{"id":5789,"date":"2024-04-02T07:30:46","date_gmt":"2024-04-02T07:30:46","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=5789"},"modified":"2024-04-01T19:18:10","modified_gmt":"2024-04-01T19:18:10","slug":"1964-nunca-mais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=5789","title":{"rendered":"1964 nunca mais"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"continuaremos-envidando-nossos-esforcos-para-consolidar-em-nosso-pais-a-democracia-lembrando-que-sem-a-extincao-da-miseria-e-uma-reducao-substancial-da-pobreza-ela-continuara-send\"><span style=\"color: #808080;\">\u201cContinuaremos envidando nossos esfor\u00e7os para consolidar em nosso Pa\u00eds a democracia \u2013 lembrando que, sem a extin\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria e uma redu\u00e7\u00e3o substancial da pobreza, ela continuar\u00e1 sendo apenas uma palavra\u201d, escrevem Renato Janine Ribeiro e Claudia Linhares Sales, presidente e diretora da SBPC, em editorial da sess\u00e3o especial do Jornal da Ci\u00eancia desta semana, dedicada aos 60 anos do golpe militar que instituiu a ditadura no Brasil\u00a0<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estes dias, completa 60 anos o golpe militar que p\u00f4s fim, por mais de duas d\u00e9cadas, \u00e0 democracia no Brasil. Alguma coisa nos faz dar mais import\u00e2ncia \u00e0s datas redondas, m\u00faltiplas de dez, do que aos n\u00fameros por assim dizer picados. Talvez porque provoque balan\u00e7os mais aprofundados. Pois bem, a ditadura atrasou nosso Pa\u00eds. Pavoneou-se com o nome de \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d quando, na verdade, eliminou a possibilidade de uma revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica ou burguesa, como queiram cham\u00e1-la, que mesmo sem sangue teria modernizado o Brasil e acolhido as massas na comunh\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>O custo foi alt\u00edssimo. \u00c9 verdade que a tortura e o assassinato geraram n\u00fameros inferiores aos da Argentina e Chile, mas para quem morreu n\u00fameros s\u00e3o de pouca significa\u00e7\u00e3o. Pior, se assim podemos dizer, foi que exterminou o futuro. O Brasil dos anos 60 era pujante, cheio de vida, de projetos. A bossa nova talvez seja, para a classe m\u00e9dia, seu mais poderoso significante. Mas trazia no seu bojo a amplia\u00e7\u00e3o e aprimoramento da educa\u00e7\u00e3o, que at\u00e9 hoje n\u00e3o conseguimos realizar em escala decente, em especial no n\u00edvel b\u00e1sico; uma sa\u00fade p\u00fablica decente, que teria de esperar a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988; um sal\u00e1rio m\u00ednimo decente, que somente daria um salto no s\u00e9culo XXI; e muita coisa mais, que foi cortada na raiz. Isso, sem esquecer que, ao terminar a ditadura, o Brasil estava fortemente endividado e com uma forte infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um pa\u00eds sem mem\u00f3ria n\u00e3o tem futuro: essa frase foi cogitada pelo Minist\u00e9rio dos Direitos Humanos para as recorda\u00e7\u00f5es do golpe, mas decidiu o presidente Lula que o Estado brasileiro n\u00e3o lembraria o atentado \u00e0 democracia, nem para exalt\u00e1-lo, como sucedeu nos recentes anos em que um governo fez de tudo contra o regime democr\u00e1tico, nem para conden\u00e1-lo. Respeitamos a decis\u00e3o presidencial, mas cabe \u00e0 sociedade civil, de que fazemos parte, lidar com a mem\u00f3ria. Com efeito, n\u00e3o podemos terceirizar para o Estado, ainda que democr\u00e1tico, aquilo que podemos \u2013 e sobretudo devemos \u2013 fazer n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>A comunidade cient\u00edfica brasileira deve ter papel de proa nesse ajuste de contas com o passado. Muitos, inclusive eu, j\u00e1 comentamos que nosso Pa\u00eds tem um problema grave com sua Hist\u00f3ria. As grandes mudan\u00e7as, que em outras na\u00e7\u00f5es passaram por revolu\u00e7\u00f5es, aqui se deram pela transi\u00e7\u00e3o de cima para cima, em acordo das elites. Assim foi que devemos nossa independ\u00eancia ao pr\u00edncipe herdeiro de Portugal, a Rep\u00fablica ao condest\u00e1vel do Imp\u00e9rio, a revolu\u00e7\u00e3o de 1930 a tr\u00eas governadores membros do sistema vigente, a democratiza\u00e7\u00e3o de 1945 e a de 1985 a fi\u00e9is servidores da ditadura que as precedeu\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o havendo um ajuste de contas, repetimos o que se diz no c\u00e9lebre romance de Giuseppe Tommasi di Lampedusa,\u00a0<em>O leopardo<\/em>: \u201cTudo precisa mudar, para que tudo continue como antes\u201d. Ou, como disse Antonio Carlos, governador de Minas Gerais, ao deflagrar a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930: \u201cFa\u00e7amos a revolu\u00e7\u00e3o antes que o povo a fa\u00e7a\u201d. Na verdade, para que o povo n\u00e3o a fa\u00e7a.