{"id":5703,"date":"2024-03-20T08:00:53","date_gmt":"2024-03-20T08:00:53","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=5703"},"modified":"2024-09-18T13:04:42","modified_gmt":"2024-09-18T13:04:42","slug":"lattes-e-as-inquietacoes-do-genio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=5703","title":{"rendered":"Lattes e as Inquieta\u00e7\u00f5es do G\u00eanio"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"questionamentos-e-vontade-de-superar-a-si-mesmo-marcaram-vida-do-cientista\"><span style=\"color: #808080;\">Questionamentos e vontade de superar a si mesmo marcaram vida do cientista<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando, ap\u00f3s cinco anos no exterior, voltei ao Brasil como professor assistente do Instituto Tecnol\u00f3gico de Aeron\u00e1utico (ITA), aceitei o convite para dar aulas no Centro Brasileiro de Pesquisas F\u00edsicas (CBPF). Esta foi a primeira vez que vi C\u00e9sar Lattes. Ele se indisp\u00f4s, nesta ocasi\u00e3o, com o diretor do CBPF e houve um violento embate em palavras.<\/p>\n<p>Logo depois voltei para os Estados Unidos, ainda em 1964, para reassumir minhas fun\u00e7\u00f5es no Laborat\u00f3rio Bell, pois era imposs\u00edvel fazer pesquisa nas condi\u00e7\u00f5es de convuls\u00e3o e absoluta aus\u00eancia de recursos.<\/p>\n<p>Quando voltei definitivamente para o Brasil seis anos depois, encontrei Lattes na rec\u00e9m-criada Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O Instituto de F\u00edsica dessa universidade abrigava, al\u00e9m do pequeno grupo de Lattes, uns 10 ou 12 professores.<\/p>\n<p>Minha previs\u00e3o era de um conflito com Lattes em tempo relativamente pequeno. Pois bem, nunca tivemos um \u00fanico mal-entendido. Lattes estava em busca ainda de sua <strong><u>bola de fogo<\/u><\/strong> e sua pesquisa se limitava a interpretar dados vindos de Chacaltaya.<\/p>\n<p>Seu sucesso tinha sido t\u00e3o grande na descoberta do m\u00e9son-\u03c0 que poucos o questionavam. Mas na Unicamp tinha conseguido alguns inimigos. Ficou not\u00f3rio o fato dele ter jogado um limpador de lousa na cabe\u00e7a do General Valverde, ent\u00e3o diretor da Engenharia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"seu-sucesso-tinha-sido-tao-grande-na-descoberta-do-meson-%cf%80-que-poucos-o-questionavam\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cSeu sucesso tinha sido t\u00e3o grande na descoberta do m\u00e9son-\u03c0 que poucos o questionavam.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em menos de um ano ficou pronto o seu laborat\u00f3rio no campus definitivo da Unicamp e para l\u00e1 se mudou. Inicialmente ocupava o por\u00e3o de uma escola secund\u00e1ria cedida \u00e0 Unicamp.<\/p>\n<p>Nunca ouvi uma palavra de ataque a um de nossos colegas. Em um momento pediu-me para contratar um seu colega do Rio de Janeiro para assumir a chefia de seu departamento. Assim fiz, mas n\u00e3o durou muito, pediu-me para mand\u00e1-lo embora. N\u00e3o me disse por qu\u00ea. Sua vontade era soberana. Desculpei-me com o pesquisador e enviei-o de volta ao Rio de Janeiro. N\u00e3o houve alterca\u00e7\u00e3o, todo mundo sentiu que Lattes era o Lattes e ele teria sempre raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma faceta do Lattes que \u00e9 preciso mencionar \u00e9 o seu fracasso depois da imemor\u00e1vel descoberta do m\u00e9son-\u03c0 espont\u00e2nea e produzida por m\u00e1quina. Como \u00e9 natural e frequente, Lattes queria sempre superar a si mesmo.<\/p>\n<p>Gleb Wataghin, respons\u00e1vel pela implanta\u00e7\u00e3o da se\u00e7\u00e3o de ci\u00eancias f\u00edsicas da Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras da Universidade de S\u00e3o Paulo, em 1934, dizia que ele merecia o Pr\u00eamio Nobel, tal import\u00e2ncia de sua descoberta experimental. Eu concordo. E muitos f\u00edsicos do Brasil e do exterior com quem conversei tamb\u00e9m concordam. Para mim \u00e9 um mist\u00e9rio porque o Pr\u00eamio Nobel n\u00e3o lhe foi outorgado.<\/p>\n<p>Lattes lutou a vida toda contra dist\u00farbios mentais. Dizia ele que se submetia a choques el\u00e9tricos para livrar-se dos devaneios. Conv\u00e9m tamb\u00e9m dizer-se que ele tinha um lado m\u00edstico semelhante ao de M\u00e1rio Schenberg que, durante um per\u00edodo de tr\u00eas meses (1968), passou em minha casa fugindo da pris\u00e3o. Isso ocorreu nos Estados Unidos. Todas as noites um carro com dois personagens ostensivamente ficava em frente \u00e0 minha casa. Eram certamente do FBI. E consegui para Schenberg v\u00e1rias prorroga\u00e7\u00f5es de seu visto. (Figura 1)<\/p>\n<h6 id=\"figura-1-cesar-lattes-mario-schenberg-e-jose-leite-lopes-fisicos-brasileiros-fonte-http-zenith-mast-br-reproducao\" style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-5707\" src=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-Lattes-e-as-Inquietac\u0327o\u0303es-do-Ge\u0302nio-figura1-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-Lattes-e-as-Inquietac\u0327o\u0303es-do-Ge\u0302nio-figura1-300x200.jpg 300w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-Lattes-e-as-Inquietac\u0327o\u0303es-do-Ge\u0302nio-figura1-1024x681.jpg 1024w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-Lattes-e-as-Inquietac\u0327o\u0303es-do-Ge\u0302nio-figura1-768x511.jpg 