{"id":6010,"date":"2024-05-23T07:30:04","date_gmt":"2024-05-23T07:30:04","guid":{"rendered":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=6010"},"modified":"2025-11-25T11:40:36","modified_gmt":"2025-11-25T11:40:36","slug":"precisamos-de-uma-abordagem-que-enfrente-tambem-as-hierarquias-de-conhecimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/?p=6010","title":{"rendered":"\u201cPrecisamos de uma abordagem que enfrente tamb\u00e9m as hierarquias de conhecimento\u201d"},"content":{"rendered":"<h4 id=\"confira-entrevista-com-suzane-de-alencar-vieira-professora-do-programa-de-pos-graduacao-em-antropologia-social-da-universidade-federal-de-goias\"><span style=\"color: #808080;\">Confira entrevista com Suzane de Alencar Vieira, professora do programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia Social da Universidade Federal de Goi\u00e1s <\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Com um olhar agu\u00e7ado para as complexas intera\u00e7\u00f5es entre humanos e outras esp\u00e9cies, Suzane de Alencar Vieira dedica-se \u00e0s etnografias multiesp\u00e9cies e \u00e0 an\u00e1lise das controv\u00e9rsias tecnocient\u00edficas. Professora do programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia Social da <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/ufg.br\/\">Universidade Federal de Goi\u00e1s (UFG)<\/a><\/strong><\/span> e coordenadora do n\u00facleo de pesquisa <span style=\"color: #800000;\"><strong><a style=\"color: #800000;\" href=\"https:\/\/caroa.fcs.ufg.br\/\">Coletivo de Antropologia das Resist\u00eancias e Ontologias Ambientais (CARO\u00c1)<\/a><\/strong><\/span>, sua trajet\u00f3ria acad\u00eamica \u00e9 marcada por um compromisso com a justi\u00e7a social e ambiental, como evidenciado por suas investiga\u00e7\u00f5es sobre os conflitos ambientais e o movimento ambiental antinuclear, particularmente no contexto das comunidades camponesas e quilombolas de Caetit\u00e9, na Bahia. \u201cA antropologia mant\u00e9m uma janela aberta para outro mundo poss\u00edvel, para outras maneiras de viver em sociedade\u201d, pontua. Autora de v\u00e1rios livros e artigos, Suzane Vieira publicou as obras \u201c<\/em>C\u00e9sio-137, drama azul: irradia\u00e7\u00e3o em narrativas<em>\u201d (editora C\u00e2none), em 2014, na qual disseca o tr\u00e1gico acidente radiol\u00f3gico com o C\u00e9sio-137 ocorrido em Goi\u00e2nia em 1987, e \u201c<\/em>Entre risos e Perigos: artes da resist\u00eancia e ecologia quilombola no Alto Sert\u00e3o da Bahia<em>\u201d (7letras), no ano passado, sobre a resist\u00eancia do Quilombo de Malhada \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o de parque e\u00f3lico. Desta forma, a pesquisadora d\u00e1 voz e resist\u00eancia \u00e0s comunidades afetadas por tais desastres. \u201cEstamos atentas aos movimentos de resist\u00eancias que deslocam a demarca\u00e7\u00e3o entre sociedade e meio ambiente\/natureza e tra\u00e7am alinhamentos sociais, pol\u00edticos, \u00e9ticos e ecol\u00f3gicos\u201d, afirma. Como m\u00e3e, pesquisadora e professora, Suzane equilibra suas m\u00faltiplas facetas, trazendo uma perspectiva \u00fanica e sens\u00edvel \u00e0s suas investiga\u00e7\u00f5es. \u201cAs mulheres na ci\u00eancia e, entre elas, as m\u00e3es, v\u00eam corporificando e localizando as pr\u00e1ticas de conhecimento cient\u00edfico, expondo desigualdades de g\u00eanero e de ra\u00e7a nas condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento e em v\u00e1rios n\u00edveis ou momentos da carreira de pesquisador\/a: da pesquisa de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica at\u00e9 as bolsas de produtividade\u201d, conclui.<\/em><\/p>\n<p><em>Confira a entrevista completa!<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ci\u00eancia &amp; Cultura &#8211; Coordenando o n\u00facleo de pesquisa CARO\u00c1, que se dedica \u00e0 Antropologia das Resist\u00eancias e Ontologias Ambientais, quais s\u00e3o os principais objetivos do coletivo e como ele contribui para a compreens\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre sociedade, meio ambiente e resist\u00eancias locais?