{"id":5795,"date":"2024-04-04T07:30:26","date_gmt":"2024-04-04T07:30:26","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=5795"},"modified":"2025-11-25T11:40:57","modified_gmt":"2025-11-25T11:40:57","slug":"a-ciencia-e-sempre-uma-acao-coletiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=5795","title":{"rendered":"\u201cA ci\u00eancia \u00e9 sempre uma a\u00e7\u00e3o coletiva\u201d"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"confira-entrevista-com-a-historiadora-lorelai-kury-pesquisadora-e-professora-da-fiocruz\"><span style=\"color: #808080;\">Confira entrevista com a historiadora Lorelai Kury, pesquisadora e professora da Fiocruz<\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u201cN\u00e3o enxergamos a sa\u00fade apenas como assist\u00eancia, mas tamb\u00e9m como forma de conhecimento do mundo, do ser humano e do corpo pelos homens e pelas sociedades\u201d. \u00c9 assim que Lorelai Kury, pesquisadora e professora do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria das Ci\u00eancias e da Sa\u00fade da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.coc.fiocruz.br\/\">Casa de Oswaldo Cruz (COC\/Fiocruz)<\/a><\/strong><\/span>, explica sua atua\u00e7\u00e3o em uma das maiores funda\u00e7\u00f5es de ci\u00eancias e tecnologia em sa\u00fade da Am\u00e9rica Latina. A pesquisadora tem dedicado sua carreira \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da sa\u00fade no Brasil, explorando suas nuances, desafios e conquistas ao longo dos s\u00e9culos, e aponta que \u00e9 importante conhecer o passado para compreender toda a complexidade dos problemas do presente. \u201cOs desafios atuais n\u00e3o se iniciaram na v\u00e9spera: s\u00e3o processos long\u00ednquos que levaram a esse mundo em que estamos vivendo\u201d. Tamb\u00e9m afirma que a diversidade da ci\u00eancia \u00e9 importante para multiplicar os olhares sobre problemas que s\u00e3o m\u00faltiplos \u2013 e que isso ajuda a aproximar a popula\u00e7\u00e3o do fazer cient\u00edfico. \u201cQuando a popula\u00e7\u00e3o entende de que forma as teorias e pr\u00e1ticas cient\u00edficas se efetivam, ela entende seu pr\u00f3prio papel nessa cadeia de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>Confira a entrevista completa!<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ci\u00eancia &amp; Cultura \u2013 A hist\u00f3ria das ci\u00eancias muitas vezes destaca a interse\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia, sociedade e cultura. Como voc\u00ea v\u00ea essa interconex\u00e3o influenciando o desenvolvimento da ci\u00eancia ao longo do tempo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lorelai Kury &#8211; <\/strong>Acredito que a partir do s\u00e9culo XIX a ci\u00eancia virou um elemento essencial nas sociedades ocidentais. Nossa vida \u00e9 regida pelo aparato cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico, ele faz parte da nossa cultura, \u00e9 indissoci\u00e1vel das nossas sociedades. Nas disciplinas que meus colegas e eu ministramos na <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/www.coc.fiocruz.br\/\">Casa de Oswaldo Cruz (COC)<\/a><\/strong><\/span>, n\u00f3s seguimos dois enfoques: um enfoque mais cronol\u00f3gico, tentando ver de que forma a ci\u00eancia e o aparato tecnol\u00f3gico se desenvolveram ao longo do tempo, mas principalmente um enfoque epistemol\u00f3gico, tentando compreender o que os autores indicam como sendo os fundamentos da ci\u00eancia contempor\u00e2nea e de que maneira a ci\u00eancia e esse aparato tecnol\u00f3gico se diferenciam em sua forma de agir sobre a sociedade. Vemos a \u00e1rea da sa\u00fade na Fiocruz sob v\u00e1rias perspectivas. N\u00e3o enxergamos a sa\u00fade apenas como assist\u00eancia, mas tamb\u00e9m como forma de conhecimento do mundo, do ser humano e do corpo pelos homens e pelas sociedades. Ent\u00e3o abordamos a sa\u00fade como um todo, compreendendo como as sociedades se relacionam com as maneiras de curar, com as concep\u00e7\u00f5es de mundo, com as concep\u00e7\u00f5es de ser humano. Isso \u00e9 uma maneira tamb\u00e9m de entendermos o negacionismo e as necessidades atuais das sociedades em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica e aos cuidados com a vida e com o corpo, porque buscamos compreender como homem se relaciona com a natureza e como historicamente os seres humanos foram se identificando como algo distinto da natureza. Ent\u00e3o abordamos esses temas reconhecendo o passado, mas com perguntas relativas ao presente, para conseguirmos compreender nossa inser\u00e7\u00e3o nesse mundo atual t\u00e3o complexo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"\"><\/h4>\n<h4 id=\"estudar-a-historia-da-formacao-do-estado-brasileiro-e-tambem-estudar-a-formacao-da-saude-publica\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cEstudar a hist\u00f3ria da forma\u00e7\u00e3o do Estado brasileiro \u00e9 tamb\u00e9m estudar a forma\u00e7\u00e3o da sa\u00fade p\u00fablica.