<\/p>\n<p>A tentativa mais empenhada de mudar esse paradigma foi a Comiss\u00e3o Nacional de Verdade, criada pela presidenta Dilma Rousseff, e que muitos analistas entendem que ter\u00e1 sido a gota d\u2019\u00e1gua a disparar contra ela o \u00f3dio de muitos militares, culminando no ultimato do comandante do Ex\u00e9rcito ao Supremo Tribunal Federal, para que n\u00e3o soltasse o preso pol\u00edtico que era o ent\u00e3o ex-presidente Lula.<\/p>\n<p>Mas, se \u201cacabou nosso carnaval\u201d, como elabora o poeta, \u201cmais que nunca \u00e9 preciso cantar! \u00c9 preciso cantar e alegrar a cidade\u201d. Neste caso, \u00e9 necess\u00e1rio recuperar essas p\u00e1ginas horr\u00edveis de nossa Hist\u00f3ria. Os fatos comemorados estes dias j\u00e1 t\u00eam 60 anos de idade; em 1964, a expectativa de vida do brasileiro ao nascer, que hoje ronda os 75 anos, era inferior a sessenta. Ou seja, estatisticamente, o golpe estaria morto ou, pior, mortos estariam os que o presenciaram, os que o desferiram, os muitos que o sofreram. Mas, por isso mesmo, urge entender as responsabilidades, descrever a destrui\u00e7\u00e3o, aprender a li\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00f3s, da ci\u00eancia, temos duas ou tr\u00eas coisas a dizer. Primeira, s\u00e3o in\u00fameros os casos de cientistas que foram cassados, banidos, impedidos de pesquisar, sendo muitos dos nossos exilados. Segunda, temos muito a analisar e explicar, especialmente (mas n\u00e3o s\u00f3) os que somos das Humanas e das Humanidades. Terceira, cabe-nos contar: erguer a voz da mem\u00f3ria num sonoro\u00a0<em>Nunca mais<\/em>! N\u00e3o apenas nunca mais \u00e0 censura, mas nunca mais \u00e0 injusti\u00e7a social, nunca mais \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da democracia, nunca mais ao desrespeito \u00e0 dignidade daqueles que ainda s\u00e3o pobres, num pa\u00eds potencialmente rico.<\/p>\n<p>Foi neste esp\u00edrito que, faz um ano, a SBPC lan\u00e7ou a ideia de um Dia Nacional de Luta pela Democracia \u2013 n\u00e3o uma data fixada em lei pelo Estado, mas um dia criado e organizado pelos cidad\u00e3os, com destaque para as sociedades cient\u00edficas, a fim de educar, em especial as jovens gera\u00e7\u00f5es, para o asco \u00e0 ditadura e o respeito aos direitos. Depois de maduro debate, celebramos esta data no dia da promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o, 5 de outubro. Este ano repetiremos.<\/p>\n<p>Porque o perigo ressurgiu. Parecia, depois de trinta anos de democracia, com altern\u00e2ncia no poder, com governos eleitos \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, que o autoritarismo estava morto e enterrado. Mas a leviandade de um candidato derrotado, em 2014, precipitou o que foi nefasto: uma lavagem cerebral que conduziu dezenas de milh\u00f5es a acreditarem, contra todas as evid\u00eancias, em mentiras, que custaram a vida a pelo menos 500 mil brasileiros, ou seja, o excedente de mortos pela covid-19 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e9dia mundial, bem como a destrui\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas nas mais diversas \u00e1reas, que est\u00e1 sendo trabalhoso reconstruir. E a acreditarem tamb\u00e9m em inverdades absolutas, culminando na Terra plana, mas tanta coisa mais.<\/p>\n<p>Por isso, hoje, faremos uma mesa de debates online, \u00e0s 14 horas (www.yotube.com\/canalsbpc), e continuaremos envidando nossos esfor\u00e7os para consolidar em nosso Pa\u00eds a democracia \u2013 lembrando que, sem a extin\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria e uma redu\u00e7\u00e3o substancial da pobreza, ela continuar\u00e1 sendo apenas uma palavra. Infelizmente, no Brasil, o que chamamos de ditadura \u00e9, grosseiramente falando, apenas a extens\u00e3o \u00e0s classes mais privilegiadas da vida sem lei que \u00e9 infligida \u00e0 maioria, composta dos mais pobres, durante os periodos democr\u00e1ticos. Isso tem que mudar!<\/p>\n<p><span style=\"color: #808080;\"><em>Renato Janine Ribeiro, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia \u2013 SBPC<\/em><em>\u00a0<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #808080;\"><em>Claudia Linhares Sales, diretora da SBPC<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cContinuaremos envidando nossos esfor\u00e7os para consolidar em nosso Pa\u00eds a democracia \u2013&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":4722,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5789"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5789"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5789\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5790,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5789\/revisions\/5790"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4722"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5789"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5789"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5789"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}