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Suzane de Alencar Vieira &#8211; <\/strong>O n\u00facleo de pesquisa <strong><a href=\"https:\/\/caroa.fcs.ufg.br\/\"><span style=\"color: #800000;\">CARO\u00c1<\/span><\/a><\/strong> busca criar um posicionamento \u00e9tico-pol\u00edtico e acad\u00eamico no \u00e2mbito da antropologia diante de discuss\u00f5es mais recentes sobre crise ecol\u00f3gica e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Ele nasce em 2019 da inten\u00e7\u00e3o de duas antrop\u00f3logas, eu e Indira Caballero, que coordena comigo o n\u00facleo, de reativar a etnografia como mediadora de \u00e9ticas ecol\u00f3gicas e conhecimentos tradicionais ambientais para liberar outras linhas de cria\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, pol\u00edtica e ecol\u00f3gica diante da crise clim\u00e1tica. Essa caminhada te\u00f3rico-metodol\u00f3gica envolve tamb\u00e9m uma rede de antrop\u00f3logas\/os de diferentes institui\u00e7\u00f5es do Brasil, do M\u00e9xico, do Peru e da Col\u00f4mbia. O CARO\u00c1 organiza em uma proposta esse desejo coletivo de uma antropologia que se engaje com outras formas de compor com mundos humanos e mais-que-humanos sem se desvincular das lutas prementes de resist\u00eancia dos povos tradicionais. Estamos atentas aos movimentos de resist\u00eancias que deslocam a demarca\u00e7\u00e3o entre sociedade e meio ambiente\/natureza e tra\u00e7am alinhamentos sociais, pol\u00edticos, \u00e9ticos e ecol\u00f3gicos que divergem da ontologia da natureza un\u00edvoca, da biontologia ocidental, da fantasia capital\u00edstica de um mundo totalmente dispon\u00edvel como recurso natural. Visamos criar abordagens etnogr\u00e1ficas mais perme\u00e1veis aos efeitos de conhecimentos tradicionais ambientais e a alian\u00e7as com povos ind\u00edgenas, quilombolas e camponeses que resistem hist\u00f3rica e continuamente as cat\u00e1strofes e projetos de desenvolvimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"o-que-chamamos-como-conhecimentos-tradicionais-ambientais-por-falta-de-uma-palavra-melhor-aponta-para-o-futuro-para-a-renovacao-etica-das-relacoes-com-o-meio-ambiente-de\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cO que chamamos como \u2018conhecimentos tradicionais ambientais\u2019, por falta de uma palavra melhor, aponta para o futuro, para a renova\u00e7\u00e3o \u00e9tica das rela\u00e7\u00f5es com o meio ambiente de que precisamos para enfrentar a cat\u00e1strofe clim\u00e1tica por vir.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; <\/strong><strong>Sua pesquisa inclui a antropologia das popula\u00e7\u00f5es afro-brasileiras. Como essas abordagens contribuem para ampliar a compreens\u00e3o das din\u00e2micas culturais e sociais presentes nessas comunidades?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SAV &#8211;<\/strong> H\u00e1 cerca de 13 anos acompanho as lutas de resist\u00eancia das comunidades rurais quilombolas no munic\u00edpio de Caetit\u00e9, no Alto Sert\u00e3o da Bahia, uma regi\u00e3o do semi\u00e1rido e afetada pelas consequ\u00eancias da extra\u00e7\u00e3o mineral, por per\u00edodos prolongados de seca e por uma intensa crise h\u00eddrica. Esse tempo corresponde \u00e0 dura\u00e7\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o de conhecimento, de aprendizagem, de confian\u00e7a, alian\u00e7a e amizade que come\u00e7ou com a pesquisa de campo em 2011 e se estende, se diversifica e se transforma at\u00e9 hoje. Tudo isso n\u00e3o cabe na designa\u00e7\u00e3o de \u201cpesquisa antropol\u00f3gica de longa dura\u00e7\u00e3o\u201d. Passamos uma boa parte das nossas vidas envolvidas nessa rela\u00e7\u00e3o para aprender com agricultores e agricultoras ind\u00edgenas e quilombolas e buscar transmitir a intensidade desse conhecimento e seus efeitos \u00e9ticos, pol\u00edticos e epistemol\u00f3gicos sobre nossas formas de pensar o meio ambiente e a emerg\u00eancia ecol\u00f3gica hoje. Ao longo desses anos, por exemplo, minhas amigas e meus amigos do Quilombo de Malhada me ensinaram sobre a pr\u00e1tica delicada e atenta da agricultura que passa por circuitos de cuidado e aten\u00e7\u00e3o multiesp\u00e9cie nos quais as a\u00e7\u00f5es humanas n\u00e3o s\u00e3o as \u00fanicas