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; A Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz desempenha um papel vital na pesquisa e na sa\u00fade p\u00fablica. Como seus estudos hist\u00f3ricos contribuem para a miss\u00e3o mais ampla da Fiocruz?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LK &#8211;<\/strong> Em primeiro lugar, a abordagem hist\u00f3rica \u00e9 uma das abordagens fundamentais para forma\u00e7\u00e3o de qualquer identidade, seja individual, seja coletiva. Ent\u00e3o o historiador tem a miss\u00e3o de fazer com que as pessoas reflitam sobre si mesmos no mundo com essa dimens\u00e3o tanto sincr\u00f4nica como diacr\u00f4nica. Porque o historiador n\u00e3o estuda s\u00f3 sucess\u00e3o de acontecimentos, ele estuda tamb\u00e9m de que forma os acontecimentos se cruzam, se entrela\u00e7am num determinado tempo e numa determinada sociedade. Outro aspecto que acho relevante \u00e9 que eles ajudam a compreender de que forma essas inst\u00e2ncias se formaram na sociedade brasileira, por exemplo, a pr\u00f3pria sa\u00fade p\u00fablica, a rela\u00e7\u00e3o das pessoas com o corpo, e o aparato do Estado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s assist\u00eancias nessa \u00e1rea. Quando entendemos a forma\u00e7\u00e3o da sociedade e desses sistemas, entendemos os pr\u00f3prios desafios atuais. Porque os desafios atuais n\u00e3o se iniciaram na v\u00e9spera: s\u00e3o processos long\u00ednquos que levaram a esse mundo em que estamos vivendo. Ent\u00e3o essa forma de compreender esses processos nos ajuda a compreender no presente muitos elementos de longa dura\u00e7\u00e3o, como, por exemplo, o pr\u00f3prio racismo. \u00c9 um tema que se tem discutido muito na sociedade, e n\u00e3o \u00e9 algo que come\u00e7ou ontem. Do mesmo modo, o fato de que no Brasil as principais medidas de sa\u00fade p\u00fablica foram sendo tomadas pelo Estado \u00e9 um fato que est\u00e1 inscrito na hist\u00f3ria do pa\u00eds. Ent\u00e3o, estudar a hist\u00f3ria da forma\u00e7\u00e3o do Estado brasileiro \u00e9 tamb\u00e9m estudar a forma\u00e7\u00e3o da sa\u00fade p\u00fablica. Desta forma, a hist\u00f3ria \u00e9 um elemento essencial do presente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; No contexto do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o, como voc\u00ea incentiva e apoia a participa\u00e7\u00e3o das mulheres na pesquisa em hist\u00f3ria das ci\u00eancias e \u00e1reas relacionadas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LK &#8211;<\/strong> A \u00e1rea de hist\u00f3ria \u00e9 uma \u00e1rea bastante feminina. Temos uma propor\u00e7\u00e3o de mulheres em rela\u00e7\u00e3o a homens bastante grande, mesmo na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. O que acontece \u00e9 que os pr\u00f3prios alunos em geral sugerem temas que tentam compreender a atua\u00e7\u00e3o de mulheres ao longo das do tempo nas ci\u00eancias e na sa\u00fade, analisando a atua\u00e7\u00e3o das mulheres m\u00e9dicas e das mulheres cientistas. Ent\u00e3o \u00e9 um tema que vem de uma demanda dos pr\u00f3prios alunos, n\u00e3o apenas uma abertura da nossa tem\u00e1tica. E n\u00f3s acompanhamos essa demanda social por uma hist\u00f3ria que valorize essa ag\u00eancia feminina e valorizamos a ag\u00eancia de nossas alunas e das nossas professoras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"incluir-o-ponto-de-vista-feminino-significa-primeiro-incluir-o-ponto-de-vista-de-metade-da-populacao\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cIncluir o ponto de vista feminino significa primeiro incluir o ponto de vista de metade da popula\u00e7\u00e3o.