\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/dx.doi.org\/10.5935\/2317-6660.20240006<\/a><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Conviv\u00eancia, aprendizado e amizade entre Cesar Lattes e eu &nbsp; A primeira&hellip;\n","protected":false},"author":179,"featured_media":5564,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[21],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5557"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/179"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5557"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5557\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7108,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5557\/revisions\/7108"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5564"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5557"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5557"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5557"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}