a\u00e7\u00f5es \u201cprodutivas\u201d. Todo um arranjo multiesp\u00e9cie age, coopera, coproduz a ro\u00e7a de milho e de mandioca. H\u00e1 muito mais a se considerar na agricultura como, por exemplo, a an\u00e1lise da for\u00e7a, a vontade ou a natureza da planta, os sinais de chuva, da terra, dos ventos, do astro do tempo, da lua, sinais dos p\u00e1ssaros, os afetos das pessoas, rastros dos animais do mato, etc. Plantar, por exemplo, aparece como uma a\u00e7\u00e3o de composi\u00e7\u00e3o com arranjos vivos complexos. O que se apreende como din\u00e2micas culturais ou sociais se apresenta aqui em outro arranjo de seres que desloca o pressuposto antropoc\u00eantrico de uma rela\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica entre humanos e n\u00e3o humanos, rela\u00e7\u00f5es sociais e rela\u00e7\u00f5es multiesp\u00e9cies. Minha pesquisa visa fazer com que toda essa complexidade seja reconhecida como conhecimentos e tecnologias ambientais quilombolas e seja valorizada essa singularidade no modo de lidar com o meio ambiente que \u00e9 muito mais sustent\u00e1vel do que as formas extrativistas da minera\u00e7\u00e3o de ur\u00e2nio e de ferro e dos parques e\u00f3licos ao redor dessas comunidades. Essa poderia ser talvez uma pequena contribui\u00e7\u00e3o ou um apelo para que essa outra \u00e9tica ecol\u00f3gica possa contar para uma gest\u00e3o n\u00e3o extrativista do destino comum, para a constru\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a social, racial e ambiental nos planos de desenvolvimento do sert\u00e3o da Bahia e do pa\u00eds.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; <\/strong><strong>No contexto da ecologia pol\u00edtica, como suas pesquisas abordam as quest\u00f5es ambientais contempor\u00e2neas e os desafios enfrentados pelas comunidades locais, especialmente no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SAV &#8211;<\/strong> Al\u00e9m de abordar os perigos dos impactos ambientais de projetos de extra\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e mineral que espreitam as comunidades, ressaltei a for\u00e7a e a riqueza de seu modo de viver. Suas a\u00e7\u00f5es cotidianas de resist\u00eancia rompem com consenso pol\u00edtico e acad\u00eamico em torno das no\u00e7\u00f5es de \u201cnatureza\u201d, \u201criqueza\u201d, \u201cprodu\u00e7\u00e3o\u201d, \u201ccria\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cprote\u00e7\u00e3o\u201d ecol\u00f3gica. Esse modo de recriar localmente as possibilidades de viver e resistir exige de n\u00f3s uma renova\u00e7\u00e3o da linguagem conceitual da ecologia pol\u00edtica. Estamos lidando com cen\u00e1rios de destrui\u00e7\u00e3o ambiental e tamb\u00e9m com saberes e \u00e9ticas ecol\u00f3gicas dissidentes continuamente sufocados e desqualificados por pr\u00e1ticas de desenvolvimento e pr\u00e1ticas de conhecimento. Precisamos de uma abordagem que enfrente tamb\u00e9m as hierarquias de conhecimento. Acredito que, no Brasil, uma quest\u00e3o crucial para a ecologia pol\u00edtica \u00e9 pensar a rela\u00e7\u00e3o extrativista com o meio ambiente, presente tanto nas pol\u00edticas de desenvolvimento quanto nas pol\u00edticas de conhecimento. H\u00e1 um pacto pol\u00edtico, epistemol\u00f3gico e ontol\u00f3gico que subsidia essas rela\u00e7\u00f5es extrativistas. Quem tem o poder de definir que as rochas subterr\u00e2neas s\u00e3o forma\u00e7\u00f5es minerais n\u00e3o vivas ou inertes dispon\u00edveis como recurso natural tamb\u00e9m colabora para autorizar rela\u00e7\u00f5es extrativistas com o meio ambiente. Precisamos de nos atentar a outras formas de descrever mundos vivos e \u00e0s obje\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e epistemol\u00f3gicas dos povos tradicionais ao capitalismo extrativista. Que pol\u00edticas de conhecimentos extrativistas precisamos deslocar para que os encantados, por exemplo, sejam levados a s\u00e9rio como obje\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas \u00e0s pr\u00e1ticas de extra\u00e7\u00e3o e apropria\u00e7\u00e3o de rios, lagos e serras? O que chamamos como \u201cconhecimentos tradicionais ambientais\u201d, por falta de uma palavra melhor, aponta para o futuro, para a renova\u00e7\u00e3o \u00e9tica das rela\u00e7\u00f5es com o meio ambiente de que precisamos para enfrentar a cat\u00e1strofe clim\u00e1tica por vir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"as-politicas-de-inclusao-na-universidade-provocam-um-abalo-nas-estruturas-coloniais-raciais-e-patriarcais-do-conhecimento\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cAs pol\u00edticas de inclus\u00e3o na universidade provocam um abalo nas estruturas coloniais, raciais e patriarcais do conhecimento.