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Como mulher atuante na academia, quais desafios voc\u00ea identifica para as mulheres que buscam carreiras na pesquisa em hist\u00f3ria das ci\u00eancias, e quais conselhos voc\u00ea daria a mulheres jovens que est\u00e3o interessadas nesse campo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LK &#8211;<\/strong> Apesar de ter dito anteriormente que nossa \u00e1rea \u00e9 bastante feminina, ainda vemos uma diferen\u00e7a interessante entre a quantidade de mulheres que entram para fazer Hist\u00f3ria e a quantidade de profissionais mulheres que s\u00e3o bem-sucedidas, digamos assim, que est\u00e3o no auge de sua carreira. Acredito que isso aconte\u00e7a tamb\u00e9m em outras \u00e1reas. Ent\u00e3o temos que refletir um pouco a respeito disso, de que tipo de mulheres profissionais altamente qualificadas estamos colocando e barrando no mercado de trabalho e no meio acad\u00eamico \u2013 e quais s\u00e3o essas barreiras. Uma coisa que entendo que possa ajudar as mulheres a compreenderem que elas podem e devem ter esse papel altamente qualificado \u00e9 elas falarem de temas que s\u00e3o considerados masculinos ou universais. Porque normalmente os homens se dedicam a temas que s\u00e3o considerados \u201cuniversais\u201d, ou seja, que dizem respeito a todos, enquanto as mulheres muitas vezes ficam relegadas a estudar temas que dizem mais respeito a um universo tido como \u201cfeminino\u201d ou fundamentalmente sobre a hist\u00f3ria das mulheres. Ent\u00e3o acredito que talvez um dos desafios seja que as mulheres abracem tem\u00e1ticas mais universais, no sentido que interessem a sociedade como um todo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; A diversidade \u00e9 crucial para o avan\u00e7o da ci\u00eancia. Como a inclus\u00e3o de diferentes perspectivas, incluindo a presen\u00e7a de mulheres, afeta a qualidade e amplitude das pesquisas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LK &#8211;<\/strong> A ci\u00eancia \u00e9 sempre coletiva. Ent\u00e3o o ponto de vista das mulheres \u00e9 o ponto de vista de um dos agentes da constru\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias. Nos dias de hoje \u00e9 muito interessante chamarmos aten\u00e7\u00e3o para essa import\u00e2ncia de se ouvir as mulheres \u2013 at\u00e9 porque o mundo j\u00e1 \u00e9 um mundo masculino dominado por essa presen\u00e7a masculina, como se os homens fossem os \u00fanicos agentes. E sabemos que n\u00e3o s\u00e3o. Ent\u00e3o, incluir o ponto de vista feminino significa primeiro incluir o ponto de vista de metade da popula\u00e7\u00e3o e segundo de pessoas que sempre foram consideradas como secund\u00e1rias ou subalternas. E n\u00e3o s\u00f3 as mulheres, mas tamb\u00e9m os negros, as popula\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias, e tantos outros. Precisamos dessa diversidade. Precisamos de uma vis\u00e3o que ajude a romper essa arrog\u00e2ncia de quem sempre dominou esse campo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"olhar-para-a-ciencia-nao-como-algo-exterior-a-voce-mas-como-algo-que-te-pertence-tambem\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cOlhar para a ci\u00eancia n\u00e3o como algo exterior a voc\u00ea, mas como algo que te pertence tamb\u00e9m.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; No contexto da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, qual \u00e9 o papel da hist\u00f3ria das ci\u00eancias em comunicar efetivamente a import\u00e2ncia da pesquisa cient\u00edfica para o p\u00fablico em geral?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LK &#8211;<\/strong> Acho muito importante que a popula\u00e7\u00e3o tenha mais contato com a hist\u00f3ria geral e com a hist\u00f3ria da ci\u00eancia. Porque a ci\u00eancia \u00e9 sempre uma a\u00e7\u00e3o coletiva e quando a popula\u00e7\u00e3o entende de que forma as teorias e pr\u00e1ticas cient\u00edficas se efetivam, ela entende seu pr\u00f3prio papel nessa cadeia de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento. Ent\u00e3o \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201cdesaliena\u00e7\u00e3o\u201d no sentido de come\u00e7ar a olhar para a ci\u00eancia n\u00e3o como algo exterior a voc\u00ea, mas como algo que te pertence tamb\u00e9m.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Confira entrevista com a historiadora Lorelai Kury, pesquisadora e professora da Fiocruz&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":5796,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2,864],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5795"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=5795"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5795\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5798,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/5795\/revisions\/5798"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/5796"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=5795"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=5795"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=5795"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}