768w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-Lattes-e-as-Inquietac\u0327o\u0303es-do-Ge\u0302nio-figura1-1536x1022.jpg 1536w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-Lattes-e-as-Inquietac\u0327o\u0303es-do-Ge\u0302nio-figura1-18x12.jpg 18w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-Lattes-e-as-Inquietac\u0327o\u0303es-do-Ge\u0302nio-figura1-800x532.jpg 800w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-Lattes-e-as-Inquietac\u0327o\u0303es-do-Ge\u0302nio-figura1-1160x772.jpg 1160w, https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/CC-1E24-opinia\u0303o-Lattes-e-as-Inquietac\u0327o\u0303es-do-Ge\u0302nio-figura1.jpg 1691w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><br \/>\n<strong>Figura 1. C\u00e9sar Lattes, M\u00e1rio Schenberg e Jos\u00e9 Leite Lopes, f\u00edsicos brasileiros.<br \/>\n<\/strong>(Fonte: <a href=\"http:\/\/zenith.mast.br\">http:\/\/zenith.mast.br<\/a>. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Schenberg compartilhava com Lattes e Newton Bernardes algumas d\u00favidas esot\u00e9ricas. Enquanto Schenberg tinha sua percep\u00e7\u00e3o mais organizada, tendendo ao budismo, Lattes tinha cren\u00e7as prosaicas vindas de mitos populares. Por exemplo, recebia, atrav\u00e9s de uma empregada, cartas de sua esposa j\u00e1 falecida, psicografadas.<\/p>\n<p>H\u00e1 um epis\u00f3dio que merece ser relatado, pois descreve suas ambival\u00eancias. Veio \u00e0 minha sala com Newton Bernardes, f\u00edsico tamb\u00e9m muito inteligente, para convidar-me para visitar Hilda Hilst, j\u00e1 famosa escritora, perto de Campinas. Seria para ver um fen\u00f4meno extraordin\u00e1rio e l\u00e1 fui eu acompanhado de meus dois amigos.<\/p>\n<p>Hilst era uma personagem inesquec\u00edvel. Levou-nos a um quarto onde tinha uma montanha de equipamentos eletr\u00f4nicos de sons ligados uns aos outros e, de vez em quando, ouvia-se um ronco ou som parecido. Conclui imediatamente que se tratava de reverbera\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 imposs\u00edvel, a n\u00e3o ser por t\u00e9cnicos em eletr\u00f4nica, ligar tantos aparelhos sem que circuitos de realimenta\u00e7\u00e3o se formem.<\/p>\n<p>Expliquei isso aos dois f\u00edsicos te\u00f3ricos, meus amigos, que n\u00e3o acreditaram em mim. O que confirma a voca\u00e7\u00e3o m\u00edstica dos dois.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"ele-merecia-o-premio-nobel-tal-importancia-de-sua-descoberta-experimental-e-muitos-fisicos-do-brasil-e-do-exterior-tambem-concordam\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cEle merecia o Pr\u00eamio Nobel, tal import\u00e2ncia de sua descoberta experimental. E muitos f\u00edsicos do Brasil e do exterior tamb\u00e9m concordam.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Outra vez, levei Roberto Salmeron que era membro do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), para visitar o Lattes. Este mostrava uma grande percep\u00e7\u00e3o. Mostrou uma carta psicografada que sua esposa havia mandado e lembro-me que me disse: \u201cn\u00e3o mostro para voc\u00ea porque voc\u00ea \u00e9 um incr\u00e9dulo\u201d, com o que pensava estar me ofendendo. N\u00e3o sei o qu\u00ea Salmeron pensou, n\u00e3o falamos sobre o assunto.<\/p>\n<p>Pensando nos dois f\u00edsicos te\u00f3ricos Schenberg e Newton Bernardes com maior sucesso e Lattes, acho que chego \u00e0 conclus\u00e3o de que o sucesso \u00e9 um grande perigo. Pois frequentemente n\u00e3o pode ser alcan\u00e7ado pela segunda vez pelo vitorioso.<\/p>\n<p>Schenberg, Bernardes, Lattes, homens de intelig\u00eancia superior, sugerem que isso n\u00e3o est\u00e1 longe da verdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 id=\"capa-cesar-lattes-foi-um-dos-mais-influentes-cientistas-brasileirosfoto-arquivo-unicamp-reproducao\"><strong>Capa. C\u00e9sar Lattes foi um dos mais influentes cientistas brasileiros<br \/>\n<\/strong>(Foto: Arquivo Unicamp. Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 id=\"http-dx-doi-org-10-5935-2317-6660-20240008\"><span style=\"color: #808080;\"><a style=\"color: #808080;\" href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.5935\/2317-6660.20240008\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/dx.doi.org\/10.5935\/2317-6660.20240008<\/a><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Questionamentos e vontade de superar a si mesmo marcaram vida do cientista&hellip;\n","protected":false},"author":185,"featured_media":5705,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[21],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5703"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/185"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5703"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5703\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7110,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5703\/revisions\/7110"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5705"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5703"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5703"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5703"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}