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; <\/strong><strong>A diversidade \u00e9 crucial para o avan\u00e7o da ci\u00eancia. Como a inclus\u00e3o de diferentes perspectivas, incluindo a presen\u00e7a de mulheres, afeta a qualidade e amplitude das pesquisas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SAV &#8211;<\/strong> As pol\u00edticas de inclus\u00e3o na universidade provocam um abalo nas estruturas coloniais, raciais e patriarcais do conhecimento. Especialmente, no plano da produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e da pesquisa cient\u00edfica que \u00e9 estruturante de desigualdades sociais, culturais e pol\u00edticas. \u00c9 um acontecimento na hist\u00f3ria das universidades que n\u00e3o foram feitas para a diversidade, para mulheres, negros, ind\u00edgenas, trans, pessoas com defici\u00eancia. Esse encontro com as diferen\u00e7as \u00e9 muito potente e tamb\u00e9m exp\u00f5e contradi\u00e7\u00f5es, viol\u00eancias, sujei\u00e7\u00f5es desse ambiente acad\u00eamico universit\u00e1rio. Os efeitos dessa transforma\u00e7\u00e3o podem ressoar tamb\u00e9m, a meu ver, na diversifica\u00e7\u00e3o de agendas de pesquisas, em novos controles \u00e9ticos, novas formas de envolvimento com demandas de grupos minorit\u00e1rios e com quest\u00f5es decisivas da vida social como a justi\u00e7a social, racial e ambiental. Concordo com voc\u00ea que esse \u00e9 um ganho de qualidade e de amplitude das pesquisas. As mulheres na ci\u00eancia e, entre elas, as m\u00e3es v\u00eam corporificando e localizando as pr\u00e1ticas de conhecimento cient\u00edfico, expondo desigualdades de g\u00eanero e de ra\u00e7a nas condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento e em v\u00e1rios n\u00edveis ou momentos da carreira de pesquisador\/a: da pesquisa de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica at\u00e9 as bolsas de produtividade. \u00c9 um movimento importante que faz desacelerar a corrida do produtivismo acad\u00eamico, essa economia de conhecimento que beneficiou, ao longo de s\u00e9culos, os homens brancos e, principalmente faz importarem tamb\u00e9m as rela\u00e7\u00f5es que estruturam a pr\u00e1tica da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Como mulher na ci\u00eancia, voc\u00ea poderia compartilhar suas experi\u00eancias e desafios no campo da antropologia, e como v\u00ea o papel das mulheres nesse campo de estudo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SAV &#8211;<\/strong> Penso que o papel das mulheres nesse processo de transforma\u00e7\u00e3o da universidade e das pol\u00edticas de conhecimento \u00e9 aquele enunciado pelas fil\u00f3sofas Isabelle Stengers e Vinciane Despret como \u201ccriadoras de caso\u201d, aquelas que rompem com consensos estabelecidos e maiorias morais universit\u00e1rias e enunciam obje\u00e7\u00f5es aos modos atuais de produzir conhecimento. Precisamos continuar \u201ccriando caso\u201d para fazer importar outras coisas relevantes como, por exemplo, a experi\u00eancia da maternagem. Isso muda radicalmente nosso posicionamento no mundo acad\u00eamico. No caso da antropologia, fazer pesquisa de campo com um filho pequeno \u00e9 bem desafiador. Muitas de n\u00f3s interrompemos por muitos anos a pesquisa de campo ou mudamos de tema. A maternagem nos atinge no cora\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de conhecimento e isso precisa ser problematizado na antropologia. N\u00f3s m\u00e3es nunca estamos sozinhas. \u00c9 como se tiv\u00e9ssemos uma buzina ligada quase 24h por dia e n\u00e3o podemos agir como se nada estivesse acontecendo. Preparo aulas, argui\u00e7\u00f5es, orienta\u00e7\u00f5es, coordeno o programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em antropologia social, escrevo, inclusive, essas linhas aqui na companhia do meu filho de quatro anos. E cada linha escrita de um e-mail ou de um artigo \u00e9 entrecortada por v\u00e1rias interrup\u00e7\u00f5es, chamados, demandas de cuidados. O projeto do CARO\u00c1 foi originalmente escrito enquanto o amamentava. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, para n\u00f3s, separarmos esses momentos de produ\u00e7\u00e3o de gente e de palavras, cria\u00e7\u00e3o de pessoas e de conhecimento. \u00c9 outra condi\u00e7\u00e3o de trabalho que \u00e9 extremamente cansativa. \u00c9 preciso \u201ccriar caso\u201d mesmo n\u00e3o s\u00f3 para visibilizar essas dificuldades, mas tamb\u00e9m para transformar as rela\u00e7\u00f5es, experimentar forma\u00e7\u00f5es mais coletivas para a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, pensar em redes de apoio e colabora\u00e7\u00e3o institucionais para todas essas tarefas produtivas. Al\u00e9m dessa experi\u00eancia da maternidade, tamb\u00e9m trago a experi\u00eancia de atuar em uma universidade perif\u00e9rica onde pesam mais sobre n\u00f3s docentes as fun\u00e7\u00f5es administrativas e as exig\u00eancias de efici\u00eancia e de controle dos mecanismos de avalia\u00e7\u00e3o da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o para manter a notinha suada do programa. Pesquisar por aqui n\u00e3o \u00e9 uma atividade corriqueira, \u00e9 uma pr\u00e1tica de resist\u00eancia a essas press\u00f5es e esses encargos. E, ao mesmo tempo, em que estamos na periferia das pol\u00edticas de conhecimento universit\u00e1rio, n\u00f3s docentes de universidades n\u00e3o hegem\u00f4nicas estamos no meio do cerrado, da caatinga, da floresta onde se desenrola o drama do desenvolvimento do pa\u00eds. As universidades da regi\u00e3o Sudeste foram historicamente autorizadas a falar dos projetos de na\u00e7\u00e3o e a pensar as quest\u00f5es pol\u00edticas do momento, como, por exemplo, a crise clim\u00e1tica global. Acredito que resistimos tamb\u00e9m quando buscamos mudar um pouco isso, quando conectamos esse debate com as lutas de resist\u00eancia locais e buscamos alinhamentos acad\u00eamicos e universit\u00e1rios n\u00e3o hegem\u00f4nicos. Considero um s\u00e9rio problema de democracia quando a discuss\u00e3o sobre mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u00e9 monopolizada pelas ci\u00eancias da natureza, por pesquisadores homens brancos euramericanos e, no Brasil, por pesquisadores do Sudeste. Se queremos uma renova\u00e7\u00e3o \u00e9tica e ecol\u00f3gica para enfrentar a crise clim\u00e1tica, precisamos inverter tamb\u00e9m todos esses vetores colonialistas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 id=\"considero-um-serio-problema-de-democracia-quando-a-discussao-sobre-mudanca-climatica-e-monopolizada-pelas-ciencias-da-natureza-por-pesquisadores-homens-brancos-euramericanos-e-no-brasil-po\" style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #800000;\"><em>\u201cConsidero um s\u00e9rio problema de democracia quando a discuss\u00e3o sobre mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u00e9 monopolizada pelas ci\u00eancias da natureza, por pesquisadores homens brancos euramericanos e, no Brasil, por pesquisadores do Sudeste.\u201d<\/em><\/span><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; Como suas pesquisas e o trabalho no CARO\u00c1 se relacionam com as comunidades locais, e de que maneira voc\u00ea busca impactar positivamente essas comunidades por meio do conhecimento gerado pela pesquisa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SAV &#8211; <\/strong>Venho pensando sobre o lugar da antropologia na discuss\u00e3o sobre as crises clim\u00e1tica e ecol\u00f3gica e meu caminho por essas quest\u00f5es se faz pela via da etnografia e de tudo o que aprendi com Teresa, Joaquim, Odetina, Maria de Bezim, Silvano e tantos outros s\u00e1bios quilombolas da comunidade de Malhada. Minha sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 que devo muito mais a elas e a eles por descortinarem para mim novas perspectivas de problematiza\u00e7\u00e3o de quest\u00f5es ambientais, pol\u00edticas e sociais. Mas o livro que escrevi e foi publicado no ano passado \u201c<em>Entre risos e Perigos: artes da resist\u00eancia e ecologia quilombola no Alto Sert\u00e3o da Bahia<\/em>\u201d (7letras, 2023) vem produzindo alguns efeitos locais importantes. A hist\u00f3ria de resist\u00eancia do Quilombo de Malhada \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o de parque e\u00f3lico ficou conhecida, inclusive, Teresa e Joaquim hoje s\u00e3o convidados para ministrar forma\u00e7\u00e3o a outras comunidades tamb\u00e9m sob o escopo desse tipo de empreendimento que pinta para si uma imagem pretensamente benevolente e sustent\u00e1vel. O livro atua localmente na organiza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria e do legado ecol\u00f3gico das comunidades, da complexidade de suas pr\u00e1ticas e pensamentos ecol\u00f3gicos. O livro pode ser tornar um aliado da prote\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio tradicional quilombola no cen\u00e1rio preocupante em que o processo de titula\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio da comunidade de Malhada desapareceu das depend\u00eancias e dos sistemas do \u00f3rg\u00e3o estadual respons\u00e1vel pela titula\u00e7\u00e3o justamente no momento em que os projetos de parques e\u00f3licos e de explora\u00e7\u00e3o mineral se expandem na regi\u00e3o tamb\u00e9m conhecida como Sert\u00e3o Produtivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>C&amp;C &#8211; No cen\u00e1rio atual, com crescentes preocupa\u00e7\u00f5es ambientais, como voc\u00ea v\u00ea o papel da antropologia na constru\u00e7\u00e3o de di\u00e1logos entre diferentes saberes, incluindo os conhecimentos tradicionais e cient\u00edficos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SAV &#8211;<\/strong> Penso que a antropologia pode ser uma via para encontrar um novo caminho narrativo para a crise clim\u00e1tica que descreva as viol\u00eancias coloniais, raciais, assim como as altera\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas e cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas do modo como s\u00e3o reconhecidas e problematizadas pelas comunidades tradicionais. A antropologia mant\u00e9m uma janela aberta para outro mundo poss\u00edvel, para outras maneiras de viver em sociedade, para mudan\u00e7as pol\u00edticas e epistemol\u00f3gicas na gest\u00e3o do destino comum. Nesse sentido, a antropologia pode se oferecer como um meio ou media\u00e7\u00e3o para provocar uma perturba\u00e7\u00e3o na nossa sensibilidade ecol\u00f3gica, transmitindo as intensidades desses conhecimentos tradicionais ambientais. Acredito que a antropologia pode atuar para visibilizar e problematizar hierarquias e desigualdades sociais, raciais, econ\u00f4micas e pol\u00edticas, e tamb\u00e9m a hierarquia de saberes ordenada pelas ci\u00eancias modernas que impede o pleno reconhecimento de pr\u00e1ticas de conhecimentos e pensamento \u00e9ticos ecol\u00f3gicos dos povos tradicionais e outros coletivos que vivenciam, no seu dia a dia e em seus territ\u00f3rios, a destrui\u00e7\u00e3o e a viol\u00eancia dos projetos de desenvolvimento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Confira entrevista com Suzane de Alencar Vieira, professora do programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o&hellip;\n","protected":false},"author":19,"featured_media":6011,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1,2,864],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6010"}],"collection":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6010"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6010\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6013,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6010\/revisions\/6013"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/6011"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6010"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6010"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/revistacienciaecultura.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6010"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}